“A arte da adaptação fílmica consiste, em parte, na escolha de quais convenções de gênero são transponíveis para o novo meio, e quais precisam ser descartadas, suplementadas, transcodificadas ou substituídas”. (Robert Stam em A LITERATURA ATRAVÉS DO CINEMA. Realismo, magia e a arte da adaptação. Belo Horizonte: UFMG, 2008)

Há muuuuuuito tempo atrás nasceu uma criança cheia de saúde e dotada de vida. Herodes que era o Rei daquela província ficou hiper preocupado com os relatos do nascimento do menino do sorriso de ouro e atiçou seu desconfiômetro ao ouvir as notícias mais estranhas sobre o guri do rebuliço de Belém. Esse episódio nos remete ao filme “O Dia em que a Terra parou” no qual mostra o momento em que alienígenas pousam numa cidade excitando uma muvuca geral. O exército e a aeronáutica se mobilizaram para recepcionar aqueles seres incógnitos e talvez, perigosos. Numa tomada súbita, a câmera mostra o movimento de aproximação afetiva simultânea entre uma mulher e um alienígena, entretanto, no momento exato em que ambos iam estender as mãos, um dos policiais se precipita e atira naquele ser desconhecido. Nós tememos o outro desconhecido, e agimos por extinto defensivo em situações arriscadas. Herodes fez o mesmo, e tentou matar aquele menino que veio de outro mundo, chamado príncipe da paz. Ele pensou: “Se nenenzinho ele já é chamado de príncipe da Paz, quando ele virar adulto vai mandar e desmandar e ainda adestrará a mim e os meus. Espada nele já!
Quando ele completou 12 anos, ele foi levado ao templo de Jerusalém. Os pais (Maria e José) eram crias da catequese e da teologia confessionalíssima e ouviam com ingênua passividade aquelas maquiagens retóricas emitidas pelas bocas da máfia sacerdotálica. Jesus Cristinho era novinho, mas não era bobo nenhum pouquinho, porque nas horas vagas entre a carpintaria, a escola e os joguinhos manuais do “kamasutra kid”, ele lia Nietzsche - versão infantil adaptada com aforismos em quadrinhos. Aí já viu né, foi só ele se aproximar dos portões sagrados que ele foi possuído pelos extintos mais primitivos de ferocidade retórica diante dos sacerdotes e vendedores, bem como foi tomado por grande ternura ao ver aquelas pessoas inocentes doando tudo, o que tinham para pagar oferendas caríssimas para engodar prazeres ilícitos e ocultos daquela gangue de salteadores da fé humana demasiada humana.
Quando ele completou 23 anos, José falou: “Meu filho, ta na hora de vazar e se batizar porque senão, você vai virar mocinha dentro da cadeia da vida. Você sabe que na nossa sociedade, se o cara não se resolver existencialmente ele vira 24 arrombado, porque quem espera que a vida seja feita de ilusões, pode até ficar maluco ou morrer na solidão, é preciso ter cuidado prá mais tarde não sofrer, é preciso saber viver. Então Jesus foi à luta atrás de emprego, mas não conseguia porque não constava o carimbo do dia de batismo. Ser batizado naquela época era como ser portador de habilidades idiomáticas hoje em dia. Não se cobrava o inglês, mas exigiam o batizês. Devido a enorme urgência, Jesus conseguiu agendar com o batizeiro João que tinha a agenda super lotada, pois a procura era intensa. Razão simples e óbvia: “nenhum” judeu filho de Deus queria levar churros no rabo, porque segundo a lei judaica, Yaveh condenava este ato “doloroso”. Alguns espíritos livres, andarilhos e apóstolos da vagabundagem, viajavam subversivamente para a Grécia, pois lá, não havia o batismo com água, mas os rituais de passagem eram através da carne e do prazer espiritual que se davam com a imponente presença da pica de Deus. Jesus escolheu a água, e por tal ato de livre escolha, foi lhe concedido a fonte de águas vivas. O espírito se manifestou em forma de pomba music que batendo as asas cantou discretamente e baixinho: “Esse aí é meu filho aquático; mas, escapou dos gregos pelo gongo”.
Após aquele ato salvador, Jesus ficou super energizado e foi expulso para o deserto para ser tentado, no entanto, quando ele chegou lá, ele encontrou o Diabo depressivo e muito down. Ambos começaram a partilhar experiências de dor e prazer e chegaram a uma conclusão cantando um hino: “Tudo vem de ti Senhor e o que é teu o damos”. E deram tudo de si, pois naqueles momentos de tenebrosidade da alma e aprisionamento do ego, nenhuma tentativa de se achegar ao divino SELF via santidade e sacralidades obsessivas\separatistas dão conta do vazio da janela da alma que clama pelo elo, pela fraternidade que fortalece, pois o poder de Deus se aperfeiçoa nas alianças em meio as fraquezas e rupturas do cotidiano. Então o Diabo levou Jesus ao cume de um edifício e disse: “Mano, ontem eu vim aqui duas vezes com a intenção de me atirar rumo ao abismo, mas uma força estranha me fez recuar. Hoje eu lhe mostrarei as glórias lá de baixo, pois a tua mão livrou minha alma (cara) do chão”. Então Jesus apontando para baixo contou a respeito da parábola do sal da terra e em seguida direcionou o movimento manual para cima e falou sobre o efeito da luz do mundo. E ambos continuaram a jornada no paraíso perigoso e duvidoso. Diz Jesus no Evangelho Gnostico de Tomas:
“Quando dois se tornam um, e quando o interior se torna exterior e o exterior interior, e o que esta acima se torna o que esta abaixo, e quando o homem e a mulher se tornam um e o mesmo... então você alcançará o reino”.

Ao retornar à “vida real”, Jesus começou a realizar muitos milagres, implementando um novo projeto estético reacionário diferente do romance sacerdotal. Primeiro, ele induziu e convenceu as pessoas adorarem a Deus em espírito e em verdade, independente do lugar onde elas estivessem. Ele democratizou e desgeografizou a liturgia corporal, fazendo com que o sistema templário perdesse grana e visitadores. Segundo, Jesus cativou todo mundo a chamar Deus de paizinho recitando o salmo “Aba Pai”. Então as pessoas começaram a raciocinar: “Se eu posso chamar Deus de forma tão íntima, relax e informal, pra quê que eu preciso viajar até o templo e ainda ter que dar ofertas para a elite sagrada e usar certas etiquetas, babaquices e formalidades”? E foi uma onda de Cristo em casa geral...ahaha...fudeu o templo. Foi um tal de fazerem reuniões em família com muita oração, mas com muita carne, cerveja, mulheres e samba judaizantes.
Daí surgiu outra possibilidade política através da criação de pequenas igrejas com rebanhos alternativos. Então os interessados procuraram Jesus e perguntaram: “Mestre! O que fazer para pastorear dignamente um rebanho? Então aquele Rabi contou a parábola do servo MM que pastoreava um lindo rebanho rodeado de batuques, no entanto, na primeira manhã de nervosismo ensolarado, ele deu a primeira chibatada em um daqueles animaizinhos humildes. Alguns dias depois, numa noite de ataque estrelado, ele deu outra bordoada e desafinou a música de outro animalzinho. Depois, perdeu a linha de vez, pois até mesmo em madrugadas silenciosas, ele batia com seu cajado cortante e flamejante em animaizinhos dorminhocos. Um belo dia, ele resolveu prender a ovelhinha dos pêlos de ouro, mas ela havia sido treinada na prova dos saltos à distância desde a fundação dos tempos. Tal ovelhinha, escutou os ruídos das algemas satânicas do “aconselhamento” e cantou: nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia (...); e pulou para uma nova dimensão, pois maior é o que está em nós (a liberdade e a dignidade) do que o que está no mundo (a inflexibilidade e a força cega)”. Então Jesus concluiu a estória comentando sobre a vazão e revolta da chibata quando o verdadeiro dono do Universo disse duramente àquele homem administrador de talentos: Servo grosso e cruel, sobre o muito te coloquei, mas pelas fugas te condenarei: senta no “gozo” do teu Senhor”. Após contar essa parábola, o mestre perguntou: Pedro! Tu me amas? Sim, disse Pepe. “Então, pastoreia e paparica em amor os meus voluntários cordeirinhos, mas cuidado! vás e não peques mais” disse o Rabi contador de histórias.
A cada ato de coragem, justiça e caridade, Jesus colocava lenha na fogueira esquentando e sacudindo os caldeirões do Templo. A ameaça cristológica era notória, por isso, Jesus foi submetido a frenéticas perseguições que visavam neutralizá-lo. Um dos alvos era Judas, pois ele era o arquivo secreto das estratégias messiânicas. Ao ser preso, Judas foi torturado e não suportou tamanha agressividade e morreu no sapatinho sem confidenciar os segredos da caixa preta do mestre Emanuel. Nesse período inter-júdico, os discípulos começaram inventar clichês e teorias proféticas sobre o Reino do Deus, então Jesus repreendeu-os nietzschianamente recitando um aforismo da tragédia: “O Reino de Deus não é nada que se espere; não possui ontem nem depois de amanhã e não virá em mil anos – o Reino de Deus é uma experiência de um coração e está em toda parte e em nenhum lugar”. (Friedrich Nietzsche)
Antes que o galo cantasse e fosse tarde demais, Jesus agendou uma ceia com os discípulos e seus respectivos familiares visando comerem e papearem exaustivamente. Então Pedro disse: “Mestre! Se for preciso, até roubaremos para ter o líquido precioso que vem de teu interior. Nossas cervejas (Urina de Cristo) serão fartas e nossa afetividade será exaltada”. Então Jesus convidou-os a assistirem o filme COMILANÇA (La Grand Bouffe, 1973) de Marco Ferreri com o ator Marcelo Mastroiani, seus conchavos e suas putas. Então Thiago e João perguntaram: Rabi, como satisfazer uma mulher durante um ato litúrgico além do uso dos vibradores pão e vinho? Então aquele mestre recitou um poema do livro A ENTREGA da ex bailarina Toni Bentley que alegou ter tido uma experiência com Deus através do sexo anal:

“Muitos homens lambem, chupam e sugam uma boceta — e nao estou reclamando. Mas é raro o homem que faz isso com toda a sua consciência colocada na língua. E esta consciência que vai emocionar uma mulher; quando a consciência dela — que esta no clitóris — encontra a dele, os orgasmos marcam um encontro. No final das contas, e ai — ou melhor, ali embaixo — que um homem aprende a ser um vencedor ou um perdedor, tanto com as mulheres quanto na vida”. (Bentley)

Enfim, após aquele ato orgiástico de pura fraternidade e louvação aos prazeres da vida, Jesus teve que encarar a dor da morte, que é fonte de dramas, interrogações, medo, angústia e revolta. Ele e os três discípulos mais chegados que irmãos foram orar no monte, mas o cansaço da noite orgiástica e a pressão da máquina mortífera fizeram com que eles dormissem sob os cuidados dos vagalumes e animais noturnos. Então, por necessitar de mais privacidade, Jesus se retirou para um local mais reservado e elevado para jogar xadrez com a morte. Enquanto jogavam aquele jogo de detalhes, ele ouviu o batuque da gangue dos samurais sacerdotais que visavam aprisioná-lo e levá-lo ao destino para além do bem e do trágico; Então, Jesus embaralhou as peças do xadrez na tentativa de postergar aquele momento inevitável chamado de “o buraco negro da alma e o encontro com a perda da própria consciência”. Então a morte disse: non non nin non non e recolocou as peças nos seus devidos lugares e recitou um frase de Ludwig Feuerbach: “A morte não é, de modo nenhum, uma brincadeira; a natureza não desempenha uma comédia, é, sim, um drama trágico, colossal e sem intervalos”. (Feuerbach).
Jesus foi preso e condenado a morte. Ao chegar à cruz ele viu dois ladrões, um do lado esquerdo e o outro do lado direito. Ambos estavam aflitos e preocupados se iriam para o céu ou para o inferno. Então, perguntaram: “Mestre! Para onde iremos nós se só tu tens as palavras de vida eterna? Então Jesus respondeu: Manos, nem eu sei de onde eu vim e para onde vou e citou uma frase do poeta russo Vladimir Nabokov: “a vida é uma grande surpresa. Não vejo, por isso, razão para que a morte não seja uma surpresa ainda maior”. E continuou: “A vida é o desejo de continuar vivendo e viva é aquela coisa que vai morrer. A vida serve é para se morrer dela (...) morrer vai ser o final de alguma coisa fulgurante; morrer será um dos mais importantes atos de minha nossa vida”. (Clarice Lispector)
Jesus foi morto pela cúpula concorrente, e em torno de sua morte, criaram o mito da ressurreição, pois uma linda história e um excelente personagem como foi Jesus de Nazaré, dá pano para manga para a realização de um bom filme com o triunfo de um super herói que vai gerar lucro financeiro e projeção imagética para quem cria o enredo via arte das torções prol teatro cristológico. Há o mito do Apocalipse profético que também gera temor e glamour dependendo do jogo de interesses. Não seria mais interessante pensar o Apocalipse de João a partir da perspectiva da ditadura no Brasil, quando os compositores, poetas e cantores escreviam certos por linhas tortas visando dizer o indizível naquele determinado contexto específico? Eu acredito, que se Cristo voltasse no dia do juízo final conforme diz o mito do “eterno retorno”, as pessoas que se recusassem a subir pelas asas das nuvens por optar sabiamente ficar no planeta, iriam ganhar muito dinheiro em cima dessa viagem ao planeta desconhecido como muitos pastores ganham dindin em torno da invenção do pecado que funcionou como forma de controle sacerdotal sobre um povo desde o século V a.C.
Eu imagino qual seria a cara de Jesus se do nada, ele acordasse (ressuscitasse) e resolvesse dar um rolé pelas igrejas para ouvir o que as pessoas dizem e fazem em nome dele. Eu acredito que se ele tivesse uma postura exigente e conservadora, ele ficaria muito chateado e mandaria geral tomar no cu, mas se ele tivesse um olhar de cineasta poliocular e experimentalista, ele simplesmente concordaria que tudo não passa de adaptações e interpretações, sendo algumas realizadas com primor e outras não. A obra de Jesus são como Notas do subterrâneo que é uma obra metadiscursiva, feita do discurso do discurso, composta de polifonias no qual cada autor torna-se orquestrador de discursos independentes e mutuamente relativizantes. Talvez, ele falaria que a narrativa original é portadora de narradores cambiantes que alteram seu discurso e idéias enquanto narram; eles mudam a olhos vistos; o narrador muda em função daquilo que acontece como fez Dostoievsky com domínio da técnica do narrador não confiável. Provavelmente, Jesus recomendaria o filme Rashomon (1951) de Kurosawa, em que a história de um crime é contada de quatro formas radicalmente diferentes embora igualmente plausíveis, constituindo num exemplo nítido de narração problemática devido as variadas perspectivas na forma de narrar.
Segundo Nietzsche em seu livro O ANTICRISTO, o cristianismo realiza uma interpretação do mundo, puramente ficcional, sem nenhum contato com a realidade, pelo contrário, tal interpretação é movida pelo ódio e pelo ressentimento desta realidade. Segundo ele, o modelo de civilização que triunfa sobre o cristianismo é um adestramento de domesticação do tipo de homem e a forma encontrada para levá-lo a cabo foi o adoecimento do animal homem. Nietzsche analisa o papel de Jesus, visto como um revolucionário anarquista que trouxe a Boa Nova na sua prática de vida, destruindo toda a distância entre Deus e o homem em contraposição ao modelo do Apóstolo Paulo que segundo Nietzsche, consegue inverter a Boa Nova de Jesus criando uma religião sacerdotal que vence Roma, modelo de civilização para homens fortes.
Paulo encontra no signo “Deus na cruz” a fórmula para a vingança e invertendo todos os ensinamentos do mestre, que ele nem mesmo conhece, criando uma nova religião do ódio aos valores aristocráticos em favor de tudo o que é baixo, fraco e impotente. A morte na cruz renovou o espírito de vingança em seus apóstolos que não conseguiram entender o motivo de tanta crueldade e precisam encontrar um culpado.
Escolheis hoje a quem sirvais: Ou aqueles que transformaram e transformam a Boa Nova na religião do ressentimento ou Jesus, aquele que, com sua vida, negou todos os valores defendidos pelo cristianismo em nome de um viver trágico, porém, humano demasiado humano. Como herege e crente comédia, escolhi servir ao realismo mágico que codifica a multiplicidade, a maleabilidade e a possibilidade de sobreposição de idéias e de tempos.

Recomendo a leitura do artigo I “Jesus e a Gangue dos Samurais: Uma heresia sexy cinematográfica”, pois Jesus e a onda de alienígenas: uma comédia de ficção herítica é o artigo II de uma série matrixiana “teológica” de Joe
http://joevancaitano.blogspot.com/2009/05/jesus-e-gangue-dos-samurais-uma-heresia.html

Joevan de Mattos Caitano
Prá Páscoa nascer feliz.

ODE AO DESAPEGO: UM “ADEUS” A COMUNIDADE DE NOEL.

Por Joevan Caitano

Em 2 de março de 2008 eu chegava na IPVI. Fui super bem recebido pelos presbíteros e outros membros. Cada domingo era uma aventura, pois eram muitos pregadores que passeavam por aquele púlpito como: Rafael e Eduardo (espécie de Bebeto e Romário que reinaram na IPVI em 2008). Depois chegou o Alessandro, e posteriormente o Clayton. Cada um tinha um estilo de pregação diferente rodeada pelo mestre da comédia reverendo Longuini Alemão.
Eu e o Edivaldo interagíamos no âmbito da música. Havia muitas muvucas, tapas e beijos entre os nossos colegas de louvor mais fominhas e exaltados, mas mesmo assim, Deus se manifestava em forma de ordem e desejos. Mas foram bons momentos. Mamãesambajazz, Ressurreisamba: o batuque pascoalino e Natal Samba Bell que foram eventos que marcaram a vida da IPVI. Também não tem como esquecer as muitas rodas de cerveja regadas a bons papos e petiscos nos arredores do bairro do samba.
Enfim, a curvatura do tempo se esticou e os movimentos musicais das cordas vibrantes da vida, foram me dizendo melodicamente, ritmicamente e harmonicamente: “Joe, teu tempo está acabando na IPVI”. Como diz o escritor bíblico de Hebreus: “horrenda a coisa é cair nas mãos de um tempo vencido”.
Hoje foi um dia histórico na minha vida, pois finalmente o Espírito Santo Cronológico apitou bem forte dizendo: “Caro Joe! Pendure as chuteiras e saia rumo a outros campos e novas torcidas antes que caiam garrafas e pedras sobre você”. E eu sabiamente obedeci ao “divino chamado” out side inspirado na minha recente visita exposição do poeta Fernando Pessoa no Centro Cultural dos Correios-Rio.
“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos”. (Fernando Pessoa)
Esse não é um momento para reflexões sobre o que foi feito ou sobre o que se deixou de fazer, porque a vida ministerial é feita de realizações extraordinárias, mas também é feita de fracassos e de coisas que deveriam ter sido feitas e deixamos fazer ou que não foi possível realizar por impossibilidades individuais ou desleixos. Não é hora de se iludir, mas é hora de partir e sorrir porque na casa de Noel, há muitas moradas. A vida é um vai e vem de uma estação, tem gente que chega pra ficar tem gente que vai porque quer voar.
Encerro esse e-mail condecorativo e informativo com minhas sinceras palavras de gratidão e fraternidade a todos os presbíteros, ao Longuini, ao Ministro de Música Edivaldo, ao atual reverendo Marcos Martins e aos demais membros dessa comunidade que durante esses 3 anos e meio me ensinaram um pouco mais sobre a amabilidade em meio as instabilidades. Sem dúvida, a IPVI me permitiu que eu conhecesse mais de mim mesmo. Desejo a vocês toda a sorte de bençãos e sucessos nesse caminho sinuoso e perigoso chamado: VIDA.

Recomendo a leitura desse poema enviado com carinho a mim pelo presbítero PW.
ODE AO DESAPEGO

As realidades maiores e mais belas tanto mais as terás quanto menos as possuíres e retiveres: Se queres ter o mar, contempla-o e abre tuas mãos em suas águas e todo estará nelas. Porque se fecha tuas mãos para retê-lo, elas ficarão vazias; Se queres ter um amigo peregrino, deixa-o ir e o terás. Porque se o reténs para possuí-lo o estás perdendo e o terás prisioneiro; Se queres ter o vento, estende teus braços e tuas mãos e todo o vento será teu. Porque se quiseres retê-lo ficaras sem brisa; Se queres ter o teu filho, deixa-o partir e que se distancie e o terás maduro a seu regresso. Porque se o deteres protegido o estas perdendo e o perde para sempre; Se queres ter o sol, contempla-o de olhos abertos. Porque se os fecha para reter a luz que já alcanças ficarás as escuras. Se queres viver o gozo de ter liberdade da mania de possuir e reter, curte a borboleta que revoa. Curte o rio que corre fugido. Curte a flor que de abre ao céu. Curte tudo sem possuir nem reter; Somente assim curtiras a vida, sabendo que a
tens sem possui-la, deixando-a correr, sem rete-la.

Um abraço carinhoso e jubiloso.
Nada à pedir, só agradecer. Não venho pedir, só lembrar e ver (...) eu quero Senhor, te agradecer.
Joeblackvan (ouvido absoluto)

Por www.joevancaitano.blogspot.com
www.myspace.com\joevancaitano

“Guarda-comida, era um armário com porta de tela fina onde se guardava a comida, pois geladeiras não havia”. (Rubem Alves)
“Meu coração vagabundo quer guardar o mundo em mim” (Caetano Veloso)


Ontem morreu seu João. Durante muitos anos, ele conduziu a cantina da Escola de Música da UFRJ. Diante de seu olhar, passaram muitos músicos elitizados e em processo de elitização, bem como alunos “simples” que se tornaram professores e administradores anos depois.
Ele era um homem moreno, manso, muito humilde e gentil. Era um gentleman. Uma de suas maiores virtudes era de ser guardião de bolsas e materiais dos alunos. A gente vinha com nossos fardos acadêmicos-“pecaminosos” e depositava sob os cuidados daquele senhor de fala mansa, pois confiávamos naquelas mãos protetoras. A gente entregava nossos pertences e recitávamos em nosso silêncio interior: “Se o Senhor (João) é meu pastor, nada me faltará. Ainda que eu desapareça da EM por longos dias, não temerei mal (sumiço) algum, pois os materiais estão contigo”.
Uma coisa interessante que eu observei durante a minha jornada estudantil foi: Os professores e colegas mais elitizados não admitem comer em lugares simples. Procuram comida a quilo ou alacarte em locais mais aconchegantes, confortáveis e glamouráveis. Freqüentam o Bar do Ernesto e outros ambientes mais caros nos arredores. Mas, esses mesmos afortunados, não perdem os antigos costumes ao se assentar naquele local simples e apertado chamado CANTINA DO SEU JOÃO e pedem um suco de laranja, comem pãozinhos de queijo, misto quente e outros quitutes. Eles sentam ali não apenas pela força do sabor da comida, mas devido a potencia afetiva do Seu João que desde os tempos de graduação, os serviu como um pai amoroso. A gente pode se tornar famoso, freqüentar o PORCÃO, BARRA BRASAS, Restaurantes franceses, árabes, japoneses e outros locais portadores de iguarias sedutoras, no entanto, a gente sente saudade e precisa da comida simples da mamãe e do timbre do papai. Quando um professor sentava naquele espaço sagrado do Seu João, era como se Deus falasse a eles na língua materna.
“Quem pensa que a comida só faz matar a fome está redondamente enganado. Comer é muito perigoso. Porque quem cozinha é parente próximo das bruxas e dos magos. Cozinhar é feitiçaria, alquimia. E comer é ser enfeitiçado. Sabia disso Babette, artista que conhecia os segredos de produzir alegria pela comida. Ela sabia que, depois de comer, as pessoas não permanecem as mesmas. Coisas mágicas acontecem. E desconfiavam disso os endurecidos moradores daquela aldeola, que tinham medo de comer do banquete que Babette lhes preparara. Achavam que ela era uma bruxa e que o banquete era um ritual de feitiçaria. No que eles estavam certos. Que era feitiçaria, era mesmo. Só que não do tipo que eles imaginavam. Achavam que Babette iria por suas almas a perder. Não iriam para o céu. De fato, a feitiçaria aconteceu: sopa de tartaruga, cailles au sarcophage, vinhos maravilhosos, o prazer amaciando os sentimentos e pensamentos, as durezas e rugas do corpo sendo alisadas pelo paladar, as máscaras caindo, os rostos endurecidos ficando bonitos pelo riso, in vino veritas... Está tudo no filme A Festa de Babette. Terminado o banquete, já na rua, eles se dão as mãos numa grande roda e cantam como crianças... Perceberam, de repente, que o céu não se encontra depois que se morre. Ele acontece em raros momentos de magia e encantamento, quando a máscara-armadura que cobre o nosso rosto cai e nos tornamos crianças de novo. Bom seria se a magia da Festa de Babette pudesse ser repetida”. (RUBEM ALVES)
Um dia eu brinquei com os colegas ao dizer que Dom Pedro manuseou aquela máquina calculadora da cantina. Foi aquele barulho rasgado e endinheirado que impulsionou os primeiros compositores da EM nos tempos de outrora. A cantina do Seu João é econiana, pois é um exemplo de engrenagem rudimentar que sobrevive jubilosamente a força inovativa tecnológica. Como dizia Umberto Eco: “Eletrônicos duram dez anos, livros duram cinco séculos”. Seu João foi um exemplo de ancestralidade culinárica-afetiva, pois atuou como receptor informativo e psicólogo dos amigos através de seu sorriso tímido e discreto, bem como através de sua escuta benevolente e complacente em meio ao mal estar da civilização.

Outra coisa que eu observei foi que aquele espaço condensado, sempre foi condição de possibilidades para conversas empolgantes e flamejantes. Como dizia Alfred Whitehead, “as idéias não são para guardar; alguma coisa tem que ser feito com elas”. Durante muitos anos, seu João ouviu tudo, porque quem ouve mal, sempre ouve algo a mais ressaltou Nietzsche. Seu João aderiu ao ministério da escuta; fez isso com maestria porque sabia que no muito falar há desgaste, por isso, é necessário guardar silêncio. Seu João foi um exemplo de cidadania e civilidade, pois soube como ninguém preservar a imagem e as mazelas de cada estudante, professor e funcionário. Imagino eu o caos que ele provocaria se porventura, ele resolvesse abrir as comportas do céu, revelando os segredos alheios mais estranhos contidos dentro de sua caixa preta. Seu João viveu no sapatinho e morreu no sapatinho. Quem sabe os deuses e os anjos poderão ver os dedos do pé calejados de tanto lutar contra a tentação do salto alto e o chulé da maledicência.
Acredito que Deus tomou para si o Seu João, pois ficou temeroso, caso ele fosse acometido de uma doença degenerativa que o impulsionasse a dizer o indizível. Como “teólogo” de esquerda, meu desconfiômetro sempre apitou ao ler (o mito) passagem bíblica do jovem Judas traidor. Eu suponho que ele segurou a onda o tempo todo, e por isso, foi torturado e assassinado por não revelar a senha e os arquivos mais secretos e estratégicos do mestre (Rabi) Jesus de Nazaré que era opositor mortal da cúpula sacerdotal do Templo de Jerusalém.
A Escola de Música da UFRJ perdeu um patrimônio da escuta, do carisma, da honestidade e da sutilidade. Perdemos um arquivo com as guaritas mais secretas.
Depois de Seu João, somente seu Aristides (Seu Ari) secretário da PPGM da UNIRIO estão no mesmo patamar da gentilidade e gentlemanlidade.
Finalizo essa singela homenagem citando esse bela frase de Benjamin Franklin: “Três pessoas são capazes de guardar um segredo, se duas delas estiverem mortas”.


Abraços Partidos
Joe Almodóvar (Joevan Caitano)
Mestrando em Musicologia –UFRJ até 29 de Abril.


 

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