AMBB: por uma libertação dos demônios cotidianos

por Joeblacvkan

“... eu era movido por aquilo que o tao chama de espírito do vale, “que recebe todas as águas que afluem a ele”. Mas não me vejo como um vale majestoso; vejo-me, antes, como uma abelha que se inebriou de tanto colher o mel de mil flores, para fazer dos diversos polens um único mel”. (EDGAR MORIN, 1997, Livro Meus Demônios)


Todos os anos, lideres de música e músicos de várias partes do Brasil se reúnem num determinado local, cidade e Estado para compartilhar as canções da vida, canções de paz, canções de lutas, pois até as tensões serão bem vindas na igreja viva.
Eu como sempre sou ligado e desligado do contexto Batista, no entanto, uma frase aleatória no facebook, postado pelo Léo e Vanessa Gomes atiçou a minha memória daquilo que mais que memorável entre muitos ministros de música. A frase dizia: "Oba! semana que vem vai ter o encontro da AMBB e estaremos lá". Planejei ir na abertura, dia 18 (quarta feira), mas acordei com uma vontade de ir à praia com a pitanga, e acabei satisfazendo meu desejo, aliás, é muito saudável obedecer as nossas vontades. Dia 19, após ser batizado com a força das águas salgadas cariocas, levantei disposto a ir no congresso da AMBB na PIB de Niterói. Ao chegar na porta já fui me deparando com velhos amigos e rolou aqueles abraços e as naturais perguntas: onde você está? casou? arrumou filhos? em qual igreja você está trabalhando? o que está fazendo da vida? Já foi prá Alemanha (virei zé Alemanha)? Tá tocando? tá compondo muito?
Sentei-me ao lado do Ednardo e Franklin e ficamos papeando e comentando as coisas, e eles chegaram a mesma conclusão que eu: "A gente vem para cá, porque nos sentimos bem ao encontrar novos amigos, conhecer novas pessoas, além disso, nos faz voltar as origens, as bases harmônicas espirituais chamada de TÔNICA-SUBDOMINANTE-DOMINATE da existência". No dia a dia, a gente precisa improvisar e expandir nossa rede melódica-rítmica-acordal existencial, para continuar sobrevivendo em meio à um mundo dinâmico, atonal e pluri-informacional, entretanto, é necessário retornar as coisas simples da vida, porque através dela, ouvimos Deus falar em nossa língua materna.
Era muito comum ver pessoas levantando de seus lugares e com um sorrisão escancarado para abraçar e zoar retrospectivamente com antigos colegas que avistavam. Nesses momentos, todos se tornam criancinhas, por isso, entram no Reino de Deus despercebidamente, (porque não precisam pagar ingresso) mas, Deus percebe, porque Ele é o construtor daquele parque de diversões artísticas e afetivas. Não podemos desconsiderar que o homo sapiens é também ludens, faber e demens. Ele precisa brincar, aprimorar seu poder criador, seu senso estético e crítico, sua capacidade de introspecção e sua sensibilidade. Só assim, pode mais e melhor desenvolver sua auto-ética para a construção de um planeta mais justo, igualitário e solidário para si mesmo e para os outros.

Quando ouvimos a orquestra com regentes e músicos de banda acompanhando, as pessoas batendo palmas, cantando canções "antigas" e cânticos mais contemporâneos, percebemos que a AMBB efetuou uma ampliação acolhetiva, pois abriu espaço para novas propostas, integrando o que era "velho" ao que é "novo". Edgar Morin ao falar sobre a teoria da complexidade, assinala que o COMPLEXUS, é aquilo que é tecido (costurado) junto. O homo complexus é responsável pelo processo de auto-eco-organização que se constrói na partilha e solidariedade de um tipo de pensamento que liberta porque é criativo, artístico, político, holístico, educacional e ético. No pensamento complexo, as contradições têm espaço de acolhimento sem preconceito. Opostos, diferentes e complementares que se ligam numa teia multireferencial que inclui a objetividade e a subjetividade, colocando-as no mesmo patamar de possibilidades constantes.
A AMBB sendo um espaço integrativo-multi-etário, concedeu a oportunidade à educadora Mônica Corópos de apresentar um grupo infantil que cantou sobre a GRANDEZA de ser pequeno, pois Deus como mistério in-conceituável e indecifrável, se constitui num desafio a qualquer mente criativa, porque não vivemos sob a antiga teoria ptolomaica da Terra como Centro do Universo, mas estamos diante de uma vastidão multi-galáxiana-universálica e, vivemos ilhados num planeta de periferia destinado a desintegração futura. Ao ver aquelas crianças cantando sobre a Força Divina Universal, percebi que elas demonstravam que, em toda grande obra, de literatura, de cinema, de poesia, de música, de pintura, de escultura, há um pensamento profundo sobre a condição humana.
Vi o maestro Urgel Lota regendo um coral de muitas vozes, que cantava um repertório eclético, composto por grandes compositores que são chamados de grandes, porque criaram obras com forte musculatura. O sucesso sonoro daquela massa vocálica foi possível graças a enorme competência da pianista Lucy Ferreira que passeava com os olhos e as mãos sobre a trindade das entidades musicais: "a partitura, o instrumento (piano) e o regente". O olhar multi-direcional é característica de quem sabe acompanhar, porque exige capacidade de mudança, adaptação e resolução de situações simples e complexas.
Vi grandes autoridades eclesiásticas circulando pelo local como: Dr. Josué Salgado e Pr. Oliveira Araújo que foi um dos sobreviventes da avalanche de destruição existencial em solo batista, pois famosas autoridades como: Waldomiro Tymchack, Mauro Israel, pr Xavier, no mesmo período temporal, foram desintegrados nessa dimensão e encaminhados à outra dimensão pela força da morte. Oliveira Araújo é pertence à caravana da volta dos que não foram.
Durante aquela cerimônia, foi concedida a oportunidade à dois missionários e ambos falaram sobre a importância de levar as boas novas à vários lugares, pois uma das funções da igreja é sair de dentro para fora (Ekklesia= comunidade de fé e amor que subverte fronteiras). Para coadunar missões mundiais com música, um deles nos ensinou uma canção em árabe, mas a aula foi muita rápida e não assimilamos nada daquela sonoridade linguística, por isso, eu, Ednardo e Franklin optamos por usar as línguas estranhas e cantamos: "SE TU ME CANTAS TU ME AMAS, SIRICANTA NA PANELA, LAVASUNGALAVASAIA" e Deus ouviu o nosso louvor, pois o Espírito Santo também é pentecostal e musical e sabe que ninguém aprende uma nova língua com apenas uma aula. Precisando se comunicar com o Sagrado, eu, Franklin e Ednardo criamos uma nova língua dentro da própria língua.
Outro momento marcante foi quando a Tânia chamou os voluntários que foram o braço esquerdo dela, e mencionou o nome do jovem ministro Renan. Segundo ela, Renan foi incansável e um mestre na arte da hospitalidade, pois ele, era onipresente nos momentos mais difíceis que exigiam ação rápida e eficiente. Renan foi um polvo amoroso, pois possui elasticidade nos braços capaz de efetuar ações nos quatro cantos da cidade. Renan estava em Niterói, mas do nada, ele desaparecia e já aparecia em outro local, por isso, as pessoas sentiam saudades dele, porque em vários momentos, ele era a presença de uma ausência. Os braços esquerdos também são importantes, aliás, o Renan é canhoto beleza ao invés de maluco beleza.
Em seguida, a Tânia convidou os voluntários braços direito que inclui Mére Prado, Rubens (ex músico e agora filósofo), Donaldo Guedes, Urgel Lota, Jael Tagiba e outros (só faltou a Alzira e o Alcingstone Cunha). Naquele contexto solene, ela (Tânia-poderosa chefona) se referiu a eles como amigos mais chegados que um irmão, no entanto, ela esqueceu de dizer que eles são AMIGOS MAIS HISTÓRICOS QUE UM IRMÃO, pois essa turma já é PATRIMÔNIO TOMBADO DA AMBB e da CBB, porque já criaram raízes. Até que a morte os separe. A historicidade dessa equipe se deve ao fato deles possuir competência e vontade de ajudar, no entanto, quando vários líderes se juntam num mesmo time, ou a luz forte de um ou alguns ofuscam as demais luzes, ou as luzes de todos se anulam entre si gerando uma nova estrela, um novo planeta. Para haver criação é preciso química, porque sem química não há salvação. É o que acontece na diretoria da AMBB, ninguém sabe quem é quem, porque é tudo muito coeso, mesmo existindo hierarquias dentro de uma hierarquia.
Um exemplo de trabalho de equipe foi visualizado durante a execução de uma das músicas do coro. Começaram em um andamento frenético, mas a bola começou a murchar paulatinamente que nem aquele maestro super competente conseguiu reverter a força invisível que estava por detrás daquela massa sonora. Enquanto andamento diminuía, o Espírito Santo em forma de vento dizia: "desacelera do teu coração o ritmo, sossega na presença de Jesus (...) e verás que fazer música é também PAUSAS usar; verás que adorar, também é silenciar".
Vivemos num mundo agitado, cheio de turbulências e riscos, no entanto, precisamos de momentos aconchegantes para libertar a criança que existe dentro de nós. Ser ministro numa igreja é como viver dentro de uma gaiola sujeito as mesmas pessoas, as mesmas manias e limitações, no entanto um bom líder precisa ser como um pássaro, mas alguns pássaros não conseguem viver em gaiolas porque seus pés brilham demais, então, eles precisam voar" (extraído do filme UM SONHO DE LIBERDADE). Acredito que os encontros da AMBB nos proporcionam a abertura de novas avenidas de relacionamento. Sendo um ambiente festivo, ela nos batiza com o óleo apaziguante, pois as festas nos libertam das opressões do cotidiano (Roberto Da Matta).
No final daquele culto de "encerramento", a Tânia pediu a todos os congressistas que comparecessem ao Estádio Caio Martins para uma apresentação musical que selaria a abertura de um novo evento: Encontro Anual da CBB. Esse tipo de participação, mostra que a AMBB é uma estrutura de ponte conectiva, porque ela une o que aparentemente estava separado. Dessa forma, ela entende que o global é mais que o contexto; é o conjunto das diversas partes ligadas a ele de modo inter-retroativo ou organizacional. O todo tem qualidades ou propriedades que não são encontradas nas partes, se estas estiverem isoladas umas das outras, e certas qualidades ou propriedades das partes podem ser inibidas pelas restrições provenientes do todo. Marcel Mauss dizia: “É preciso recompor o todo.” É preciso efetivamente recompor o todo para conhecer
as partes. Daí se tem a virtude cognitiva do princípio de Pascal, no
qual a denominação batista deverá se inspirar: “sendo todas as
coisas causadas e causadoras, ajudadas ou ajudantes, mediatas
e imediatas, e sustentando-se todas por um elo natural e insensível
que une as mais distantes e as mais diferentes, considero ser
impossível conhecer as partes sem conhecer o todo, tampouco
conhecer o todo sem conhecer particularmente as partes”.
Para finalizar essa louvação ao espaço lúdico dos músicos batistas brasileiros, vou fazer uma oração poética ao Deus que no mundo brinca.

O Parquinho de Deus

“Quando a gente conversa contando casos, besteiras. Tanta coisa em comum,deixando escapar segredos” (Cazuza).

Papai do céu, somos todos um bando de crianças brincando no parquinho onde você é o dono.
Sentimo-nos seguro porque você não dorme só para nos ver dormindo sobre a grama;
Você não dorme só pra ver a gente soltar pipa olhando o céu azul, obras das tuas mãos.
Você não dorme só para nos ver brincando na guerra de esconde - esconde, mesmo naquelas horas em que nos escondemos das artimanhas do capeta;
Você não dorme só para nos ver pegando aquelas ondas maravilhosas na praia e quando vem a onda do mal o teu Espírito Santo nos alerta dizendo: saí fora meu filhinho... O ministério espiritual adverte: esse caixote é prejudicial a você. E nós saímos correndo em fuga e quando chegamos na areia, você está lá de braços abertos para nos abraçar e nos dar segurança.
Você não dorme só para nos ver rabiscando papéis com pincel e cartolina tentando desenhar um retrato ou, uma caricatura da tua majestade, mas você entende e perdoa os nossos borrões.
Nós te agradecemos porque mesmo nas horas em que pecamos e erramos o alvo, e devido o nosso amadorismo decorrente da nossa fragilidade da visibilidade espiritual, acertamos a nota dó sustenido ao invés de dó, esbarramos em duas notas, os nossos erros machucam os teus ouvidos, desafinam a nossa relação criatura x criador mas, mesmo assim, você nos dá um montão de chances e você ainda fica torcendo pra gente acertar a nota certa, e quando acertamos, você bate palma e canta conosco até a última nota, o último acorde da canção.
Você se entristece vendo os adultos correndo iguais uns loucos atrás de riquezas materiais, muitas vezes numa disputa desumana. “As riquezas são como a água do mar, quanto mais você bebe, mais você fica com sede” dizia Arthur Schopenhauer, entretanto, quando nós ficamos salgados e estressados, você nos oferece a fonte de águas vivas, daí bebemos e paramos automaticamente de ter sede. Te agradecemos porque você é a fonte de todo o prazer, resta-nos, voltar a ser criança e curtir todas as delícias do melhor parque de diversões.
E o tempo passa arrastado, só pra ficarmos ao teu lado. Amém

abraços
Joeblackvan (Joevan Caitano)

BBB: Uma abordagem humana demasiada humana

Nunca fiz parte da platéia assídua do Big Brother Brasil (BBB), que assiste todos os dias e aguarda ansiosamente pelas novidades do dia seguinte, mas sempre que tive oportunidade, assisti e acho inclusive que o BBB é super nietzschiano, pois ele coloca pessoas desconhecidas, de diferentes classes sociais, cor, credo, preferência sexual e afins diante da sagrada chance de ficar milionário, e portanto, todos dispostos a fazer coisas que até mesmo "Deus" duvida para alcançar o premio. Sem noção dos dias, das horas, e sob a vigilância frenética e constante de aproximadamente 200 milhões de pessoas, e com limitações espaciais e distracionais devido ao confinamento intenso, engendra-se brechas para que o ser humano mais humano existente dentro de nós apareça de forma fervilhante e escancarada. "Por mais que a gaiola seja chique e tenha conforto, uma gaiola será sempre uma prisão" disse Fidel Castro em Memórias Cubanas (Documentário-DVD 1-são 6 DVDs).
Lá dentro, os força da libido se torna mais potencial e a noção de freio social- existencial diminui, semelhantemente um sujeito drogado e alcoolizado que se torna excitado e com excesso de proatividade. Lá dentro, as pessoas fazem tudo nos extremos: riem demais, choram demais, acabam por falar tudo o que pensam sem pensar muito bem nas consequências, e por não terem "nada" sistemático-rotineiro- social para fazer, falam da vida dos outros e liberam os anjos e demônios interiores. Eles fazem tudo o que todos nós fazemos, só que enquanto nós do mundo de fora (inclusive os religiosos), fazemos isso mais reservadamente (em off ou em guetos seletos) para não manchar a nossa reputação (persona). Os integrantes do BBB fazem tudo o que um ser humano faz nos bastidores, no entanto, as atitudes são submetidas à uma democracia visual que proporciona juízos de valores tensos com justaposição de contrários. Esta estrutura conflitante é planejada pelos arquitetos das imagens e poder, para desencadear tanto atração como repulsão, porque o macrotema dos programas é como o amor polissêmico que mata, mas nos faz bem.
Eu particularmente, encaro os BBBs como uma ótima oportunidade de observação do comportamento humano e analisá-lo dentro de uma perspectiva lacaniana do espelho e do sujeito que se constrói a partir de deslocamentos pronominais e identificações, pois esses encontros pela vontade de poder, se constituem num palco de interações entre várias personas, um polílogo de vozes pronominais que nos constituem como um eu. Durante esses retiros televisivos, há uma invocação psíquica de "eus" que sugerem que o eu é um outro, que o eu pode conter a negação do eu, que ela pode vir a ser uma alteridade, constituindo uma pluralidade fissurada de vozes, discursos e camadas, gerando possibilidades de representações e transvocalizações, bem como a presença de figuras retóricas repletas de contradições.
Quem garante que as edições do BBB da REDE GLOBO não serão futuramente temas de debates filosóficos, sociológicos, psicanalíticos e afins em espaços de alto grau de seriedade e prestígio como o CCBB, CAIXA CULTURAL, Universidades e afins? Nos anos 80, meus pais diziam que não deveríamos (não podíamos) assistir as novelas da Globo porque elas eram a voz do Diabo dentro da família. Enfim, desde o ano passado, a telenovela tem sido alvo de debates criativos e profundos no CCBB. Oxalá, se no passado, tivessem deixado o diabo com suas sujeiras invadir meu interior para construir parte de minha cultura. Certamente, eu não ficaria boiando (com cara de bundão) e me achando um alienado naquelas palestras cabeças do CCBB. Não dá pra ler livros sobre cinema sem ter visto pelo menos bons filmes anteriormente. Não dá para estudar harmonia funcional do jazz, MPB, sem pelo menos, ouvir antes bons compositores (como Chico, Jobim, Edu Lobo, Bill Evans, Coltrane e outros) e transcrever harmonias e improvisos. Ter um vasto repertório na mente é importante para as conexões e assimilações.

Deus precisa engolir sapos

‎"Os meus olhos estão sempre voltados para o Senhor, pois só ele tira os meus pés da armadilha" - Salmo 25.15


O problema é que numa cidade como Rio, São Paulo e Nova York, os nossos olhos precisam ser multidirecionais e o Senhor precisa ser um dinâmico e atento cineasta para captar as multiplicidades de acontecimentos. Se o motorista e Senhor (Deus) for unidirecional, imutável, perfeito demais no transito caótico, ele se torna uma perigosa armadilha para os demais e ainda vai parar no paredão via armadilhas jurídicas. Deus e os homens precisam dominar a arte dos pés no freio, bem como de engolir sapos (xingamentos)e de expelir demônios (emissão de xingamentos) quando necessário, pois sempre tem um mala (fala) querendo se aparecer.


 

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