Malandramente e estrategicamente em nome de uma moral da pureza e neutralidade gerativa carnálica\messiânica, a tradição cristã contou-nos (achando que somos bobos, dementes e lesados) que José e Maria cresciam em intensificação afetiva, porém, ambos eram virgens (aham). O aparecimento do mago em forma de anjo Gabriel, expôs em forma de reportagem ao vivo todo projeto fecundativo\programático costurado nos bastidores do tecido da discretagem nos porões das guaritas mais secretas do casal, detonando na raiz, qualquer insinuação de cinismos espirituáticos.
José e Maria eram muito pobres e não possuíam plano de saúde e nem tinham uma casa própria para morarem. Quando a barriga começou a pipocar, ambos procuraram uma maternidade, porém, não havia vagas, pois muitos já estavam na espera da emergência. Por recomendação de um jovem andarilho, eles se dirigiram ao estrebológico, pois lá, era um local muito sinistro cheio de animais domésticos e selvagens (que conviviam belicosamente), micoses, vírus e bactérias nocivas. O menino Jesus nasceu cercado pela ferocidade da vida, no entanto, ele sobreviveu a todos estes perigos.
Após superar esse estágio de periculosidade maternal\existencial, com a bravura dos pais, o menino continuou vivendo e crescendo em musculatura, sabedoria e graça. Jesus era muito engraçado, pois ele fazia barquinhos de papel, jogava aviãozinhos durante as aulas catequéticas, e as 12 anos e nos interstícios das Sinagogas (papo de homens) já filosofava sobre os aforismos de Nietzsche em quadrinhos e falava com muita fluência sobre a importância das imagens de arquivo da companhia Redtubes para o pensamento afetivo\kid humano demasiado humano, pois, segundo diz a narrativa sagrada, o mancebo Timóteo desde criança já sabia das coisas básicas da vida.
Num belo dia Jesus resolveu dar uma volta e viu uma mulher prostituta que estava prestes a ser apedrejada, pois a sociedade machista admitia que ela possuía mais horas de cama do que urubu de vôo. Mas Jesus ao ouvir o argumento convincente daquela mulher, ele disse que o que ela fazia era apenas trabalho para auto-sustentação e questionou: “Quais de vocês não vendem o próprio corpo como engenheiros, advogados, professores, taxistas, etc em nome de um salário mantenedor¿ Então, quem não tem “pecados” e é cínico que atire a primeira pedra”. Todos saíram com dor de próstata e de piru murcho.
Numa outra ocasião, ele passou na beira do monte e começou a papear com algumas pessoas, mas aquelas discussões intimistas foram ficando tão legais, que outras pessoas foram se agregando aquele grupo até formar uma multidão. Por isso, Jesus sentiu a necessidade de uma estrutura maior com microfones, aparelhagem de som, câmeras de filmagem (arquivo) para proferir o sermão do monte, que posteriormente serviriam como inspiração esquemática para curtas metragens cinematográficas. Jesus estruturou homileticamente esses sermões a partir de pequenas histórias com rapidez, criatividade e clareza nas introduções, pois Graciliano Ramos aconselhou que a melhor introdução é a mais breve. A estrutura do sermão cristológico era assentada em Friedrich Nietzsche, pois, ele dizia que o grande estilo implica em capacidade de concentração, condensação e economia informativa, falando apenas o necessário, porém de forma inédita. Conforme diz o filósofo Martin Heidegger, “dizer genuinamente é dizer de tal maneira que a plenitude do dizer, própria ao dito, é por sua vez inaugural.
Quando Jesus viajou para uma cidade vizinha, ele foi acordado lá pelas tantas da madrugada por uma mulher assustada que alegou que um dos filhos estava possesso por espíritos imundos (demônios¿). Quando Jesus chegou lá, viu aquele jovem compondo uma sinfonia, por isso, gesticulava e cantarolava de forma muito sutil e esdrúxula aquela melodia atonal. Jesus citou trechos do livro “O visível e o invisível” de Merleau-Ponti e disse para aquela mãe tonal equivocada: “o homem para ser homem precisa ver fantasmas”.
Enquanto o Messias enviado passeava por um gueto de afetivizações, ele viu um homem que teve uma perna amputada, por isso, andava com auxílio de uma bengala. Quando ele viu Jesus ele bradou desesperado: mestre! Tenho fome, dá-me a chance de comer, pois o cafetão deste espaço que emana grana e prazer nunca permitiu que deficientes físicos se apropriassem das mulheres dessas vitrines, porque tal procedimento implicaria na transgressão da lei “seca aos excluídos”. Jesus ficou reflexivo, no entanto, ao ver um japinha da zonal Sul da cidade Santa entrar com o carrão pelos portões da afetividade, Jesus chamou aquele administrador carrasco e falou: Ou você aceita a bengala, ou você vai receber um chá de cabala judicial, pois agora eu sou o caminho, a justiçabilidade, a amabilidade e a ferocidade da vida (também). Houve um acordo cafetônico-messiânico, e foi dado àquele homem manjubálico, o direito de acessar os mananciais em forma de corpos escorregadios e grutas suculentas.
Jesus foi convidado a fazer um discurso pela paz na praça da paz celestial, no entanto, era terrificante e assustador a aglomeração de pessoas ávidas por milagres. No meio do rebuliço e efervescente remelexo de corpos, um dedo enigmático tocou nas zonas erógenas de Jesus excitando cócegas. Jesus parou e disse: “Produção! Alguém me tocou, pois senti uma sensação de cosquinha”. Ao ouvir gemidos de amor, ele viu uma mulher cheia de vontade, exprimida em meio aquela força humana demasiada humana, pois vontade de poder é movimento espontâneo de vir à luz, de aparecer e impor-se. Então todos perguntaram a Jesus: “Mestre! Porque você só sentiu o toque dela no meio dessa multidão carente¿ Então aquele Rabi respondeu dizendo: “sentir é estar distraído” (Alberto Caeiro \Fernando Pessoa). Esta cena nos mostra que a sensualidade implica e disposição, aptidão para sentir, isto, é estar ligado\aceso.
Por todas essas proezas, simplicidade e luta em favor das classes subalternas, Jesus representava uma ameaça a elite religiosa dominante, caracterizada pela casta sacerdotal, líderes do Tempo de Jerusalém, e outros estratos sociais que usavam o nome de Deus para manipular pessoas usando ferramentas como pecado original, salvação e condenação universal (faz sentido ainda, se a terra não é mais o centro do Universo¿), vida de santidade, entrega de dízimos e ofertas, sacrifícios, rituais de adoração e outras malandragens e mentiragens em forma de discurso de controle. Foi morto na cruz, porque era visto como um espinho na musculatura social dominante da época. Apesar da deturpação das práticas ensinadas pelo Cristo, no século XXI, convém citar um trecho do livro O anticristo de Nietzsche:
“Volto atrás, conto a história genuína do cristianismo. – Já a palavra “cristianismo” é um mal-entendido – no fundo, houve apenas um cristão, e ele morreu na cruz. O “evangelho” morreu na cruz. O que desde então se chamou “evangelho” já era o oposto daquilo que ele viveu: uma “má nova “, um disangelho. É absurdamente falso ver numa “fé”, na crença na salvação através de Cristo, por exemplo, o distintivo do cristão: apenas a prática cristã, uma vida tal como a viveu aquele que morreu na cruz, é cristã... Ainda hoje uma vida assim é possível, para determinadas pessoas e até necessária: o cristianismo autêntico, original sempre será possível...Que significa “boa nova”? A vida verdadeira, a vida eterna foi encontrada – não é prometida, está aqui, está em vocês: como vida no amor, no amor sem subtração nem exclusão, sem distância. Cada um é filho de Deus – Jesus não reivindica nada apenas para si - , como filho de Deus cada um é igual ao outro...”


A tragicidade da morte de Jesus Cristo, ele nos mostrou que apesar dos pais dele não possuírem seguro saúde nem tampouco, seguro moradia no período da gravidez-maternidade, ele sobreviveu às adversidades inerentes ao início de tudo e quando se tornou adulto, teve a honra de dizer: “No mundo tereis aflições, mas tendes bom ânimo porque eu venci as bactérias, micoses, vírus e todo tipo de mequetrefes naquele estrebológico”, por isso, “eu vim para que vocês tivessem vida em abundância (seguro saúde), pois na casa de meu Pai, há muitas moradas (seguro moradia)”. E pela morte-ressurreição, partiu rumo às entranhas do Universo misterioso chamado ciclo repetitivo da vida e da morte. Amém.

Com este texto, encerro a “trilogia do sorriso” que contém os seguintes textos disponíveis na internet:
www.joevancaitano.blogspot.com

1. Jesus e a gangue dos samurais: uma heresia sexy cinematográfica. (2009)
2. Jesus e a onda de alienígenas: uma comédia de ficção de ficção herítica. (2010)
3. Kid caminho, kid bengala e kid cosquinha: a história de um Cristo chamado Cristo. (2011)



Após um dia de intenso trabalho, Jesus resolveu fazer uma caminhada pelo calçadão de Copacabana. Quando ele chegou aos arredores do Arpoador, na praia de Ipanema, ele viu um grupo de homens com pedras nas mãos e com chicotes da “salvação”. Diante daquele bando de machistas terroristas, estava uma mulher com o corpo inteiro enterrado na areia, porém, somente a cabeça, visível a olho nu, estava do lado de fora. Ela encenava os gritos do silêncio. Então Jesus perguntou aqueles homens o porquê daquilo tudo. Eles disseram que aquela mulher era safada, pois tinha mais hora de cama do que urubu de vôo, por isso, segundo a lei, ela merecia\deveria ser massacrada publicamente por francos atiradores.
Jesus pediu calma àqueles másculos afobados e deu aquela mulher o direito de contar a sua versão sobre os fatos. Então aquela mulher assustada e fragilizada, começou a balbuciar uma história de vida alucinante. Segundo ela, após a mãe ter sido abandonada pelo marido no interior do Amazonas, a mãe, a filha com 12 anos naquela época (atual mulher adúltera da história) e mais dois irmãos vieram para o Rio de Janeiro em busca de melhores condições de vida. Ela, mulher da areia prosseguiu dizendo: “Mestre, com 15 anos e, já muito bonita e com sensualidade indígena, me envolvi com um coroa que prometeu dias melhores, no entanto, engravidei dele e ele sumiu do mapa. Com 18 anos, me envolvi com um jovem de 25 anos de família com grana e ele insinuou casar-se comigo, no entanto, engravidei do segundo filho e alguns meses depois ele me deixou na mão. Mestre, eu sem estudos, vivendo numa terra de ninguém, tive que defender uns trocados para criar meus dois filhos, entretanto, o mais velho terminou o mestrado recentemente e passou no concurso para engenheiro na Petrobrás. O meu filho mais novo, concluiu a graduação em filosofia na UFRJ e está tentando bolsa pelo DAAD, KAAD, CNPQ e CAPES para fazer mestrado na Alemanha...É isso mestre...nada pedir só agradecer”.
Jesus ficou muito comovido e falou: “se alguém não tem sensibilidade humana demasiada humana, que atire a primeira pedra”. Houve silêncio e reflexão. Jesus pediu que aquela mulher fosse retirada daquela cova de areia. Ao ver aquele corpo lindo, marcado pela magia, bravura e ternura, ele correu, abraçou-a e beijou-a dizendo: “amo porque te amo, porque o amor é um estado de graça”. E ambos desejaram um feliz natal e um próspero ano novo cantando: “hoje a festa é sua hoje a festa é nossa é de quem quiser, quem vier”...
E a vida continuou...

Ao iniciar um casamento, o homem e a mulher (ou dois parceiros (a) devem levantar a seguinte questão: Será se estou mesmo interessado em conversar com a pessoa amada pela vida afora (até a velhice se possível)? Esta pergunta é importante, pois boa parte do casamento (relações) é sustentada pela conversa. (Nietzsche)

A família surge, nas sociedades históricas, para tornar-se a unidade básica para a qual se canaliza a reprodução e concentram-se os cuidados das crianças. As instituições de parentesco, da exogamia e a proibição do incesto canalizam socialmente os processos de reprodução e contribuem para diversificar as determinações genéticas dos indivíduos. Lembre-se que “a sociedade se auto-produz pela reprodução biológica, que se auto-reproduz de acordo com a norma sociológica”.
Houve vários modelos de família na Antigüidade, no entanto, ela sempre estava atrelada como uma unidade ligada, sendo o lar um refúgio protetor. Cito por exemplo a família agrícola que era uma unidade socioeconômica de produção de recursos e de transmissão de bens. A família durante muito tempo, foi também fruto de uma aliança entre duas famílias diferentes. Foi também uma unidade cultural que garantia a educação dos filhos, até que o advento da escola pública tirou esse papel. A família sempre foi uma unidade psicológica fundamental, pois o nome família funda a identidade pessoal. O pai encarna a autoridade, e a mãe, o amor, as duas potências que marcarão os destinos individuais das crianças.
A marca da família na criança, depois no adulto, é fonte de complexidade mental. O Freud e as correntes oriundas do freudismo destacaram a ambivalência e a dialética do amor/ódio, do desejo e do recalcamento inerentes à família. As famílias podem ser cantinhos seguros ou prisões; daí no primeiro caso, as dificuldades da separação e, no segundo caso, as evasões, as auto-afirmações e revoltas individuais. Enfim, a família é o lugar primitivo do sexo na sua ferocidade biológica e mitológica, camuflada sob todos os aspectos atrativos, amáveis, úteis e funcionais. O Freud teve curiosidade na alma diante da força da sexualidade, a ponto de arrancar a braguilha da calça do pai e a indumentária íntima da mãe porque ele aspirou ver os órgãos genitais de ambos.
A família, como unidade autônoma fechada, pode ser fonte de patologias e de sofrimentos nas crianças, herdeiras de neuroses familiares, submetidas à autoridade incompreensível ou brutal do pai; às vezes, estupradas, frustradas pela indiferença de uma mãe ou sufocados pela sua possessividade. A família evoluiu muito no mundo ocidentalizado contemporâneo. O casamento por amor fez a sua entrada e ocupou enorme espaço, em detrimento do casamento de conveniência. A casa com três gerações cedeu lugar, com freqüência, ao apartamento do casal com filhos. O lar tem cada vez menos crianças. A importância do filho aumenta com a diminuição do número e o filho único concentra cuidados e amor e os pais chegam a cantar para ele a canção sacra “TODA A SORTE DE BENÇÃOS DEUS PREPAROU PARA TI”, ampliando mais ainda o desejo infantil de ser mimado.
A pequena família quase não tem função produtiva. O lar é invadido pela economia exterior e pela cultura da mídia. A função patrimonial diminui. O papel educativo dos pais enfraquece-se. O Estado encarrega-se das creches, escolas maternais, maternidades e asilos. Os adolescentes emancipam-se muito cedo da tutela da família. Com isso, cada vez mais, no Ocidente, a família deixa de ser o lugar onde se nasce, aprende-se, trabalha-se e morre-se. Mesmo restrita em dimensões e em funções devido às diversas mutações, a família ainda permanece um concentrado biológico, psicológico, cultural e social muito forte. A procriação por esperma anônimo, as gestações em barrigas de aluguel ou de proveta e a clonagem humana, enfim, questionam as noções fundamentais de paternidade, maternidade, filiação. Mesmo assim, creio que as noções de pai, mãe, filho e filha continuarão vivas mesmo depois de desaparecerem geneticamente, pois enraizadas na cultura, elas se manterão afetivamente através dos nossos pais adotivos, educadores ou clonadores. Depois dos Organismos geneticamente modificados (OGM), surgiram os organismos humanos geneticamente modificados (OHGM), que são ordenados e padronizados. Os atributos e características humanos já se tornaram objetos e mercadorias. Os pais do novo tipo podem escolher as qualidades dos filhos num catálogo.
Desde o século XVIII, os homens começaram a suprimir as conseqüências reprodutivas do coito pela sua interrupção, e as mulheres pela lavagem pós-coito com água fria. Foi a partir do século XX que a sociedade entregou ao homem e a mulher o controle da reprodução por meio de preservativos, pílulas e abortos legais. Resta ainda o tabu do incesto. Através dessas práticas conscientes que se tornaram cada vez menos constrangedoras, o homem e a mulher, conseguiram multiplicar os prazeres eliminando as conseqüências genitoras do ato de amor. A partir daí, o gozo opõe-se à semente, e a recopulação opõe à repopulação.
Em meio a essas metamorfoses sociais é importante frisar que através das crises que enfraquece, fortalece e transforma, mesmo assim, a família permanece um núcleo insubstituível de vida comunitária, o que pode ser comprovado, nos países ricos do Ocidente e outros países em processo de desenvolvimento, pelo surgimento e pela legitimação de famílias homossexuais. É importante ter em mente, que apesar das mutações frutos do fluxo histórico-sociológico, o casal ainda é o núcleo da família, se encontra em crise. As atividades profissionais do homem e da mulher ocupam uma parte de vida independente, fora do lar; a multiplicidade dos encontros, o relaxamento dos costumes, a necessidade de assistência afetiva, de beleza, de poesia, tudo isso favorecem os adultérios. Os divórcios tornam-se normais, não mais exceções. Há crise do casamento por amor, vítima de um novo amor. “Que o amor seja eterno enquanto dure” foi a afirmação profética do poeta Vinicíus de Moraes, talvez, inspirado num dos aforismos do filósofo Friedrich Nietzsche em seu livro Humano Demasiado Humano:

O que se pode prometer – Pode-se prometer atos, mas não sentimentos; pois estes são involuntários. Quem promete a alguém amá-lo sempre, ou sempre odiá-lo ou ser lhe sempre fiel, promete algo que não está em seu poder; mas ele pode prometer aqueles atos que normalmente são conseqüência do amor, do ódio, da fidelidade, mas também podem nascer outros motivos: pois caminhos e motivos diversos conduzem a um ato. A promessa de sempre amar alguém significa, portanto: enquanto eu te amar, demonstrarei com atos o meu amor; se eu não mais te amar, continuarei praticando esses mesmos atos, ainda que por outros motivos: de modo que na cabeça de nossos semelhantes permanece a ilusão de que o amor é imutável e sempre o mesmo. – Portanto, prometemos a continuidade da aparência do amor quando, sem cegar a nós mesmos, juramos a alguém amor eterno. (NIETZSCHE, Friedrich, 2002, aforismo 58, p. 59)

Nunca o casal foi tão frágil e, contudo, nunca a necessidade do casamento foi tão forte; é que diante de um mundo anônimo, de uma sociedade atomizada, em que o cáculo e o interesse predominam, o casamento significa intimidade, proteção, cumplicidade, solidariedade. Assim, o novo amor, que desestrutura um casamento, estabelece outro. O casal, refúgio privilegiado contra a solidão, contra o desespero e contra a insignificância, renasce incessantemente. A família está em crise, o casal está em crise, mas o casal e a família são respostas a essa crise.

(Texto adaptado do livro A HUMANIDADE DA HUMANIDADE- volume IV da coleção O MÉTODO de Edgar Morin).

Bibliografia

NIETZSCHE, FRIEDRICH. Humano Demasiado Humano. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia Das Letras, 2002

MORIN, Edgar. A HUMANIDADE DA HUMANIDADE- volume IV da coleção O MÉTODO.

É preciso exagerar para que outras bestas não durmam.


“Toda a minha escrita é um exercício de lucidez”. (João Cabral de Melo Neto)

Papeando com meu amigo Lucão (colega de turma da antiga Fundação Cap Gospel), e ao contar sobre as proezas vandalísticas do maníaco afetivo da colina, ele sorriu e disse: “Joe! Esse servo afro nunca teve luz própria, pois sempre viveu recolhido e recluso no prédio XXIII. Estudar em terras germânicas, não faz brotar genialidade a quem sempre foi sem sal, pacato e inexpressivo, pois luminosidade intelectual é algo que já vem no DNA do sujeito”. Meu conchavo prosseguiu dizendo: “Mano, na casa dos batistas, você sempre reinou absoluto com a benção do CADS, com casa cheia nos eventos liderados por ti, e continuará reinando além dos portões, por isso, fala o que pensa de forma aberta e lúcida em rede aberta, ao contrário, do vândalo teológico que sempre se escondeu e sempre comeu das migalhas da mesa que caiam da mesa existencial, e quando viu um filé mignon diante de si, pegou a primeira arma que viu e atirou contra o proprietário dentro da casa alheia, PQ SE ACHOU SUPERIOR AO COLEGA q comeu do mesmo prato e da mesma comida na mesma casa".
Pior que isso, foi que ele durante dois anos tentou esconder as provas do crime e do sangue mentindo descaradamente para amigos, inimigos e colegas do corpo docente da casa dos profetas. Mas sempre há um profeta interno que ciente e lúcido, porém, desconfiado e inconformado com tantos argumentos não convincentes, também aciona o desconfiômetro movido a espírito de porco, herança das aulas de Ribeiro, para cruzar informações mais que sinistras, sujas e sacanas.
Num dos bate papos de engodamento do ego, quando o afro andou falando sobre as aventuras com diva alheia, o detetive “amigo” questionou no intervalo das aulas: “Porque você não assume essa relação logo perante a família dela, visto que você pelo que me relata, já até morou com a fulana¿” Daí o garanhão-cínico respondeu: “Não é bem assim parceiro, precisamos conhecer melhor as pessoas, e pelo que me parece, a família dela NÃO GOSTA DE PRETOS”...aham...Imagino que não gostariam mesmo, pois sendo o PRETO VELHO UM DESONESTO, NENHUM ORIXÁ GENEALÓGICO ABENÇOARIA ESSA RELAÇÃO.
Quem sempre foi pobre e viveu como coitadinho, não tem estrutura para de uma hora para outra, suportar o salto de viver mesmo que temporariamente numa terra que mana grana e alto poder epistêmico. O deslumbramento embaça a lucidez e o bom senso, pois o sujeito perde a noção de respeitabilidade fraterna, por isso, se torna invasivo se apropriando de titulações acadêmicas e principalmente com legitimação sacerdotal de PASTOR CONSELHEIRO, por isso, ungido por Deus para FURAR O OLHO DO IRMÃO em nome da musicalidade e jogo interesses. Nessas horas de malandragem espiritual, não adianta a honestidade clamar e orar no monte, pois o monte já está destinado a ser MONTENEGRO, pois há um foco de LUZ manipulado pela sustentabilidade de mãos negras planetárias...Ele quis ser = Deus né?? Servo afro foi e é vítima da cobiça na modernidade, aliás, Fiodor Dostoievski escreveu que o mundo moderno é um mundo dos possessos da consciência, da vontade infinita – da gula, gula gula.
Meu amigo lançou a seguinte questão: "Como que esse presunçoso quer pregar uma salvação via sustentabilidade universal se ele não consegue sustentar a fidelidade nas coisas simples da vida, como não invadir e roubar amorosamente no terreno alheio abusando e se aproveitando da bondade do outro? Nietzsche assinala que a força máxima é o lugar próprio, o que passar disso é PEDANTISMO. Ser forte é ser forte no limite. Imagine se o servo afro ficasse 4 anos na estudando na Alemanha, vindo a fazer doutorado integral, imagino a vontade de potencia que reinaria na mediocridade corporal desse sujeito, pois tal potencialidade, poderia dar pano prá manga para ele insinuar furar o olho do reitor da Casa Batistônica....Teria a cabeça cortada- guilhotina com louvor.
Tem certos desafios e estadias mais glamourosas que estão predestinados por Deus para aqueles que são mais bem preparados emocionalmente e psicologicamente para tais aventuras turísticas e cognitivas. Tentar bolsa várias vezes e tomar tocos durante seis anos (como é meu caso) fez brotar a experiência, crescimento, mais humildade, pois cria raízes mais profundas e sólidas. Deus dá tudo na medida, mesmo assim, alguns ainda fazem MERDA segurando um SANDUBA.
Eu ainda fui paciente e conversei com ele por muito tempo durante a CBB numa noite no Caio Martins, mas aquela voizinha de bicha e aquele olhar cínico não me convenceram mesmo, pois sou = policial treinado pra aeroportos que bate o olho na mala e na pessoa e quando tem rolo sai apitando tudo, pois sou fruto da Escola maçônica do XIX...treinamento de elite...Aliás, no meu tempo de seminarista, quem morava no 23 ou era cínico ou era bobão....
Para encerrar, eu sugiro ao servo afro um tema para ele ruminar e retorizar como paraninfo na cerimônia dos inocentes formandos 2011: “PARAFUSOS ÓTICOS PARA O PLANETA”. Sinceramente, eu acho que depois do monumental discurso do Prof. Dr. Gênio e cabeção Osvaldo Ribeiro como paraninfo outrora (exegese profunda sobre o Salmo 23), nossa, Instituição Batista Profética Cognitiva deveria abolir daqui prá frente qualquer insinuação retórica paraninfática em plataformas eclesiásticas, pois cairemos no risco de ouvirmos apenas cinismos em nome de sustentabilidade reacionária, porém, imoral na superficialidade, pois a superfície é o local de comunhão entre o profundo e o raso.
Servo afro foi convidado por mim para cantar e pregar num evento em minha igreja. Recebeu todo carinho de minha parte e do reverendo outrora tão parceiro a ele também + oferta cedida pela comunidade de fé + churrascaria (jantar pago pela igreja), porém, ele ainda insatisfeito, me queimou pra mulher para ficar em vantagem, e em seguida se apossou afetivamente-escondidamente dela me ignorando completamente. O cara abusou da minha bondade. Por isso, digo-vos que sacanear, machucar, mentir, abusar e desafiar um cronista mágico é pedir pra virar chacota em forma de caricatura poética, pois “o caricaturista é o demônio que eleva, que expande tudo o que Deus insinuou querer fazer” (Henri Bérgson – livro O RISO). Asseguro-vos, que esse será minha última menção escrita a esse trágico episódio, pois daqui para frente, cabe a mim, focar em outras coisas e tocar minha vida com novos afetos e projetos, pois estou certo de que “cada um é filho de suas obras” (Dom Quixote de Cervantes), porém, não posso deixar de dizer que eu descobri toda a sacanagem oculta apenas esperando a voz do tempo, pois “a espera é um à toa muito ativo” escreveu Guimarães Rosa.
Lavo minhas mãos – MISSÃO CUMPRIDA e que os Batistas se cuidem.

“É preciso que alguns exagerem para que as outras bestas não durmam” (Ortega y Gasset concordando com Martim Heidegger numa conferência ministrada por Heidegger)
Aprenda mais sobre O SERVO AFRO.
http://joevancaitano.blogspot.com/2011/07/parabola-do-servo-afro.html

CRON NO CCBB: UMA NOITE DE CHUVA, ACASO E MÚSICA.

Dedicado ao grupo CRON e a compositora e professora Marisa Rezende.


“Ensinar é um exercício de imortalidade. De alguma forma continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver. O nascimento do pensamento é igual ao nascimento de uma criança: tudo começa com um ato de amor”. (Rubem Alves – livro A ALEGRIA DE ENSINAR)
“Quando pensais no objetivo, também tendes de pensar no acaso e no disparate”. (Friedrich Nietzsche, 2005, p. 136 em: SABEDORIA PARA O DIA DE AMANHÃ)
“Os vários processos que ocorrem na mudança de um som a outro som ou de um grupo para outro grupo, formam a base da minha notação musical, a idéia e o germe de cada composição. (Gérard Grisey, 2010, p. 315, Em: Sobre a origem dos sons)

Dia 10\08\2011, quarta feira as 18h30, fui ao CCBB exclusivamente para prestigiar o concerto de música contemporânea realizada pelo grupo CRON, e disposto a descrever sobre o que assistiria. Sentei com a pitanga e logo em seguida, assentou-se ao meu lado o digníssimo Prof. Dr. João Guilherme Ripper. A chegada de Ripper foi importante para potencializar meu desejo criativo, pois para criar, é necessário que haja intercessores e esses intercessores podem ser pessoas, objetos ou coisas.
O diretor cronista, Prof. Dr. Marcos Nogueira, fez uma abertura relâmpago e em seguida, convidou alguns integrantes do grupo como: Maycon Lack (flauta), Rafaela Calvet (percussão) para se ajuntar a ele (Marcos) ao piano a fim de executarem a peça ESCALENOEDRO do jovem compositor Yahn Wagner. O trio começou a tocar de forma muito relax, com dose restrita de energia e concentração, no entanto, no meio da jornada sonora, a partitura do pianista Marcos desabou inesperadamente de cima da plataforma pianística fazendo com que ele exercitasse os reflexos humanos de malabarismos demasiado humanos. Marcos riu discretamente para todos, e propôs um recomeço. Aquele re-começo re-interpretativo foi condição de possibilidades para uma noite de vitalidade naquela estrada já percorrida, pois viajar é ter diferentes olhos para as mesmas paisagens. Aquele trio deu a volta por cima, arrancando aplausos calorosos, confiança e prestígio visual auditivo da platéia, então, eles seguiram confiantemente, pois “aquilo que não nos destrói, nos fortalece” dizia o filósofo Nietzsche.
Em seguida, foi executada a peça CINERAMA para violino, trombone e piano do compositor Marcos Nogueira. Os intérpretes Tatiana Dumas (piano), Tais Soares (violino) e Marcos Botelho (trombone) deram um show de profissionalismo, clareza sonora e dinamismo, pois ao olharem para a partitura, souberam solenemente conduzir as idéias na carruagem do ritmo, porque habitualmente elas não conseguem andar sozinhas.
A outra composição contida na programação foi a peça PASSAGENS, do compositor Marcos Lacerda. Essa peça foi escrita apenas para um duo de clarineta baixo e vibrafone. Os músicos Thiago Tavares e Rafaela Calvet fizeram um excelente diálogo convergente que se estendeu musicalmente e dinamicamente em meio às variações de intensidade e densidade sonora que proporcionavam interesse e curiosidade sobre como seria a conclusão da peça. Lacerda construiu sua peça em moldes proustianos e saramaguianos (Marcel Proust e José Saramago), pois em ambos os autores, as frases crescem por dentro, pois dominam a arte da leveza e elasticidade das palavras.
Grande expectativa também estava na obra de Neder Nassaro, chamada COLAPSO. Esta peça começou com um ataque fortíssimo do pianista Marcos Nogueira que simulou um tiro ao alto. Em seguida, o contrabaixista Cláudio Alves e a trompista Waleska Beltrami ao manusearem seus instrumentos em forma de esfrega-esfregas glissândicos, estimulava todos os nossos sentidos, fazendo-nos cogitar que ali no palco ocorria uma acirrada e disputada corrida de Fórmula I ou de aviões a beira de um ataque de “nervos”. Embora seja evidente que na hermenêutica sonora, uma mesma peça dá margem a várias interpretações, o mais importante foi que o criativo Nassaro soube cativar as expectativas. Ele soube conquistar a imaginação do ouvinte.
Após a sensacional composição de Neder Nassaro, foi anunciada a execução da peça CAMERATA, para violino, flauta, clarinete, trombone, contrabaixo e piano do veterano Edino Krieger. Além da beleza sonora e da força da densidade interna que esta obra proporcionou, ela foi construída pensando na relação entre as partes e o todo. A interpretação deu-nos a impressão de estarmos diante de debate entre amigos, onde cada pessoa podia exercer a cidadania da ética do discurso herdando assim a terra dessas palavras que eram compartilhadas e realçadas pelos demais participantes naquela roda viva e fraterna que apontava para a execução de todos formando assim uma majestosa massa sonora. Edino Krieger, apesar da idade avançada, é um guardião da lucidez e bom gosto. No aforismo 209 do livro HUMANO DEMASIADO HUMANO (volume I) de Friedrich Nietzsche escreveu:
“Alegria na velhice- O pensador ou artista que guardou o melhor de si em suas obras sente uma alegria quase maldosa, ao olhar seu corpo e seu espírito sendo alquebrados e destruídos pelo tempo, como se de um canto observasse um ladrão a arrombar seu cofre, sabendo que ele está vazio e que os tesouros estão salvos”. (NIETZSCHE, 2002, p. 141)
Após a louvação a coletividade idealizada por Krieger, o diretor do grupo convidou gentilmente a sua ex-professora de composição Marisa Rezende para subir ao palco e ali, ambos se sentaram em duas cadeiras num espaço visual que me lembrou o famoso confessionário do Big Brother Brasil, pois a luz frontal, focalizava os rostos escavando as subjetividades daquele ex aluno e ex professora. Marisa Rezende ficou muito feliz em saber que naquela noite estava diante de um de seus primeiros alunos fruto das primeiras turmas da disciplina composição na ESCOLA DE MÚSICA DA UFRJ. A felicidade daquela mulher estava assentada no sublime fato de que o Marcos cresceu e subiu vários degraus na escada da existência, e isso, caiu como um singelo, gratificante e divino presente. “Retribui-se mal a um professor quando se permanece “o discípulo”. (NIETZSCHE, 2005, p. 128).
Marisa de forma muito objetiva e panorâmica nos contou que em 1989 ela pediu apoio ao CNPQ para a formação e engajamento do grupo MÚSICA NOVA que tinha como objetivo executar e divulgar as peças dos alunos de composição e afins. Segundo ela, aqueles ensaios, concertos foram verdadeiros monumentos do tempo esculpidos em forma de debates, análises, reflexões teóricas, execuções de novas peças e intercâmbio de idéias entre várias pessoas que foram agentes portadores de criatividade emergente.
Segundo Edgar Morin em seu livro A HUMANIDADE DA HUMANIDADE:
“A criação nasce do encontro entre o caos genésico das profundezas psico-afetivas e a pequena chama da consciência. A criação é um jogo que se realiza a partir de uma aptidão organizadora (competência) que cataliza em mensagem, idéia, forma, tema musical o que era apenas tumulto, ruído, cacofonia”. (MORIN, 2005, p. 126)
Marisa Rezende ressaltou que naquele período de atuação do grupo MÚSICA NOVA os compositores e intérpretes, se debruçavam com afinco em prol da gênese e ampliação de novas idéias, rompendo dessa forma, com o mito da inspiração divina imediata que todo artista genial possui. No aforismo 155 do livro HUMANO DEMASIADO HUMANO, Nietzsche faz uma breve reflexão sobre “a crença na inspiração”. Segundo ele:
“Os artistas têm interesse em que se creia nas intuições repentinas, nas chamadas inspirações; como se a idéia da obra de arte, do poema, o pensamento fundamental de uma filosofia, caísse do céu como um raio de graça. Na verdade, a fantasia do bom artista ou pensador produz continuamente, sejam coisas boas, medíocres ou ruins, mas o seu julgamento, altamente aguçado e exercitado, rejeita, seleciona, combina; como vemos nas anotações de Beethoven, que aos poucos juntou as mais esplêndidas melodias e de certo modo as retirou de múltiplos esboços. [...] Todos os grandes foram grandes trabalhadores incansáveis não apenas no inventar, mas também no rejeitar, eleger, remodelar e ordenar. Ainda a inspiração – Quando a energia produtiva foi represada durante um certo tempo e impedida de fluir por algum obstáculo, ocorre enfim uma súbita efusão, como se houvesse uma inspiração imediata sem trabalho interior precedente, ou seja, um milagre. [...] O capital apenas se acumulou, não caiu do céu”. (NIETZSCHE, 2002, pp. 119-120)
Antes de finalizar a sucinta exposição aquela compositora e professora aposentada assinalou em rápidas palavras que peça que seria executada em seguida, foi denominada ENTREMEIO porque se balizou sobre uma linha mestre basilar que deu vida a novas linhas convergentes no processo de costura daquele tecido sonoro. Essa obra foi concebida e idealizada para clarineta, trompa e piano. Todas as linhas internas foram costuradas até o esgarçar máximo, chegando ao limiar entre a loucura e ternura da alma, no entanto, a sensibilidade, maturidade e o bom senso foram agentes de contenção. Uma compositora experiente sabe escutar as sábias palavras de Nietzsche: “Muitos escritores esticam tanto seus pensamentos que estes se tornam pesados demais”. Finalmente ENTREMEIO foi tocada [...] Amazing sound....very subláime. Clap, clap e mais claps.
Seguindo o mesmo fluxo estético sonoro proposto por Marisa Rezende, foi executado o TRIO, para clarineta, trompa e piano do neto compositor da família de som, Yahn Wagner.
O concerto se encerrou de forma muito simples e discreta, sem glamour e sem exibicionismos de egos faciais, porém, toda a formalidade foi carregada de espiritualidade interna e profissionalismo externo, pois bons artistas também são aqueles que provocam sorrisos discretos e às vezes, imperceptíveis a olho nu. Em cada gesto, em cada fala marcada pela economia dos detalhes, nos mostrou que “cada música surge de um sentimento de vida, de uma forma de vida que é produzido pelo sentimento e concepções de formas de vida”. (RIHM, WOLFGANG, 2010, p. 295, in: Der geschockt Komponist)
Encerro por aqui minhas palavras dando honra e parabenizando a todos os integrantes do grupo Cron dirigido por Marcos Nogueira, a Sala Cecília Meirelles sob a direção de João Guilherme Ripper, Ministério da Cultura, Governo do Estado do Rio de Janeiro, a iniciativa da SEC (Secretaria de Estado e Cultura), Petrobras, Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB Rio), Neder Nassaro, Marcos Lacerda e a grande Marisa Rezende (patrimônio-monumento vivo do ensino). Obrigado por nos proporcionar uma linda noite de sutis delírios de júbilo.

Fraternalmente e musicalmente
Joevan de Mattos Caitano

Referências Bibliográficas
ALVES, Rubem. A alegria de Ensinar. São Paulo: Ars Poetica Editora Ltda, 1994.
GRISEY, Gérard. Zur Entstehung des Klanges... In: Mit Nachdruck: Texte der Darmstädter Ferien Kurse. Rainer Nonnenmann (Hg.) Mainz: Schott Music GmbH & Co. KG, 2010.
MORIN, Edgar. O método 5. A humanidade da humanidade: a identidade humana. Tradução de Juremir Machado da Silva. Porto Alegre: Editora Sulina, 2005.
NIETZSCHE, Friedrich. Humano, Demasiado Humano. Um livro para Espíritos Livres. Volume I. Tradução, notas e posfácio de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
NIETZSCHE, Friedrich. Sabedoria Para Depois de Amanhã. Tradução: Karina Jannini. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
RIHM, Wolfgang. Der geschockte Komponist. In: Mit Nachdruck: Texte der Darmstädter Ferien Kurse. Rainer Nonnenmann (Hg.) Mainz: Schott Music GmbH & Co. KG, 2010.




“Cada Música tem seu valor; umas baseiam-se no aspecto mental, outras na energia motora, a terceira nos aspectos físicos, outras em reações (efeitos) emocionais, e outras é principalmente um produto puramente intelectual. Também na música contemporânea, encontramos todas essas categorias”. (GLOBOKAR, VINKO: Das Verhältnis Von Natur und Kultur als kompositorisches Problem, p. 49 – Livro: Mit Nachdruck: Texte der Darmstädter Ferienkurse für Neue Musik. Rainer Nonnenmann (Hg.), 2010)

Ontem cheguei cedo ao CCBB Rio para a continuação de minhas pesquisas cinematográficas que venho realizando em forma de hobby Cult naquele acervo suntuoso e monstruoso, naquele espaço mágico onde reinam a imagens-tempos e imagens-movimentos. Antes de entrar na salinha escurinha para efetuar minhas masturbações óticas cinefilianas, corri até o balcão para comprar o ingresso para o espetáculo do grupo de música contemporânea de concerto conhecido como ABSTRAI ENSEMBLE.
Ao entrar no teatro II, quem repentinamente aparece e senta do meu lado é o professor e compositor Marcos Lucas. O concerto começou com o diretor do grupo, Paulo Dantas falando algo muito compacto sobre a equipe e a proposta do trabalho. Essa abertura informal é importante para criar interesse no público. Segundo o compositor francês Vinko Globokar: “a fim de alcançar uma comunicação clara com os ouvintes, é necessário primeiro criar condições necessárias no palco” (GLOBOKAR, 2010, p. 50). Em seguida, Pauxy Gentil Nunes foi convidado a esclarecer aspectos técnicos sobre a sua composição Trio (2011) para saxofone, percussão e guitarra. Pauxy, docemente e claramente relatou de forma muito didática e coerente a respeito das fontes inspiradoras e excitadoras da imaginação criativa, bem como, assinalou as fontes que ele utilizou como recursos para o desenvolvimento construtivo da mesma como por exemplo: os batuques dos 3 tambores do jongo mesclado com algumas técnicas usadas por Messiaen e outros. A peça foi dedicada aos músicos Pedro Sá, Pedro Bittencourt e Marcos Campello que em seguida executaram o presente.
Depois foi a vez de Daniel Puig ser “intimado” a se explicar sobre a sua peça homônima ABSTRAI, composta especialmente para o grupo. Puig é cria de Hans-Joachim Koellreutter, portanto, adora o uso de música que envolva o elemento da improvisação como fundamento chave. Sabiamente, ele explicou que a peça fazia uso da partitura gráfica, apesar de todas as partituras serem gráficas, porém, partitura gráfica nesse contexto, significa que é uma partitura que foge aos padrões de partituras convencionais. Ele continuou ressaltando que era uma obra aberta, pois podia ser executada por qualquer instrumento e qualquer formação, porém, era fechada, pois havia uma delimitação clara sobre o que exatamente os músicos deveriam fazer durante o ato de criação\execução\improvisação. Puig ressaltou que a peça proporcionaria afetabilidades dos interpretes com a partitura, da partitura com os intérpretes, da partitura com a luz que alteraria as percepções e do compositor com o todo, pois nesse tipo de concepção elaborativa, tudo se converge, tudo se mistura e se confunde. Quando os músicos se posicionaram para tocar, as luzes se apagaram sutilmente, ficando apenas um foco luminoso sobre os intérpretes. O efeito visual provocado pelos Lucíferes da teatralidade deu-nos a impressão de um ritual que mostrava uma cantora (Doriana Mendes) comemorando seu aniversário rodeado de músicos que auxiliavam na tentativa de apagamento da vela incandescente enquanto todos rodopiavam incessantemente e programaticamente em torno daquele tambor mágico em forma de mesa redonda sem debates. Não sei se ali era o paraíso ou o infernismo, só sei que minha memória involuntária me levou ao texto bíblico aonde assinala que naquele local sinistro, o fogo nunca se apaga e o bicho nunca morre. Depois de tanto rodearem aquele bolo em forma de partitura, após, cortarem fatias em forma de tira e re-coloca de partes, aquela música cessou bruscamente como uma morte instantânea. Oscar Niemeyer está certo ao dizer: “a vida é um sopro”.
Na terceira peça, Pauxy foi mencionado novamente como compositor e foi esclarecido que a composição Galáxias I (2005\2009) foi uma peça baseada num poema gigantesco de Aroldo de Campos, escrito originalmente para uma formação diferente e estreado na Bienal de Música em 2005, no entanto, a peça sofreu mutações, por isso, foi adaptada e direcionada ao grupo ABSTRAI ENSEMBLE. Linda peça de Pauxy, um mestre da tapeçaria sonora, pois ele costura cada nota para criar um lindo e exuberante tecido musical.
A quarta peça se chamou Música para velas e água – Alterar (2011) do compositor e colega Marcos Campello. Mestre Campello, ordenou que descesse um telão, pois a execução dessa peça exigia o auxílio da imagem movimento. Em forma de cinema musical, Campellito obrigou amorosamente os expectadores a acompanhar uma partitura em formato de manchas, nos fazendo pensar em re-adaptações cinematográficas como: trono manchado de notas. Akira Kurosawa adoraria ver aquela tela estimulante para músicos com poder de criação instantânea como: Pauxy (flauta), Paulo Dantas (guitarra) e Campello e seu baixo roncante (quase Ron Carter). Ouvi algumas pessoas dizendo discretamente: “não entendi nada nessa música”. Para se compreender essa peça em forma de cores e sons, é necessário acionar a visão, pois há que se escutar com os olhos ao invés dos ouvidos. Nas palavras de Miles Davis: “a partitura é a pintura dos sons”.
Para encerrar o concerto, Pedro Bittencourt convidou seu parceiro Paulo Dantas para elucidar sobre a composição de sua autoria denominada Ab (2011). Ab é um partícula usada na língua alemã que significa a partir de...Segundo Prof. Dantas, essa composição foi fruto de uma visita pessoal a cada arquivo vivo humano demasiado humano pertencente ao grupo ABSTRAI. A partir desses encontros e trocas de experiências musicais e afetivas, ele aglutinou matérias e idéias que o impulsionou à construção do todo, através de da costura dos fragmentos. Penso que o jovem Dantas se inspirou nas sábias palavras do guru Edgar Morin:
“... eu era movido por aquilo que o tao chama de espírito do vale, “que recebe todas as águas que afluem a ele”. Mas não me vejo como um vale majestoso; vejo-me, antes, como uma abelha que se inebriou de tanto colher o mel de mil flores, para fazer dos diversos polens um único mel”. (EDGAR MORIN, 1997, Livro Meus Demônios).
A peça Ab foi executada por todos os músicos num ato de fraternidade e demonstração viva e intensiva da coletividade. Nesta composição final, Paulo Dantas como líder da equipe, nos mostrou que o mais importante para o sucesso de uma realização profissional é ter em mãos um conjunto de músicos coesos, bem entrosados e super amigáveis, pois a sonoridade não é algo abstrato e sem relações humanas, mas a sonoridade Abstraiana é fruto de uma família de som, onde todos os integrantes ceiam juntos na mesma mesa onde emana pão e música. Esse tipo de participação coletiva numa peça conclusiva nos dá a entender, que a música é como uma estrutura de ponte conectiva, porque ela une o que aparentemente estava separado. Dessa forma, Dantas e sua amiga(Ab) entendem que o global é mais que o contexto; é o conjunto das diversas partes ligadas a ele de modo inter-retroativo ou organizacional. O todo tem qualidades ou propriedades que não são encontradas nas partes, se estas estiverem isoladas umas das outras, e certas qualidades ou propriedades das partes podem ser inibidas pelas restrições provenientes do todo. Marcel Mauss dizia: “É preciso recompor o todo.” É preciso efetivamente recompor o todo para conhecer as partes. Daí se tem a virtude cognitiva do princípio de Pascal, no qual a denominação batista deverá se inspirar: “sendo todas as coisas causadas e causadoras, ajudadas ou ajudantes, mediatas e imediatas, e sustentando-se todas por um elo natural e insensível que une as mais distantes e as mais diferentes, considero ser impossível conhecer as partes sem conhecer o todo, tampouco conhecer o todo sem conhecer particularmente as partes”.
Parabéns a todos os músicos intérpretes que de forma muito simples, profissional e aconchegante, nos proporcionaram uma noite de singeleza musical. Essa amabilidade em forma de arte foi experienciada por mim quando desci de elevador e ouvi uma mulher perguntando para uma velhinha: “A senhora gostou do concerto”¿ Ela respondeu: “Amei e adorei, apesar de não ter entendido nada dessas músicas esquisitas. Mas gostei porque meu netinho está tocando no grupo”. Realmente, ver aqueles músicos entrando e saindo, saindo e entrando, trocando de formações num mesmo concerto é um exercício para os olhos e ouvidos. Um verdadeiro ostinato movente.
A cena mais marcante foi quando vi o Pedro Bittencourt super sorridente, descer do palco e circular por entre os convidados cumprimentando as pessoas e de forma muito informal, intimou as pessoas a fazerem qualquer pergunta, pois ali era um espaço interativo de ensino e aprendizagem. Esta postura brilhante do líder Bittencourt, destruiu a dicotomia que existe entre músicos na plataforma e convidados na platéia, fazendo com que Jean Pierre Caron (nosso embaixador carioca em terras paulistanas-USPianas e parisianas) e outros levantassem relevantes questões sobre os textos usados pelos compositores e intérpretes. Caron curiosamente garimpou retoricamente aquele campo que ficou um pouco obscuro durante o concerto. Pequenas, objetivas e boas perguntas = campo aberto de possibilidades para GRANDES E CONVINCENTES RESPOSTAS.
Congratulations para: Doriana Mendes, Pauxy Gentil-Nunes, Pedro Bittencourt, Marcos Campello, Kátia Baloussier, Larissa Coutrim, Pedro Sá, Daniel Serale, Paulo Dantas, Daniel Puig, Magno Caliman, SEC (Secretaria de Estado e Cultura), CCBB RIO, Sala Cecília Meirelles dirigido por João Guilherme Ripper e outros.
Fraternalmente e musicalmente
Joevan de Mattos Caitano (Joeblackvan)
www.joevancaitano.blogspot.com
http://www.myspace.com/joevancaitano

Léo e Vanessa: Uma Louvação ministerial em forma de Cadupla em Música.




“Daí honra a quem merece honra” (Jesus Cristo)
“Sendo todas as coisas causadas e causadoras, ajudadas ou ajudantes, mediatas e imediatas, e sustentando-se todas por um elo natural e insensível que une as mais distantes e as mais diferentes, considero ser impossível conhecer as partes sem conhecer o todo, tampouco conhecer o todo sem conhecer particularmente as partes”. (Blaise Pascal, citado por Edgar Morin)
“O essencial na vida é sobreviver e manter firme a paixão” (Pedro Almodóvar)

No início de 2000, eu ingressei no curso de Música Sacra na FABAT, e em minha turma havia uma guria de pequena estatura, com cabelos longos e que tocava violino. Um fluxo de ventania existencial levou subitamente a Vanessinha para Curitiba. Posteriormente, quando ela retornou, descobri que ela já estava afetivamente nos braços do Léo. Foi uma notícia surpreendente, porém, acalentadora de minhas positivas expectativas.
No mesmo ano de 2000, ainda calouro e “bicho do mato” na selva carioca, fui por acaso assistir um concerto de formatura do violoncelista Saulo de Almeida acompanhado pela grande pianista Priscila Bonfim. Quando acabou aquele suntuoso espetáculo sonoro na UNIRIO, eu e alguns colegas voltamos de carona num humilde e singelo Fiat vermelho. Enquanto eu me deslumbrava vendo a enseada de Botafogo, o Pão de Açúcar com óticas noturnas, eu ouvia aquele jovem motorista falando entusiasmaticamente sobre suas aulas de teclado e piano com professores particulares e no Conservatório Brasileiro de Música. Posteriormente, em Abril de 2002, aquele jovem de óculos compareceu como expectador e apreciador do primeiro evento musical dirigido por mim, contendo composições de minha autoria. O evento na FABAT chamou-se A LUZ NO FIM DO TÚNEL. Quando acabou aquele mini concerto, o tal jovem “oculista” me abraçou, me parabenizou e disse: Joe! Adorei tudo que ouvi. Conte comigo se precisar de um tecladista. No mês seguinte, o MM Ednardo Monti me ligou convidando meu grupo para se apresentarem numa quarta feira na PIB da Barra. Diogo Rebel era meu pianista oficial e na semana daquele concerto não pude contar com o naipe de cordas, então convidei o Léo para fazer cordas usando o teclado. O Léo tocou e gostou e eu ouvi e gostei do jeito do Léo e dali prá frente nunca mais o Léo ficou de fora.
Em 2003 lá estava Léo liderando o ensaio do instrumental para o musical A REVOLUÇÃO. Em 2004 estava o Léo ensaiando com a banda pro RIO BRASIL BRASILEIRO. Em 2005 Léo ralou na preparação do grupo para apresentações e workshop no Louvação e musical DE OUTRO MUNDO EU SOU. Em 2006 lá estava Léo preparando nos bastidores o repertório para o polêmico show BÁIONSAMBAJAZZ e afins.
Em 2003, a convite do Pedrão e direção do OPÇÃO JOVEM, fui convidado a levar o coro Jovem da PIB COPA para se apresentar na rudimentar CBRIO em fase de gestação na UNION CHURCH. Quem estava tocando e segurando as pontas no teclado enquanto eu regia o grupo? Léo Gomes. Quem tocou nas cantatas de natal entre 2005 e 2006, dissecando altas harmonias ainda na minha gestão na CBRIo? Léo Gomes. Quem esteve tocando no meu workshop na AMBC em 2005 ? Léo Gomes. Quem andou segurando as pontas do louvor nos encontros da AMBB ultimamente ? Eles, sempre eles…Léo Gomes, Vanessinha e companhia.
No final de 2005, o Léo apareceu repentinamente num daqueles cultos apertados no auditório do Shoping Mdtown e participou tocando. Ficou inebriado e empolgado com a freneticidade e afetividade do ambiente e relatou nos bastidores joianos que tinha enorme vontade de um dia vir atuar naquela comunidade animada de fé. Era uma fase de transição, pois precisávamos migrar para um espaço maior, visto que, aquele pequeno espaço crescia por dentro, pois a nossa fraternidade criava elasticidade interna nas paredes que iam suportando aquela onda receptiva de novos fluxos corporais que se aconchegavam naquele cantinho movido a violões (Fernandinho, Marcelo Du, AndréVioli e companhia). O tempo de cantar chegou, e finalmente nos mudamos para o ancestrálico teatro do shoping Open Mall, pois aquele ambiente era constituído de paredes com pinturas enigmáticas invisíveis e de poeira incessante. Pedro (Pedrão) e os demais apóstolos e discípulos levantaram a pedra angular e tudo se fez novo naquele espaço onde atualmente emana gente e música.
No final de 2006, por motivos de foco acadêmico, Joe deixou sutilmente aquele espaço eclesiástico e seguiu a vida vagando loucamente (como sempre). Daniel Batera, sabiamente, ao ver aquele oásis espacial de possibilidades sonoras afetivas administrativas, recomenda a efetuação do convite ao jovem Léo Gomes, ainda noivo de Vanessa. Em seguida, ambos se casaram glamourosamente e começaram atuar com toda a intensidade da alma em prol da ampliação musical daqueles músicos voluntários que ali se faziam presentes. O engajamento de Léo e Vanessa é visto no resultado final das apresentações do coro em cantatas de Natal e outras programações, celebrações com vocal\banda e orquestra, bem como durante o processo preparativo, pois cada ensaio é um campo aberto de possibilidades no âmbito da aprendizagem, da afetividade\fraternidade e do exercício intenso e profundo da espiritualidade.
Em toda a jornada ministerial, Léo e Vanessa nos mostraram discretamente que o caminho se faz caminhando. Nas palavras de Paulo Freire, é preciso começar onde as pessoas estão e então, a partir dali, deve-se caminhar com elas. O trajeto que Léo trilhou, exigiu dele dedicação e visão além das problemáticas e complicações do instante, por isso ele se debruçou sabiamente e profissionalmente na confecção e organização de um livro de partitura (melodia e cifra) de mais de 100 cânticos que eram usados frequentemente durante as celebrações litúrgicas. Organização e versatilidade são dois elementos facilitadores que proporcionam segurança litúrgica, evitando assim, o desperdício de tempo e aberrações biológicas num momento de prováveis instabilidades existenciais.
Um dos pontos forte da cadupla Léo e Vanessa é o poder de aglutinação que eles possuem, pois ambos conseguem arregimentar diversas pessoas para uma determinada partida sonora\litúrgica. Foi assim na cerimônia de casamento. Foi assim nas cantatas e comemorações de aniversário da CBRIO; foi assim no culto de despedida em 31\07\2011, pois numa noite ontológica, muitos instrumentistas e cantores se revezaram no palco louvando ao Sagrado e homenageando de forma sutil o amado casal que durante 4 anos e meio lançou o pão sobre as águas rejuvenescedoras em meio as barras e barragens da vida. Sem dúvida, o talento de um grande arregimentador, é convocar as pessoas certas para os contextos musicais certos.
A presença de Deus foi e é visualizada durante as ministrações verbais de Vanessa, pois com sua voz estilisticamente pastoral ela comunica de forma simples e didática os mistérios do Reino de Deus. Segundo o teólogo Leonardo Boff, “Deus é identificado com os conceitos que dele fazemos. Ele habita nossos conceitos e nossas linguagens”. Léo e Vanessa resplandeciam a luminosidade divina nas coisas simples da vida, pois nessas horas é que Deus falava e ainda fala conosco em nossa língua materna. Como dizia o Apóstolo São Paulo à comunidade de fé em Corinto: “Quer comamos, quer bebamos, quer façamos qualquer coisa, que seja feito tudo para a glória de Deus”. Exemplifico isso ao dizer que Léo e Vanessa sempre adoraram celebrar a fraternidade junto com os amigos nas pizzarias e churrascarias da vida, pois nesses momentos havia plenitude de alegria. Nas palavras de Leonardo Boff: “Quem experimentou o mistério de Deus não pergunta mais: vive simplesmente a transparência de todas as coisas e celebra o advento de Deus em cada situação, pois a experiência com Deus é uma experiência total que inclui o saber, o não-saber e o sabor”.
Nossa existência é constituída de rituais de passagem, por isso, acredito que a passagem fulgurante e significante de Léo e Vanessa na CBRIO foi um marco vital para aquela comunidade de fé e um período de ensino aprendizagem, pois ali ambos puderam exercitar a experiência, pois na experiência, teoria e práxis se casam e vivem juntas numa unidade fundamental. A teoria não é mais abstração e idéia vazia. Ela é explicitação da práxis e a comunicação dela. Léo e Vanessa ao abraçarem a experiência, procuraram compreender a CBRIO por todos os lados, por isso, eles precisaram “estar orientado para fora”, “exposto a”, “aberto para”.
Biologicamente, pelo fato de serem humano demasiado humano Léo e Vanessa são seres-carência e dotados de desejos e inquietudes que o impulsionam a sair da comodidade e normalidade, rumo a novos ambientes. Por isso, ambos estarão migrando para Vila Velha na grande Vitória para exercerem cargo de liderança musical. Aquela comunidade fé ao empossarem essa magnífica cadupla, irá dizer: As coisas velhas já passaram e eis que tudo se fez novo.
Léo e Vanessa deixaram a Comunidade Batista do Rio situada na Barra da Tijuca (com aproximadamente 1000 membros) com a sensação de missão cumprida. Num bate papo pelo chat no facebook, o jovem baterista e multi-instrumentista Pedro Ikeda Takeschi (Pepe), disse que o tal casal foi extremamente profissional, amigável, competente e vai deixar a casa arrumada para os sucessores David Sicon e Black Vanderlei. Em homenagem ao grande empenho aquele espaço litúrgico, Léo e Vanessa receberam um singelo presente em forma de livro autografado. Na dedicatória constava a promessa de que aquelas páginas se converteriam em laudas de ouro nas estantes bibliotecáticas do mundo metafísico, com probabilidades de tal obra ser citada como nota de rodapé no LIVRO DA VIDA, pois a mensagem cristã é clara: Não devemos acumular riquezas na terra onde as traças destroem e os ladrões roubam, mas precisamos criar expectativas no céu, pois lá não haverá olho grande.
Léo e Vanessa é o relato de uma vocação, frutos da história de uma aprendizagem na estrada da vida. Ambos nos mostram que “experimentar Deus não é apenas pensar sobre Deus, mas senti-lo com a totalidade do ser e isto implica falar de Deus junto com os outros objetivando tirar o mistério do universo do anonimato para conferi-lhe um nome: o de nossa reverência e de nosso afeto” (Leonardo Boff). Através do trabalho desses servos da força sonora, podemos ver que Deus perpassa todas as instâncias temporais, por isso, Ele pode ser percebido e experimentado nas mais diferentes situações da existência e em cada detalhe pessoal e comunitário. Em Leo e Vanessa podemos ver que:
“O Reino de Deus não é nada que se espere; não possui ontem nem depois de amanhã e não virá em mil anos – o Reino de Deus é uma experiência de um coração e está em toda parte e em nenhum lugar”. (Friedrich Nietzsche)
Como estimulante ao serviço ministerial e existencial, recomendo a leitura deste lindo poema ECONOMIA do poeta Giuseppe Ghiaroni, citado por Jonas Rezende em um de seus livros.
Dá de ti, dá de ti quanto puderes:
o talento, a energia, o coração.
Dá de ti para os homens e as mulheres como as arvores dão e as fontes dão.
Nao somente os sapatos que nao queres ou a capa que não usas no verão.
Darás tudo o que fores ou tiveres: o talento, a energia, o coração.
Daras sem refletir, sem ser notado, de modo que ninguém diga obrigado nem te deva dinheiro ou gratidão.
E com que espanto notarás um dia que viveste fazendo economia de talento, energia e coracão.

Abraços Partidos e sucessos na nova etapa meus (nossos) amigos mais que irmãos (Léo e Vanessa). O importante é que emoções eu vi cantou cadupla (e nós também).
Joe Almodóvar (Joevan de Mattos Caitano).

A PARÁBOLA DO SERVO AFRO-CÍNICO\ CÍNICO-AFRO



Jesus, de forma didática, exibiu um filme chamado AS IDAS E VINDAS DO AMOR. Após curta exibição cinematográfica, ele começou a recitar uma história muito inquietante.
Um jovem senhor foi pregar e cantar na igreja a convite do colega, porém, ao ver o seu amigo amando cautelosamente uma musa, ficou de olho grande (olho gordo) ao ver tanta beleza alheia e cobiçou a diva do colega. Utilizando uma manobra estratégica no aconselhamento pastoral, ele queimou malandramente seu parceiro para a amada, alegando que tal ato, era em nome da dignidade, espiritualidade e da sustentabilidade ministerial. Tal ato munido de intencionalidade afetiva rompeu a aliança entre as duas partes e os estilhaços messiânicos começaram a clamar em nome da manipulação no presente. O fluxo do tempo foi dinâmico e a marcha lenta foi apontando os desvios e recursos no desenvolvimento da engrenagem afetiva, porque como dizia minha mãe: A MENTIRA TEM PERNAS CURTAS.
As separações geográficas e sagacidades com persona de santidade foram condição de possibilidade para novos encontros e interações afetivas. Dizem as “más” línguas, que no sul o sol amoroso brilha democraticamente à luz do dia, porém, em terras de Noel, tudo costuma ficar nos bastidores escuros, porque há um leão lá fora com HD de dinossauro.
Daí Lucas falou: Eh, tu lembra daquele dia que ele inventou de levar uma tradutora para a capela dos profetas ? Aham...Vimos vultos lá trás no escurinho agarradinho minutos antes dos procedimentos lingüísticos. É, eles deviam estar treinando jogos de língua espirituais. André falou: Você lembra aquela vez que ele ficou dando uma de traçador se relacionando nos bastidores com a musa do “amigo” ? Ih...esse caso é hilário e lamentável...por isso é que ele gostava de cantar jobinianamente: “Lúcio, arranjei novo amor no Leblon que pele branquinha (...)”. Falaram que ele andou ligando desesperadamente para o amigo prejudicado pedindo para abafar o caso entre os discentes e ameaçando telefonicamente levar documentos a polícia, pois ele temeu perder o posto profissional. Aham....confirmou Judas Isca de Bode.
Thiago ainda questionou: Mas porque ele fez isso ? É porque ele fez uma viagem ao paraíso epistêmico, mas por motivo de força mainor ou meior, ele optou por deixar a sua amada entregue as baratas e animais famintos. Quando ele voltou, ele perdeu tudo que tinha afetivamente. Então, ele entrou nessa armadilha afetiva sobrevivendo discretamente. Mas, agora ele está disposto a vender tudo que tem para retornar ao mesmo paraíso levando consigo a dama proibida.
Mateus sacano, ainda comentou: É, a mulher foi embora, mas ele não agüentou e foi atrás, pois quer reatar na cara e na coragem aquela relação marcada pelo desejo e perigo. Lucas ficou grilado e disse: Aaaahhh! Por isso que eu sempre perguntei a ele, o porque, dele não assumir a relação depois de tanto tempo sobrevivendo nos cantinhos afetuosos e tortuosos, mas ele argumentava que precisava conhecer melhor as pessoas. Aham....Daí Salomão pediu a palavra e falou: “Você lembra aquela vez que meu irmão afro perguntou a ele sobre esse rolo ?” Aham, mas ele disse que namorava uma de Niterói. Poucas semanas depois, num outro confronto, ele disse que namorava uma de Paris. Num terceiro confronto mais íntimo e mais seguro, ele assinalou ao amigo-inimigo que namorava uma “gaúcha”. Então Davi e Salomão disseram que tal servo afro precisava ler Fernando Pessoa para dominar a técnica e sutileza de Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Alvaro de Campos. Faltou nele a sutileza e a grandeza de um Poeta. Faltou HETERONICIDADE NA AFETIVIDADE.
Tomé duvidoso ainda alertou: “Certa vez, esse sujeito resolveu as pressas lançar um CD, mas ele malandramente não comunicou aquela comunidade de fé, que tudo aquilo não passava de um lançamento de surubas, esfirras e melões, porque nessas horas de intenso jogo de interesse, o que importa é ter uma IGREJA DE ESPERANÇA.
E agora José ? Judas falou que ele foi pisar com pés descalços na Terra de Noel e furou o pé. Agora entrou na Toca de Ipanema, mas o tatu tem se move via satélite vendo tanto cinismo espiritual em pleno retiro espiritual.
Jesus terminou a parábola dizendo: “Meus filhinhos! Quando tiveres uma boa quantia de dinheiro e uma boa buceta, guarde no cantinho do paraíso, porque há traças e ladrões nas estradas e curvas da vida”. Ele ainda deu uma palhinha ao falar sobre os falsos profetas, mas Tomé e Judas pediram a palavra e disseram que na pós-modernidade, devemos ter cuidado com os falsos patetas, porque esses costumam beijar o rosto do mestre para enfraquecer o mestre. Pedro ainda zuou dizendo: “Eh! O problema é que o mestre é um grande leitor de Foucault e sabe que tal sacanagem implicou em relações de desejo, poder e perigo”.
Daí Tiago e Mateus recomendaram a exibição do curta metragem "PEITÕES PARA O PLANETA", porque segundo eles, a montagem e filmagem, foi feita nos bastidores em off, as custas do sofrimento depressivo da alma dilacerada alheia.
Tem coisas que nem Freud explica talvez a teologia afro explique tais acontecimentos.
Na nota de rodapé, discretamente o tradutor colocou a pequena frase apócrifa dita por Jesus muito pau da vida: SACANEAR O AMIGO PARA TIRAR PROVEITO E FICAR EM VANTAGEM E DEPOIS SE ENVOLVER COM A MULHER, É PURA DESONESTIDADE, POIS TIRA-SE O AMIGO DA JOGADA COMO DAVI TIROU URIAS NO CASO BATESABÊ.
Imagino a cara de fúria dos nossos deuses germânicos hamburguenses, descortinados com tamanha cara-de-pau em terra brasilis. Es tut mir leid, aber (...) viele Probleme auf den Weg. Dizem que Jesus foi orar no momento muito cabisbaixo, certo de que até o monte se tornaria monte negro.
Não se deve jamais brincar com lucidez de um Lúcifer finalizou Joesus.

Caim e Cristo como signos do Masoquismo em Gilles Deleuze.

Os dois grandes personagens masculinos na obra de Masoch são Caim e Cristo. O signo dos dois é o mesmo, o signo pelo qual Caim estava marcado já era o sinal da cruz, que se escrevia “x” ou “+”. Ao colocar grande parte da sua obra sob o signo de Caim, Masoch implica muitas coisas: o crime, sempre presente na natureza e na história; a imens


idão dos sofrimentos (“minha punição é grande demais para ser suportada”). Mas Caim é também o agricultor, o preferido da mãe. Eva saudou seu nascimento com gritos de alegria, mas não teve alegria por Abel, o pastor, colocado do lado do pai. O preferido da mãe chegou ao crime para romper a aliança do pai com o outro filho: ele matou a semelhança do pai e tornou Eva a deusa-mãe. (Hermann Hesse escreveu um curioso romance, Demian, onde se misturam os temas nietzschianos e masoquistas: aparece a identificação da deusa-mãe com Eva, gigante que tem na testa a marca de Caim.) Não é apenas pelos tormentos que sofreu que Caim é tão querido por Masoch, mas também pelo crime cometido. Seu crime não apresenta símbolo sadomasoquista algum. Ele pertence inteiramente ao mundo masoquista, pelo projeto que sustenta, a fidelidade ao mundo materno que o inspira, a eleição da mãe oral e a exclusão do pai, o humor e a provocação. Seu “legado” é um “signo”. Que Caim seja punido pelo Pai marca a volta ofensiva deste último, sua volta alucinatória. Fim do primeiro episódio. Segundo episódio: Cristo. A semelhança do pai é novamente abolida (“Por que me abandonastes¿”). E é a Mãe que põe o Filho na cruz. É a virgem que, pessoalmente, põe Cristo na cruz – contribuição masoquista para a fantasia mariana, versão masoquista de “Deus morreu”. E colocando-o na cruz, num signo que o liga ao filho de Eva, ela dá prosseguimento à tarefa da deusa-mãe, da grande Mãe-oral: assegura ao filho uma ressurreição como segundo nascimento partenogenético. Não é tanto o Filho que morre, mas sim Deus Pai, a semelhança do pai no filho. A cruz representa aqui a imagem materna de morte, o espelho onde o eu narcísico de Cristo (= Caim) apercebe-se do eu ideal (Cristo ressuscitado). (...)
A mãe de Deus coloca seu filho na cruz precisamente para que ele se torne seu filho e goze de um nascimento que se deve apenas a ela. (...) Tornar-se um homem significa então renascer da mulher apenas, ser objeto de um segundo nascimento. (...)
O masoquista atua simultaneamente em três processos de denegação: um que magnífica a mãe, emprestando-lhe o falo próprio para fazê-lo renascer; outro que exclui o pai como não tendo função alguma nesse segundo nascimento; e outro ainda que incide propriamente no prazer sexual, interrompendo-o e abolindo a genitalidade para transformá-lo em prazer de renascer. De Caim a Cristo, Masoch exprime o fim último de toda a sua obra: Cristo não como filho de Deus, mas como o novo Homem, isto é, com a semelhança do pai abolida, “o Homem na cruz, sem amor sexual, sem propriedade, sem pátria, sem disputas, sem trabalho...”

(DELEUZE, Gilles. SACHER-MASOCH: o frio e o cruel. Tradução: Jorge Bastos. Revisão Técnica: Roberto Machado. Rio de Janeiro: Zahar, 2009, p. 95-99)


“Hitchock inventava histórias para poder filmar certo tipos de cenas” (Zizek-filósofo esloveno).

Um dia desses sonhei que devido às circunstâncias aleatórias da vida, eu dançava na beira do abismo olhando para o alvo que é Cristo, no entanto, num ataque de ousadia olhei para baixo e quase fui engolido pela força da gravidade, mas minha fé lutou contra aquela força cósmica me fazendo cair para cima. Naqueles momentos de buraco negro da alma, minha memória involuntária me fez cantar “segura na mão de Deus, segura na mão de Deus, pois ela, ela te sustentará”.
Não sei, porque sonhei com isso, mas só sei que ta rolando uma mostra dos filmes de Hitchcock no CCBB Rio. Lembrei-me do filme O Guia Pervertido do Cinema do filósofo e cinéfilo Slvoj Zizek, pois em seus comentários sobre os filmes de Alfred Hitchcock, ele faz referências ao motivo que Freud chamou de “Niederkom-menlassen (deixar-se cair)”, com todas as suas conotações de queda suicida melancólica. Usando esse motivo, Hitchcock mostra uma pessoa que se agarra desesperadamente à mão de outra: o sabotador nazista que se agarra à mão que o bom herói norte-americano lhe estende do alto da tocha da Estátua da Liberdade no filme Sabotador; na confrontação final do filme Janela Indiscreta, o fisicamente diminuído ator James Stewart, pendurado na janela, que tenta agarrar a mão de seu perseguidor, o qual, em vez de ajudá-lo, esforça-se para fazê-lo cair; em O homem que sabia demais, no mercado ensolarado de Casablanca, o agente ocidental, moribundo, vestido de árabe, que estende a mão para o inocente turista norte-americano (James Stewart) e o puxa para si; o ladrão, finalmente desmascarado, que se agarra à mão de Cary Grant em Ladrão de casaca; James Stewart, que se segura à chaminé do telhado e tenta desesperadamente alcançar a mão que o policial lhe estende logo no início de Um corpo que cai; Eva Marie-Saint, que se agarra à mão de Cary Grant à beira do precipício (logo seguido do plano em que ela se agarra à mão dele no beliche do vagão dormitório no final de intriga internacional). Os filmes de Hitchcock estão cheios desses motivos. Há o motivo de um carro à beira do precipício em Suspeita e Intriga Internacional – nesses dois filmes, há uma cena em que o mesmo autor (Cary Grant) conduz um carro que se aproxima perigosamente de um precipício; embora os filmes estejam separados por quase vinte anos, a cena é filmada da mesma maneira, incluindo um plano subjetivo do ator quando lança um olhar para o precipício. No último filme de Hitchcock, Trama macabra, esse motivo assume a forma de uma longa sequência do carro cujos freios foram sabotados por bandidos e que desce a encosta a toda a velocidade.
Esse motivo hitchcockiano é encontrado na cena quando Jesus encontra e filma o endemoniado gadareno. No roteiro, Jesus malandramente propõe aquele grupo de demônios que migrassem daquele corpo inerte e desconfortável para uma manada de porcos, com a garantia de que haveria mais comodidade e mobilidade para todos, pois na casa de meu Pai, há muitas moradas disse aquele Rabi. Jesus, estrategicamente, retira os freios daqueles animaizinhos velozes e convida os capetinhas para uma viagem ao desconhecido. Diz a narrativa bíblica que aqueles porcos aceleraram rumo ao abismo levando consigo outros corpos. Outra narrativa mostra Jesus suado e cansado sobre o pináculo do templo que foi construído no cume de uma montanha elevada. O diabo se aproximou de Jesus e pediu-o que olhasse fitamente para baixo. Jesus esticou o pescoço com a elasticidade de uma girafa, arregalou o olhão, se arrepiou por completo e tremeu na base, porém o Diabo sacano disse: “Se você se atirar rumo ao asfalto, darei ordens aos meus anjos da guarda que te escoltem com páraquedas nos ares. Quando aterrizares, lhe darei as glórias deste mundo. Que tal? É pegar ou largar” Jesus olhou olho no olho e dente por dente diante da face de satã e respondeu: “Uma parte de mim tem medo e outra parte de mim é cética, além disso, o meu cou (cu) pisca e elasticiza com lucidez”. E o diabo foi embora sem entender nada achando que o Messias era viado, porque não sabia francês, porque le cou (pronucia-se cu) é PESCOÇO na língua francesa.

Abraços e suspenses.
Joeblackvan





“A arte da adaptação fílmica consiste, em parte, na escolha de quais convenções de gênero são transponíveis para o novo meio, e quais precisam ser descartadas, suplementadas, transcodificadas ou substituídas”. (Robert Stam em A LITERATURA ATRAVÉS DO CINEMA. Realismo, magia e a arte da adaptação. Belo Horizonte: UFMG, 2008)

Há muuuuuuito tempo atrás nasceu uma criança cheia de saúde e dotada de vida. Herodes que era o Rei daquela província ficou hiper preocupado com os relatos do nascimento do menino do sorriso de ouro e atiçou seu desconfiômetro ao ouvir as notícias mais estranhas sobre o guri do rebuliço de Belém. Esse episódio nos remete ao filme “O Dia em que a Terra parou” no qual mostra o momento em que alienígenas pousam numa cidade excitando uma muvuca geral. O exército e a aeronáutica se mobilizaram para recepcionar aqueles seres incógnitos e talvez, perigosos. Numa tomada súbita, a câmera mostra o movimento de aproximação afetiva simultânea entre uma mulher e um alienígena, entretanto, no momento exato em que ambos iam estender as mãos, um dos policiais se precipita e atira naquele ser desconhecido. Nós tememos o outro desconhecido, e agimos por extinto defensivo em situações arriscadas. Herodes fez o mesmo, e tentou matar aquele menino que veio de outro mundo, chamado príncipe da paz. Ele pensou: “Se nenenzinho ele já é chamado de príncipe da Paz, quando ele virar adulto vai mandar e desmandar e ainda adestrará a mim e os meus. Espada nele já!
Quando ele completou 12 anos, ele foi levado ao templo de Jerusalém. Os pais (Maria e José) eram crias da catequese e da teologia confessionalíssima e ouviam com ingênua passividade aquelas maquiagens retóricas emitidas pelas bocas da máfia sacerdotálica. Jesus Cristinho era novinho, mas não era bobo nenhum pouquinho, porque nas horas vagas entre a carpintaria, a escola e os joguinhos manuais do “kamasutra kid”, ele lia Nietzsche - versão infantil adaptada com aforismos em quadrinhos. Aí já viu né, foi só ele se aproximar dos portões sagrados que ele foi possuído pelos extintos mais primitivos de ferocidade retórica diante dos sacerdotes e vendedores, bem como foi tomado por grande ternura ao ver aquelas pessoas inocentes doando tudo, o que tinham para pagar oferendas caríssimas para engodar prazeres ilícitos e ocultos daquela gangue de salteadores da fé humana demasiada humana.
Quando ele completou 23 anos, José falou: “Meu filho, ta na hora de vazar e se batizar porque senão, você vai virar mocinha dentro da cadeia da vida. Você sabe que na nossa sociedade, se o cara não se resolver existencialmente ele vira 24 arrombado, porque quem espera que a vida seja feita de ilusões, pode até ficar maluco ou morrer na solidão, é preciso ter cuidado prá mais tarde não sofrer, é preciso saber viver. Então Jesus foi à luta atrás de emprego, mas não conseguia porque não constava o carimbo do dia de batismo. Ser batizado naquela época era como ser portador de habilidades idiomáticas hoje em dia. Não se cobrava o inglês, mas exigiam o batizês. Devido a enorme urgência, Jesus conseguiu agendar com o batizeiro João que tinha a agenda super lotada, pois a procura era intensa. Razão simples e óbvia: “nenhum” judeu filho de Deus queria levar churros no rabo, porque segundo a lei judaica, Yaveh condenava este ato “doloroso”. Alguns espíritos livres, andarilhos e apóstolos da vagabundagem, viajavam subversivamente para a Grécia, pois lá, não havia o batismo com água, mas os rituais de passagem eram através da carne e do prazer espiritual que se davam com a imponente presença da pica de Deus. Jesus escolheu a água, e por tal ato de livre escolha, foi lhe concedido a fonte de águas vivas. O espírito se manifestou em forma de pomba music que batendo as asas cantou discretamente e baixinho: “Esse aí é meu filho aquático; mas, escapou dos gregos pelo gongo”.
Após aquele ato salvador, Jesus ficou super energizado e foi expulso para o deserto para ser tentado, no entanto, quando ele chegou lá, ele encontrou o Diabo depressivo e muito down. Ambos começaram a partilhar experiências de dor e prazer e chegaram a uma conclusão cantando um hino: “Tudo vem de ti Senhor e o que é teu o damos”. E deram tudo de si, pois naqueles momentos de tenebrosidade da alma e aprisionamento do ego, nenhuma tentativa de se achegar ao divino SELF via santidade e sacralidades obsessivas\separatistas dão conta do vazio da janela da alma que clama pelo elo, pela fraternidade que fortalece, pois o poder de Deus se aperfeiçoa nas alianças em meio as fraquezas e rupturas do cotidiano. Então o Diabo levou Jesus ao cume de um edifício e disse: “Mano, ontem eu vim aqui duas vezes com a intenção de me atirar rumo ao abismo, mas uma força estranha me fez recuar. Hoje eu lhe mostrarei as glórias lá de baixo, pois a tua mão livrou minha alma (cara) do chão”. Então Jesus apontando para baixo contou a respeito da parábola do sal da terra e em seguida direcionou o movimento manual para cima e falou sobre o efeito da luz do mundo. E ambos continuaram a jornada no paraíso perigoso e duvidoso. Diz Jesus no Evangelho Gnostico de Tomas:
“Quando dois se tornam um, e quando o interior se torna exterior e o exterior interior, e o que esta acima se torna o que esta abaixo, e quando o homem e a mulher se tornam um e o mesmo... então você alcançará o reino”.

Ao retornar à “vida real”, Jesus começou a realizar muitos milagres, implementando um novo projeto estético reacionário diferente do romance sacerdotal. Primeiro, ele induziu e convenceu as pessoas adorarem a Deus em espírito e em verdade, independente do lugar onde elas estivessem. Ele democratizou e desgeografizou a liturgia corporal, fazendo com que o sistema templário perdesse grana e visitadores. Segundo, Jesus cativou todo mundo a chamar Deus de paizinho recitando o salmo “Aba Pai”. Então as pessoas começaram a raciocinar: “Se eu posso chamar Deus de forma tão íntima, relax e informal, pra quê que eu preciso viajar até o templo e ainda ter que dar ofertas para a elite sagrada e usar certas etiquetas, babaquices e formalidades”? E foi uma onda de Cristo em casa geral...ahaha...fudeu o templo. Foi um tal de fazerem reuniões em família com muita oração, mas com muita carne, cerveja, mulheres e samba judaizantes.
Daí surgiu outra possibilidade política através da criação de pequenas igrejas com rebanhos alternativos. Então os interessados procuraram Jesus e perguntaram: “Mestre! O que fazer para pastorear dignamente um rebanho? Então aquele Rabi contou a parábola do servo MM que pastoreava um lindo rebanho rodeado de batuques, no entanto, na primeira manhã de nervosismo ensolarado, ele deu a primeira chibatada em um daqueles animaizinhos humildes. Alguns dias depois, numa noite de ataque estrelado, ele deu outra bordoada e desafinou a música de outro animalzinho. Depois, perdeu a linha de vez, pois até mesmo em madrugadas silenciosas, ele batia com seu cajado cortante e flamejante em animaizinhos dorminhocos. Um belo dia, ele resolveu prender a ovelhinha dos pêlos de ouro, mas ela havia sido treinada na prova dos saltos à distância desde a fundação dos tempos. Tal ovelhinha, escutou os ruídos das algemas satânicas do “aconselhamento” e cantou: nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia (...); e pulou para uma nova dimensão, pois maior é o que está em nós (a liberdade e a dignidade) do que o que está no mundo (a inflexibilidade e a força cega)”. Então Jesus concluiu a estória comentando sobre a vazão e revolta da chibata quando o verdadeiro dono do Universo disse duramente àquele homem administrador de talentos: Servo grosso e cruel, sobre o muito te coloquei, mas pelas fugas te condenarei: senta no “gozo” do teu Senhor”. Após contar essa parábola, o mestre perguntou: Pedro! Tu me amas? Sim, disse Pepe. “Então, pastoreia e paparica em amor os meus voluntários cordeirinhos, mas cuidado! vás e não peques mais” disse o Rabi contador de histórias.
A cada ato de coragem, justiça e caridade, Jesus colocava lenha na fogueira esquentando e sacudindo os caldeirões do Templo. A ameaça cristológica era notória, por isso, Jesus foi submetido a frenéticas perseguições que visavam neutralizá-lo. Um dos alvos era Judas, pois ele era o arquivo secreto das estratégias messiânicas. Ao ser preso, Judas foi torturado e não suportou tamanha agressividade e morreu no sapatinho sem confidenciar os segredos da caixa preta do mestre Emanuel. Nesse período inter-júdico, os discípulos começaram inventar clichês e teorias proféticas sobre o Reino do Deus, então Jesus repreendeu-os nietzschianamente recitando um aforismo da tragédia: “O Reino de Deus não é nada que se espere; não possui ontem nem depois de amanhã e não virá em mil anos – o Reino de Deus é uma experiência de um coração e está em toda parte e em nenhum lugar”. (Friedrich Nietzsche)
Antes que o galo cantasse e fosse tarde demais, Jesus agendou uma ceia com os discípulos e seus respectivos familiares visando comerem e papearem exaustivamente. Então Pedro disse: “Mestre! Se for preciso, até roubaremos para ter o líquido precioso que vem de teu interior. Nossas cervejas (Urina de Cristo) serão fartas e nossa afetividade será exaltada”. Então Jesus convidou-os a assistirem o filme COMILANÇA (La Grand Bouffe, 1973) de Marco Ferreri com o ator Marcelo Mastroiani, seus conchavos e suas putas. Então Thiago e João perguntaram: Rabi, como satisfazer uma mulher durante um ato litúrgico além do uso dos vibradores pão e vinho? Então aquele mestre recitou um poema do livro A ENTREGA da ex bailarina Toni Bentley que alegou ter tido uma experiência com Deus através do sexo anal:

“Muitos homens lambem, chupam e sugam uma boceta — e nao estou reclamando. Mas é raro o homem que faz isso com toda a sua consciência colocada na língua. E esta consciência que vai emocionar uma mulher; quando a consciência dela — que esta no clitóris — encontra a dele, os orgasmos marcam um encontro. No final das contas, e ai — ou melhor, ali embaixo — que um homem aprende a ser um vencedor ou um perdedor, tanto com as mulheres quanto na vida”. (Bentley)

Enfim, após aquele ato orgiástico de pura fraternidade e louvação aos prazeres da vida, Jesus teve que encarar a dor da morte, que é fonte de dramas, interrogações, medo, angústia e revolta. Ele e os três discípulos mais chegados que irmãos foram orar no monte, mas o cansaço da noite orgiástica e a pressão da máquina mortífera fizeram com que eles dormissem sob os cuidados dos vagalumes e animais noturnos. Então, por necessitar de mais privacidade, Jesus se retirou para um local mais reservado e elevado para jogar xadrez com a morte. Enquanto jogavam aquele jogo de detalhes, ele ouviu o batuque da gangue dos samurais sacerdotais que visavam aprisioná-lo e levá-lo ao destino para além do bem e do trágico; Então, Jesus embaralhou as peças do xadrez na tentativa de postergar aquele momento inevitável chamado de “o buraco negro da alma e o encontro com a perda da própria consciência”. Então a morte disse: non non nin non non e recolocou as peças nos seus devidos lugares e recitou um frase de Ludwig Feuerbach: “A morte não é, de modo nenhum, uma brincadeira; a natureza não desempenha uma comédia, é, sim, um drama trágico, colossal e sem intervalos”. (Feuerbach).
Jesus foi preso e condenado a morte. Ao chegar à cruz ele viu dois ladrões, um do lado esquerdo e o outro do lado direito. Ambos estavam aflitos e preocupados se iriam para o céu ou para o inferno. Então, perguntaram: “Mestre! Para onde iremos nós se só tu tens as palavras de vida eterna? Então Jesus respondeu: Manos, nem eu sei de onde eu vim e para onde vou e citou uma frase do poeta russo Vladimir Nabokov: “a vida é uma grande surpresa. Não vejo, por isso, razão para que a morte não seja uma surpresa ainda maior”. E continuou: “A vida é o desejo de continuar vivendo e viva é aquela coisa que vai morrer. A vida serve é para se morrer dela (...) morrer vai ser o final de alguma coisa fulgurante; morrer será um dos mais importantes atos de minha nossa vida”. (Clarice Lispector)
Jesus foi morto pela cúpula concorrente, e em torno de sua morte, criaram o mito da ressurreição, pois uma linda história e um excelente personagem como foi Jesus de Nazaré, dá pano para manga para a realização de um bom filme com o triunfo de um super herói que vai gerar lucro financeiro e projeção imagética para quem cria o enredo via arte das torções prol teatro cristológico. Há o mito do Apocalipse profético que também gera temor e glamour dependendo do jogo de interesses. Não seria mais interessante pensar o Apocalipse de João a partir da perspectiva da ditadura no Brasil, quando os compositores, poetas e cantores escreviam certos por linhas tortas visando dizer o indizível naquele determinado contexto específico? Eu acredito, que se Cristo voltasse no dia do juízo final conforme diz o mito do “eterno retorno”, as pessoas que se recusassem a subir pelas asas das nuvens por optar sabiamente ficar no planeta, iriam ganhar muito dinheiro em cima dessa viagem ao planeta desconhecido como muitos pastores ganham dindin em torno da invenção do pecado que funcionou como forma de controle sacerdotal sobre um povo desde o século V a.C.
Eu imagino qual seria a cara de Jesus se do nada, ele acordasse (ressuscitasse) e resolvesse dar um rolé pelas igrejas para ouvir o que as pessoas dizem e fazem em nome dele. Eu acredito que se ele tivesse uma postura exigente e conservadora, ele ficaria muito chateado e mandaria geral tomar no cu, mas se ele tivesse um olhar de cineasta poliocular e experimentalista, ele simplesmente concordaria que tudo não passa de adaptações e interpretações, sendo algumas realizadas com primor e outras não. A obra de Jesus são como Notas do subterrâneo que é uma obra metadiscursiva, feita do discurso do discurso, composta de polifonias no qual cada autor torna-se orquestrador de discursos independentes e mutuamente relativizantes. Talvez, ele falaria que a narrativa original é portadora de narradores cambiantes que alteram seu discurso e idéias enquanto narram; eles mudam a olhos vistos; o narrador muda em função daquilo que acontece como fez Dostoievsky com domínio da técnica do narrador não confiável. Provavelmente, Jesus recomendaria o filme Rashomon (1951) de Kurosawa, em que a história de um crime é contada de quatro formas radicalmente diferentes embora igualmente plausíveis, constituindo num exemplo nítido de narração problemática devido as variadas perspectivas na forma de narrar.
Segundo Nietzsche em seu livro O ANTICRISTO, o cristianismo realiza uma interpretação do mundo, puramente ficcional, sem nenhum contato com a realidade, pelo contrário, tal interpretação é movida pelo ódio e pelo ressentimento desta realidade. Segundo ele, o modelo de civilização que triunfa sobre o cristianismo é um adestramento de domesticação do tipo de homem e a forma encontrada para levá-lo a cabo foi o adoecimento do animal homem. Nietzsche analisa o papel de Jesus, visto como um revolucionário anarquista que trouxe a Boa Nova na sua prática de vida, destruindo toda a distância entre Deus e o homem em contraposição ao modelo do Apóstolo Paulo que segundo Nietzsche, consegue inverter a Boa Nova de Jesus criando uma religião sacerdotal que vence Roma, modelo de civilização para homens fortes.
Paulo encontra no signo “Deus na cruz” a fórmula para a vingança e invertendo todos os ensinamentos do mestre, que ele nem mesmo conhece, criando uma nova religião do ódio aos valores aristocráticos em favor de tudo o que é baixo, fraco e impotente. A morte na cruz renovou o espírito de vingança em seus apóstolos que não conseguiram entender o motivo de tanta crueldade e precisam encontrar um culpado.
Escolheis hoje a quem sirvais: Ou aqueles que transformaram e transformam a Boa Nova na religião do ressentimento ou Jesus, aquele que, com sua vida, negou todos os valores defendidos pelo cristianismo em nome de um viver trágico, porém, humano demasiado humano. Como herege e crente comédia, escolhi servir ao realismo mágico que codifica a multiplicidade, a maleabilidade e a possibilidade de sobreposição de idéias e de tempos.

Recomendo a leitura do artigo I “Jesus e a Gangue dos Samurais: Uma heresia sexy cinematográfica”, pois Jesus e a onda de alienígenas: uma comédia de ficção herítica é o artigo II de uma série matrixiana “teológica” de Joe
http://joevancaitano.blogspot.com/2009/05/jesus-e-gangue-dos-samurais-uma-heresia.html

Joevan de Mattos Caitano
Prá Páscoa nascer feliz.

ODE AO DESAPEGO: UM “ADEUS” A COMUNIDADE DE NOEL.

Por Joevan Caitano

Em 2 de março de 2008 eu chegava na IPVI. Fui super bem recebido pelos presbíteros e outros membros. Cada domingo era uma aventura, pois eram muitos pregadores que passeavam por aquele púlpito como: Rafael e Eduardo (espécie de Bebeto e Romário que reinaram na IPVI em 2008). Depois chegou o Alessandro, e posteriormente o Clayton. Cada um tinha um estilo de pregação diferente rodeada pelo mestre da comédia reverendo Longuini Alemão.
Eu e o Edivaldo interagíamos no âmbito da música. Havia muitas muvucas, tapas e beijos entre os nossos colegas de louvor mais fominhas e exaltados, mas mesmo assim, Deus se manifestava em forma de ordem e desejos. Mas foram bons momentos. Mamãesambajazz, Ressurreisamba: o batuque pascoalino e Natal Samba Bell que foram eventos que marcaram a vida da IPVI. Também não tem como esquecer as muitas rodas de cerveja regadas a bons papos e petiscos nos arredores do bairro do samba.
Enfim, a curvatura do tempo se esticou e os movimentos musicais das cordas vibrantes da vida, foram me dizendo melodicamente, ritmicamente e harmonicamente: “Joe, teu tempo está acabando na IPVI”. Como diz o escritor bíblico de Hebreus: “horrenda a coisa é cair nas mãos de um tempo vencido”.
Hoje foi um dia histórico na minha vida, pois finalmente o Espírito Santo Cronológico apitou bem forte dizendo: “Caro Joe! Pendure as chuteiras e saia rumo a outros campos e novas torcidas antes que caiam garrafas e pedras sobre você”. E eu sabiamente obedeci ao “divino chamado” out side inspirado na minha recente visita exposição do poeta Fernando Pessoa no Centro Cultural dos Correios-Rio.
“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos”. (Fernando Pessoa)
Esse não é um momento para reflexões sobre o que foi feito ou sobre o que se deixou de fazer, porque a vida ministerial é feita de realizações extraordinárias, mas também é feita de fracassos e de coisas que deveriam ter sido feitas e deixamos fazer ou que não foi possível realizar por impossibilidades individuais ou desleixos. Não é hora de se iludir, mas é hora de partir e sorrir porque na casa de Noel, há muitas moradas. A vida é um vai e vem de uma estação, tem gente que chega pra ficar tem gente que vai porque quer voar.
Encerro esse e-mail condecorativo e informativo com minhas sinceras palavras de gratidão e fraternidade a todos os presbíteros, ao Longuini, ao Ministro de Música Edivaldo, ao atual reverendo Marcos Martins e aos demais membros dessa comunidade que durante esses 3 anos e meio me ensinaram um pouco mais sobre a amabilidade em meio as instabilidades. Sem dúvida, a IPVI me permitiu que eu conhecesse mais de mim mesmo. Desejo a vocês toda a sorte de bençãos e sucessos nesse caminho sinuoso e perigoso chamado: VIDA.

Recomendo a leitura desse poema enviado com carinho a mim pelo presbítero PW.
ODE AO DESAPEGO

As realidades maiores e mais belas tanto mais as terás quanto menos as possuíres e retiveres: Se queres ter o mar, contempla-o e abre tuas mãos em suas águas e todo estará nelas. Porque se fecha tuas mãos para retê-lo, elas ficarão vazias; Se queres ter um amigo peregrino, deixa-o ir e o terás. Porque se o reténs para possuí-lo o estás perdendo e o terás prisioneiro; Se queres ter o vento, estende teus braços e tuas mãos e todo o vento será teu. Porque se quiseres retê-lo ficaras sem brisa; Se queres ter o teu filho, deixa-o partir e que se distancie e o terás maduro a seu regresso. Porque se o deteres protegido o estas perdendo e o perde para sempre; Se queres ter o sol, contempla-o de olhos abertos. Porque se os fecha para reter a luz que já alcanças ficarás as escuras. Se queres viver o gozo de ter liberdade da mania de possuir e reter, curte a borboleta que revoa. Curte o rio que corre fugido. Curte a flor que de abre ao céu. Curte tudo sem possuir nem reter; Somente assim curtiras a vida, sabendo que a
tens sem possui-la, deixando-a correr, sem rete-la.

Um abraço carinhoso e jubiloso.
Nada à pedir, só agradecer. Não venho pedir, só lembrar e ver (...) eu quero Senhor, te agradecer.
Joeblackvan (ouvido absoluto)

Por www.joevancaitano.blogspot.com
www.myspace.com\joevancaitano

“Guarda-comida, era um armário com porta de tela fina onde se guardava a comida, pois geladeiras não havia”. (Rubem Alves)
“Meu coração vagabundo quer guardar o mundo em mim” (Caetano Veloso)


Ontem morreu seu João. Durante muitos anos, ele conduziu a cantina da Escola de Música da UFRJ. Diante de seu olhar, passaram muitos músicos elitizados e em processo de elitização, bem como alunos “simples” que se tornaram professores e administradores anos depois.
Ele era um homem moreno, manso, muito humilde e gentil. Era um gentleman. Uma de suas maiores virtudes era de ser guardião de bolsas e materiais dos alunos. A gente vinha com nossos fardos acadêmicos-“pecaminosos” e depositava sob os cuidados daquele senhor de fala mansa, pois confiávamos naquelas mãos protetoras. A gente entregava nossos pertences e recitávamos em nosso silêncio interior: “Se o Senhor (João) é meu pastor, nada me faltará. Ainda que eu desapareça da EM por longos dias, não temerei mal (sumiço) algum, pois os materiais estão contigo”.
Uma coisa interessante que eu observei durante a minha jornada estudantil foi: Os professores e colegas mais elitizados não admitem comer em lugares simples. Procuram comida a quilo ou alacarte em locais mais aconchegantes, confortáveis e glamouráveis. Freqüentam o Bar do Ernesto e outros ambientes mais caros nos arredores. Mas, esses mesmos afortunados, não perdem os antigos costumes ao se assentar naquele local simples e apertado chamado CANTINA DO SEU JOÃO e pedem um suco de laranja, comem pãozinhos de queijo, misto quente e outros quitutes. Eles sentam ali não apenas pela força do sabor da comida, mas devido a potencia afetiva do Seu João que desde os tempos de graduação, os serviu como um pai amoroso. A gente pode se tornar famoso, freqüentar o PORCÃO, BARRA BRASAS, Restaurantes franceses, árabes, japoneses e outros locais portadores de iguarias sedutoras, no entanto, a gente sente saudade e precisa da comida simples da mamãe e do timbre do papai. Quando um professor sentava naquele espaço sagrado do Seu João, era como se Deus falasse a eles na língua materna.
“Quem pensa que a comida só faz matar a fome está redondamente enganado. Comer é muito perigoso. Porque quem cozinha é parente próximo das bruxas e dos magos. Cozinhar é feitiçaria, alquimia. E comer é ser enfeitiçado. Sabia disso Babette, artista que conhecia os segredos de produzir alegria pela comida. Ela sabia que, depois de comer, as pessoas não permanecem as mesmas. Coisas mágicas acontecem. E desconfiavam disso os endurecidos moradores daquela aldeola, que tinham medo de comer do banquete que Babette lhes preparara. Achavam que ela era uma bruxa e que o banquete era um ritual de feitiçaria. No que eles estavam certos. Que era feitiçaria, era mesmo. Só que não do tipo que eles imaginavam. Achavam que Babette iria por suas almas a perder. Não iriam para o céu. De fato, a feitiçaria aconteceu: sopa de tartaruga, cailles au sarcophage, vinhos maravilhosos, o prazer amaciando os sentimentos e pensamentos, as durezas e rugas do corpo sendo alisadas pelo paladar, as máscaras caindo, os rostos endurecidos ficando bonitos pelo riso, in vino veritas... Está tudo no filme A Festa de Babette. Terminado o banquete, já na rua, eles se dão as mãos numa grande roda e cantam como crianças... Perceberam, de repente, que o céu não se encontra depois que se morre. Ele acontece em raros momentos de magia e encantamento, quando a máscara-armadura que cobre o nosso rosto cai e nos tornamos crianças de novo. Bom seria se a magia da Festa de Babette pudesse ser repetida”. (RUBEM ALVES)
Um dia eu brinquei com os colegas ao dizer que Dom Pedro manuseou aquela máquina calculadora da cantina. Foi aquele barulho rasgado e endinheirado que impulsionou os primeiros compositores da EM nos tempos de outrora. A cantina do Seu João é econiana, pois é um exemplo de engrenagem rudimentar que sobrevive jubilosamente a força inovativa tecnológica. Como dizia Umberto Eco: “Eletrônicos duram dez anos, livros duram cinco séculos”. Seu João foi um exemplo de ancestralidade culinárica-afetiva, pois atuou como receptor informativo e psicólogo dos amigos através de seu sorriso tímido e discreto, bem como através de sua escuta benevolente e complacente em meio ao mal estar da civilização.

Outra coisa que eu observei foi que aquele espaço condensado, sempre foi condição de possibilidades para conversas empolgantes e flamejantes. Como dizia Alfred Whitehead, “as idéias não são para guardar; alguma coisa tem que ser feito com elas”. Durante muitos anos, seu João ouviu tudo, porque quem ouve mal, sempre ouve algo a mais ressaltou Nietzsche. Seu João aderiu ao ministério da escuta; fez isso com maestria porque sabia que no muito falar há desgaste, por isso, é necessário guardar silêncio. Seu João foi um exemplo de cidadania e civilidade, pois soube como ninguém preservar a imagem e as mazelas de cada estudante, professor e funcionário. Imagino eu o caos que ele provocaria se porventura, ele resolvesse abrir as comportas do céu, revelando os segredos alheios mais estranhos contidos dentro de sua caixa preta. Seu João viveu no sapatinho e morreu no sapatinho. Quem sabe os deuses e os anjos poderão ver os dedos do pé calejados de tanto lutar contra a tentação do salto alto e o chulé da maledicência.
Acredito que Deus tomou para si o Seu João, pois ficou temeroso, caso ele fosse acometido de uma doença degenerativa que o impulsionasse a dizer o indizível. Como “teólogo” de esquerda, meu desconfiômetro sempre apitou ao ler (o mito) passagem bíblica do jovem Judas traidor. Eu suponho que ele segurou a onda o tempo todo, e por isso, foi torturado e assassinado por não revelar a senha e os arquivos mais secretos e estratégicos do mestre (Rabi) Jesus de Nazaré que era opositor mortal da cúpula sacerdotal do Templo de Jerusalém.
A Escola de Música da UFRJ perdeu um patrimônio da escuta, do carisma, da honestidade e da sutilidade. Perdemos um arquivo com as guaritas mais secretas.
Depois de Seu João, somente seu Aristides (Seu Ari) secretário da PPGM da UNIRIO estão no mesmo patamar da gentilidade e gentlemanlidade.
Finalizo essa singela homenagem citando esse bela frase de Benjamin Franklin: “Três pessoas são capazes de guardar um segredo, se duas delas estiverem mortas”.


Abraços Partidos
Joe Almodóvar (Joevan Caitano)
Mestrando em Musicologia –UFRJ até 29 de Abril.


 

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