Deus e o Diabo na Terra do Sol e o Pentecostes de Joe.

“O Diabo é o descanso de Deus à cada seis dias” (Nietzsche)

Segundo o texto bíblico no original do grego, Jesus foi expulso (lançado) pelo Espírito para o deserto para ser tentado, no entanto, quando ele chegou lá, deu de cara com o cineasta brasileiro Glauber Rocha que estava filmando as cenas do filme Deus e o Diabo na terra do sol. Logo no terceiro dia, em meio ao calor intenso, o diabo que era o ator principal disse prá Jesus: “Eu vi você transformar água em vinho em Caná da Galiléia, mas te peço pelo amor de Deus que você transforme pedras em pães, pois eu não aguento mais essa paranóica estética da fome”. Então Jesus disse: “Prefiro esperar, pois disseram que o sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão”. Então o diabo disse: “Tamu junto nessa brasil”. E fizeram um pacto de união e se tornaram uma só carne causando um ato violento contra as expectativas. “A união dos corpos corresponde a violação da identidade” escreveu George Bataille.
O retrato de Heidegger do auto-alheamento contém uma intensa convicção: “Uma pessoa pertence aos outros e aumenta o poder delas. Os outros, a quem a pessoa assim designa a fim de encobrir o fato de que o seu eu pertence essencialmente a eles, são aqueles que proximalmente e na maior parte estão aí, no ser-um-com-o-outro cotidiano”. Por isso, Deus e o Diabo foram importantes no caminho da revolução profética registrada no livro de Ageu: “E derramarei o meu Espírito sobre toda a carne” e todos serão batizados no dilúvio amoroso messiânico, porque Deus não faz acepção de pessoas.
Segundo Heidegger, Ser-no-mundo “é em si mesmo, tentador”. Ceder à tentação de mundaneidade é, muito simplesmente, existir. “A queda no mundo significa uma absorção em ser-um-com-outro, na medida em que o outro é guiado pelo bate-papo ocioso, pela sede de novidade e ambigüidade. Somos lançados (geworfen) no mundo, proclama Heidegger. O nosso ser-no-mundo é um “ser lançado (Geworfenheit). Certamente não sabemos donde viemos para ser, salvo no aspecto mais trivialmente fisiológico. A biologia do parentesco não responde à questão real. Tampouco sambemos para que fim fomos projetados na existência, exceto em referência à morte. Entretanto, é justamente esse duplo desconhecimento que torna a condição “lançada” da existência humana mais enfática e paupável. O mundo vem ao nosso encontro, diz Heidegger, na forma de coisas.
Muitas coisas e muitas muitas histórias rolaram após a morte do Messias. Segundo o narrador do livro de Atos dos Apóstolos, alguns anos após o trágico assassinato de Jesus, ocorreu o famoso dia de Pentecostes onde o Espírito de Deus se manisfestou de forma contudente e muitos falaram em línguas. Existem várias versões teológicas sobre o mesmo episódio, aliás, como escreveu Nietzsche nos aforismos sobre hermenêutica, um texto, ou uma história dá abertura à várias interpretações, porque todo o texto é polissêmico.
Assisti UM FILME FALADO do cineasta português Manoel de Oliveira e me deparei com um trecho onde John Malcovich que é o capitão de um navio cruzeiro convida três atrizes para jantar e papear numa mesa. Cada ator fala em sua própria língua e todos entendem o que o outro está falando a respeito da história das civilizações. Há uma atriz grega, uma francesa, uma italiana e o John Malkovich fala em inglês. De repente, John Malkovich vê uma atriz portuguesa que estava acompanhada de sua filhinha e convida as duas para fazerem parte da roda histórica-filosófica, no entanto, as três atrizes conchavas de Malkovitch não entendiam a língua portuguesa, mas Malkovich entendia porque ele havia morado no Brasil por algum tempo, daí fica um silêncio e pensaram: e agora? Mas a atriz portuguesa é bilíngue e falava inglês fluentemente, mas não entendia as outras. Como todo mundo entendia inglês, o papo seguiu seu fluxo normal em inglês. Então houve acordo, houve manifestação, houve acolhimento e agregamento dos outros porque houve entendimento.
Quando há impecilho na comunicação verbal, o ser humano desenvolve outros tipos de comunicação, e nenhum sistema linguístico é universal, mas situado geograficamente ou noologicamente como um ato de interação amoroso, porque os signos são carregados de sentido. Mesmo que eu falasse a língua dos anjos, se eu não tivesse amor eu nada seria, porque compreender a presença de outros é existir. Ser-no-mundo, diz Heidegger, é ser-com. O “Eu” nunca está só na experiência do Dasein. Dasein é “ser-aí”, e “aí” é o mundo concreto, literal, real e cotidiano. Ser humano é estar imerso, implantado, enraizado na terra, na trivialidade cotidiana do mundo (“humano” contém em si humus, o latim para “terra”). O outro é encontrado em seu Dasein com o mundo e no mundo. O mundo em que o nosso Dasein é lançado e no qual ingressa, tem outros nele.

A mulher que gostava de churros (3 psicanálises paralelas)

Zaqueu era maior 71 e se enriquecia as custas de suborno, corrupção e sonegção de impostos. Imagine que ele fosse fruto de uma tradição de roubalheira, onde avós, pais, irmãos e amigos faziam o mesmo.
Ele ficou sabendo que um jovem chamado Jesus de Nazaré estava fazendo uma revolução, ajudando os pobres, prostitutas, travestis, mulheres que eram desprezadas na época por da causa da sociedade machista judaica. Então, ele subiu numa árvore e ficou escondidinho usando coletes a prova de bala, e cercado por seguranças. Ele se comoveu vendo aquele fluxo de amor. Cada passo que Jesus dava lá em baixo, sacudia Zaqueu por dentro e ele começou a se desmontar aos poucos vendo as lágrimas descendo incontrolavelmente.
Zaqueu voltou para casa, e não conseguia dormir, pois a culpa é um fantasma malvado. A producão de Zaqueu companhia Ltda, ligou para Jesus e agendaram um encontro secreto na casa do próprio Zaqueu. Quando Jesus chegou, Zaqueu estava deprimido pois estava sofrendo com o peso das coisas que dominavam-os. O choro e o silêncio ambientavam aquele local. Daí Jesus disse: Não é para refletir, é para falar. Procure ouvir a voz estranha e verbalize porque o desabafo retornará como respostas para você.
Jesus fez uma análise como retorno a exterioridade, do exterior traumático incentivando Zaqueu à atravessar o inferno e se soltar dos braços do pai. Freudianamente falando, aquela experiência amorosa fez homem safado dizer coisas difíceis que mudaram o rumo daquela existência sanguessuga, despertando nele um desejo incrivel e humilde de restituir os prejudicados em dobro ou em triplo.
Jesus pegava as pessoas deprimidas em seus afazeres, isto é, no jardim, no trabalho, na escola. Foi assim que ele encontrou uma mulher perdida nas ruas da vida. Ela era samaritana e estava na beira de um poço atormentada por suas crises religiosas, afetivas, trabalhísticas e outras.
Os sacerdotes e religiosos da época, atribuiam o “fracasso” existencial dela à moralidade psicológica, moralidade geográfica e moralidade dos clichês gospel. Ela disse carregada de culpa: Mestre! Acho que estou em pecado. Onde devo adorar e me reencontrar com Deus? Jesus ficou silencioso e não respondeu deixando que aquele desabafo feminino retornasse como possíveis respostas. Então movido de sensibilidade, acompanhou-a até a porta da casa dela ouvindo-a. Quando chegou lá, conheceu a filha dela. Em meio aquele bate papo analítico e rejuvenescedor, aquela menina correu e pegou em off no fundo baú uma foto da mãe dela quando tinha 20 anos sorrindo nos braços de um homem. Jesus encontrou a chave do problema, mas restava saber se aquela chave ainda cabia naquele buraco. Se entrar, tudo resolvido. Então ordenou a meninha que vasculhasse os 4 cantos do planeta atrás daquele sujeito. E ela fuçou no orkut, myspace, twitter, MSN, listas de e-mails dos Batistas, Budistas, Adventistas, Satanistas, Anarquistas e outros, foi até o hades, foi até o inferno e acendeu uma tocha e encontrou aquele homem e pediu carinhosamente que a acompanhasse até sua casa pois haveria alguém estava entre a vida e a morte. Ela explicou a situação toda e o cara resolveu dar uma segunda chance, pois foi a mulher que havia vacilado, trocando-o por outro anos atrás.
Quando a mãe avistou-a depois daquele sumiço sem aviso, ela perguntou: “Minha filha! De onde vieste? Então a menina respondeu: “Eu vim de rodear a terra. Trouxe um presente para você”. Quando a “coroa” viu aquele varão virtuoso, o clima mudou. Então foram para o quarto e ali ela transou, analisou, gozou, adorou, louvou, saltitou sobre a manjuba e liberou delírios de júbilo. Então ela nasceu de novo. E Jesus viu o amor pelo buraco da fechadura como escreveu Nelson Rodrigues.
Ao sair ressuscitada daquela celebração da afetividade, Jesus disse: Onde vocês dois estiverem, ali haverá adoração. Então o casal agradeceu dizendo: amém, aleluias, xuricantaras-xuriamas e voltaram a adorar.
No dia seguinte, ele encontrou a mulher adúltera que estava cercada de homens que queriam apedrejá-la. Judas disse que tava afim de tirar uma casquinha também. Então Jesus baixinho: Essa mulher tem mais hora de cama do que urubu de vôo. Então, ele abraçou a mulher rodada, e perguntou: se alguém não tem pecado atire a primeira pedra. E todos ficaram recuaram porque Judas era prefeito e tinham rabo preso.

“Sendo inorgânica, a literatura é irresponsável. Nada pesa sobre ela. Pode dizer tudo (George Bataille)”.

Durante o ministério de Jesus, os discípulos pediram que ele esclarece-os sobre a idéia moralista de caminho da salvação e caminho da perdição. Eles estavam morrendo de medo pois ouviram os sacerdotes falando sobre a porta estreita e o caminho largo, no entanto, eles (discípulos) pecavam constantemente e sentiam-se culpados constantemente. Então Jesus resolveu tudo adaptando e citando um trechido do livro de Deleuze e Guattari sobre o pensamento literário de Kafka.
“Como entrar no reino de Deus? Trata-se de um rizoma, de uma toca. O Reino do Sagrado tem entradas múltiplas, cujas leis de uso e distribuição não são bem conhecidas. O Reino de meu Pai tem inúmeras portas, principais e auxiliares. Trata-se, no entanto, de uma armadilha, pois toda a descrição do paraíso é feita para enganar o inimigo. Entraremos então por qualquer extremidade, nenhuma vale mais que a outra, nenhuma entrada é privilegiada, mesmo se for quase um beco sem saída, uma estreita passagem, etc. Procuraremos apenas com quais outros pontos se conecta aquele pelo qual se entra, por quais cruzamentos e galerias se passa para conectar dois pontos, qual é o mapa do rizoma, e como imediatamente ele se modificaria se entrássemos por um outro ponto. O princípio das entradas múltiplas impede somente a introdução do inimigo, o Significante, e as tentativas para interpretar um reino divino que na verdade se propõe apenas à experimentação”.

MORRENDO NOS BRAÇOS DO SELF.

No Getsêmani, Jesus jogou xadrez com a morte, mas ao perceber que iria perder o jogo, ele embaralhou as peças para tentar adiar a pena de morte, entretanto, a morte recolocou as peças no seu devido lugar e disse: “Chegou a sua hora. A morte sorri para todos”.
Conformado, Jesus citou Nietzsche: “A minha fúria de amar se abre para a morte como uma janela se abre para o pátio”. Depois disso, ele foi conduzido até a cruz. Quando ele chegou lá, encontrou dois ladrões indefesos naquele madeiro. O do lado esquerdo já estava desmaiado, porém o da direita, ainda estava lúcido e aproveitou para dar uma de espertinho apelando para chavécos da imortalidade.
Ele tentou ser oportunista ao dizer: “Mestre! Aprontei todas; fiz merda a vida inteira, por isso, estou aqui merecidamente à beira da morte, mas tú ès justo e só estás aqui porque a cúpula sacerdotal te odeia, pois tu ameaçava-os com tuas idéias arrojadas e perigosas. Fiquei sabendo que ti ressuscitaste o pobre Lázaro. Tem como me ajudar também após minha morte? Então Jesus disse: “Não vai dar não pois a cóta estourou e nem prá negros tem mais. Perdão rola, ressurreição jamais. Mas te digo que se tu ressuscitasse, irias virar um mito, uma lenda; ficarias podre de rico, porque as igrejas adoram testemunhos de ladrão arrependido, imagine bandido ressuscitado”.
Quando os soldados, a multidão, os saduceus e fariseus ouviram e viram Jesus perdoar aquele bandido aos 45 minutos do segundo tempo, eles começaram a zombar, xingar e dizer que o Messias havia se fudido legal, que era um babaca, um zé ninguém indefeso, ensaguentado, sedento e perfurado naquela cruz. Então o Ego cristológico se enfureceu e desejou mandá-los para os caralhos do inferno, mas ele ainda teve forças de clamar ao SELF e apelou: Pai! Perdoa-os porque eles não sabem o que fazem. Só o SELF que é o todo, a plenitude, é capaz de perdoar aquilo que é imperdoável, pois Deus (O SELF) conhece nossas sombras, nosso ego e nossa persona. Ele é maior que a nossa raiva, as nossas decepções, os nossos medos, nosso pecado. Ele é maior que a nossa cabeça.
Então Jesus disse ao Pai: “Nas tuas mãos entrego o meu espírito”. E morreu nos braços do SELF e pensando no SELF.

Quando o galo falha, o mala fala

Quando se preparava para ir ao Monte das Oliveiras, Jesus disse à Pedro e aos demais que a coisa seria sinistra dali para frente. E alertou: Pedro, acho que você e muitos irão gelar quando o bicho pegar. Então pedro começou a chorar e agarrou-o e disse: Eu te amo e tô contigo pro que der e vier.
Os discípulos ficaram escandalizados pois davam mais valor ao dilúvio do que ao arco-íris. Diante de todo aquela carinhosidade pedriana, Jesus alertou: Amor! Aquele galo que você disse que é teu conchavo, ele tem maior cara de 71. Mas Pedro negou a periculosidade galiana.
A desconfiança profética se cumpriu no momento que o soldado desembanhou a espada e disse dá ou desce e morre. Então aquele galo cantou e entregou o jogo. Ele contou tudo musicalmente, inclusive as intimidades de Pedro e Jesus que Pedro confidenciou aquele pássaro “encantado”.
Depois que baixou o fogo, Pepê chorou se sentindo traído pelo Galo e quis matá-lo, mas ele tinha asas para voar e naquelas alturas do compeonato, já estava voando rumo ao seio de Abraão. Restou a Pedro, se consolar nos braços do pastor mala fala. Quando o galo falha, o mala fala.

A CASTIDADE DE UM(A) JOVEM É UM TERÇOL NO OLHO DO DIABO

A CASTIDADE DE UM JOVEM É UM TERÇOL NO OLHO DO DIABO

Depois de viver na aba dos pais, finalmente chegou a hora de Jesus encarar a vida de frente. Era véspera do batismo que serviria como rito de passagem, no entanto, o jovem messias era bobinho pois foi criado de forma reprimida como muitos filhos de pais evangélicos. José e Maria ensinaram-o que ele devia fugir do diabo e das coisas do mundo, em nome das coisas de Júpiter e Saturno metafísicos. O diabo viu o perigo daquela inocência messiânica e contratou a experiente e sedutora Maria Madalena para que adestrasse o jovenzinho na tragicidade da vida, pois a castidade de um jovem é um terçol no olho do diabo.
Maria Madalena era simpática e sedutora e fez o papel de uma dom ruânica. Depois de um longo papo, ela levou-o para o escurinho do cinema em busca de afetivizações existenciais. E depois? Especula-se que ele visitou a vila mimosa de Jerusalém.
Jesus foi tentado, mas ele molhou o biscoito ou só ficou no cinco contra um? Essa é uma questão que deixo para os exegetas investigarem.
Após o mergulho sacramental-batismal, Exu desceu em forma de pomba e falou: Esse é meu filho amado em quem me comprazo. Jesus ficou quietinho prá ter vitória. Os pais costumam camuflar a santidade dos filhos, mas no fundo eles sabem que os filhos aprontam. A vida é feita de ritos, aventuras, e personas (sem máscaras não há salvação).

Reginando com afeto e Machadiano com o martelo.
PROGRAMA DO RR SUADO
Por www.joevancaitano.blogspot.com


“Ensinar é um exercício de imortalidade. De alguma forma continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver. O nascimento do pensamento é igual ao nascimento de uma criança: tudo começa com um ato de amor”. (Rubem Alves)


Os cineastas do cinema moderno costumam fazer filmes usando duas ou mais histórias paralelas, muitas das vezes, a sequência é não linear, por isso, exige concentração dobrada. Parece-me que Deleuze fala que só se pensa através de imagens. Eu escrevo com sangue, emoção e gratidão este texto dizendo que também se pensa através de histórias e experiências vividas que ficam gravadas em nossa vida e que se propagam com intensidade devido a força do pensamento.
Dedico este artigo a dois ícones da educação no Brasil que se aposentaram recentemente pela UFRJ. De um lado a professora dra Regina Meirelles da Escola de Música da UFRJ. Do outro lado, o professor dr Roberto Machado do IFCS-UFRJ.
Tudo começou quando em 2005, quando fui cursar a disciplina METODOLOGIA DO ENSINO DA MÚSICA VII. As aulas eram às quintas feiras as 8h da manhã. Eu sempre chegava atrasado e com cara de sonâmbulo, pois a carga horária de licenciatura na época era bem puxada, no entanto, lá estava aquele mulher de meia idade, mas com sorriso e pegada de jovem contando “casos-besteiras”, tanta coisa em comum deixando escapar “segredos”. Ela misturava metodologia com histórias engraçadas. Contava piadas prá gente e mótes lúdicos como: “sopa, café e mulher tem que ser quente”. A gente morria de rir. Enfim curti muito estudar com ela. Quando terminei a graduação procurei-a e pedi que ela fosse minha orientadora no mestrado. Eu escolhi ela. No dia do aniversário dela em 09 de março de 2008, compus um frevo e tocamos em sala de aula (Reginando). Reginando é o gerúndio do verbo reginar que eu extraí do verbo reger que nos dá a conotação de conduzir musicalmente. Portanto, reginando só podia significar conduzindo folcloricamente, pois ela conduz os alunos com amabilidade em meio às instabilidades durante as aulas de folclore e música brasileira. Alguns gostam de chamar música de tradição oral ao invés de folclore, mas cada um tem um ponto de vista e os conceitos são mutáveis também.
Uma das coisas que ela sempre falou aos alunos foi: “O segredo da aprendizagem está em deixar as janelas do ser abertas para captar a diversidade e o fluxo do novo. Quando a gente se fecha, a gente vira preconceituoso e não cresce”. Achei legal quando ela disse: “Vou no candomblé e em igreja evangélica. Vou no teatro municipal, depois pego o táxi, vou prá casa, troco de roupa e vou pro baile funk”. Contou-nos que uma vez alguém da mídia flagrou ela e perguntou: “Mulher! Funk não tem idade? Ela disse: Felicidade não tem idade.”...kkk..(boa).
Dia 09 de março foi o aniversário de Reginando. Os deuses concederam à ela mais um ano de vida, e segundo informaçoes da UFRJ, ela também se aposentou no dia 09/03/2010. Ela merece o divino descanso, pois deu muito de si em prol do crescimento existencial de outros. A gente nunca pára, apenas muda de atividades.
Outra pessoa que eu homenageio é o Roberto Machado. Tudo começou quando eu peguei um livro dele comentando sobre o ASSIM FALOU ZARATRUSTRA de Nietzsche. Era inicio de 2005, e a galera da igreja enchia o meu saco dizendo que Nietzsche era o diabo. Quando eu comecei a ler o livro, me apaixonei pela clareza das idéias que o autor Roberto Machado colocou em cada página. Daí fui ao IFCS para ver se eu conseguia estudar com ele, mas infelizmente as aulas dele sempre caiam nas segundas feiras à tarde e eu nunca podia, pois colidia com disciplinas obrigatórias de música. Ia sempre ficando para uma próxima oportunidade. Quando eu me formei, pude realizar um dos sonhos acadêmicos, indo nas aulas dele.
Me lembro da primeira vez que eu fui na aula sobre Deleuze e a pintura de Bacon. Cheguei 5 minutos atrasado e a sala estava super lotada e fiquei do lado de fora. Perguntei para a colega! É sempre assim? Ela respondeu: Sim. Se você quiser assistir as aulas sentadinho num bom lugar, você precisa chegar pelo menos uma hora antes. Mas mesmo em pé, desconfortavelmente, eu ouvia palavras de conforto via filosofia de Deleuze. Na época eu era um leigo em Deleuze e se me perguntasse quem era esse sujeito eu provavelmente diria que era remédio de enjôo ou alguma marca de produto, tamanha era a minha ignorância. Graças a competência e simplicidade de RM, Deleuze é um de meus autores preferidos ao lado de Nietzsche, Kafka e Edgar Morin.
Uma das coisas que mais me impressionava no Roberto era que ela aceitava todo mundo nas aulas dele. Tinha calouros de graduação, veteranos, mestrandos, doutorandos, doutores formados há muito tempo que já eram professores mas que iam lá para beber e tinha gente de outros CAMPUS, de outras universidades que iam aprender, alunos na pauta, alunos fora da pauta, no entanto, ele fazia a música filosófica acontecer. “Quem vier a mim, de maneira alguma lançarei fora dizia Jesus”. O espaço físico não dava conta de agregar todo mundo, mas RM com muito amor, pedia que as pessoas sentassem no chão mesmo em volta da mesa dele. Quem não conseguia espaço dentro, deixava um gravador sobre a mesa prá ouvir em casa. Uma vez tive a honra de ser uma criança e fiquei sentadinho no chão ouvindo-o falar sobre Kant. Eu no meu cantinho ouvindo Kant...Canta, canta minha gente porque Kant é pesado demais e só o canto de Roberto Zaratustra pode apaziguar o peso da filosofia kantiana. Quando ouvia sobre Nietzsche, era como um martelo que batia em minha mente e ia abrindo um buraco nos meus conceitos absolutos
Para derrubar nossos preconceitos e verdades irrustidas durante muitos anos pela religião, família, amigos, etc, leva muito tempo. Cortar uma àrvore com um motor-serra não gera grandes emoções porque é tudo muito rápido, no entanto, quem já experimentou derrubar uma àrvore usando um machado sabe o quanto é demorado e exige espera. A mão fica calejada, o suor é intenso, dá catinga de suvaco, mas quando a àrvore começa a cair, a gente sorri à toa, a gente se diverte, a gente experimenta um prazer advindo do esforço e da demora do processo. Filosofar com o machado exige paciência, mas compensa, porque é como uma boa preliminar no ato sexual, porém, quando o pensamento diferencial entra, vai abrindo tudo e a gente goza em delírios de júbilo vendo a passagem sendo des-obstruída dando espaço ao novo, ao instável, a força do trágico, daí a gente tem orgasmos com as palavras. Se a palavra abrir as pernas, eu entro e faço amor com ela.
Durante o lançamento do livro sobre Deleuze no espaço Tom Jobim no Jardim Botânico, RM disse que havia chegado a hora de parar e repassar o cajado para outros sucessores em 2010. Durante 4 semestres fui contemplado com a oportunidade e oportunismo diante dos bons encontros que as aulas de RM proporcionou a mim e a muitos pelo Brasil à fora.
Regina Meirelles e Roberto Machado são exemplos de educadores que democratizaram o ensino abrindo espaço para quem almejava aprender. Ambos tem um coração na cabeça e os alunos nas mãos. Misturam competência, simplicidade, amabilidade diante das instabilidades do trágico cotidiano. São exemplos de pessoas que se empenharam em dar de si por completo em nome do crescimento dos outros. Não perderam tempo brigando por poder, nem tampouco com brigas de departamento, nem falando mal nas entrelinhas de colegas, excluindo aqueles que não conseguiram se matricular no SIGA, mas potencializaram suas ações em prol do pensar que visualisa além da radiografia, além das aparências. Eles acolheram o novo, como dialogaram com produções do passado, mostrando que é preciso aprender com o passado, se ligar no presente e se preparar para o futuro, mas nos alertaram: passado, presente e futuro se misturam pois são uma só carne. Salve a trindade atemporal. Eles fazem parte do programa RR SUADO, porque suaram a camisa quebrando o coco mas sem arrebentar a sapucaia.
Para finalizar este artigo, cito esse poema que serve de fertilizante impulsivo para os novos educadores em nosso país.

Dá de ti, dá de ti quanto puderes:
o talento, a energia, o coracao.
Dá de ti para os homens e as mulheres como as arvores dão e as fontes dão.
Nao somente os sapatos que nao queres ou a capa que nao usas no verão.
Darás tudo o que fores ou tiveres: o talento, a energia, o coração.
Darás sem refletir, sem ser notado, de modo que ninguém diga obrigado nem te deva dinheiro ou gratidão.
E com que espanto notarás um dia que viveste fazendo economia de talento, energia e coracão."

abraços
Joevan Caitano
www.joevancaitano.blogspot.com
www.myspace.com/joevancaitano

Homens com buceta. Uma força política para as mulheres.

Hoje comemoramos o dia internacional da mulher, no entanto, ontém já em países com fuso horário de “vanguarda” como Japão, Austrália, China e outros, já rolava festejos femininos. Enquanto os deuses do outro lado do planeta celebravam as deusas, eu liguei para o reverendo Salsicha e avisei que não iria no culto pela manhã na IPVI, pois precisava fazer uma pesquisa sobre estética e pragmatismo na arte de Richard Shusterman na biblioteca do CCBB. Antes de embarcar na leitura acadêmica dominical, eu resolvi ir a famosa feira da Glória para comprar algumas coisinhas para eu ficar fortinho. No retorno, me deparei com uma mulher ilustre. Quem era? Era a Helena, colega de disciplinas de filosofia no IFCS. Ela estava cheia de crises, desanimada com a vida pois não tinha sido aprovado na primeira tentativa de mestrado. Queria chutar o balde com tudo; queria voltar para a casa dos pais na roça, etc, etc; enfim, estava se sentindo um lixo. Entre bananas, abacates, mangas, e outras frutas, o papo rolava solto e eu e ela erámos fertilizados pelo ânimo. Chegamos à uma conclusao de que aquele encontro do acaso, foi um bom encontro em termos espinosianos, pois foi capaz de nos recolar na vida novamente, porque os nossos desertos são condição de possibilidade para abertura de novos horizontes, e nos possibilitam a fazer outras coisas que não faríamos caso estivéssemos vivendo confortavelmente. Como diz Rubem Alves: “Ostra feliz não faz pérola”.
Presbiterianos adoram ficar possuídos pela unção da birita. Após a celebração metafísica noturna, fomos biritar no petisco da Vila e mais uma vez no caminho de casa, por volta de meia noite, eu me deparei com uma das maiores cineastas do cinema independente alemão. Quem era? Era a Monika Treut famosa mundialmente por seus filmes em prol da causa feminista e transsexual, causa gay, etc, etc. Quando eu gritei: Hallo! Hallo! Ela olhou para trás, veio ao meu encontro e me deu um abraço e beijo. A gente já se conhecia um pouco, pois o CCBB está efetuando uma amostra de seus filmes esse mês. Entre trocas de contatos, a gente relembrou algumas idéias de alguns de seus filmes e sobre a multiplicidade de pontos de vista que as pessoas externaram a respeito de suas idéias cinematográficas. Uma coroa chegou a dizer que os filmes dela eram bizarros. Outros (a) adoraram. Eu achei um barato, pois percebi que ela tem um coração na cabeça e uma câmera na mão quando ela roda os quatro campos do planeta para mostrar a diversidade cultural.
Em um de seus documentários chamado GENERONAUTAS: JORNADA POR IDENTIDADES MUTANTES, ela mostra a vida de um grupo específico de transgenes de São Francisco nos EUA. Numa das cenas, ela filma um homem que nasceu com uma vagina em formato de pênis. Quando ele ia transar com um mulher, colocava-se um tubo de plástico, e a vagina ficava ereto, se tornando um pênis. Ao tirar o tubo de plástico, o cara ficava brocha e virava uma vagina. Então a Monika disse: “Homens com boceta se constituem numa força política para as mulheres”.
Mulheres machos também se constituem uma força política para os homens. O livro bíblico de Juízes, narra a história de Debora que foi lutar na Guerra como qualquer outro homem. Ela desafiou os padrões da época e arriscou tudo em nome de um ideal partriótico. Ela foi uma personalidade importante para a vitória naquele momento específico da história de Israel. Carl Jung escreveu que carregamos os arquétipos do ANIMA E ANIMUS que nos proporcionam equilíbrio. Todos nós temos os aspectos masculinos e femininos dentro de nós. As vezes um é excessivo e o outro é recessivo, mas não existe só macho e só fêmea como escreveu o narrador de Genesis. Deus não é tão burro assim para fabricar um seres isolados. Para Deleuze, a teoria de Proust é sobre a transsexualidade. Todos nós somos uma coisa e outra. Temos uma parte masculina e feminina. Quando nos relacionamos com o outro, a nossa parte masculina pode se relacionar com a parte feminina do outro, ou a parte feminina pode se relacionar com a masculina do outro, ou a nossa parte masculina pode se relacionar com a parte masculina do outro, ou a nossa parte feminina pode se relacionar com a parte feminina do outro. Podemos ter várias possibilidades de relação. Como dizia Roger Bastide: “Eu sou mil possíveis em mim, e não me resignarei a ser apenas um deles”.
Aposto na idéia de que quando Débora foi para a Guerra, o lado masculino dela falou mais forte, e o lado feminino ficou acanhado, no entanto, imagino que ela também era uma ótima esposa e cuidava do seu marido com singeleza afetiva. Para isso, ela precisava atiçar o lado feminino para arrebentar dentro das quatro paredes sem deixar a peteca cair. O marido de Débora ficou tão emocionado a ver a versatilidade de sua mulher. A ficha caiu quando ele ouviu a música SUPER-HOMEM de Gilberto Gil.


Um dia vivi a ilusão de que ser homem bastaria
Que o mundo masculino tudo me daria
Do que eu quisesse ter
Que nada, minha porção mulher que até então se resguardara
É a porção melhor que trago em mim agora
É o que me faz viver
Quem dera pudesse todo homem compreender, ó mãe, quem dera
Ser o verão no apogeu da primavera
só por ela ser
Quem sabe o super-homem venha nos restituir a glória
Mudando como um Deus o curso da história

A Párabola do pobre Lázaro e Fernando Collor de Mello

As irmãs do pobre Lázaro acompanhavam os últimos minutos de seu irmão que padecia entre gritos e sussurros. Ele não resistiu e morreu. Então uma de suas irmãs ligou para Jesus que veio correndo e num golpe de mágica, ressuscitou aquele homem. Lázaro saiu feliz da vida e virou um mito. Saiu dando testemunhos pelas igrejas da senha da imortalidade. Ficou podre de rico e choveu de gatinhas atrás dele.
No auge da fama precoce, Jesus disse: Maninho! Cuidado, pois o Ladrão veio matar, roubar e destruir, entretanto, Lázaro disse: Fica relax,pois eu já depositei na poupança e fiquei com 10% para a farra com os amigos e mulheres. Então veio o plano Collor e Lázaro ficou no osso. Daí Jesus disse: E agora mane? E Lázaro disse: Não tem problema, pois sempre fui duro mesmo.

Trio MaCdonamãe no sermão do Monte

Trio MaCdonamãe no sermão do Monte

Jesus foi dar uma palestra num monte nos arredores de Jerusalém. As pessoas mal acostumadas foram de mãos vazias, pois os discípulos bando de zé-manés disseram que o reino de Deus consiste de coração limpo e mãos puras.
No meio do sermão, começaram a sentir fome esperaram que tivesse lance no final da reunião. Na conclusão do discurso, Jesus citou: “Bem aventurados os que tem fome e sede de Justiça porque eles serão fartos”. Então um guri se levantou inocentemente e mostrou 5 pães, 2 peixes e uma Coca-Cola Light. A multidão avançou sobre aquele menino querendo assalta-lo, mas Jesus gritou: Seus bandos de sem-vergonha, porque não trouxeram de casa? Ele foi prudente, vocês são um bando de idiotas que querem comer nas costas dos outros. Daí Jesus chamou aquele menino que disse: Mestre! Lá em casa a mamãe não dá mole e sempre pensa em plano A, B ou C para não pagarmos mico. Então Jesus pegou os 3 igredientes, deu graças e cantou: Trio McDonamãe e comeu em off no camarim junto com aquele jovenzinho.
Enquanto saboreava aquele trio, Jesus pediu aos discípulos que avisassem a multidão para voltar na reunião seguinte, trazendo cada um seu lanche. E muitos voltaram, trazendo sua comida e convidados, então Deus fez maravilhas, pois houve multiplicação de apetite em meio a diversidade de sabores.

Oração do Pai Nosso em forma de Blues

Os discípulos pediram a Jesus que ensinasse a técnica de como orar porque os fariseus disseram que eles não sabiam viajar retoricamente perante Deus. Então Jesus pegou uma pauta musical-existencial, dividiu em 12 compassos, colocou 3 acordes (Pai, pão e perdão) e pediu aos discípulos que improvisassem usando três notas (fé, emoção e gratidão). Então os discípulos desenvolveram a criatividade a partir do limitado rumo a ilimitado. O limite da imaginação é o céu, e o céu é Blue. A medida do amor é amar sem limites (Santo Agostinho).

Jesus disse: Non, non, nin, non, non


Jesus convidou Pedro e João para subirem ao topo de um monte, pois lá haveria uma manifestação sobrenatural. Quando chegaram no topo daquele pequeno Everest sagrado, eles ficaram deslumbrados com a visão celestial e sonharam com Moisés, Elias, Abraão. Disseram que tiveram sonhos eróticos vendo a mulher de Potifar, Eva , Rainha de Sabá e Cleópata, todas nuas.
Em meio aos prazeres de uma eroticidade subliminar, eles disseram sonâmbulos: Mestre! Façamos uma tenda grande e vamos ficar por aqui porque estamos no paraíso que mana leite e mel. Então Jesus disse : non, non, nin, non, non e cantou: “Quem espera que a vida, seja feita de ilusão pode até ficar maluco, ou morrer na solidão, é preciso saber viver” (...). Trouxe vocês pra cá para relaxar um pouco, mas a vida real vos espera lá em baixo novamente. Na vida é preciso sentir coisas, mesmo que algumas delas nos façam sofrer.
Eles desceram e chegaram a muvuca da cidade grande. Daí Jesus disse: Bem vindos a realidade e aconselhou-os: “Quando a merda bater no ventilador, arme uma tenda”.

Unção di Cads. Só prá Batistas GLS.

Movidos e ungidos pela cronica da inocencia, alguns discipulos correram até Jesus para contar os babados da mídia clandestina. Mestre! ficamos sabendo que a famosa Casa de Profetas nao está pagando seus funcionarios, alguns professores estao passando fome, alguns querem chutar o pau da barraca, alguns nao puderam ceiar no natal e sofreram no reveillon da desgraca. Dizem que todo mundo manda, todo mundo quer ser o dedo de Deus. Dizem até que tem carros movidos a sopro do Espírito porque combustível só se for de Deus mesmo. Os ribeiros estao secando, e as aguas estao clamando, pois se eles nao chiarem, as pedras do leito clamarao.
Em contrapartida Mestre, no templo, os sacerdotes estao usando a Uncao Di Cads nas reunioes do dai a César o que é de Cesar e a Deus o que é de Deus. Pregam que é dando que se recebe. Os Batistas GLS estao adorando, mas só ofertam depois do horário comercial.
Mestre! o que tu tens a nos dizer sobre a doutrina do dízimo? O mestre disse: Estamos diante de um problema sacro-teológico.Jesus citou o poema de Guiaroni:

"Dá de ti, dá de ti quanto puderes:
o talento, a energia, o coracao.
Dá de ti para os homens e as mulheres como as arvores dao e as fontes dao.
Nao somente os sapatos que nao queres ou a capa que nao usas no verao.
Darás tudo o que fores ou tiveres: o talento, a energia, o coracao.
Daras sem refletir, sem ser notado, de modo que ninguem diga obrigado nem te deva dinheiro ou gratidao.
E com que espanto notarás um dia que viveste fazendo economia de talento, energia e coracao."

E todos foram desencadeados e tiveram uma nova perspectiva de vida.

O vento como personagem num filme-teste em alto mar.

Jesus estava super cansado devido a maratona de atividades de caridade. Em busca de uma vida saudável, ele convida alguns amigos-discipulos para fazer um passeio de barco.
Mal comecou a viagem, o Mestre caiu no sono profundo. Em alto mar, sao surpreendidos por uma tempestade e o vento colocam a embarcacao numa danca frenética.
Enquanto o barquinho se entregava aquela intensa música da natureza, os discipulos tentavam se esconder atrás das "caixas de som", e outros tentavam cortar os fios conectores de energia sagrada, querendo cessar aquele show a qualquer custo.
Tentaram em vao. Entao acordaram Jesus e clamaram: Socorre nos! Entao ele se levantou e sorridente apazigou a fúria marítima. Acharam que fosse um milagre, entao ele disse: foi apenas uma pegadinha que eu e meu Pai Celestial fizemos. Estamos testando o roteiro do filme E o vento levou, e precisamos de atores que consigam encenar em condicões adversas e surpreendentes, por isso tive que fingir-me de sono, no entanto, voces nao passaram no teste, pois além de ficar travados durante o suingue de Deus, voces tiveram medo ator principal quando ele entrou em cena.
Ao retornarem à terra firme, Jesus pediu ao poeta bíblico que registrasse o episódio usando o vento como personagem na narrativa visual. A narrativa bíblica dos evangelhos, mostra o vento levando todas a sinistra loucura .

Fantasias Metafísicas. A história de um sado-maso-Cristo.

“A máquina de sofrer é uma peça de uma máquina que não pára de gozar consigo mesmo (Deleueze/ Guatarri)”.
“A vida é um soco no estômago (Adélia Prado)”.

Jesus em uma de suas andanças noturnas passou em frente de um cemitério e ouviu berros de júbilo. A sua memória involuntária remeteu-o à um de seus amigos de infância conhecido como Juninho Gadareno que apreciava a estranha idéia de desejo e perigo.
Jesus não perdeu tempo e foi logo entrando sutilmente com seu assistente de câmera e flagraram aquele jovem sendo espancado e estuprado por uma legião de demônios. Segundo testemunhas locais, aquele jovem estava cansado da rotina do casamento, por isso, chutou o pau da barraca vindo se submeter aquela ferocidade Eros-metafísica. Jesus assistiu tudo passivamente e curiosamente, pois respeitou a livre escolha. Vendo aquele espetáculo com frieza, Jesus pensava nas cenas do polêmico filme ANTICRISTO de Lars von Trier.
Enquanto aquele velho amigo gritava me morde, me corte, me love, ele cantava louvores como: quero subir ao santo monte de Sião (...). Enquanto ele louvava, os capetinhas manuseavam com extrema destreza a armadura de Deus, usando os chicotes da salvação e os sabugos da perdição. No momento de maior selvageria e intensidade sadomasoquista, há um corte abrupto na cena, e uma nova seqüência aparece e câmera mostra cenas dos mesmos demônios chicoteando porcos que vagueiam desnorteados à beira do abismo à procura de Deus, pois diante do precipício nos transformamos.
E o destino dos porcos? A câmera não mostra a tragicidade predestinada àquela porcaria, porém, a narrativa bíblica é coerente ao dizer que os porcos caíram no abismo. Eles morreram? Acho que sim, mas tudo volta tudo é cíclico e tudo se re-potencializa. E Daí? E o cara foi punido por Deus porque “pecou”? Segundo Deleuze, o masoquista se caracteriza não pelo sentimento de culpa, mas pelo desejo de ser punido. A punição vem resolver a culpabilidade e a angústia correspondente abrindo a possibilidade do prazer sexual. Freud evocou a hipótese da chamada coexcitação libidinal, a partir do qual os processos de excitações, ultrapassando certos limites quantitativos, seriam erotizados. Na estética do suspense, Eros e Tanatos andam juntos, porque Deus é Sacher e o Diabo é Masoch: o frio e o cruel.
O filósofo Oswaldo Giacóia, ao fazer um paralelo entre Nietzsche e Sade, ele vai dizer que o desejo e o prazer sádicos não podem encontrar satisfação senão no movimento perpétuo em que se consuma, pela destruição, o gozo como esgotamento e fruição total do objeto, destruição cujo o efeito principal é a potencialização do desejo e da necessidade de nova fruição, reproduzindo indefinidamente o movimento, numa espiral ascendente de prazer, dor e destruição. O desejo e o prazer sádicos não podem encontrar um limite de satisfação, porque a intensificação ao infinito é a lei interna de sua reprodução.
Pegando carona nessa idéia de reprodutividade, cabe ressaltar que a apologia filosófica da sodomia como obediência à vontade fundamental da natureza perdulária é a pilastra teórica sobre o qual assenta não somente a destruição do preconceito moral que vê na reprodução da espécie a razão de ser da sexualidade. Klossowski nos dá a entender que esse pensamento às avessas, se caracteriza por um aprofundamento abissal, um paroxismo de desejo e crueldade, cujo sentido é a extirpação da consciência moral, esse representante internalizado do mundo dos outros.
Sade compreendia a vida como potência infinita de criação e Nietzsche vai pensar a vida, como um conjunto da natureza não-pacificada e não-acomodável às necessidades, porque ela é um campo de guerra e desequilíbrio de forças. A natureza como vida, não é mesquinha em suas formas, mas perdulária e dissipadora de suas criações.
Aproximar Sade e Nietzsche nos instiga à fazermos menção do significado das festas culturais em honra de Dionysos e das bacanais. Nietzsche escreveu:“A Psicologia do Orgiástico como um exuberante sentimento de vida e força, no interior do qual mesmo a dor atua ainda como estimulante dando-nos a chave para o conceito do sentimento do trágico. O que o heleno garantia a si mesmo nesses mistérios? A vida eterna, o eterno retorno da vida, o triunfante sim à vida, para além da morte e mudança; a verdadeira vida como sobrevivência coletiva pela geração, pelos mistérios da sexualidade. Para os gregos, o símbolo sexual era símbolo venerável em si, o verdadeiro sentido profundo dentro de toda religiosidade antiga. Na doutrina dos mistérios a dor é declarada santa. As dores da parturiente santificam a dor em geral – todo o vir – a ser e crescer, tudo que garante futuro condiciona a dor”.
Tal glorificação do sofrimento como condição de vida, implica uma reconceituação do prazer, que permite aproximar Nietzsche e Sade. “O sentido do prazer está precisamente na insatisfação da vontade, em que, sem limites e resistência, ela não está ainda suficiente satisfeita. A insatisfação normal de nossos impulsos, por exemplo, da fome, do impulso sexual, do impulso de movimento, não contém em si nada de depressivo; ela atua como estimulante sobre o sentido da vida, assim como fortalece todo ritmo de pequenos estímulos dolorosos. Essa insatisfação, ao invés de aborrecer a vida, é o maior estimulante da vida (Nietzsche)”.
Percebe-se, assim que, do ponto de vista de Nietzsche, o prazer não apenas não exclui a experiência da dor e do sofrimento, como também a concita exige sua intensificação. A escalada do prazer é tanto maior quanto mais intenso é o ritmo das pequenas estimulações dolorosas, o que significa que o movimento do prazer descreve uma trajetória infinita de intensificação da dor como sua condição de possibilidade.

Bibliografia
DELEUZE, Gilles. Sacher-Masoch: O frio e o cruel. Tradução: Júlio Castañon Guimarães. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.
DELEUZE, Gilles; GUATARRI, Felix. Kafka. Por uma literatura menor. Rio de Janeiro: Imago, 1977.
GIACÓIA, Oswaldo Júnior. Labirintos da Alma. Nietzsche e a auto-supressão da moral. Campinas: UNICAMP, 1997.
KLOSSOWSKI, Pierre. Sade mon Prochain. Paris Éditions du Seuil, 1947.
FRIEDRICH, Nietzsche. Genealogia da Moral. São Paulo, Companhia das Letras.
FRIEDRICH, Nietzsche. O Crepúsculo dos Ídolos. Tradução: Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
MARCOS, São. O encontro de Jesus com o endemoniado Gadareno (Marcos 5: 1-15 / Bíblia).

Filmografia.
TRIER, Lars von. ANTICRISTO. Gênero: Drama, 2009.


 

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