A bravura da MM Gisele Rosa (Gi baixinha)

Um dia a noite (acho que inicio de junho-2009) eu encontrei a Gisele meio desanimada descendo a ladeira do SBTSB pois ela estava sem igreja, sem perspectivas profissionais, etc, daí conversamos e falei sobre fazer mestrado em educação musical na UFRJ, pois já havia uma doutora com formação em musicoterapia lá, isso porque, a Gi tem graduação nesse ramo também. Ela nem deu bola e perdeu até as dicas que dei anotadas em um pequeno papel, no entanto, por acaso, encontrei com ela novamente descendo a rua José Higino e voltei a tocar no assunto e ela disse: eu vou encarar isso. E ela entrou devagarzinho como quem não quer nada, assistindo as aulas como aluna especial.
Fez as disciplinas, no entanto, chegou a dizer que faria a prova mas não passaria, e eu dizia: Gi! Confie em você...e ela foi caminhando em meio a luz e trevas, entretanto, quando faltava luz ela descia ao inferno e acendia uma tocha e voltava.
Quando chegou na reta final, diante do edital de inscrições, ela pisou fundo e acelerou, acelerou como dizia o Djavan, até inglês ela aprendeu em 1 mês (ninja ela). Fez a prova. Eu enviei um torpedo cedinho dizendo: Baixinha! O Pai, o filho e o Espírito santo falam português e inglês e outras línguas, e ele vai te ajudar. E Gi fez a prova e quando saiu o resultado tava lá naquele mural sagrado que registrou aquele momento histórico e mágico o nome de Gisele Rosa Batista. OS CÉUS MANIFESTAM A GLÓRIA DE GI, O FIRMAMENTO ANUNCIA A FORÇA DE SUAS MÃOS.
A trajetória de Gisele esse semestre foi idêntica a de uma maratonista experiente que poupa energia no inicio da prova pra depois usá-la na reta final.
Parabéns Gi, pois você é a mais nova mestranda da UFRJ. Tu é mais uma ministra de música , pastora, musicoterapeuta, que abriu um buraco existencial e deixou fluir a seiva da visão revolucionária. Os batistas, a AMBB, a UFRJ, UNIRIO, o mundo, os céus e o inferno serão beneficiados pela sua bravura e perseverança estratégica.
Estou muito feliz em poder acompanhar-te nessa trajetória brilhante.
Que a Dra Thelma Alvares e os deuses te abençoe rumo ao doutorado.

FILOSOFIA PARA TODOS dia 26/11/09 as 18h30 na FE da UFRJ

BIENAL NOCHMAL! UM KAMASUTRA MUSICAL.

Impressões e expressões de Joeblackvan sobre a XVIII BIENAL DE MÚSICA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA realizada entre 23 de outubro a 01 de novembro de 2009.

Dedicado ao grande compositor Caio Senna (Prof da UNIRIO), pois foi ele quem me convidou para Bienal de Música Contemporânea 2009, e a pianista e amiga Patricia Bretas porque tem mãos de polvo e braços de Hércules (musa szongorista).



“Deveria ser proibido debochar de alguém que se aventura a escrever em língua estrangeira (Filme Budapeste baseado no romance de Chico Buarque)”.

“Um mesmo texto possibilita inúmeras interpretações (Nietzsche falando sobre hermenêutica em Fragmentos finais)”.

Um texto bem escrito é aquele que é claro e direto; Quando se ouve nochmal (outra vez em alemão) é porque ainda tá confuso (Ricardo Tacuchian na aula da pós-graduação sobre música e literatura na UNIRIO-novembro de 2009).

“Estilo não é uma questão de técnica, mas de visão (Beckett falando sobre Proust)”.

Há uns 15 dias atrás estive na sala FUNARTE no centro do Rio assistindo um concerto de lançamento de partituras para coro juvenil. Fui convidado e intimado pela minha amiga-professora-pianista-compositora-arranjadora e cabeçona Stella Júnia. No final do concerto, me deparei com o simpático e sorridente Caio Senna, daí, falei sobre meu projeto de filosofia e música para 2010, que denominei de jazz nietzschiano: a tragédia sonora que contará com a participação de um filósofo, de um teólogo e de um pastor que discutirão após o concerto (músicas de minha autoria e convidados) sobre alguns temas do pensamento do Nietzsche. Aproveitando o assunto, o Caio foi logo me convidando para assistir uma peça dele na bienal que ocorreria na semana seguinte. Eu disse: legal! Estarei lá e fui mesmo. Fiquei mais motivado ainda, quando assisti o ensaio do Ernani Aguiar e André Cardoso com sua orquestra mágica e me interessei por uma peça do jovem compositor Rafael Bezerra, aliás, é uma promessa, espécie de Robinho ligetiano.

Quando eu entrava na sala Cecília Meirelles, geralmente a primeira pessoa que eu me deparava era com o professor e craque acadêmico Carlos Alberto Figueredo, que em minha opinião, é um dos maiores intelectuais de nosso país no âmbito da música. Quietinho no cantinho dele, com aquela atenciosa voz mansa e doce, dizia: Joe! Sempre que posso venho nas bienais, porque sempre surge muita coisa boa em meio ao hibridismo e à diversidade sonora/estética/estilística advindo de conhecidos e desconhecidos. Como dizia Einstein: “a mente que se abre a uma nova idéia jamais volta ao seu tamanho original”. Nietzsche dizia: os sinais estão por toda a parte, faltam olhos para vê-los. Olhem a garotada, pois a bienal elucida descoberta de vocações musicais e de meninos prodígios capazes de abrir um buraco nas palavras e nos sons.

Numa bienal de composição, é normal que os compositores enviem as partituras selecionadas para um endereço X, e essas peças vão parar nas mãos de intérpretes que precisam ter um caso de amor com essas partes, pois a relação entre intérprete e partitura é como uma relação entre duas pessoas (tem que rolar química). Isso ficou evidente na peça Metafonia (2009) de Aluisio Didier, interpretada por Maria Teresa Madeira ao piano e Antonio del Claro. Além da química entre esses dois instrumentistas no processo sonoro afetivo com essa lindíssima obra, outro fator que fez a grande diferença foi a enorme experiência de ambos (são anos e anos de estrada). Aliás, na hora de fazer amor, a experiência conta muito, pois ela estimula a ousadia com mais frieza e sem sentimento de culpa. É fazendo e aprendendo. Um sujeito que escutou essa peça, jamais tornará a aderir à guerra desigual, pois só na arte há salvação dizia Dostoiévisk; só a arte liberta-nos do calejamento das mãos devido ao pecado solitário internetiano.

Enquanto o excelente pianista Luiz Senise executava uma peça ao piano fazendo duo com um violoncelista, o colega que estava do meu lado cochichou: Não entendi nada. Eu perguntei a ele: Fulano! Quando você lê um livro, tens o costume de ler as notas de rodapé? Ele disse: não. Então eu prossegui e assinalei: O compositor da peça que acabaste de ouvir, se inspirou nas notas de rodapé do kamasutra musical, pois ele costuma dar valor as coisas simples da vida; ele valoriza o desprezível, pois é de Belém da Judéia que costuma sair o messias. Das posições e opções mais esdrúxulas, é possível obter bons orgasmos sonoros, mas é preciso aprender os macetes para não se machucar no ato da escuta e do fazer musical.

Adorei a ousadia do compositor Jean-Pierre Caron, que se preparou com afinco para apresentar publicamente uma peça para piano preparado. Imagino o trabalho que deu. Meu Deus! Haja paciência para adestrar um piano selvagem em sua configuração primitiva, no entanto, as pessoas costumam não ter paciência, pois os ouvidos estão despreparados para novas sonoridades. Caron apesar de gerar microfonias timbrísticas nos ouvidos tradicionalmente pensantes, foi capaz de filosofar deleuzianamente musicalmente, pois Deleuze diz: é preciso dizer o indizível indo além dos clichês. Caron tentou ir além da radiografia, por isso, é gente que faz.

Num dos intervalos, ouvi alguém reclamando: Até agora não ouvi música acusmática. Será se vai rolar alguma? Falei, que tal invocar o nome do santo Koellreutter, pedindo que ele opere o milagre do signo novo. Como diz o texto bíblico: pedi com fé e sinceridade e dar-se vos á. E o sinistro milagre aconteceu via acaso. O cineasta polonês Kieslowisk (autor de trilogia das cores) mostra-nos que o acaso é sempre condição de possibilidades, de mudanças, de reflexões profundas, e de titubeamento proativo. Um compositor paulista enviou a peça, porém segundo a direção da bienal, a partitura “não chegou” nas mãos dos intérpretes. Tenho instinto de jornalista e to sempre com meu desconfiomêtro ligado diante das notícias. Enfim, avisaram publicamente que por motivos de força e caso abafado maior, não seria possível a execução, no entanto, o compositor com extrema bravura, pediu que todos se silenciassem, pois a tal música seria executada por um CD. Não houve fitas, mas houve um acusmatismo CDniano que agradou a maioria dos presentes, sensação externalizada por convulsivos aplausos aquele rapaz de talento. E ainda tem gente que diz que música acusmática não agrada mais ninguém. Quando Deus age, ele usa quem ele quer, na hora que ele quer, e todos se rendem diante do mistério, da substância suprema-aleatória, pois somos módulos dessa substância dinâmica como dizia Espinosa. Aliás, Planck e Heisenberg ao criarem a teoria quântica, mostraram que as partículas do mundo microfísico costumam escolher vários modos de agir. O vento sopra onde quer e ninguém sabe de onde ele vem e nem para onde ele vai.

Ninguém sabe o que vem após uma peça inédita, pois a disposição seqüencial inserida no programa costuma surpreender-nos, pois no mundo moderno, coadunamos com Max Weber e suas teias de relações, por isso nos preocupamos mais com o movimento da aranha do que com a arquitetura da teia. Tudo ia muito pós-tonal, atonal, serial, panimétrico, com esporádicas pitadas sineréticas, no entanto, o curioso caso de Benjamitri Buttom fez todo mundo se preocupar com a arquitetura sonora daquele evento. A peça começou com tendências tonais, mas migrou para dimensões modais, terminando em tonal novamente, fazendo tudo voltar à estaca zero, devido insistentes cadências V-I, e arpejos em tríades pelo violão. Após a peça houve mistura de aplausos e descontentamento. As opiniões se dividiram. Mister MARAVIIIIIIIILHA me disse: essa peça merece um SUBLIME bem gostoso. O livreiro da UNIRIO me perguntou: O que-que é aquilo? Fuks e Carneiro morriam de rir vendo aquilo tudo e Carlos Alberto Figueredo frisou: Isso é Bienal: diversidade e pontos de vista sobre a mesma obra. Talvez o compositor gaúcho Dimitri Cervo, quis voltar a ser criança, a simplicidade lúdica, pois das criancinhas é o reino dos céus e lá há espaço para um cantinho um violão, uma orquestra, uma paixão. A análise transacional diz que todos nós possuímos o modo do pai, o modo adulto e o modo criança. Para apreciar uma peça como a que me referi, só nascendo de novo como Nicodemos. Para apreciar aquele momento, é preciso ser humilde e cantar: “Quero voltar ao início de tudo (...), quero rever meus conceitos e valores (...), vou regressar ao caminho,vou ver as primeiras obras Senhor (...). Eu quero voltar ao primeiro amor, ao primeiro amor, eu quero voltar a Deus”.

Existem novos compositores que além de talentosos, possuem uma sede intensa de escrever e produzir algo diferencial. Sortudo é aquele que consegue um padrinho acadêmico que funciona como uma mulher insaciável, que sempre quer mais, que sempre exige mais do aluno. No filme Budapeste baseado no romance de Chico Buarque, conta a história de um escritor que sempre escrevia no corpo de uma mulher filézona-gostosona, entretanto, a noite ela sempre apagava o que ele escreveu para que ele não se acomodasse e não parasse de escrever algo novo no dia seguinte. Bons professores, além de estimuladores, também costumam ser hereges, pois dão asas a subversividade divina. Esses costumam a dizer: Aquele que beber da minha fonte, sempre terá sede de algo novo, pois o segredo da busca é que não se acha (Fausto de Fernando Pessoa). Para apaziguar a ira dos deuses, só cantando: Eu te busco te procuro ó Deus, no silêncio tu estás.

Por isso, Chico Buarque estava certíssimo a advogar que deveria ser proibido debochar de alguém que se aventura a escrever em língua estrangeira. Parabéns aos mestres que com tanto carinho, experiência e dedicação, atiçam prá vida esses novos talentos, detentores da ousadia, que são artistas cidadãos-compositores de uma pátria desconhecida. Ai vai meus parabéns pelos seguintes gurus, que fazem simbiose dos sons com a sua própria vida, atuando como pedagogos do cotidiano, cada um com sua singularidade, conduzindo os alunos com amabilidade em meio às instabilidades: Pauxy Gentil Nunes, Marcos Lucas, Caio Senna, Davi Koryntiene, Ricardo Tacuchian (mestre do humor), Marcos Nogueira, Rodrigo Cicelli, Ronaldo Miranda, Arnaldo Antunes, Edino Krieger, Rodolfo Caesar, Ernani Aguiar, Marcelo Carneiro, Edson Zampronha, Almeida Prado, João Guilherme Ripper, Eduardo Biato e Roberto Macedo (dupla contraponto), Marco Pereira (criação, improvisação de MPB, JAZZ e afins), Ian Guest, Marcelo Rauta, Yan Wagner (sindicato), Carol Gubernikoff (russa-francesa) e outros, inclusive os intérpretes (adorei aquele guri do clarinete que tocou a peça do Marcos Lucas, pois ele é um fenômeno...vai longe, pode crer)..

Ricardo Tacuchian, ao avaliar esses novos compositores, fez um diagnóstico de amor (Luckesi) e uma análise formativa (Perrenoud), alertando que é preciso atentar para o time (tempo) certo para cada peça, pois existe hora de começar, hora de expandir, e hora de terminar. Alguns novatos, não sabem administrar a empolgação e tem uma ejaculação precoce ao tentar dizer tudo em um minuto, porém, outros ultrapassam os 11 minutos que Paulo Coelho recomenda em seu célebre livro e costumam ir além da medida. O grande orquestrador Claus Orgerman valoriza a importância da economia diante dos detalhes, para não saturar a peça com elementos desnecessários, passando do ponto G de bobeira e por falta de atenção e sensibilidade. Para engendrar momentos prazerosos, é preciso que o compositor saiba fazer amor com a mente, pois o tempo está na mente (Santo Agostinho). Para lidar com as fantasias sonoras, é preciso recorrer a Bergson e Proust que falam da simultaneidade dos tempos: passado, presente e futuro que constituem o que Deleuze chama de INSTANTE.

Há tempo prá tudo dizia o poeta no livro de Eclesiastes, por isso, há tempo para encerrar a Bienal e isto ocorreu em primeiro de novembro. Era um domingo e o tempo estava confuso pela manhã, e a tarde choveu muito, além de tudo, foi dia de arco-íris e fuca-fuca no Foucault em Copacabana, mas optei por ficar em casa assistindo o filme Querelle de Fassbinder, porque não eu não tava a fim de molhar o biscoito. Quando a chuva cessou, pude ir ao encerramento do passeio dos sons, pois lá sexo é música e música é tesão.

Um abraço batista-budista-musicista e cardecista. “Todo som é sagrado”. Se arruma! Aqui que ta bom; aqui ta bem. Se arruma! Tem espaço na VAN (Ed Motta).

www.joevancaitano.blogspot.com www.myspace.com/joevancaitano


 

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