Máquina mortífera! Uma teologia do “Deus” assassino.


A morte talvez seja o segredo da vida (Raul Seixas).

Mal nasceis e já começais e morrer (Nietzsche).

Quem quiser ganhar sua vida, perdê-la-á, mas aquele que perdê-la, reencontrá-la-á (Jesus).

Toda verdade é torta, porque o tempo é circular. A linha do passado é infinita e do futuro também e se encontram devido a curvatura temporal. Tudo vive, tudo morre, tudo expande, tudo retorna, tudo se reencontra, “nada” se perde (Adaptação de o eterno retorno do livro Assim falou Zarastustra de Nietzsche).

Há alguns dias estive apreciando uma exposição sobre Clarice Lispector no Centro Cultural Banco do Brasil aqui no Rio de Janeiro. Aliás, o CCBB é um dos meus locais preferidos, pois lá fertilizo minha mente, e me abasteço com a multiplicidade de informações fornecidas naquele local. Circulando pela exposição lispectorniana me deparei com algumas frases poéticas sobre a morte dessa escritora fenomenal. Cito algumas delas: “A vida é o desejo de continuar vivendo e viva é aquela coisa que vai morrer. A vida serve é para se morrer dela”. “Morrer vai ser o final de alguma coisa fulgurante: morrer será um dos mais importantes atos de minha vida”.

É na morte que se encontra a maior ruptura entre o espírito humano e o mundo biológico. Na morte encontram-se, chocam-se, ligam-se o espírito, a consciência, a racionalidade e o mito. Pela morte, participamos da tragédia cósmica; pelo nascimento, participamos da aventura biológica; pela existência, participamos do destino humano.

Os animais fogem da morte e, de certa maneira, têm pavor dela; alguns sofrem com a morte de seus próximos. Possuem estratégias para evitar a morte quando ela os ameaça; alguns pressentem a iminência dela e vão, às vezes, esconder-se para morrer, como os elefantes, em quase cemitérios. Mas não conhecem os ritos funerários e não podem considerar a idéia de morte.

A morte humana comporta uma consciência da morte como um buraco negro onde se aniquila o indivíduo. Comporta, ao mesmo tempo, uma recusa desse desaparecimento que se exprime, desde a pré-história, nos mitos e ritos da sobrevivência do duplo (fantasma) ou nos do renascimento num ser novo.

As sepulturas do neandertaladenses e da pré-história do sapiens parecem negar a morte, pois o morto é acompanhado de suas armas e de comida, sendo que, em certas tumbas, é colocado em posição fetal, como se deve renascer. Contudo os ritos arcaicos da morte testemunham perturbações psíquicas em função do horror à decomposição do cadáver; daí as diversas maneiras de esquivar-se dessa decomposição (cremação, endocanibalismo) ou de inibi-la (embalsamar), dissimulá-la (sepultamento), afastá-la (corpo levado para longe fuga dos vivos). Grande parte das práticas funerárias visa a proteger os vivos do contágio da morte, e o período de luto, corresponde ao tempo de duração da decomposição do cadáver, tende, originalmente, a isolar a família do morto do resto da sociedade.

A atitude humana em relação à morte supõe, ao mesmo tempo, a consciência racional, um trauma mental, originário dessa consciência, e o surgimento de mitos de uma vida além da morte para aliviar o trauma. A formidável brecha aberta, dentro de si mesma, pela consciência da morte fez surgir as mais grandiosas mitologias que a ocultam, mas sem fazê-la desaparecer. Mesmo diante do trauma provocado pela violência da morte e de suas múltiplas tentativas de apaziguamento, é importante frisar que a imortalidade não supõe o desconhecimento da realidade biológica da morte, mas o seu reconhecimento, não a cegueira diante da morte, mas a lucidez.

A morte como idéia de aniquilamento de si mesmo introduz a contradição, a desolação e o horror ao coração do sujeito, ser egocêntrico que é tudo para ele mesmo, mas que se sabe, ao mesmo tempo, um ser para a morte, ou seja, fadado ao nada; essa contradição entre o tudo e o nada se torna a fonte mais profunda da angústia humana: “Cada um carrega, com a sua morte minúscula, um cataclisma de fim de mundo”. Mas essa contradição torna-se, ao mesmo tempo, a fonte mais profunda da mitologia humana e suscitará os exorcismos mágicos, religiosos, filosóficos, contra a morte. Ritos, funerais, enterros, cremações, embalsamentos, cultos, túmulos, rezas, religiões, salvação, inferno, paraíso, marcarão as culturas e os indivíduos.

Os gregos designavam “mortais” os humanos. A mortalidade criou o seu conteúdo mitológico: a imortalidade. Reservada aos deuses foi concedida, sob certas condições, aos humanos; nas sociedades históricas, mitos e religiões permitiram o acesso aos fiéis. Nietzsche disse que o cristianismo é um platonismo para o povo. Popularizou-se o acesso ao sagrado, ao paraíso.

A morte é o nosso destino cósmico, físico, biológico, animal. E, ao mesmo tempo, é a nossa ruptura psicológica, mitológica e metafísica radical com esse destino. Por isso, é relevante sabermos que a consciência da morte não se limita ao momento e ao acontecimento da morte. Torna a morte presente na vida. Como revelam os estudos sobre o descobrimento da morte na fase infantil, é na idade de seis/oito anos que a criança acede a uma plena consciência da morte, concebida não apenas como desaparecimento, mas como destruição da individualidade. A consciência da morte o acompanhará para sempre.

Numerosos sonhos de morte ou espectros parecem traduzir uma obsessão da morte entre os arcaicos. A obsessão da morte leva, em muitas civilizações, a consagrar as economias de uma vida para a construção da casa mortuária.

A morte trabalha o espírito humano. A certeza da morte, ligada à incerteza da sua hora, é uma fonte de angústia para a vida. O encontro entre a consciência de si e a consciência do tempo determina a consciência do viver no tempo e de dever enfrentar a morte. Essa consciência implica os seres amados. A idéia da morte dos seres amados, e das amadas, aumenta a angústia e o desfecho, além do mais, uma dor insondável.

O trabalho da morte sobre o espírito humano o leva a questionar-se sobre os mistérios da sua existência, de seu destino, da vida, do mundo. E, enquanto diante da morte ele se abre para o infinito e para o mistério, o espírito diante da Natureza se abre para o mundo. Essa abertura potencial ao mundo, “grandeza da humanidade”, diz Adolfo Portmann, é também o seu problema, seu tormento, seu destino.

Boa parte deste texto foi extraído do livro V A HUMANIDADE DA HUMANIDADE da Coleção O MÉTODO de Edgar Morin.


 

Copyright 2007 | Blogger Templates por GeckoandFly modified and converted to Blogger Beta by André Monteiro.
No part of the content or the blog may be reproduced without prior written permission.