Tá na hora de deixarmos nosso cinismo de cultura e nossa arrogância de postura.

Fui lecionar música numa escola e quando eu explicava sobre o soul, jazz, bossanova, samba, choro, frevo, etc, os alunos diziam: Tio! É chato estas músicas que você coloca. Volta e meia, um ou outro dizia: Tio! eu gosto disso...Tom Jobim, soava nome de supositório..Djavan nome de vaselina..Um dia, levei o CD Poptical do Ed Motta II e um adolescente perguntou-me ao pegar o encarte: Tio! Porque ele tem cara de mau? rs...Num belo dia, eu disse a eles que eu daria uma aula de Funk e que era para eles trazerem os CDs de Funk...Tio! Só tenho batidão...Pode trazer..o Tio não tem preconceitos e frescuras...Turma de projeto (por incrível que pareça, todo mundo na tal turma sabe ler e escrever...raridade)...Liguei o som com o batidão que eles trouxeram e entreguei um texto de uma página e meia abordando sobre a história do funk e os olhinhos deles brilharam de alegria. Todos sentaram, leram o que eu pedi e começaram a responder as 5 perguntas sobre o texto...Volta e meia, um levantava dos afazeres e ia pro meio da sala fazer demonstrações de dançarismos funkianos corporais....Volta e meia, vinha um aluno me pedir para tirar dúvidas sobre o texto...Quando o sinal tocou, eles fizeram cara de ....putz!!!!!!!!!!!!! que pena...tio! Na aula que vem a gente pode ouvir o funk? O Senhor pode trazer outros CDs de outros estilos, mas não esquece de botar o funk....O engraçado é que naquele dia, a escola estava sem água e foi determinado ponto facultativo para os alunos, sendo assim, eles poderiam ir embora ou ficar no colégio. Eu dispensei a turma dizendo que não compensaria dar aulas só para eles, mas eles protestaram e exigiram que eu desse aulas para eles, porque era aula sobre o FUNK... O Funk musicalmente falando, é a língua mãe dos alunos das comunidades carentes, pois é o que eles escutam todos os dias. Não adianta querer ensinar bossanova, música de concerto, jazz, etc se a gente ignora a língua mãe. Eu aprendi\aprendo ingles, russo, alemão, francês, italiano (e leio espanhol) tendo como referência a minha língua mãe pois preciso de um chão, de um porto seguro para fazer conexões....Negar o funk, proibir o funk no colégio, é como querer forçar o ensino\aprendizagem de um novo idioma sem a referencia da língua mãe...E tem diretores e professores nas nossas escolas que não aprenderam isto...São ignorantes e estúpidos....Chamar quem gosta de batidão de ouvido\mente burra é como chamar quem não sabe ler e escrever de analfabeto...Mas, se esquecem, que o Brasil é um país marcado por tradição oral e não por tradição escrita acadêmica (outrora, reservado a elite)...Quem mexe com tradição oral, também é portador de riqueza de cultura..Não adianta fazer graduação, mestrado, doutorado, pós doutorado na Inglaterra, França, EUA, Alemanha se a gente não tem simplicidade, humildade e sensibilidade para acolher a língua mãe dos nichos sociais... A PICA SOBE A PICA DESCE...assim diz o batidão...Qual de nós não foi gerado por gestos afetivos dançantes de um músculo portador de desejos vaginosos? Tá na hora de deixarmos nosso cinismo de cultura e nossa arrogância de postura....

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