O mundo sensível não é um dom dado ao homem, mas cada coisa nasce e morre segundo aquela alternância que chamei de transformação de uma na outra, em vista da conservação do universo. Os bens e os males na esfera mortal não poderiam nem diminuir nem aumentar, nem Deus sente a necessidade de uma ulterior correção, porque ele não agiu de modo carente e imperfeito, como um homem quando fabrica algo. Porque com dilúvio e com a conflagração Deus não purifica o universo nem traz a ele correção nenhuma. Porque se algo te parece um mal, não é absolutamente claro se é verdadeiramente um mal, pois tu não sabes o que é útil para ti ou para um outro ou para o universo. (CELSO, citado por DOMENICO LOSURDO, Nietzsche o rebelde aristocrata: biografia intelectual e balanço crítico, p. 477-478) “Há muitos homens que são infelizes (unglückselig), isto é, são bem-aventurados (selig) na sua infelicidade (Unglück); estes têm necessidade da infelicidade, estão descontentes com a felicidade e criticam o mais que podem; em virtude dessa hipocondria, “vã” se torna “toda objetividade”, mas o sujeito “se alegra depois ainda em si mesmo apenas dessa vaidade”. (HEGEL, citado por DOMENICO LOSURDO, Nietzsche o rebelde aristocrata: biografia intelectual e balanço crítico, p. 167,168) Enfim, Wagner, que é o ponto de referência dos partidos do mito genealógico cristão-germânico, toma de Schopenhauer o “ódio pelos judeus”, mas dele toma também temas que nada têm a ver com o cristianismo: tanto no filósofo como no musicista, assistimos à “tentativa de conceber o cristianismo como um grão disperso do budismo e preparar para a Europa, com aproximação temporária de fórmulas e sentimentos católico-cristãos, uma era budista” (FW, 99). DOMENICO LOSURDO, Nietzsche o rebelde aristocrata: biografia intelectual e balanço crítico, p. 233) [...] Exatamente ao se referir á teodicéia, Ranke criticara a ideia de progresso: daria prova de “injustiça” um Deus que favorecesse uma geração em prejuízo de outra, que progrediu menos e é menos afortunada. Na realidade, “cada época está em relação imediata com Deus, e o seu valor não reside naquilo que brota dela, mas na sua própria existência, na sua peculiaridade”; de geração em geração, o homem é chamado a enfrentar os mesmíssimos problemas existenciais, a viver uma existência marcada pela finitude, pela dor e pela morte. [...] DOMENICO LOSURDO, Nietzsche o rebelde aristocrata: biografia intelectual e balanço crítico, página 203 Em O nascimento da tragédia, o dionisíaco, que se refere ao Oriente, desempenha um papel positivo só na medida em que é mantido sob controle. Ele representa o momento de absorção da vontade individual, que, esquecendo-se de si mesma, aceita a carga terrível de sofrimentos em nome da produção da arte e da civilização. Enquanto Dionísio atenua ou faz desaparecer a vontade do indivíduo chamado a sacrificar-se pela arte e pela civilização, Apolo impõe de algum modo a disciplina social e a hierarquia, que estão no fundamento da civilização e do desenvolvimento das poucas individualidades geniais. A função de controle exercida pelo apolíneo se configura agora como a função de controle exercida pela razão. Tudo isso remete ainda uma vez à Grécia e à Europa. A Grécia continua a ser um modelo: “Ao que era mau e perigoso, ao que era animalesco e retrógrado, bem como ao bárbaro, ao pré-grego e ao asiático, que ainda viviam no fundo segundo a natureza grega, se dava uma abertura moderada e não se visava destruí-lo completamente”. O que “é verdadeiramente pagão” (VM, 220), constitui a grandeza de uma cultura infelizmente destruída pelo cristianismo. DOMENICO LOSURDO, Nietzsche o rebelde aristocrata: biografia intelectual e balanço crítico, página 241. Capítulo 7. O “REBELDE SOLITÁRIO” SE TORNA “ILUMINISTA”: A Europa, a Ásia e a Grécia (reinterpreada). Obs: VM = Vermischte Meinungen und Sprüche (Opiniões e sentenças diversas), 1879 “Os artistas não levavam uma vida de arte egoísta, a alma ociosamente poetante hermeticamente fechada contra as grandes dores e as grandes alegrias da época [...], não separavam a arte própria da política contingente, não trabalhavam imersos num mísero entusiasmo privado”. HEINE apud. DOMENICO LOSURDO. Do estadismo da polis grega ao socialismo: Nietzsche, Constant e Tocqueville (Capítulo 9). Em: Nietzsche o rebelde aristocrata: biografia intelectual e balanço crítico, página 303. Nietzsche, porém, exatamente porque tem constantemente presente o modelo da antiguidade clássica, e não se cansa de sublinhar a identidade entre trabalho e escravidão, confere pouco espaço para a escravidão racial propriamente dita. A escravidão é, em primeiro lugar, o resultado de uma exigência objetiva e irresistível da civilização e em si tem pouco a ver com a cor da pele. Posições análogas surgem também do outro lado do Atlântico durante o debate que precede a Guerra de Secessão. Mesmo defendendo, em polêmica com os abolicionistas, a escravidão dos negros, Fitzhugh critica a ideia de “limitar a esta raça a justificação da escravidão”: “Nos tempos antigos nada nos é dito de uma escravidão negra”. Certamente, por causações históricas e de oportunidade, a população de origem africana constitui o reservatório mais conveniente para o fornecimento da força-trabalho servil do qual a civilização tem necessidade; de resto, “seja ela negra ou branca, a escravidão é justa e necessária”. Não é diferente o ponto de vista de Nietzsche que, embora olhando de modo particular para o mundo colonial como fornecedor de força-trabalho forçada, não exclui absolutamente a promoção de uma “chinesaria operária” no próprio coração da Europa. É verdade que em Genealogia da moral a dicotomia senhores\servos corresponde à dicotomia “raça loura dominante” de origem ariana\”habitantes originários de cabelos escuros” de origem não ariana (GM, I, 5) DOMENICO LOSURDO, Nietzsche o rebelde aristocrata: biografia intelectual e balanço crítico.Rio de Janeiro: Revan, 2009, página 409. Capítulo 12. A ESCRAVIDÃO NOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA E NAS COLÔNIAS E A LUTA ENTRE ABOLICIONISTAS E ANTIABOLICIONISTAS: Raça dos senhores e raça dos servos: Boulainvilliers, Gobineau, Nietzsche. A ideologia, segundo a análise de Marx, é a legitimação e a transfiguração da opressão existente, mas é também “a realização fantástica da essência humana”. Neste sntido, a religião é “expressão da miséria real”, mas também “protesto contra a miséria real”. É esse elemento, embora aleatório, de protesto contra o existente que constitui o alvo real da ideologia que visa exclusivamente ás “flores”. Aos olhos de Nietzsche, “a dignidade do trabalho é uma ideia louca do tipo mais estúpido; ela é um sonho de escravos” (VII, 140). Mas neste sonho que é a ideologia, Marx critica o ilusório da superação em relação ao existente e Nietzsche, ao contrário, o desejo de superação que ele exprime, embora de modo confuso e com veleidade. É sintomática a atitude diferente assumida em relação ao cristianismo. “Os cristãos – declara Marx – são iguais no céu e desiguais a terra”, assim como no âmbito da sociedade burguesa “os membros singulares do povo são iguais no céu do seu mundo político e desiguais na existência terrestre da sociedade”. DOMENICO LOSURDO (comentando Marx-Engels) DOMENICO LOSURDO, Nietzsche o rebelde aristocrata: biografia intelectual e balanço crítico.Rio de Janeiro: Revan, 2009, página 409. Capítulo 14. A “MULTIDÃO INFANTIL”, “O LIVRE PENSADOR” E O “ESPIRITO LIVRE”. CRÍTICA E METACRÍTICA DA IDEOLOGIA. As correntes e as flores: a crítica da ideologia entre Marx e Nietzsche\ 2. A ideologia como legitimação e contestação do sistema social existente. [...] O motivo, tradicional na literatura talmúdica, da ironia sobre a virgindade de Maria e sobre a real identidade do Espírito Santo, conhece agora ulteriores desenvolvimentos. Voltando as costas para o monoteísmo, o cristianismo inventa um mediador entre o homem e Deus: é o Filho. Mas depois Nossa Senhora passa a interceder a favor dos pecadores e, portanto, a mediar com Jesus; a Virgem Mãe acabaria se tornando uma Avó igualmente celeste¿ DOMENICO LOSURDO, Nietzsche o rebelde aristocrata: biografia intelectual e balanço crítico.Rio de Janeiro: Revan, 2009, página 556. Capítulo 18. “ANTISSEMITISMO” E EXTENSÃO DA LEGISLAÇÃO ANTISSOCIALISTA AOS CRISTÃOS E AOS “ANTISSEMITAS”.

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