CRON NO CCBB: UMA NOITE DE CHUVA, ACASO E MÚSICA.

Dedicado ao grupo CRON e a compositora e professora Marisa Rezende.


“Ensinar é um exercício de imortalidade. De alguma forma continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver. O nascimento do pensamento é igual ao nascimento de uma criança: tudo começa com um ato de amor”. (Rubem Alves – livro A ALEGRIA DE ENSINAR)
“Quando pensais no objetivo, também tendes de pensar no acaso e no disparate”. (Friedrich Nietzsche, 2005, p. 136 em: SABEDORIA PARA O DIA DE AMANHÃ)
“Os vários processos que ocorrem na mudança de um som a outro som ou de um grupo para outro grupo, formam a base da minha notação musical, a idéia e o germe de cada composição. (Gérard Grisey, 2010, p. 315, Em: Sobre a origem dos sons)

Dia 10\08\2011, quarta feira as 18h30, fui ao CCBB exclusivamente para prestigiar o concerto de música contemporânea realizada pelo grupo CRON, e disposto a descrever sobre o que assistiria. Sentei com a pitanga e logo em seguida, assentou-se ao meu lado o digníssimo Prof. Dr. João Guilherme Ripper. A chegada de Ripper foi importante para potencializar meu desejo criativo, pois para criar, é necessário que haja intercessores e esses intercessores podem ser pessoas, objetos ou coisas.
O diretor cronista, Prof. Dr. Marcos Nogueira, fez uma abertura relâmpago e em seguida, convidou alguns integrantes do grupo como: Maycon Lack (flauta), Rafaela Calvet (percussão) para se ajuntar a ele (Marcos) ao piano a fim de executarem a peça ESCALENOEDRO do jovem compositor Yahn Wagner. O trio começou a tocar de forma muito relax, com dose restrita de energia e concentração, no entanto, no meio da jornada sonora, a partitura do pianista Marcos desabou inesperadamente de cima da plataforma pianística fazendo com que ele exercitasse os reflexos humanos de malabarismos demasiado humanos. Marcos riu discretamente para todos, e propôs um recomeço. Aquele re-começo re-interpretativo foi condição de possibilidades para uma noite de vitalidade naquela estrada já percorrida, pois viajar é ter diferentes olhos para as mesmas paisagens. Aquele trio deu a volta por cima, arrancando aplausos calorosos, confiança e prestígio visual auditivo da platéia, então, eles seguiram confiantemente, pois “aquilo que não nos destrói, nos fortalece” dizia o filósofo Nietzsche.
Em seguida, foi executada a peça CINERAMA para violino, trombone e piano do compositor Marcos Nogueira. Os intérpretes Tatiana Dumas (piano), Tais Soares (violino) e Marcos Botelho (trombone) deram um show de profissionalismo, clareza sonora e dinamismo, pois ao olharem para a partitura, souberam solenemente conduzir as idéias na carruagem do ritmo, porque habitualmente elas não conseguem andar sozinhas.
A outra composição contida na programação foi a peça PASSAGENS, do compositor Marcos Lacerda. Essa peça foi escrita apenas para um duo de clarineta baixo e vibrafone. Os músicos Thiago Tavares e Rafaela Calvet fizeram um excelente diálogo convergente que se estendeu musicalmente e dinamicamente em meio às variações de intensidade e densidade sonora que proporcionavam interesse e curiosidade sobre como seria a conclusão da peça. Lacerda construiu sua peça em moldes proustianos e saramaguianos (Marcel Proust e José Saramago), pois em ambos os autores, as frases crescem por dentro, pois dominam a arte da leveza e elasticidade das palavras.
Grande expectativa também estava na obra de Neder Nassaro, chamada COLAPSO. Esta peça começou com um ataque fortíssimo do pianista Marcos Nogueira que simulou um tiro ao alto. Em seguida, o contrabaixista Cláudio Alves e a trompista Waleska Beltrami ao manusearem seus instrumentos em forma de esfrega-esfregas glissândicos, estimulava todos os nossos sentidos, fazendo-nos cogitar que ali no palco ocorria uma acirrada e disputada corrida de Fórmula I ou de aviões a beira de um ataque de “nervos”. Embora seja evidente que na hermenêutica sonora, uma mesma peça dá margem a várias interpretações, o mais importante foi que o criativo Nassaro soube cativar as expectativas. Ele soube conquistar a imaginação do ouvinte.
Após a sensacional composição de Neder Nassaro, foi anunciada a execução da peça CAMERATA, para violino, flauta, clarinete, trombone, contrabaixo e piano do veterano Edino Krieger. Além da beleza sonora e da força da densidade interna que esta obra proporcionou, ela foi construída pensando na relação entre as partes e o todo. A interpretação deu-nos a impressão de estarmos diante de debate entre amigos, onde cada pessoa podia exercer a cidadania da ética do discurso herdando assim a terra dessas palavras que eram compartilhadas e realçadas pelos demais participantes naquela roda viva e fraterna que apontava para a execução de todos formando assim uma majestosa massa sonora. Edino Krieger, apesar da idade avançada, é um guardião da lucidez e bom gosto. No aforismo 209 do livro HUMANO DEMASIADO HUMANO (volume I) de Friedrich Nietzsche escreveu:
“Alegria na velhice- O pensador ou artista que guardou o melhor de si em suas obras sente uma alegria quase maldosa, ao olhar seu corpo e seu espírito sendo alquebrados e destruídos pelo tempo, como se de um canto observasse um ladrão a arrombar seu cofre, sabendo que ele está vazio e que os tesouros estão salvos”. (NIETZSCHE, 2002, p. 141)
Após a louvação a coletividade idealizada por Krieger, o diretor do grupo convidou gentilmente a sua ex-professora de composição Marisa Rezende para subir ao palco e ali, ambos se sentaram em duas cadeiras num espaço visual que me lembrou o famoso confessionário do Big Brother Brasil, pois a luz frontal, focalizava os rostos escavando as subjetividades daquele ex aluno e ex professora. Marisa Rezende ficou muito feliz em saber que naquela noite estava diante de um de seus primeiros alunos fruto das primeiras turmas da disciplina composição na ESCOLA DE MÚSICA DA UFRJ. A felicidade daquela mulher estava assentada no sublime fato de que o Marcos cresceu e subiu vários degraus na escada da existência, e isso, caiu como um singelo, gratificante e divino presente. “Retribui-se mal a um professor quando se permanece “o discípulo”. (NIETZSCHE, 2005, p. 128).
Marisa de forma muito objetiva e panorâmica nos contou que em 1989 ela pediu apoio ao CNPQ para a formação e engajamento do grupo MÚSICA NOVA que tinha como objetivo executar e divulgar as peças dos alunos de composição e afins. Segundo ela, aqueles ensaios, concertos foram verdadeiros monumentos do tempo esculpidos em forma de debates, análises, reflexões teóricas, execuções de novas peças e intercâmbio de idéias entre várias pessoas que foram agentes portadores de criatividade emergente.
Segundo Edgar Morin em seu livro A HUMANIDADE DA HUMANIDADE:
“A criação nasce do encontro entre o caos genésico das profundezas psico-afetivas e a pequena chama da consciência. A criação é um jogo que se realiza a partir de uma aptidão organizadora (competência) que cataliza em mensagem, idéia, forma, tema musical o que era apenas tumulto, ruído, cacofonia”. (MORIN, 2005, p. 126)
Marisa Rezende ressaltou que naquele período de atuação do grupo MÚSICA NOVA os compositores e intérpretes, se debruçavam com afinco em prol da gênese e ampliação de novas idéias, rompendo dessa forma, com o mito da inspiração divina imediata que todo artista genial possui. No aforismo 155 do livro HUMANO DEMASIADO HUMANO, Nietzsche faz uma breve reflexão sobre “a crença na inspiração”. Segundo ele:
“Os artistas têm interesse em que se creia nas intuições repentinas, nas chamadas inspirações; como se a idéia da obra de arte, do poema, o pensamento fundamental de uma filosofia, caísse do céu como um raio de graça. Na verdade, a fantasia do bom artista ou pensador produz continuamente, sejam coisas boas, medíocres ou ruins, mas o seu julgamento, altamente aguçado e exercitado, rejeita, seleciona, combina; como vemos nas anotações de Beethoven, que aos poucos juntou as mais esplêndidas melodias e de certo modo as retirou de múltiplos esboços. [...] Todos os grandes foram grandes trabalhadores incansáveis não apenas no inventar, mas também no rejeitar, eleger, remodelar e ordenar. Ainda a inspiração – Quando a energia produtiva foi represada durante um certo tempo e impedida de fluir por algum obstáculo, ocorre enfim uma súbita efusão, como se houvesse uma inspiração imediata sem trabalho interior precedente, ou seja, um milagre. [...] O capital apenas se acumulou, não caiu do céu”. (NIETZSCHE, 2002, pp. 119-120)
Antes de finalizar a sucinta exposição aquela compositora e professora aposentada assinalou em rápidas palavras que peça que seria executada em seguida, foi denominada ENTREMEIO porque se balizou sobre uma linha mestre basilar que deu vida a novas linhas convergentes no processo de costura daquele tecido sonoro. Essa obra foi concebida e idealizada para clarineta, trompa e piano. Todas as linhas internas foram costuradas até o esgarçar máximo, chegando ao limiar entre a loucura e ternura da alma, no entanto, a sensibilidade, maturidade e o bom senso foram agentes de contenção. Uma compositora experiente sabe escutar as sábias palavras de Nietzsche: “Muitos escritores esticam tanto seus pensamentos que estes se tornam pesados demais”. Finalmente ENTREMEIO foi tocada [...] Amazing sound....very subláime. Clap, clap e mais claps.
Seguindo o mesmo fluxo estético sonoro proposto por Marisa Rezende, foi executado o TRIO, para clarineta, trompa e piano do neto compositor da família de som, Yahn Wagner.
O concerto se encerrou de forma muito simples e discreta, sem glamour e sem exibicionismos de egos faciais, porém, toda a formalidade foi carregada de espiritualidade interna e profissionalismo externo, pois bons artistas também são aqueles que provocam sorrisos discretos e às vezes, imperceptíveis a olho nu. Em cada gesto, em cada fala marcada pela economia dos detalhes, nos mostrou que “cada música surge de um sentimento de vida, de uma forma de vida que é produzido pelo sentimento e concepções de formas de vida”. (RIHM, WOLFGANG, 2010, p. 295, in: Der geschockt Komponist)
Encerro por aqui minhas palavras dando honra e parabenizando a todos os integrantes do grupo Cron dirigido por Marcos Nogueira, a Sala Cecília Meirelles sob a direção de João Guilherme Ripper, Ministério da Cultura, Governo do Estado do Rio de Janeiro, a iniciativa da SEC (Secretaria de Estado e Cultura), Petrobras, Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB Rio), Neder Nassaro, Marcos Lacerda e a grande Marisa Rezende (patrimônio-monumento vivo do ensino). Obrigado por nos proporcionar uma linda noite de sutis delírios de júbilo.

Fraternalmente e musicalmente
Joevan de Mattos Caitano

Referências Bibliográficas
ALVES, Rubem. A alegria de Ensinar. São Paulo: Ars Poetica Editora Ltda, 1994.
GRISEY, Gérard. Zur Entstehung des Klanges... In: Mit Nachdruck: Texte der Darmstädter Ferien Kurse. Rainer Nonnenmann (Hg.) Mainz: Schott Music GmbH & Co. KG, 2010.
MORIN, Edgar. O método 5. A humanidade da humanidade: a identidade humana. Tradução de Juremir Machado da Silva. Porto Alegre: Editora Sulina, 2005.
NIETZSCHE, Friedrich. Humano, Demasiado Humano. Um livro para Espíritos Livres. Volume I. Tradução, notas e posfácio de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
NIETZSCHE, Friedrich. Sabedoria Para Depois de Amanhã. Tradução: Karina Jannini. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
RIHM, Wolfgang. Der geschockte Komponist. In: Mit Nachdruck: Texte der Darmstädter Ferien Kurse. Rainer Nonnenmann (Hg.) Mainz: Schott Music GmbH & Co. KG, 2010.




“Cada Música tem seu valor; umas baseiam-se no aspecto mental, outras na energia motora, a terceira nos aspectos físicos, outras em reações (efeitos) emocionais, e outras é principalmente um produto puramente intelectual. Também na música contemporânea, encontramos todas essas categorias”. (GLOBOKAR, VINKO: Das Verhältnis Von Natur und Kultur als kompositorisches Problem, p. 49 – Livro: Mit Nachdruck: Texte der Darmstädter Ferienkurse für Neue Musik. Rainer Nonnenmann (Hg.), 2010)

Ontem cheguei cedo ao CCBB Rio para a continuação de minhas pesquisas cinematográficas que venho realizando em forma de hobby Cult naquele acervo suntuoso e monstruoso, naquele espaço mágico onde reinam a imagens-tempos e imagens-movimentos. Antes de entrar na salinha escurinha para efetuar minhas masturbações óticas cinefilianas, corri até o balcão para comprar o ingresso para o espetáculo do grupo de música contemporânea de concerto conhecido como ABSTRAI ENSEMBLE.
Ao entrar no teatro II, quem repentinamente aparece e senta do meu lado é o professor e compositor Marcos Lucas. O concerto começou com o diretor do grupo, Paulo Dantas falando algo muito compacto sobre a equipe e a proposta do trabalho. Essa abertura informal é importante para criar interesse no público. Segundo o compositor francês Vinko Globokar: “a fim de alcançar uma comunicação clara com os ouvintes, é necessário primeiro criar condições necessárias no palco” (GLOBOKAR, 2010, p. 50). Em seguida, Pauxy Gentil Nunes foi convidado a esclarecer aspectos técnicos sobre a sua composição Trio (2011) para saxofone, percussão e guitarra. Pauxy, docemente e claramente relatou de forma muito didática e coerente a respeito das fontes inspiradoras e excitadoras da imaginação criativa, bem como, assinalou as fontes que ele utilizou como recursos para o desenvolvimento construtivo da mesma como por exemplo: os batuques dos 3 tambores do jongo mesclado com algumas técnicas usadas por Messiaen e outros. A peça foi dedicada aos músicos Pedro Sá, Pedro Bittencourt e Marcos Campello que em seguida executaram o presente.
Depois foi a vez de Daniel Puig ser “intimado” a se explicar sobre a sua peça homônima ABSTRAI, composta especialmente para o grupo. Puig é cria de Hans-Joachim Koellreutter, portanto, adora o uso de música que envolva o elemento da improvisação como fundamento chave. Sabiamente, ele explicou que a peça fazia uso da partitura gráfica, apesar de todas as partituras serem gráficas, porém, partitura gráfica nesse contexto, significa que é uma partitura que foge aos padrões de partituras convencionais. Ele continuou ressaltando que era uma obra aberta, pois podia ser executada por qualquer instrumento e qualquer formação, porém, era fechada, pois havia uma delimitação clara sobre o que exatamente os músicos deveriam fazer durante o ato de criação\execução\improvisação. Puig ressaltou que a peça proporcionaria afetabilidades dos interpretes com a partitura, da partitura com os intérpretes, da partitura com a luz que alteraria as percepções e do compositor com o todo, pois nesse tipo de concepção elaborativa, tudo se converge, tudo se mistura e se confunde. Quando os músicos se posicionaram para tocar, as luzes se apagaram sutilmente, ficando apenas um foco luminoso sobre os intérpretes. O efeito visual provocado pelos Lucíferes da teatralidade deu-nos a impressão de um ritual que mostrava uma cantora (Doriana Mendes) comemorando seu aniversário rodeado de músicos que auxiliavam na tentativa de apagamento da vela incandescente enquanto todos rodopiavam incessantemente e programaticamente em torno daquele tambor mágico em forma de mesa redonda sem debates. Não sei se ali era o paraíso ou o infernismo, só sei que minha memória involuntária me levou ao texto bíblico aonde assinala que naquele local sinistro, o fogo nunca se apaga e o bicho nunca morre. Depois de tanto rodearem aquele bolo em forma de partitura, após, cortarem fatias em forma de tira e re-coloca de partes, aquela música cessou bruscamente como uma morte instantânea. Oscar Niemeyer está certo ao dizer: “a vida é um sopro”.
Na terceira peça, Pauxy foi mencionado novamente como compositor e foi esclarecido que a composição Galáxias I (2005\2009) foi uma peça baseada num poema gigantesco de Aroldo de Campos, escrito originalmente para uma formação diferente e estreado na Bienal de Música em 2005, no entanto, a peça sofreu mutações, por isso, foi adaptada e direcionada ao grupo ABSTRAI ENSEMBLE. Linda peça de Pauxy, um mestre da tapeçaria sonora, pois ele costura cada nota para criar um lindo e exuberante tecido musical.
A quarta peça se chamou Música para velas e água – Alterar (2011) do compositor e colega Marcos Campello. Mestre Campello, ordenou que descesse um telão, pois a execução dessa peça exigia o auxílio da imagem movimento. Em forma de cinema musical, Campellito obrigou amorosamente os expectadores a acompanhar uma partitura em formato de manchas, nos fazendo pensar em re-adaptações cinematográficas como: trono manchado de notas. Akira Kurosawa adoraria ver aquela tela estimulante para músicos com poder de criação instantânea como: Pauxy (flauta), Paulo Dantas (guitarra) e Campello e seu baixo roncante (quase Ron Carter). Ouvi algumas pessoas dizendo discretamente: “não entendi nada nessa música”. Para se compreender essa peça em forma de cores e sons, é necessário acionar a visão, pois há que se escutar com os olhos ao invés dos ouvidos. Nas palavras de Miles Davis: “a partitura é a pintura dos sons”.
Para encerrar o concerto, Pedro Bittencourt convidou seu parceiro Paulo Dantas para elucidar sobre a composição de sua autoria denominada Ab (2011). Ab é um partícula usada na língua alemã que significa a partir de...Segundo Prof. Dantas, essa composição foi fruto de uma visita pessoal a cada arquivo vivo humano demasiado humano pertencente ao grupo ABSTRAI. A partir desses encontros e trocas de experiências musicais e afetivas, ele aglutinou matérias e idéias que o impulsionou à construção do todo, através de da costura dos fragmentos. Penso que o jovem Dantas se inspirou nas sábias palavras do guru Edgar Morin:
“... eu era movido por aquilo que o tao chama de espírito do vale, “que recebe todas as águas que afluem a ele”. Mas não me vejo como um vale majestoso; vejo-me, antes, como uma abelha que se inebriou de tanto colher o mel de mil flores, para fazer dos diversos polens um único mel”. (EDGAR MORIN, 1997, Livro Meus Demônios).
A peça Ab foi executada por todos os músicos num ato de fraternidade e demonstração viva e intensiva da coletividade. Nesta composição final, Paulo Dantas como líder da equipe, nos mostrou que o mais importante para o sucesso de uma realização profissional é ter em mãos um conjunto de músicos coesos, bem entrosados e super amigáveis, pois a sonoridade não é algo abstrato e sem relações humanas, mas a sonoridade Abstraiana é fruto de uma família de som, onde todos os integrantes ceiam juntos na mesma mesa onde emana pão e música. Esse tipo de participação coletiva numa peça conclusiva nos dá a entender, que a música é como uma estrutura de ponte conectiva, porque ela une o que aparentemente estava separado. Dessa forma, Dantas e sua amiga(Ab) entendem que o global é mais que o contexto; é o conjunto das diversas partes ligadas a ele de modo inter-retroativo ou organizacional. O todo tem qualidades ou propriedades que não são encontradas nas partes, se estas estiverem isoladas umas das outras, e certas qualidades ou propriedades das partes podem ser inibidas pelas restrições provenientes do todo. Marcel Mauss dizia: “É preciso recompor o todo.” É preciso efetivamente recompor o todo para conhecer as partes. Daí se tem a virtude cognitiva do princípio de Pascal, no qual a denominação batista deverá se inspirar: “sendo todas as coisas causadas e causadoras, ajudadas ou ajudantes, mediatas e imediatas, e sustentando-se todas por um elo natural e insensível que une as mais distantes e as mais diferentes, considero ser impossível conhecer as partes sem conhecer o todo, tampouco conhecer o todo sem conhecer particularmente as partes”.
Parabéns a todos os músicos intérpretes que de forma muito simples, profissional e aconchegante, nos proporcionaram uma noite de singeleza musical. Essa amabilidade em forma de arte foi experienciada por mim quando desci de elevador e ouvi uma mulher perguntando para uma velhinha: “A senhora gostou do concerto”¿ Ela respondeu: “Amei e adorei, apesar de não ter entendido nada dessas músicas esquisitas. Mas gostei porque meu netinho está tocando no grupo”. Realmente, ver aqueles músicos entrando e saindo, saindo e entrando, trocando de formações num mesmo concerto é um exercício para os olhos e ouvidos. Um verdadeiro ostinato movente.
A cena mais marcante foi quando vi o Pedro Bittencourt super sorridente, descer do palco e circular por entre os convidados cumprimentando as pessoas e de forma muito informal, intimou as pessoas a fazerem qualquer pergunta, pois ali era um espaço interativo de ensino e aprendizagem. Esta postura brilhante do líder Bittencourt, destruiu a dicotomia que existe entre músicos na plataforma e convidados na platéia, fazendo com que Jean Pierre Caron (nosso embaixador carioca em terras paulistanas-USPianas e parisianas) e outros levantassem relevantes questões sobre os textos usados pelos compositores e intérpretes. Caron curiosamente garimpou retoricamente aquele campo que ficou um pouco obscuro durante o concerto. Pequenas, objetivas e boas perguntas = campo aberto de possibilidades para GRANDES E CONVINCENTES RESPOSTAS.
Congratulations para: Doriana Mendes, Pauxy Gentil-Nunes, Pedro Bittencourt, Marcos Campello, Kátia Baloussier, Larissa Coutrim, Pedro Sá, Daniel Serale, Paulo Dantas, Daniel Puig, Magno Caliman, SEC (Secretaria de Estado e Cultura), CCBB RIO, Sala Cecília Meirelles dirigido por João Guilherme Ripper e outros.
Fraternalmente e musicalmente
Joevan de Mattos Caitano (Joeblackvan)
www.joevancaitano.blogspot.com
http://www.myspace.com/joevancaitano




“Daí honra a quem merece honra” (Jesus Cristo)
“Sendo todas as coisas causadas e causadoras, ajudadas ou ajudantes, mediatas e imediatas, e sustentando-se todas por um elo natural e insensível que une as mais distantes e as mais diferentes, considero ser impossível conhecer as partes sem conhecer o todo, tampouco conhecer o todo sem conhecer particularmente as partes”. (Blaise Pascal, citado por Edgar Morin)
“O essencial na vida é sobreviver e manter firme a paixão” (Pedro Almodóvar)

No início de 2000, eu ingressei no curso de Música Sacra na FABAT, e em minha turma havia uma guria de pequena estatura, com cabelos longos e que tocava violino. Um fluxo de ventania existencial levou subitamente a Vanessinha para Curitiba. Posteriormente, quando ela retornou, descobri que ela já estava afetivamente nos braços do Léo. Foi uma notícia surpreendente, porém, acalentadora de minhas positivas expectativas.
No mesmo ano de 2000, ainda calouro e “bicho do mato” na selva carioca, fui por acaso assistir um concerto de formatura do violoncelista Saulo de Almeida acompanhado pela grande pianista Priscila Bonfim. Quando acabou aquele suntuoso espetáculo sonoro na UNIRIO, eu e alguns colegas voltamos de carona num humilde e singelo Fiat vermelho. Enquanto eu me deslumbrava vendo a enseada de Botafogo, o Pão de Açúcar com óticas noturnas, eu ouvia aquele jovem motorista falando entusiasmaticamente sobre suas aulas de teclado e piano com professores particulares e no Conservatório Brasileiro de Música. Posteriormente, em Abril de 2002, aquele jovem de óculos compareceu como expectador e apreciador do primeiro evento musical dirigido por mim, contendo composições de minha autoria. O evento na FABAT chamou-se A LUZ NO FIM DO TÚNEL. Quando acabou aquele mini concerto, o tal jovem “oculista” me abraçou, me parabenizou e disse: Joe! Adorei tudo que ouvi. Conte comigo se precisar de um tecladista. No mês seguinte, o MM Ednardo Monti me ligou convidando meu grupo para se apresentarem numa quarta feira na PIB da Barra. Diogo Rebel era meu pianista oficial e na semana daquele concerto não pude contar com o naipe de cordas, então convidei o Léo para fazer cordas usando o teclado. O Léo tocou e gostou e eu ouvi e gostei do jeito do Léo e dali prá frente nunca mais o Léo ficou de fora.
Em 2003 lá estava Léo liderando o ensaio do instrumental para o musical A REVOLUÇÃO. Em 2004 estava o Léo ensaiando com a banda pro RIO BRASIL BRASILEIRO. Em 2005 Léo ralou na preparação do grupo para apresentações e workshop no Louvação e musical DE OUTRO MUNDO EU SOU. Em 2006 lá estava Léo preparando nos bastidores o repertório para o polêmico show BÁIONSAMBAJAZZ e afins.
Em 2003, a convite do Pedrão e direção do OPÇÃO JOVEM, fui convidado a levar o coro Jovem da PIB COPA para se apresentar na rudimentar CBRIO em fase de gestação na UNION CHURCH. Quem estava tocando e segurando as pontas no teclado enquanto eu regia o grupo? Léo Gomes. Quem tocou nas cantatas de natal entre 2005 e 2006, dissecando altas harmonias ainda na minha gestão na CBRIo? Léo Gomes. Quem esteve tocando no meu workshop na AMBC em 2005 ? Léo Gomes. Quem andou segurando as pontas do louvor nos encontros da AMBB ultimamente ? Eles, sempre eles…Léo Gomes, Vanessinha e companhia.
No final de 2005, o Léo apareceu repentinamente num daqueles cultos apertados no auditório do Shoping Mdtown e participou tocando. Ficou inebriado e empolgado com a freneticidade e afetividade do ambiente e relatou nos bastidores joianos que tinha enorme vontade de um dia vir atuar naquela comunidade animada de fé. Era uma fase de transição, pois precisávamos migrar para um espaço maior, visto que, aquele pequeno espaço crescia por dentro, pois a nossa fraternidade criava elasticidade interna nas paredes que iam suportando aquela onda receptiva de novos fluxos corporais que se aconchegavam naquele cantinho movido a violões (Fernandinho, Marcelo Du, AndréVioli e companhia). O tempo de cantar chegou, e finalmente nos mudamos para o ancestrálico teatro do shoping Open Mall, pois aquele ambiente era constituído de paredes com pinturas enigmáticas invisíveis e de poeira incessante. Pedro (Pedrão) e os demais apóstolos e discípulos levantaram a pedra angular e tudo se fez novo naquele espaço onde atualmente emana gente e música.
No final de 2006, por motivos de foco acadêmico, Joe deixou sutilmente aquele espaço eclesiástico e seguiu a vida vagando loucamente (como sempre). Daniel Batera, sabiamente, ao ver aquele oásis espacial de possibilidades sonoras afetivas administrativas, recomenda a efetuação do convite ao jovem Léo Gomes, ainda noivo de Vanessa. Em seguida, ambos se casaram glamourosamente e começaram atuar com toda a intensidade da alma em prol da ampliação musical daqueles músicos voluntários que ali se faziam presentes. O engajamento de Léo e Vanessa é visto no resultado final das apresentações do coro em cantatas de Natal e outras programações, celebrações com vocal\banda e orquestra, bem como durante o processo preparativo, pois cada ensaio é um campo aberto de possibilidades no âmbito da aprendizagem, da afetividade\fraternidade e do exercício intenso e profundo da espiritualidade.
Em toda a jornada ministerial, Léo e Vanessa nos mostraram discretamente que o caminho se faz caminhando. Nas palavras de Paulo Freire, é preciso começar onde as pessoas estão e então, a partir dali, deve-se caminhar com elas. O trajeto que Léo trilhou, exigiu dele dedicação e visão além das problemáticas e complicações do instante, por isso ele se debruçou sabiamente e profissionalmente na confecção e organização de um livro de partitura (melodia e cifra) de mais de 100 cânticos que eram usados frequentemente durante as celebrações litúrgicas. Organização e versatilidade são dois elementos facilitadores que proporcionam segurança litúrgica, evitando assim, o desperdício de tempo e aberrações biológicas num momento de prováveis instabilidades existenciais.
Um dos pontos forte da cadupla Léo e Vanessa é o poder de aglutinação que eles possuem, pois ambos conseguem arregimentar diversas pessoas para uma determinada partida sonora\litúrgica. Foi assim na cerimônia de casamento. Foi assim nas cantatas e comemorações de aniversário da CBRIO; foi assim no culto de despedida em 31\07\2011, pois numa noite ontológica, muitos instrumentistas e cantores se revezaram no palco louvando ao Sagrado e homenageando de forma sutil o amado casal que durante 4 anos e meio lançou o pão sobre as águas rejuvenescedoras em meio as barras e barragens da vida. Sem dúvida, o talento de um grande arregimentador, é convocar as pessoas certas para os contextos musicais certos.
A presença de Deus foi e é visualizada durante as ministrações verbais de Vanessa, pois com sua voz estilisticamente pastoral ela comunica de forma simples e didática os mistérios do Reino de Deus. Segundo o teólogo Leonardo Boff, “Deus é identificado com os conceitos que dele fazemos. Ele habita nossos conceitos e nossas linguagens”. Léo e Vanessa resplandeciam a luminosidade divina nas coisas simples da vida, pois nessas horas é que Deus falava e ainda fala conosco em nossa língua materna. Como dizia o Apóstolo São Paulo à comunidade de fé em Corinto: “Quer comamos, quer bebamos, quer façamos qualquer coisa, que seja feito tudo para a glória de Deus”. Exemplifico isso ao dizer que Léo e Vanessa sempre adoraram celebrar a fraternidade junto com os amigos nas pizzarias e churrascarias da vida, pois nesses momentos havia plenitude de alegria. Nas palavras de Leonardo Boff: “Quem experimentou o mistério de Deus não pergunta mais: vive simplesmente a transparência de todas as coisas e celebra o advento de Deus em cada situação, pois a experiência com Deus é uma experiência total que inclui o saber, o não-saber e o sabor”.
Nossa existência é constituída de rituais de passagem, por isso, acredito que a passagem fulgurante e significante de Léo e Vanessa na CBRIO foi um marco vital para aquela comunidade de fé e um período de ensino aprendizagem, pois ali ambos puderam exercitar a experiência, pois na experiência, teoria e práxis se casam e vivem juntas numa unidade fundamental. A teoria não é mais abstração e idéia vazia. Ela é explicitação da práxis e a comunicação dela. Léo e Vanessa ao abraçarem a experiência, procuraram compreender a CBRIO por todos os lados, por isso, eles precisaram “estar orientado para fora”, “exposto a”, “aberto para”.
Biologicamente, pelo fato de serem humano demasiado humano Léo e Vanessa são seres-carência e dotados de desejos e inquietudes que o impulsionam a sair da comodidade e normalidade, rumo a novos ambientes. Por isso, ambos estarão migrando para Vila Velha na grande Vitória para exercerem cargo de liderança musical. Aquela comunidade fé ao empossarem essa magnífica cadupla, irá dizer: As coisas velhas já passaram e eis que tudo se fez novo.
Léo e Vanessa deixaram a Comunidade Batista do Rio situada na Barra da Tijuca (com aproximadamente 1000 membros) com a sensação de missão cumprida. Num bate papo pelo chat no facebook, o jovem baterista e multi-instrumentista Pedro Ikeda Takeschi (Pepe), disse que o tal casal foi extremamente profissional, amigável, competente e vai deixar a casa arrumada para os sucessores David Sicon e Black Vanderlei. Em homenagem ao grande empenho aquele espaço litúrgico, Léo e Vanessa receberam um singelo presente em forma de livro autografado. Na dedicatória constava a promessa de que aquelas páginas se converteriam em laudas de ouro nas estantes bibliotecáticas do mundo metafísico, com probabilidades de tal obra ser citada como nota de rodapé no LIVRO DA VIDA, pois a mensagem cristã é clara: Não devemos acumular riquezas na terra onde as traças destroem e os ladrões roubam, mas precisamos criar expectativas no céu, pois lá não haverá olho grande.
Léo e Vanessa é o relato de uma vocação, frutos da história de uma aprendizagem na estrada da vida. Ambos nos mostram que “experimentar Deus não é apenas pensar sobre Deus, mas senti-lo com a totalidade do ser e isto implica falar de Deus junto com os outros objetivando tirar o mistério do universo do anonimato para conferi-lhe um nome: o de nossa reverência e de nosso afeto” (Leonardo Boff). Através do trabalho desses servos da força sonora, podemos ver que Deus perpassa todas as instâncias temporais, por isso, Ele pode ser percebido e experimentado nas mais diferentes situações da existência e em cada detalhe pessoal e comunitário. Em Leo e Vanessa podemos ver que:
“O Reino de Deus não é nada que se espere; não possui ontem nem depois de amanhã e não virá em mil anos – o Reino de Deus é uma experiência de um coração e está em toda parte e em nenhum lugar”. (Friedrich Nietzsche)
Como estimulante ao serviço ministerial e existencial, recomendo a leitura deste lindo poema ECONOMIA do poeta Giuseppe Ghiaroni, citado por Jonas Rezende em um de seus livros.
Dá de ti, dá de ti quanto puderes:
o talento, a energia, o coração.
Dá de ti para os homens e as mulheres como as arvores dão e as fontes dão.
Nao somente os sapatos que nao queres ou a capa que não usas no verão.
Darás tudo o que fores ou tiveres: o talento, a energia, o coração.
Daras sem refletir, sem ser notado, de modo que ninguém diga obrigado nem te deva dinheiro ou gratidão.
E com que espanto notarás um dia que viveste fazendo economia de talento, energia e coracão.

Abraços Partidos e sucessos na nova etapa meus (nossos) amigos mais que irmãos (Léo e Vanessa). O importante é que emoções eu vi cantou cadupla (e nós também).
Joe Almodóvar (Joevan de Mattos Caitano).


 

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