Ao iniciar um casamento, o homem e a mulher (ou dois parceiros (a) devem levantar a seguinte questão: Será se estou mesmo interessado em conversar com a pessoa amada pela vida afora (até a velhice se possível)? Esta pergunta é importante, pois boa parte do casamento (relações) é sustentada pela conversa. (Nietzsche)

A família surge, nas sociedades históricas, para tornar-se a unidade básica para a qual se canaliza a reprodução e concentram-se os cuidados das crianças. As instituições de parentesco, da exogamia e a proibição do incesto canalizam socialmente os processos de reprodução e contribuem para diversificar as determinações genéticas dos indivíduos. Lembre-se que “a sociedade se auto-produz pela reprodução biológica, que se auto-reproduz de acordo com a norma sociológica”.
Houve vários modelos de família na Antigüidade, no entanto, ela sempre estava atrelada como uma unidade ligada, sendo o lar um refúgio protetor. Cito por exemplo a família agrícola que era uma unidade socioeconômica de produção de recursos e de transmissão de bens. A família durante muito tempo, foi também fruto de uma aliança entre duas famílias diferentes. Foi também uma unidade cultural que garantia a educação dos filhos, até que o advento da escola pública tirou esse papel. A família sempre foi uma unidade psicológica fundamental, pois o nome família funda a identidade pessoal. O pai encarna a autoridade, e a mãe, o amor, as duas potências que marcarão os destinos individuais das crianças.
A marca da família na criança, depois no adulto, é fonte de complexidade mental. O Freud e as correntes oriundas do freudismo destacaram a ambivalência e a dialética do amor/ódio, do desejo e do recalcamento inerentes à família. As famílias podem ser cantinhos seguros ou prisões; daí no primeiro caso, as dificuldades da separação e, no segundo caso, as evasões, as auto-afirmações e revoltas individuais. Enfim, a família é o lugar primitivo do sexo na sua ferocidade biológica e mitológica, camuflada sob todos os aspectos atrativos, amáveis, úteis e funcionais. O Freud teve curiosidade na alma diante da força da sexualidade, a ponto de arrancar a braguilha da calça do pai e a indumentária íntima da mãe porque ele aspirou ver os órgãos genitais de ambos.
A família, como unidade autônoma fechada, pode ser fonte de patologias e de sofrimentos nas crianças, herdeiras de neuroses familiares, submetidas à autoridade incompreensível ou brutal do pai; às vezes, estupradas, frustradas pela indiferença de uma mãe ou sufocados pela sua possessividade. A família evoluiu muito no mundo ocidentalizado contemporâneo. O casamento por amor fez a sua entrada e ocupou enorme espaço, em detrimento do casamento de conveniência. A casa com três gerações cedeu lugar, com freqüência, ao apartamento do casal com filhos. O lar tem cada vez menos crianças. A importância do filho aumenta com a diminuição do número e o filho único concentra cuidados e amor e os pais chegam a cantar para ele a canção sacra “TODA A SORTE DE BENÇÃOS DEUS PREPAROU PARA TI”, ampliando mais ainda o desejo infantil de ser mimado.
A pequena família quase não tem função produtiva. O lar é invadido pela economia exterior e pela cultura da mídia. A função patrimonial diminui. O papel educativo dos pais enfraquece-se. O Estado encarrega-se das creches, escolas maternais, maternidades e asilos. Os adolescentes emancipam-se muito cedo da tutela da família. Com isso, cada vez mais, no Ocidente, a família deixa de ser o lugar onde se nasce, aprende-se, trabalha-se e morre-se. Mesmo restrita em dimensões e em funções devido às diversas mutações, a família ainda permanece um concentrado biológico, psicológico, cultural e social muito forte. A procriação por esperma anônimo, as gestações em barrigas de aluguel ou de proveta e a clonagem humana, enfim, questionam as noções fundamentais de paternidade, maternidade, filiação. Mesmo assim, creio que as noções de pai, mãe, filho e filha continuarão vivas mesmo depois de desaparecerem geneticamente, pois enraizadas na cultura, elas se manterão afetivamente através dos nossos pais adotivos, educadores ou clonadores. Depois dos Organismos geneticamente modificados (OGM), surgiram os organismos humanos geneticamente modificados (OHGM), que são ordenados e padronizados. Os atributos e características humanos já se tornaram objetos e mercadorias. Os pais do novo tipo podem escolher as qualidades dos filhos num catálogo.
Desde o século XVIII, os homens começaram a suprimir as conseqüências reprodutivas do coito pela sua interrupção, e as mulheres pela lavagem pós-coito com água fria. Foi a partir do século XX que a sociedade entregou ao homem e a mulher o controle da reprodução por meio de preservativos, pílulas e abortos legais. Resta ainda o tabu do incesto. Através dessas práticas conscientes que se tornaram cada vez menos constrangedoras, o homem e a mulher, conseguiram multiplicar os prazeres eliminando as conseqüências genitoras do ato de amor. A partir daí, o gozo opõe-se à semente, e a recopulação opõe à repopulação.
Em meio a essas metamorfoses sociais é importante frisar que através das crises que enfraquece, fortalece e transforma, mesmo assim, a família permanece um núcleo insubstituível de vida comunitária, o que pode ser comprovado, nos países ricos do Ocidente e outros países em processo de desenvolvimento, pelo surgimento e pela legitimação de famílias homossexuais. É importante ter em mente, que apesar das mutações frutos do fluxo histórico-sociológico, o casal ainda é o núcleo da família, se encontra em crise. As atividades profissionais do homem e da mulher ocupam uma parte de vida independente, fora do lar; a multiplicidade dos encontros, o relaxamento dos costumes, a necessidade de assistência afetiva, de beleza, de poesia, tudo isso favorecem os adultérios. Os divórcios tornam-se normais, não mais exceções. Há crise do casamento por amor, vítima de um novo amor. “Que o amor seja eterno enquanto dure” foi a afirmação profética do poeta Vinicíus de Moraes, talvez, inspirado num dos aforismos do filósofo Friedrich Nietzsche em seu livro Humano Demasiado Humano:

O que se pode prometer – Pode-se prometer atos, mas não sentimentos; pois estes são involuntários. Quem promete a alguém amá-lo sempre, ou sempre odiá-lo ou ser lhe sempre fiel, promete algo que não está em seu poder; mas ele pode prometer aqueles atos que normalmente são conseqüência do amor, do ódio, da fidelidade, mas também podem nascer outros motivos: pois caminhos e motivos diversos conduzem a um ato. A promessa de sempre amar alguém significa, portanto: enquanto eu te amar, demonstrarei com atos o meu amor; se eu não mais te amar, continuarei praticando esses mesmos atos, ainda que por outros motivos: de modo que na cabeça de nossos semelhantes permanece a ilusão de que o amor é imutável e sempre o mesmo. – Portanto, prometemos a continuidade da aparência do amor quando, sem cegar a nós mesmos, juramos a alguém amor eterno. (NIETZSCHE, Friedrich, 2002, aforismo 58, p. 59)

Nunca o casal foi tão frágil e, contudo, nunca a necessidade do casamento foi tão forte; é que diante de um mundo anônimo, de uma sociedade atomizada, em que o cáculo e o interesse predominam, o casamento significa intimidade, proteção, cumplicidade, solidariedade. Assim, o novo amor, que desestrutura um casamento, estabelece outro. O casal, refúgio privilegiado contra a solidão, contra o desespero e contra a insignificância, renasce incessantemente. A família está em crise, o casal está em crise, mas o casal e a família são respostas a essa crise.

(Texto adaptado do livro A HUMANIDADE DA HUMANIDADE- volume IV da coleção O MÉTODO de Edgar Morin).

Bibliografia

NIETZSCHE, FRIEDRICH. Humano Demasiado Humano. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia Das Letras, 2002

MORIN, Edgar. A HUMANIDADE DA HUMANIDADE- volume IV da coleção O MÉTODO.

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