Cu fundo: Um olhar Teo-cinematográfico sobre um abismo mais que (im) perfeito


“Hitchock inventava histórias para poder filmar certo tipos de cenas” (Zizek-filósofo esloveno).

Um dia desses sonhei que devido às circunstâncias aleatórias da vida, eu dançava na beira do abismo olhando para o alvo que é Cristo, no entanto, num ataque de ousadia olhei para baixo e quase fui engolido pela força da gravidade, mas minha fé lutou contra aquela força cósmica me fazendo cair para cima. Naqueles momentos de buraco negro da alma, minha memória involuntária me fez cantar “segura na mão de Deus, segura na mão de Deus, pois ela, ela te sustentará”.
Não sei, porque sonhei com isso, mas só sei que ta rolando uma mostra dos filmes de Hitchcock no CCBB Rio. Lembrei-me do filme O Guia Pervertido do Cinema do filósofo e cinéfilo Slvoj Zizek, pois em seus comentários sobre os filmes de Alfred Hitchcock, ele faz referências ao motivo que Freud chamou de “Niederkom-menlassen (deixar-se cair)”, com todas as suas conotações de queda suicida melancólica. Usando esse motivo, Hitchcock mostra uma pessoa que se agarra desesperadamente à mão de outra: o sabotador nazista que se agarra à mão que o bom herói norte-americano lhe estende do alto da tocha da Estátua da Liberdade no filme Sabotador; na confrontação final do filme Janela Indiscreta, o fisicamente diminuído ator James Stewart, pendurado na janela, que tenta agarrar a mão de seu perseguidor, o qual, em vez de ajudá-lo, esforça-se para fazê-lo cair; em O homem que sabia demais, no mercado ensolarado de Casablanca, o agente ocidental, moribundo, vestido de árabe, que estende a mão para o inocente turista norte-americano (James Stewart) e o puxa para si; o ladrão, finalmente desmascarado, que se agarra à mão de Cary Grant em Ladrão de casaca; James Stewart, que se segura à chaminé do telhado e tenta desesperadamente alcançar a mão que o policial lhe estende logo no início de Um corpo que cai; Eva Marie-Saint, que se agarra à mão de Cary Grant à beira do precipício (logo seguido do plano em que ela se agarra à mão dele no beliche do vagão dormitório no final de intriga internacional). Os filmes de Hitchcock estão cheios desses motivos. Há o motivo de um carro à beira do precipício em Suspeita e Intriga Internacional – nesses dois filmes, há uma cena em que o mesmo autor (Cary Grant) conduz um carro que se aproxima perigosamente de um precipício; embora os filmes estejam separados por quase vinte anos, a cena é filmada da mesma maneira, incluindo um plano subjetivo do ator quando lança um olhar para o precipício. No último filme de Hitchcock, Trama macabra, esse motivo assume a forma de uma longa sequência do carro cujos freios foram sabotados por bandidos e que desce a encosta a toda a velocidade.
Esse motivo hitchcockiano é encontrado na cena quando Jesus encontra e filma o endemoniado gadareno. No roteiro, Jesus malandramente propõe aquele grupo de demônios que migrassem daquele corpo inerte e desconfortável para uma manada de porcos, com a garantia de que haveria mais comodidade e mobilidade para todos, pois na casa de meu Pai, há muitas moradas disse aquele Rabi. Jesus, estrategicamente, retira os freios daqueles animaizinhos velozes e convida os capetinhas para uma viagem ao desconhecido. Diz a narrativa bíblica que aqueles porcos aceleraram rumo ao abismo levando consigo outros corpos. Outra narrativa mostra Jesus suado e cansado sobre o pináculo do templo que foi construído no cume de uma montanha elevada. O diabo se aproximou de Jesus e pediu-o que olhasse fitamente para baixo. Jesus esticou o pescoço com a elasticidade de uma girafa, arregalou o olhão, se arrepiou por completo e tremeu na base, porém o Diabo sacano disse: “Se você se atirar rumo ao asfalto, darei ordens aos meus anjos da guarda que te escoltem com páraquedas nos ares. Quando aterrizares, lhe darei as glórias deste mundo. Que tal? É pegar ou largar” Jesus olhou olho no olho e dente por dente diante da face de satã e respondeu: “Uma parte de mim tem medo e outra parte de mim é cética, além disso, o meu cou (cu) pisca e elasticiza com lucidez”. E o diabo foi embora sem entender nada achando que o Messias era viado, porque não sabia francês, porque le cou (pronucia-se cu) é PESCOÇO na língua francesa.

Abraços e suspenses.
Joeblackvan

2 Comments:

  1. rayssa gon said...
    verdade. cou em francês é pescoço.
    Jorge Machado Neto said...
    hahahahaha, tu fez o texto msm ! kk'

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