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“Guarda-comida, era um armário com porta de tela fina onde se guardava a comida, pois geladeiras não havia”. (Rubem Alves)
“Meu coração vagabundo quer guardar o mundo em mim” (Caetano Veloso)


Ontem morreu seu João. Durante muitos anos, ele conduziu a cantina da Escola de Música da UFRJ. Diante de seu olhar, passaram muitos músicos elitizados e em processo de elitização, bem como alunos “simples” que se tornaram professores e administradores anos depois.
Ele era um homem moreno, manso, muito humilde e gentil. Era um gentleman. Uma de suas maiores virtudes era de ser guardião de bolsas e materiais dos alunos. A gente vinha com nossos fardos acadêmicos-“pecaminosos” e depositava sob os cuidados daquele senhor de fala mansa, pois confiávamos naquelas mãos protetoras. A gente entregava nossos pertences e recitávamos em nosso silêncio interior: “Se o Senhor (João) é meu pastor, nada me faltará. Ainda que eu desapareça da EM por longos dias, não temerei mal (sumiço) algum, pois os materiais estão contigo”.
Uma coisa interessante que eu observei durante a minha jornada estudantil foi: Os professores e colegas mais elitizados não admitem comer em lugares simples. Procuram comida a quilo ou alacarte em locais mais aconchegantes, confortáveis e glamouráveis. Freqüentam o Bar do Ernesto e outros ambientes mais caros nos arredores. Mas, esses mesmos afortunados, não perdem os antigos costumes ao se assentar naquele local simples e apertado chamado CANTINA DO SEU JOÃO e pedem um suco de laranja, comem pãozinhos de queijo, misto quente e outros quitutes. Eles sentam ali não apenas pela força do sabor da comida, mas devido a potencia afetiva do Seu João que desde os tempos de graduação, os serviu como um pai amoroso. A gente pode se tornar famoso, freqüentar o PORCÃO, BARRA BRASAS, Restaurantes franceses, árabes, japoneses e outros locais portadores de iguarias sedutoras, no entanto, a gente sente saudade e precisa da comida simples da mamãe e do timbre do papai. Quando um professor sentava naquele espaço sagrado do Seu João, era como se Deus falasse a eles na língua materna.
“Quem pensa que a comida só faz matar a fome está redondamente enganado. Comer é muito perigoso. Porque quem cozinha é parente próximo das bruxas e dos magos. Cozinhar é feitiçaria, alquimia. E comer é ser enfeitiçado. Sabia disso Babette, artista que conhecia os segredos de produzir alegria pela comida. Ela sabia que, depois de comer, as pessoas não permanecem as mesmas. Coisas mágicas acontecem. E desconfiavam disso os endurecidos moradores daquela aldeola, que tinham medo de comer do banquete que Babette lhes preparara. Achavam que ela era uma bruxa e que o banquete era um ritual de feitiçaria. No que eles estavam certos. Que era feitiçaria, era mesmo. Só que não do tipo que eles imaginavam. Achavam que Babette iria por suas almas a perder. Não iriam para o céu. De fato, a feitiçaria aconteceu: sopa de tartaruga, cailles au sarcophage, vinhos maravilhosos, o prazer amaciando os sentimentos e pensamentos, as durezas e rugas do corpo sendo alisadas pelo paladar, as máscaras caindo, os rostos endurecidos ficando bonitos pelo riso, in vino veritas... Está tudo no filme A Festa de Babette. Terminado o banquete, já na rua, eles se dão as mãos numa grande roda e cantam como crianças... Perceberam, de repente, que o céu não se encontra depois que se morre. Ele acontece em raros momentos de magia e encantamento, quando a máscara-armadura que cobre o nosso rosto cai e nos tornamos crianças de novo. Bom seria se a magia da Festa de Babette pudesse ser repetida”. (RUBEM ALVES)
Um dia eu brinquei com os colegas ao dizer que Dom Pedro manuseou aquela máquina calculadora da cantina. Foi aquele barulho rasgado e endinheirado que impulsionou os primeiros compositores da EM nos tempos de outrora. A cantina do Seu João é econiana, pois é um exemplo de engrenagem rudimentar que sobrevive jubilosamente a força inovativa tecnológica. Como dizia Umberto Eco: “Eletrônicos duram dez anos, livros duram cinco séculos”. Seu João foi um exemplo de ancestralidade culinárica-afetiva, pois atuou como receptor informativo e psicólogo dos amigos através de seu sorriso tímido e discreto, bem como através de sua escuta benevolente e complacente em meio ao mal estar da civilização.

Outra coisa que eu observei foi que aquele espaço condensado, sempre foi condição de possibilidades para conversas empolgantes e flamejantes. Como dizia Alfred Whitehead, “as idéias não são para guardar; alguma coisa tem que ser feito com elas”. Durante muitos anos, seu João ouviu tudo, porque quem ouve mal, sempre ouve algo a mais ressaltou Nietzsche. Seu João aderiu ao ministério da escuta; fez isso com maestria porque sabia que no muito falar há desgaste, por isso, é necessário guardar silêncio. Seu João foi um exemplo de cidadania e civilidade, pois soube como ninguém preservar a imagem e as mazelas de cada estudante, professor e funcionário. Imagino eu o caos que ele provocaria se porventura, ele resolvesse abrir as comportas do céu, revelando os segredos alheios mais estranhos contidos dentro de sua caixa preta. Seu João viveu no sapatinho e morreu no sapatinho. Quem sabe os deuses e os anjos poderão ver os dedos do pé calejados de tanto lutar contra a tentação do salto alto e o chulé da maledicência.
Acredito que Deus tomou para si o Seu João, pois ficou temeroso, caso ele fosse acometido de uma doença degenerativa que o impulsionasse a dizer o indizível. Como “teólogo” de esquerda, meu desconfiômetro sempre apitou ao ler (o mito) passagem bíblica do jovem Judas traidor. Eu suponho que ele segurou a onda o tempo todo, e por isso, foi torturado e assassinado por não revelar a senha e os arquivos mais secretos e estratégicos do mestre (Rabi) Jesus de Nazaré que era opositor mortal da cúpula sacerdotal do Templo de Jerusalém.
A Escola de Música da UFRJ perdeu um patrimônio da escuta, do carisma, da honestidade e da sutilidade. Perdemos um arquivo com as guaritas mais secretas.
Depois de Seu João, somente seu Aristides (Seu Ari) secretário da PPGM da UNIRIO estão no mesmo patamar da gentilidade e gentlemanlidade.
Finalizo essa singela homenagem citando esse bela frase de Benjamin Franklin: “Três pessoas são capazes de guardar um segredo, se duas delas estiverem mortas”.


Abraços Partidos
Joe Almodóvar (Joevan Caitano)
Mestrando em Musicologia –UFRJ até 29 de Abril.

7 Comments:

  1. Anônimo said...
    Excepcional homenagem!
    Abraços
    Raphael Rocha
    Anônimo said...
    Stella Junia diz:

    Joe,

    Magistral !! EU queria ter escrito este texto... Eu estava esperando o meu melhor momento para escrever sobre o Seu João, agora não mais...

    Está tudo dito, pelas suas mãos, pela sua alma.

    Lindo, verdadeiro, completo.

    bj, querido

    Parabéns!

    Stella
    Coral dos Correios do Brasil said...
    Que texto lindo!!!! Como seria maravilhoso se houvessem mais pessoas como Seu João !!!!
    Erica Yanney said...
    Tive o prazer de passar pelos dois: seu Joao e seu Aristides e concordo totalmente! Pessoas muito especiais. Seu Joao vai deixar saudades...
    Gileade said...
    Este comentário foi removido pelo autor.
    Gileade said...
    Nossa! Eu que nem sou de música, nem cria da UFRJ, posso dizer que acabei de conhecer seu João. E me encantei. Como não se encantar, ante tão belo texto? Seu João, lá do céu, deve ter ouvido você ler esse texto baixinho, na última revisão antes de publicá-lo e deve ter ficado lá, com um sorriso nos lábios ouvindo as músicas celestiais.
    Anônimo said...
    Nossa! Que texto lindo!Pena que não conheci "Seu João"!Perdi...

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