Sucuris que nos perturbam. Uma viagem à selva da psicanálise, história e memória.

“Se tentaram matar os teus sonhos sufocando o teu coração (...) não desista pois os sonhos de Deus jamais vão morrer (cânticos espirituais)”;
A história está perdida sem a memória, pois a memória redime a história (Walter Benjamim).

Revisitando alguns bons e-mails de outrora, encontrei um com a seguinte frase: “Aquele que provar de mim (chá de...) nunca mais terá sede“. Era por volta de 23h e minha memória involuntária fez um vasto e longo passeio pelos bons momentos que a vida ofereceu-me. Segundo Nietzsche, “há uma via promissora no olhar retrospectivo do historiador-artista, pois todos os fenômenos históricos são mundos que sempre se abrem a novos olhares e a novas avaliações“.
Abatido existencialmente, peguei no sono e tive dois sonhos paralelos, porém, “desconexos“. No primeiro, sonhei que eu era um atacante na seleção Tcheca contra a equipe da Rússia num dia de muita neve. O jogo era truncado com muitas faltas e chutão pro alto, mas eu era bem marcado. Entendia tudo o que os russos diziam contra mim, pois eu sou um letrado em línguas eslavas. Estava tudo no 0x0 e não sei o resultado final, porque a transmissão da partida inconsciente foi cortada e entrou outra conexão num contexto latino:
Estava no alto de um morro e vi um Senhor assentado sobre um sublime trono e ele me disse: Varão! “Vê aquele matagal lá embaixo se mexendo?” Sim, sim, sim respondi sonambulamente: “Desce rapidamente porque o Senhor fará maravilhas“. Obedeci e ao entrar naquele pântano, vi uma sucuri que estrangulava prazerosamente uma mulher com apertos ecológicos. Então, puxei uma arma e atirei naquela criatura rastejante que arregalou os olhos e disse: Mattos! Mattos! Porque me persegues? E se apagou bruscamente.

Acordei subitamente, suado, assustado, excitado, molhado, arrebentado e não sei como voltei para casa porque o pesadelo foi cortado pela metade. Só sei que ainda estava escuro e a luz ainda não tinha brilhado. Possuído pela cocaína afetiva, pensei nos contos inacabados de Kafka e cantei depressivamente: “Obrigado Senhor, porque a minha vida não teve um fim”. Sem sono, fui ver um filme aritmético e estudar russo, porque a história e memória são uma só carne disse Jacques Le Goff.
O dia amanheceu, o sol brilhou e eu encarei a realidade porque a história é uma ciência em marcha, por isso, ela deve se mexer, progredir, não pode parar. O historiador não pode ser um sedentário, um burocrata da história, mas deve ser um andarilho fiel ao seu dever de exploração e aventura escreveu Marc Bloch, no entanto, quer queiram ou não, os homens são herdeiros do seu passado e terão de viver a contradição entre a herança e a novidade.

Abraços
Joeblackvan \ Joe (Joevan de Mattos Caitano) ex morador na Transamazônica-Pará entre 1985 e 1996 e Manaus-AM 1997-1999.
www.joevancaitano.blogspot.com

Bibliografia
BLOCH, Marc. Apologia da História. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
BENJAMIM, Walter. “Sobre o conceito de história” (SCH): In Obras Escolhidas: São Paulo: Brasiliense, 1981.
LE GOFF, Jacques. História e Memória. Campinas: Unicamp, 2003.
NIETZSCHE, Friedrich. Escritos sobre História. Tradução, apresentação e notas de Noéli Correia de Melo Sobrinho. Rio de Janeiro: Editora PUC Rio, 2005.
Filmografia
Aritmética Emocional. Paolo Barzman; Drama, 2008.
Nossas inquietudes. Documentário sobre psicanálise.

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