O ACORDE INVERTIDO DE DEUS

“O meu poder se aperfeiçoa na fraqueza porque Deus é amor”. (Apóstolo São Paulo)
“Faço amor, logo existo; sou amada, logo existo”. (Filme iraniano “Um dia muito especial” de Mohsen Makhmalbaf)
“O essencial na vida é sobreviver e manter firme a paixão”. (cineasta Pedro Almodovar)


O cosmos nasceu órfão, sem Deus-Pai, nem mesmo Mãe que o teria trazido num útero pré-cósmico; surgiu de uma violência do vazio primordial e nasceu de um peido desconhecido. É o órfão cuspido pelo infinito e projetado nas separações do espaço e nas separações do tempo.
Nosso universo é catastrófico desde o início. Desde a deflagração formidável que o fez nascer, ele é dominado pelas forças de deslocações, de desintegrações, de colisões, de explosões e de destruição. É constituído no e pelo genocídio da anti-matéria pela matéria, e sua aventura aterradora prossegue nas devastações, nos massacres e nas dilapidações singulares. A saída é impiedosa. Tudo morrerá.
Neste desastre medonho, apareceram forças fracas de associação e de agregação que se aproveitaram dos inúmeros encontros ao longo do caos para unir as partículas em núcleos, depois em astros e átomos. Mas as milhares de galáxias constituem apenas minorias isoladas e perdidas numa desordem e num vazio incomensuráveis.
Nascida sobre um minúsculo planeta no seio de uma violência extrema de tormentas, erupções e tremores de terra, a vida, fruto de associações entre miríades de macromoléculas luta, luta cruelmente a crueldade do mundo e resiste com crueldade à crueldade da vida. Todo ser vivo mata e come ser vivo. Todo ciclo ecológico de vida é, ao mesmo tempo, um ciclo de morte; este ciclo de morte é, ao mesmo tempo, um ciclo de solidariedade; este ciclo de solidariedade é, ao mesmo tempo, um ciclo de destruição. As espécies lutam contra a morte.
Sem estas forças fracas de resistência à crueldade, não haveria vida. Mas sem a integração da crueldade pela vida, também não haveria vida. As forças fracas de associação combatem esta crueldade. No seio desta crueldade do mundo e assumindo tal crueldade, as forças de união, de comunicação e de auto-eco-organização da vida, tão fracas, foram capazes de se espalhar nos oceanos, de se estender nos continentes, de se lançar pelos ares. Penso que a vida é a unidade escondida da bondade e da crueldade.
A crueldade é constitutiva do universo; ela é o preço a ser pago pela grande solidariedade da biosfera, não pode ser eliminada da vida humana. Nascemos na crueldade do mundo e da vida, ao que acrescentamos a crueldade do ser humano e a crueldade da sociedade humana. Os recém-nascidos chegam ao mundo gritando de dor. Os animais dotados de sistemas nervosos sofrem, e talvez também os vegetais, mas são os seres humanos que adquiriram as maiores aptidões ao sofrimento ao adquirirem as maiores aptidões à alegria.
A crueldade nas relações entre homens, indivíduos, grupos, etnias, religiões e raças é aterrorizante. O ser humano tem em si um movimento ruidoso de monstros que ele libera em todas as ocasiões favoráveis. O ódio arrebenta por nada. O ódio abstrato por uma idéia ou uma religião se transmuda em ódio concreto por um indivíduo ou por um grupo; o ódio demente se desencadeia em um erro de percepção ou de interpretação. O excesso de crueldade alimenta, por si só e por saturação, a indiferença e a desatenção, mesmo porque ninguém suportaria viver se não mantivesse em si um pouco de indiferença.
O crescimento da dependência do dinheiro, da independência pelo dinheiro, e do poder do dinheiro generaliza e amplia as voracidades impiedosas (o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males dizia um dos escritores bíblicos). A técnica e a burocracia propagam uma imunidade congelada, mecânica, desintegrando por suas quantificações as realidades vividas dos seres de carne, de sangue e de alma. A especialização e a compartimentarão destroem o sentido da responsabilidade. Cresce, assim, a crueldade por indiferença, desatenção e cegueira.
As únicas resistências estão nas forças de cooperação, comunicação, compreensão, amizade, comunidade e amor, com a condição que sejam acompanhadas de perspicácia e de inteligência, cuja ausência pode favorecer as forças de crueldade. Elas são sempre as mais fracas, mas é graças a elas que há sociedades em que se pode viver, famílias amorosas, amizades, amores, dedicação, caridade, compaixão e afetos, e que, de solavancos em caos, de caos em solavancos, o mundo vai, aos tropeços, sem ser nem um total nem permanentemente submergido pela barbárie. São estas forças fracas que tornam a vida possível de ser vivida e a morte não desejada; são elas que, em nível humano, mantém o que há de mais precioso, e o que é ao mesmo tempo o mais ameaçado e mortal, O AMOR.
São estas forças fracas que nos permitem crer na vida e é a vida que nos permite crer nestas forças fracas. Sem elas, nada haveria o horror da destruição em massa e da desintegração generalizada. A pior crueldade do mundo e o melhor da bondade do mundo estão no homem. Por isso, o evangelho da perdição comporta a ética da solidariedade que é ela mesma ética de resistência à imensa crueldade do mundo.
Devemos resistir àquilo que separa, desintegra e distancia. A resistência é o que ajuda estas forças fracas, o que defende o frágil, o perecível, o emergente, o belo, o verdadeiro, a alma. É o que pode abrir uma fenda na parede blindada da indiferença, para sorrir, rir, fazer piada, brincar, acariciar e abraçar; tudo isso é também resistir.
Resistir, resistir em primeiro lugar a nós mesmos, a nossa indiferença e a nossa desatenção, a nossa preguiça e ao nosso desânimo, a nossas vis pulsões e mesquinhas obsessões. Resistir por\para\ com a amizade, caridade, piedade, compaixão, ternura e bondade. A resistência à crueldade do mundo deve tentar manter a união na separação, tentar unir o que está solto deixando-o livre, suscitar o arrependimento concedendo o perdão.
Na fonte de todas essas resistências, consigo discernir hoje uma resistência mais profunda, primordial, contra a crueldade do mundo. A busca do esforço cósmico desesperado que, no ser humano, toma a forma de uma resistência à crueldade do mundo é o que eu chamaria de ESPERANÇA.
“Vivemos esperando o dia que seremos melhores em tudo, melhores no amor, melhores na dor. Dias melhores prá sempre...” (Jota Quest)

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