CENAS DE UM CASAMENTO FRAGOSO E FRONDOSO.

“Ao pensar sobre a possibilidade do casamento, cada um deveria se fazer a seguinte pergunta:
- Você crê que seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até a velhice?
Tudo o mais no casamento é transitório”, mas a maior parte do tempo é dedicada à conversa”. (Nietzsche)

“Acontece que o amor se parece com sementes. Não basta que a semente seja boa. Ela precisa de terra para germinar, brotar e crescer“.

Numa manhã comum, há uns dois anos atrás eu fui ao prédio de Música Sacra da Faculdade Batista para estudar piano. O prédio estava vazio, mas depois chegou a professora Stella Júnia, pois ela tinha que dar aulas para alguns alunos. Começamos a papear, no entanto, do nada apareceu a nossa amiga Joyce com alguns livros em mãos. Ela entrou na conversa e já foi logo confessando suas crises emocionais, afetivas, familiares, acadêmicas, etc, etc. Daí a Stella falou: Joyce! Eu tenho um amigo gente fina, cara cabeça, empregado da marinha, multi-instrumentista, e que está afim de um relacionamento sério. Que tal vocês dois se conhecerem? Então a Stella deu um jeito e colocou ambos cara a cara para uma conversa sadia. Posteriormente, eu curiosamente perguntei: E ai Joyce? Como foi? Vai rolar? Ela disse: ‘acho que não rola pois não rolou química no primeiro encontro e estou com medo de me machucar“. O ministério do cinema adverte: “Duas pessoas só se machucam quando duvidam do amor que têm” (Filme Dogville, 2003 de Lars Von Trier). Então eu falei: “marca outros encontros porque o primeiro encontro é o do reza cartilha, é a vez das Personas, isto é, das máscaras. Na primeira vez escondemos o jogo, fazemos papéis temendo pagar micos e frustrar as expectativas do outro“. Aliás, Jean Luc Godard dá um conselho em no filme “Nossa Música” (2004): “É preciso não revelar demais para não desviar demais“.
Joyce disse que não houve química, mas e para o Thi? Prá ele deve ter havido química, pois como um bom nietzschiano, Thi acredita que os sinais estão por toda parte, restam olhos para vê-los. Enquanto o silêncio afetivo se propagava, ele cantava: “Cristo move as montanhas, e tem poder prá salvar, tem poder prá tirar as travas da persona“. E o milagre aconteceu. Mais ou menos um mês depois, eu entrei no MSN e vi no Nick da Joyce a seguinte frase: “Thi! Eu te amo“. Entendi tudo e ela me confessou que Deus tinha feito a obra pois eles enxergaram além das aparências e viram a essência do amor que João Alexandre cantou. O artista que tem fé no amor chega aonde à natureza foi incapaz de chegar; ele vai além da natureza. É só isso que o artista afetuoso deseja fazer: saltar sobre os limites que separam o possível existente utópico desejado, que ainda não nasceu, para dizer o nome das coisas que não são, visando quebrar o feitiço daquelas que são.
Ontém, dia 4 de junho, na Casa do Marinheiro na Avenida Brasil- Rio de Janeiro, 20h, foi um momento especial, pois para Thi e Joyce, a cerimônia de casamento cercado de convidados foi mais do que uma alegria nervosa de um lindo dia ou de uma noite de ontem. O casal delira de júbilo quando canta em conformidade com esse ato de amar, porque só a arte de amar permite conhecer a diferença como absoluta, isto é, a diferença interna; só ela permite conhecer os elementos constitutivos da alma. A arte do amor permite viajar, pois viajar é ter novos olhos mesmo que seja para as mesmas paisagens corporais; viajar é ter o novo. Deus valoriza esse tipo de viagem porque ela proporciona a maior intensidade. O grande amoroso é uma estrela que ilumina, pois ele voa de estrela em estrela. “Possa o mundo ver brilhar a luz (...) cantamos para a glória do Senhor Jesus”.
Cercada pela “multidão” dos que creram (convidados), Joyce entrou na cerimônia toda sorridente e em sua face resplandecia uma euforia arrebatadora. Então ela e Thi cantaram o cântico Glória, glória, ao autor da minha fé (...) com apoio vocal de todos, de uma banda e de um grande tecladista que quase roubou a festa com seu toque de virtuosidade macia e divina regada por frases out sides (Dudu jazz). Os rostos de todos refletiam a satisfação e gozo pela nova vida de Thi e Joyce, pois viam neles a força da medida do amor que é amar sem limites. Foi uma noite de elogio ao amor.
O rosto e o sorriso suntuoso de Joyce comunicou muita coisa naqueles instantes preciosos para aquela comunidade de fé no ato festejante, afetivo e cerimonial. Deleuze e Guattari, fazem uma reflexão sobre o papel do rosto como um espaço privilegiado de configuração de subjetividades. Segundo ele, os rostos não são primeiramente individuais, eles definem zonas de frequência ou de probabilidade. “O rosto escava o buraco de que a subjetivação necessita para atravessar, constitui o buraco negro da subjetividade como consciência ou paixão, a câmera, o terceiro olho”. (DELEUZE E GUATTARI)
O pastor que fez a curta reflexão durante a cerimônia citou uma frase que resume a trajetória afetiva de Thi e Joyce: “ A relação amorosa é uma viagem que às vezes começa de uma forma tão tímida que tem seu ponto de partida e vai até o seu ponto de chegada“. Mas, afinal existe ponto de chegada? Acho que não, pois no fogo do amor existe uma busca faustiana de querer conhecer o outro incessantemente, de querer ficar perto do outro perpetuamente, daí chegamos a “possuir” uma GPS afetivo. Encarar a procura como aprendizado é salientar uma progressão que gera proteínas para suportar as maravilhas e turbulências de uma vida em conjunto. Basta assistir o filme “Cenas de um Casamento” de Ingmar Bergman para nos deparamos com esses altos e baixos que ocorrem nas relações familiares, pois somos humanos, demasiado humanos.
Momento mágico foi quando a Joyce fez um solo cantando uma canção da Cristina Mel que dizia: “com carinho e ternura (...) não dá mais prá segurar (...) tenho que lhe dizer (...) sempre pedi à Deus para proteger você e eu“. Numa cidade linda, porém de alta periculosidade como o Rio de Janeiro, ela fez a coisa certa: recorreu a escolta de Deus para uma navegação segura e veloz por este vale de trevas nessa nova fase da existência que se destina à promessa de um amor para além da vida e da morte. Rubem Alves diz que “é preciso reaprender a linguagem do amor, das coisas belas e das coisas boas, para que o corpo se levante, e se disponha a lutar. Porque o corpo não luta pela verdade pura, mas está pronto a viver e a morrer pelas coisas que ele ama”. São atos de amor e paixão que se encontram nos momentos fundadores de mundos, momentos em que se encontram os revolucionários, os poetas, os profetas, os videntes. Porque não somos consumidos pela paixão, por mais irracional que ela seja? Que amante quereria aposentar o seu corpo depois de 25 anos de experiências de amor? O amor e a paixão não anseiam pela aposentadoria, porque são eternamente jovens“.
Thi não deixou a peteca cair e também marcou presença cantando um soul dançante que era a pura confissão de um apaixonado, caído de 4 por uma mulher amada. A letra dizia: “Joyce! cê sabe que eu te amo e sem você tudo é tão mau“. O canto de Thi aborda sobre como realizar essa vocação afetiva., pois ele ambiciona transformar a vida dele num fazer amoroso constante. A história de Thi e Joyce é a história da descoberta de uma vocação para o amor.
O grande artista amoroso cria um novo mundo à partir de simples encontros. É alguém que transforma o caos em cosmo, é alguém que junta fragmentos construindo uma nova ordem a partir do amor. O artista do amor dá uma nova dignidade às coisas porque ele faz as coisas perderem o seu caráter utilitário. O grande artista descobre um mundo, o seu mundo e se você não cria novas redes afetivas, o mundo se perdeu. Esse artista sedutor-inovador chamado Thi cria novas cores e dá vida a cores desconhecidas.
A alegria radiante de Joyce se deve a cara e a coragem de Thi que apostou com fé no perfume fragoso e frondoso do amor. Segundo Paulo Freire, “o amor é uma intercomunicação íntima entre duas consciências que se respeitam. Cada um tem o outro, como sujeito de seu amor. O amor implica luta contra o egoísmo“.
Thi veio na hora certa, para a mulher certa, pois por ser inexato o amor revela-se por ser amor e invade (...)
Vieste
(Ivan Lins)

Vieste na hora exata
Com ares de festa e luas de prata
Vieste com encantos, vieste
Com beijos silvestres colhidos prá mim
Vieste com a natureza
Com as mãos camponesas plantadas em mim

Vieste com a cara e a coragem
Com malas, viagens, prá dentro de mim
Meu amor
Vieste a hora e a tempo
Soltando meus barcos e velas ao vento

Vieste me dando alento
Me olhando por dentro, velando por mim
Vieste de olhos fechados num dia marcado
Sagrado pra mim
Vieste com a cara e a coragem
Com malas, viagens, pra dentro de mim





Abraços
04: 53 da madruga
Hoje ainda preciso ver o filme SONHOS de Kurosawa as 10h na Caixa Cultural e palestra sobre impressionismo e expressionismo. Será se consigo levantar?
Joevan Caitano
www.joevancaitano.blogspot.com

1 Comment:

  1. Gileade said...
    Oi, Joe!! Olha eu aqui de novo!!
    Lindo seu texto! Um primor! Uma louvação ao amor. Acho que estou precisando de uma "Stella" para apresentar alum "Thi" para minha irmã! rsrsrs

    Bjks

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