Um Fuzil fálico. Um pobrema de Pulicia

Dedicado a Mi Copenhague.
“Mas onde está o perigo, aí cresce também a força, o meio de salvação. É preciso colocar um obstáculo no caminho do óbvio” (Hölderlin).
“Aquele que escreve a sua história herda a terra dessas palavras” (Godard).

Num dia comum, numa manhã de pura rotina, minha amiga Mi Copenhague pegou seu carro e se dirigiu rumo ao centro do Rio de Janeiro para encarar a labuta trabalhística. Após atravessar a ponte Rio-Niterói ela foi surpreendida por uma lapso de memória que a fez passar do ponto. Ao invés de entrar na rua X, ela quase parou na rua Y. Então ela parou o veículo e pensou: Aqui não é Dinamarca. E agora? O que fazer? Para onde ir? Sigo em direção ao desconhecido e encaro a futuridade e a aventura em meio aos riscos? Retorno a rua X em busca da comodidade e assumo minha condição errática rumo à um passado sem possibilidade de risco? Fico parado no presente, refletindo dentro de meu veículo buscando encontrar uma saída para a busca do tempo perdido?
Mi Copenhague escolheu parar um pouco enquanto a mente não parava de se movimentar rumo a coexistência do passado-presente-futuro. O que ela mais desejava era encontrar o caminho da salvação, pois temia se deparar com o caminho da perdição. Como saber quem é quem no meio do fogo cruzado de um trânsito louco e perigoso em pleno coração da cidade perigosa-maravilhosa? “Cada um é perigoso para o outro, pois o corpo é uma arma em potencial” diz Godard. Lá estava ela potencializando o imaginário-certeza e o real-incerteza. Campo e contra-campo. Ela pensava na força messiânica do ir até a luz e apontá-la para a escuridão. O que mais Mi queria, era ver uma luz no fim do túnel, porque a luz é o primeiro animal visível do invisível.
Em meio à uma reza frenética e visibilidade embaçada, surge subitamente e inexplicavelmente um soldado dotado de um fuzil fálico. Ele perguntou: O que queres que eu te faça? Ela respondeu: quero apenas fazer um retorninho, transgredir a lei e escapar ilesa pelo caminho que sempre andei. Então ele concordou com uma condição: Que ela fornecesse o orkut, o MSN, o Facebook, o numero do celular,o Twitter, etc. Aquela autoridade de fachada foi modificada imediatamente por uma outra persona: a da “afetividade”. Porque você quer tudo isso de mim, questionou minha amiga? Aquele fuzileiro do amor respondeu citando Jean Luc Godard: “Porque a terra e o sexo estão dentro de nós, lá fora só as estrelas”. Em meio a barganhas sacanas, ele autorizou-a cometer a pequena inflação, e elogiou a musa pela profunda reflexão interrogativa diante do perigo.
A interrogação é a devoção do pensamento dizia Heidegger. Para ele, um caminho não é qualquer caminho, por isso é preciso pensar, pois pensar é a base sustentadora do ser. Não precisamos ter resposta para tudo, porque o homem, em sua dignidade, retorna ao irrespondível. O indagador heideggeriano mantém-se aberto ao que está sendo questionado, pois é necessário ir além de si mesmo em meio ao vale da sombra da civiliza-morte. Como diz Godard: “Se esta civilização criou um poder enorme de destruição, é preciso fazer uma revolução que crie uma indeterminável força de criação, que fortaleça as lembranças, que delineie os sonhos, que materialize as imagens, que trate melhor os mortos, que dê aos efêmeros uma suntuosa leitura de sua transparência, permitindo aos vivos uma navegação segura e veloz por este vale de trevas”.
Acredito que aquele fuzileiro quis ajudar mesmo sendo movido por extintos sexuais diante da beleza apavorante de Mi. Ser-no-mundo é cuidar, ser cuidadoso (besorgt). Eu cuido, logo sou (é fundamental a equação anticartesiana). Heidegger chega a dizer que o homem é o como um pastor, guardião do próprio ser. Ontologicamente falando, a insatisfação de Mi e o desejo do Fuzileiro pressupõem a possibilidade do cuidado diante do inesperado que abala as nossas guaritas mais secretas. Como diz o cineasta
sueco Ingmar Bergman no filme ATRAVÉS DO ESPELHO: “Traçamos um círculo imaginário ao nosso redor para afastar aquilo que não faça parte do nosso jogo secreto. Cada vez que a vida rompe esse círculo, os jogos se tornam insignificantes e ridículos. Então, construímos um novo círculo de defesas”.
Imagino que Michele pensou na morte e o Guarda também quis livrá-la do destino trágico. Pensar na morte mostra como a morte de um indivíduo é, com muita frequência, uma modulação para a ressurreição nas necessidades e lembranças de outros homens. Morrer não é um evento; é um fenômeno a ser compreendido existencialmente. Ser autêntico é um ser-para-seu-próprio-fim. “A morte é um caminho para ser”. Assim que o homem ingressa na vida, é logo suficiente velho para morrer. Nietzsche escreveu: “Mal nascemos e já começamos a morrer”. A morte é, na sua acepção mais ampla um “fenômeno de vida”. Ser-para-a-morte é, em essência, angústia. Em nosso fim estava o nosso princípio, mas “onde está o perigo, aí cresce também a força, o meio de salvação. É preciso colocar um obstáculo no caminho do óbvio” dizia Hölderlin.
A dialética de Camus e Sartre é famosa porque diz que ANGST (medo) revela ao Dasein a possibilidade de realizar-se “uma arrebatada LIBERDADE PARA A MORTE”. A aceitação, através de Angst, dessa “terminalidade” existencial é a condição absoluta da liberdade humana. Michel Gelven, em A Comentary on Heidegger's “Being and Time” diz que uma concepção genuína de morte é uma consciência revigorante de nossa finitude. Sem finitude não pode haver verdade. O homem em seu estar-aí-no-mundo, é o veículo privilegiado em e através do qual a verdade se revela. Ele não é um “abridor” da verdade, mas a “abertura para ela”, a “clareira” (Lichtung) em que a verdade torna manifesta o seu velamento.
A ser no tempo é intemporal. A investigação do Ser, busca o que é constante, do que permanece eterno no fluxo do tempo, da mudança. Mi ao parar aquele carro no Centro do Rio e se encontrar com aquele guarda de fuzil amável, ficou envolta pela temporalidade autêntica, que consiste “estar junto de”, esperando o que está chegando. Torne-se aquilo que é, recomendava Nietzsche. O presente é um fantasma conhecido apenas por seus gemidos se não respirar o ar do futuro. Em SER E TEMPO (Sein und Zeit), Heidegger nos lembra as circularidades mutuamente gerativas e reinterpretativas de passado-presente-futuro. Em síntese: “somente na medida em que Dasein é, ele pode ser como foi”. Ser e Tempo são um só.
Ser no tempo é condição de possibilidade para tentativas, consequentemente, de acertos de erros. Por isso, naquele momento de aflição na muvuca carioca, Mi Copenhague se deparou com a sua singularidade errática. O policial “anormal” disse: Você errou, mas na vida, tudo é caminho (Alles ist Weg) ou está “a caminho”, como na palavra TAO. É preciso avançar rumo a uma estrela, nada mais do que isso. Nunca caminhamos sozinhos, pois o Eu nunca está só na sua experiência do Dasein (ser-estar-no mundo). Durante a caminhada, o mundo vem ao nosso encontro em forma de coisas e escolhas.
O filme O curioso caso de Benjamin Buttom nos ensina que a vida consiste de oportunidades que perdemos e daquelas que aproveitamos. Somos a soma de todas as nossas escolhas diz Wim Wenders em Asas do Desejo. O curioso caso de Michaline Fúzil nos remete a idéia bíblica dos caminhos de salvação e perdição. Nos deparamos com portas largas e portas estreitas. Na vida precisamos tomar decisões difíceis e arriscadas, mas é preciso agir, porque quem não se arrisca não vence. O medo também é importante no ato de decidir.
Aquele fuzileiro solucionou as dúvidas de Mi Copenhague adaptando e citando um trecho inicial do livro de Deleuze e Guattari sobre o pensamento literário de Kafka.“Como entrar no reino de Deus? Trata-se de um rizoma, de uma toca. O Reino do Sagrado tem entradas múltiplas, cujas leis de uso e distribuição não são bem conhecidas. O Reino de meu Pai tem inúmeras portas, principais e auxiliares. Trata-se, no entanto, de uma armadilha, pois toda a descrição do paraíso é feita para enganar o inimigo. Entraremos então por qualquer extremidade, nenhuma vale mais que a outra, nenhuma entrada é privilegiada, mesmo se for quase um beco sem saída, uma estreita passagem, etc. Procuraremos apenas com quais outros pontos se conecta aquele pelo qual se entra, por quais cruzamentos e galerias se passa para conectar dois pontos, qual é o mapa do rizoma, e como imediatamente ele se modificaria se entrássemos por um outro ponto. O princípio das entradas múltiplas impede somente a introdução do inimigo, o Significante, e as tentativas para interpretar um reino divino que na verdade se propõe apenas à experimentação”.
Aqui termina minha experimentação filosófica baseada em fatos reais, mas alterados filosoficamente.
Um abraço
Joeblackvan
Um funil de idéias e inventividade.
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