PROGRAMA DO RR SUADO. REGINA MEIRELLES E ROBERTO MACHADO (APOSENTADOS UFRJ)

Reginando com afeto e Machadiano com o martelo.
PROGRAMA DO RR SUADO
Por www.joevancaitano.blogspot.com


“Ensinar é um exercício de imortalidade. De alguma forma continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver. O nascimento do pensamento é igual ao nascimento de uma criança: tudo começa com um ato de amor”. (Rubem Alves)


Os cineastas do cinema moderno costumam fazer filmes usando duas ou mais histórias paralelas, muitas das vezes, a sequência é não linear, por isso, exige concentração dobrada. Parece-me que Deleuze fala que só se pensa através de imagens. Eu escrevo com sangue, emoção e gratidão este texto dizendo que também se pensa através de histórias e experiências vividas que ficam gravadas em nossa vida e que se propagam com intensidade devido a força do pensamento.
Dedico este artigo a dois ícones da educação no Brasil que se aposentaram recentemente pela UFRJ. De um lado a professora dra Regina Meirelles da Escola de Música da UFRJ. Do outro lado, o professor dr Roberto Machado do IFCS-UFRJ.
Tudo começou quando em 2005, quando fui cursar a disciplina METODOLOGIA DO ENSINO DA MÚSICA VII. As aulas eram às quintas feiras as 8h da manhã. Eu sempre chegava atrasado e com cara de sonâmbulo, pois a carga horária de licenciatura na época era bem puxada, no entanto, lá estava aquele mulher de meia idade, mas com sorriso e pegada de jovem contando “casos-besteiras”, tanta coisa em comum deixando escapar “segredos”. Ela misturava metodologia com histórias engraçadas. Contava piadas prá gente e mótes lúdicos como: “sopa, café e mulher tem que ser quente”. A gente morria de rir. Enfim curti muito estudar com ela. Quando terminei a graduação procurei-a e pedi que ela fosse minha orientadora no mestrado. Eu escolhi ela. No dia do aniversário dela em 09 de março de 2008, compus um frevo e tocamos em sala de aula (Reginando). Reginando é o gerúndio do verbo reginar que eu extraí do verbo reger que nos dá a conotação de conduzir musicalmente. Portanto, reginando só podia significar conduzindo folcloricamente, pois ela conduz os alunos com amabilidade em meio às instabilidades durante as aulas de folclore e música brasileira. Alguns gostam de chamar música de tradição oral ao invés de folclore, mas cada um tem um ponto de vista e os conceitos são mutáveis também.
Uma das coisas que ela sempre falou aos alunos foi: “O segredo da aprendizagem está em deixar as janelas do ser abertas para captar a diversidade e o fluxo do novo. Quando a gente se fecha, a gente vira preconceituoso e não cresce”. Achei legal quando ela disse: “Vou no candomblé e em igreja evangélica. Vou no teatro municipal, depois pego o táxi, vou prá casa, troco de roupa e vou pro baile funk”. Contou-nos que uma vez alguém da mídia flagrou ela e perguntou: “Mulher! Funk não tem idade? Ela disse: Felicidade não tem idade.”...kkk..(boa).
Dia 09 de março foi o aniversário de Reginando. Os deuses concederam à ela mais um ano de vida, e segundo informaçoes da UFRJ, ela também se aposentou no dia 09/03/2010. Ela merece o divino descanso, pois deu muito de si em prol do crescimento existencial de outros. A gente nunca pára, apenas muda de atividades.
Outra pessoa que eu homenageio é o Roberto Machado. Tudo começou quando eu peguei um livro dele comentando sobre o ASSIM FALOU ZARATRUSTRA de Nietzsche. Era inicio de 2005, e a galera da igreja enchia o meu saco dizendo que Nietzsche era o diabo. Quando eu comecei a ler o livro, me apaixonei pela clareza das idéias que o autor Roberto Machado colocou em cada página. Daí fui ao IFCS para ver se eu conseguia estudar com ele, mas infelizmente as aulas dele sempre caiam nas segundas feiras à tarde e eu nunca podia, pois colidia com disciplinas obrigatórias de música. Ia sempre ficando para uma próxima oportunidade. Quando eu me formei, pude realizar um dos sonhos acadêmicos, indo nas aulas dele.
Me lembro da primeira vez que eu fui na aula sobre Deleuze e a pintura de Bacon. Cheguei 5 minutos atrasado e a sala estava super lotada e fiquei do lado de fora. Perguntei para a colega! É sempre assim? Ela respondeu: Sim. Se você quiser assistir as aulas sentadinho num bom lugar, você precisa chegar pelo menos uma hora antes. Mas mesmo em pé, desconfortavelmente, eu ouvia palavras de conforto via filosofia de Deleuze. Na época eu era um leigo em Deleuze e se me perguntasse quem era esse sujeito eu provavelmente diria que era remédio de enjôo ou alguma marca de produto, tamanha era a minha ignorância. Graças a competência e simplicidade de RM, Deleuze é um de meus autores preferidos ao lado de Nietzsche, Kafka e Edgar Morin.
Uma das coisas que mais me impressionava no Roberto era que ela aceitava todo mundo nas aulas dele. Tinha calouros de graduação, veteranos, mestrandos, doutorandos, doutores formados há muito tempo que já eram professores mas que iam lá para beber e tinha gente de outros CAMPUS, de outras universidades que iam aprender, alunos na pauta, alunos fora da pauta, no entanto, ele fazia a música filosófica acontecer. “Quem vier a mim, de maneira alguma lançarei fora dizia Jesus”. O espaço físico não dava conta de agregar todo mundo, mas RM com muito amor, pedia que as pessoas sentassem no chão mesmo em volta da mesa dele. Quem não conseguia espaço dentro, deixava um gravador sobre a mesa prá ouvir em casa. Uma vez tive a honra de ser uma criança e fiquei sentadinho no chão ouvindo-o falar sobre Kant. Eu no meu cantinho ouvindo Kant...Canta, canta minha gente porque Kant é pesado demais e só o canto de Roberto Zaratustra pode apaziguar o peso da filosofia kantiana. Quando ouvia sobre Nietzsche, era como um martelo que batia em minha mente e ia abrindo um buraco nos meus conceitos absolutos
Para derrubar nossos preconceitos e verdades irrustidas durante muitos anos pela religião, família, amigos, etc, leva muito tempo. Cortar uma àrvore com um motor-serra não gera grandes emoções porque é tudo muito rápido, no entanto, quem já experimentou derrubar uma àrvore usando um machado sabe o quanto é demorado e exige espera. A mão fica calejada, o suor é intenso, dá catinga de suvaco, mas quando a àrvore começa a cair, a gente sorri à toa, a gente se diverte, a gente experimenta um prazer advindo do esforço e da demora do processo. Filosofar com o machado exige paciência, mas compensa, porque é como uma boa preliminar no ato sexual, porém, quando o pensamento diferencial entra, vai abrindo tudo e a gente goza em delírios de júbilo vendo a passagem sendo des-obstruída dando espaço ao novo, ao instável, a força do trágico, daí a gente tem orgasmos com as palavras. Se a palavra abrir as pernas, eu entro e faço amor com ela.
Durante o lançamento do livro sobre Deleuze no espaço Tom Jobim no Jardim Botânico, RM disse que havia chegado a hora de parar e repassar o cajado para outros sucessores em 2010. Durante 4 semestres fui contemplado com a oportunidade e oportunismo diante dos bons encontros que as aulas de RM proporcionou a mim e a muitos pelo Brasil à fora.
Regina Meirelles e Roberto Machado são exemplos de educadores que democratizaram o ensino abrindo espaço para quem almejava aprender. Ambos tem um coração na cabeça e os alunos nas mãos. Misturam competência, simplicidade, amabilidade diante das instabilidades do trágico cotidiano. São exemplos de pessoas que se empenharam em dar de si por completo em nome do crescimento dos outros. Não perderam tempo brigando por poder, nem tampouco com brigas de departamento, nem falando mal nas entrelinhas de colegas, excluindo aqueles que não conseguiram se matricular no SIGA, mas potencializaram suas ações em prol do pensar que visualisa além da radiografia, além das aparências. Eles acolheram o novo, como dialogaram com produções do passado, mostrando que é preciso aprender com o passado, se ligar no presente e se preparar para o futuro, mas nos alertaram: passado, presente e futuro se misturam pois são uma só carne. Salve a trindade atemporal. Eles fazem parte do programa RR SUADO, porque suaram a camisa quebrando o coco mas sem arrebentar a sapucaia.
Para finalizar este artigo, cito esse poema que serve de fertilizante impulsivo para os novos educadores em nosso país.

Dá de ti, dá de ti quanto puderes:
o talento, a energia, o coracao.
Dá de ti para os homens e as mulheres como as arvores dão e as fontes dão.
Nao somente os sapatos que nao queres ou a capa que nao usas no verão.
Darás tudo o que fores ou tiveres: o talento, a energia, o coração.
Darás sem refletir, sem ser notado, de modo que ninguém diga obrigado nem te deva dinheiro ou gratidão.
E com que espanto notarás um dia que viveste fazendo economia de talento, energia e coracão."

abraços
Joevan Caitano
www.joevancaitano.blogspot.com
www.myspace.com/joevancaitano

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