Fantasias Metafísicas. A História de um Sado-Maso-Cristo.

Fantasias Metafísicas. A história de um sado-maso-Cristo.

“A máquina de sofrer é uma peça de uma máquina que não pára de gozar consigo mesmo (Deleueze/ Guatarri)”.
“A vida é um soco no estômago (Adélia Prado)”.

Jesus em uma de suas andanças noturnas passou em frente de um cemitério e ouviu berros de júbilo. A sua memória involuntária remeteu-o à um de seus amigos de infância conhecido como Juninho Gadareno que apreciava a estranha idéia de desejo e perigo.
Jesus não perdeu tempo e foi logo entrando sutilmente com seu assistente de câmera e flagraram aquele jovem sendo espancado e estuprado por uma legião de demônios. Segundo testemunhas locais, aquele jovem estava cansado da rotina do casamento, por isso, chutou o pau da barraca vindo se submeter aquela ferocidade Eros-metafísica. Jesus assistiu tudo passivamente e curiosamente, pois respeitou a livre escolha. Vendo aquele espetáculo com frieza, Jesus pensava nas cenas do polêmico filme ANTICRISTO de Lars von Trier.
Enquanto aquele velho amigo gritava me morde, me corte, me love, ele cantava louvores como: quero subir ao santo monte de Sião (...). Enquanto ele louvava, os capetinhas manuseavam com extrema destreza a armadura de Deus, usando os chicotes da salvação e os sabugos da perdição. No momento de maior selvageria e intensidade sadomasoquista, há um corte abrupto na cena, e uma nova seqüência aparece e câmera mostra cenas dos mesmos demônios chicoteando porcos que vagueiam desnorteados à beira do abismo à procura de Deus, pois diante do precipício nos transformamos.
E o destino dos porcos? A câmera não mostra a tragicidade predestinada àquela porcaria, porém, a narrativa bíblica é coerente ao dizer que os porcos caíram no abismo. Eles morreram? Acho que sim, mas tudo volta tudo é cíclico e tudo se re-potencializa. E Daí? E o cara foi punido por Deus porque “pecou”? Segundo Deleuze, o masoquista se caracteriza não pelo sentimento de culpa, mas pelo desejo de ser punido. A punição vem resolver a culpabilidade e a angústia correspondente abrindo a possibilidade do prazer sexual. Freud evocou a hipótese da chamada coexcitação libidinal, a partir do qual os processos de excitações, ultrapassando certos limites quantitativos, seriam erotizados. Na estética do suspense, Eros e Tanatos andam juntos, porque Deus é Sacher e o Diabo é Masoch: o frio e o cruel.
O filósofo Oswaldo Giacóia, ao fazer um paralelo entre Nietzsche e Sade, ele vai dizer que o desejo e o prazer sádicos não podem encontrar satisfação senão no movimento perpétuo em que se consuma, pela destruição, o gozo como esgotamento e fruição total do objeto, destruição cujo o efeito principal é a potencialização do desejo e da necessidade de nova fruição, reproduzindo indefinidamente o movimento, numa espiral ascendente de prazer, dor e destruição. O desejo e o prazer sádicos não podem encontrar um limite de satisfação, porque a intensificação ao infinito é a lei interna de sua reprodução.
Pegando carona nessa idéia de reprodutividade, cabe ressaltar que a apologia filosófica da sodomia como obediência à vontade fundamental da natureza perdulária é a pilastra teórica sobre o qual assenta não somente a destruição do preconceito moral que vê na reprodução da espécie a razão de ser da sexualidade. Klossowski nos dá a entender que esse pensamento às avessas, se caracteriza por um aprofundamento abissal, um paroxismo de desejo e crueldade, cujo sentido é a extirpação da consciência moral, esse representante internalizado do mundo dos outros.
Sade compreendia a vida como potência infinita de criação e Nietzsche vai pensar a vida, como um conjunto da natureza não-pacificada e não-acomodável às necessidades, porque ela é um campo de guerra e desequilíbrio de forças. A natureza como vida, não é mesquinha em suas formas, mas perdulária e dissipadora de suas criações.
Aproximar Sade e Nietzsche nos instiga à fazermos menção do significado das festas culturais em honra de Dionysos e das bacanais. Nietzsche escreveu:“A Psicologia do Orgiástico como um exuberante sentimento de vida e força, no interior do qual mesmo a dor atua ainda como estimulante dando-nos a chave para o conceito do sentimento do trágico. O que o heleno garantia a si mesmo nesses mistérios? A vida eterna, o eterno retorno da vida, o triunfante sim à vida, para além da morte e mudança; a verdadeira vida como sobrevivência coletiva pela geração, pelos mistérios da sexualidade. Para os gregos, o símbolo sexual era símbolo venerável em si, o verdadeiro sentido profundo dentro de toda religiosidade antiga. Na doutrina dos mistérios a dor é declarada santa. As dores da parturiente santificam a dor em geral – todo o vir – a ser e crescer, tudo que garante futuro condiciona a dor”.
Tal glorificação do sofrimento como condição de vida, implica uma reconceituação do prazer, que permite aproximar Nietzsche e Sade. “O sentido do prazer está precisamente na insatisfação da vontade, em que, sem limites e resistência, ela não está ainda suficiente satisfeita. A insatisfação normal de nossos impulsos, por exemplo, da fome, do impulso sexual, do impulso de movimento, não contém em si nada de depressivo; ela atua como estimulante sobre o sentido da vida, assim como fortalece todo ritmo de pequenos estímulos dolorosos. Essa insatisfação, ao invés de aborrecer a vida, é o maior estimulante da vida (Nietzsche)”.
Percebe-se, assim que, do ponto de vista de Nietzsche, o prazer não apenas não exclui a experiência da dor e do sofrimento, como também a concita exige sua intensificação. A escalada do prazer é tanto maior quanto mais intenso é o ritmo das pequenas estimulações dolorosas, o que significa que o movimento do prazer descreve uma trajetória infinita de intensificação da dor como sua condição de possibilidade.

Bibliografia
DELEUZE, Gilles. Sacher-Masoch: O frio e o cruel. Tradução: Júlio Castañon Guimarães. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.
DELEUZE, Gilles; GUATARRI, Felix. Kafka. Por uma literatura menor. Rio de Janeiro: Imago, 1977.
GIACÓIA, Oswaldo Júnior. Labirintos da Alma. Nietzsche e a auto-supressão da moral. Campinas: UNICAMP, 1997.
KLOSSOWSKI, Pierre. Sade mon Prochain. Paris Éditions du Seuil, 1947.
FRIEDRICH, Nietzsche. Genealogia da Moral. São Paulo, Companhia das Letras.
FRIEDRICH, Nietzsche. O Crepúsculo dos Ídolos. Tradução: Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
MARCOS, São. O encontro de Jesus com o endemoniado Gadareno (Marcos 5: 1-15 / Bíblia).

Filmografia.
TRIER, Lars von. ANTICRISTO. Gênero: Drama, 2009.

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