A teologia de Tomilho da Cruza. Boas novas com cheirinho de bossanova.

Por Joevan Caitano

"Toda a unanimidade é burra" (Nelson Rodrigues)





Sábado passado, dia 06/02/2010, fui assistir o concerto do Cello Samba Trio, realizado no teatro de Arena na Caixa Cultural ali no largo da Carioca. O trio é composto pelo maestro Jaques Morelenbau no violoncelo, Lula Galvão no violão e Rafael Barata na bateria.

Quando o show começou, minha amiga Gê ficou impressionado com a musicalidade do batera Rafael Barata, porque ele tocava com a alma. Ele acompanhava dando suporte rítmico a batida harmônica de Lula Galvão, e sobretudo, à grande estrela da noite, o solista Jaques Morelenbau.

Enquanto o som rolava solto, a platéia assistia com olhos fitos, envolto pela imensa beleza em forma de samba e bossa nova. Me lembrei das aulas de acompanhamento ao piano em 2002 no STBSB, quando a professora Stella Júnia dizia: "O acompanhador precisa resolver a coisa, por isso, deve ser versátil, sensível e atento ao clima, às sinuosidades e às sutilidades em meio à sonoridade mutável". Rafael Barata deu uma aula de como acompanhar um solista, às vezes batucando com variedade de intensidade, e às vezes obedecendo às pausas, pois toda a unanimidade rítimica, melódica ou harmônica é búrrica, porque embola tudo e encobre a grandeza dos detalhes.

Há mais de dois mil anos atrás, o Apóstolo João pregava no deserto atuando como solista, e haviam pessoas que o acompanhavam, entretanto, quando aclamaram-o como estrela e dono da cocada, ele com humildade e simplicidade disse: "Por enquanto, sou solista, porém, virá Aquele que é maior do que eu, cujo eu não sou digno nem de ser acompanhador. De fato, a profecia se cumpriu e o messias solista apareceu e João e outros optaram pela singela tarefa de acompanhar, pois a arte de acompanhar fertiliza os ouvidos, atiça a multidirecionalidade dos olhos e excita a sensibilidade.

Jesus disse: "Eu sou o caminho, a verdade e a pluri-direcionalidade da vida, portanto, quem quiser pegar o bonde comigo, tome sua cruz (instrumentos) e siga-me". E praticamente todos os discípulos pegaram cada um seu instrumento e sairam empolgados, tocando ao mesmo tempo, em linha reta teologicamente e ideologicamente falando. No caminho em direção à Emaús, encontraram Tomé, conhecido no meio musical da época com Zé Tomilho, pois adorava comer polenta com tutu, e tocar as músicas tortas de Charlie Park e John Coltrane. Pedro empolgado, como sempre, já foi logo tentando converter Tomilho à aderir aquela passeata prá Jesus, no entanto, ele se recusou dizendo: "non, non, nin, non, non, pois toda a linearidade existencial é xula". Houve quebra pau, e esculhambação total. Chamaram Tom de bunda mole, 71, ovelha do malafala, milho franga, peixe velho e todo tipo de desaforos. Quando abaixou o fogo, o Mestre se dirigiu a Tomilho e disse: Tom! agora é sua vez e contra-argumentar. Porque você não quer ir conosco nessa muvuca? Ele respondeu citando Nelson Rodrigues: "Porque toda a unanimidade é burra". E ninguém se arriscou a atirar a primeira pedra. Então o Mestre disse: Boa, bravíssimo Tomilho. Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso. Então Jesus pegou o caminho de Swan e Tomilho seguiu pelo caminho de Guermantes, e se encontrarão um dia, segundo a teoria do eterno retorno do diferente, pois curvo é o caminho da eternidade e toda a verdade é torta.

E os outros? O que fizeram? Ou fundaram uma nova denominação, ou ficaram discutindo sobre a volta dos que não foram.

1 Comment:

  1. Thomas said...
    legal joe! to rindo muito!

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