É o Self que perdoa. Ensaios sobre Jesus via psicanálise.

“Nunca profanei o sagrado nome do amor” (Nietzsche em Fragmentos Finais).
“O perdão é o alimento da alma; o pão é o alimento do corpo” (Luiz Longuini Neto).
“O tempo cura, mas se o tempo for a doença? Então é preciso se curvar perante ele para continuar vivendo” (Wim Wenders).

Jesus quando ensinou os discípulos a orar, ele mencionou a força do mal. Ele disse: Pai ! livra-nos do mal, porque nós temos uma parte que é má também e ela também pode se manifestar em determinadas situações. O grande reformador Lutero foi um homem que confrontou o pensamento humanista de que o ser humano é bonzinho, pois ele intuitivamente raciocinava como Melanie Klein que defendia que a criancinha ao nascer já possui dentro de si mesmo a amabilidade e a agressividade inata, que se manifesta, quando a mãe cede ou não cede o seio prazeroso para ela. Lutero sabia que o homem é bom e mau. Ele andava brigando com o Diabo, vendo demônios, coisas esquisitas, mas via Deus no meio dessa muvuca toda, por isso que digo que ele tem um pé na idade média. Ele também era uma coisa e outra, como preconiza a moderna antropologia ao dizer que somos seres humanos divididos, e não indivíduos como preconizava antigamente. Somos divíduos e estamos sempre devendo alguma coisa à sociedade como assinalou Gilles Deleuze. É preciso, encarar frente a frente, o mal-estar das dívidas, porque devemos dar a César o que é de Cesar e a Deus o que é de Deus. Sendo assim, faz-se necessário perdoar 70 x7 a quem nos causou algum dano moral, material, espiritual, sexual, musical, etc, etc, etc.
Quando um homem se casa com uma mulher (aplica-se a casais homo também), ele não se casa com a mulher ideal, que ele almejou, mas no fundo no fundo, ele procura e junta a uma mulher que seja projeção da sua mãe (o modelo). Nos primeiros dias de convivência, quando se experimenta os primeiros bafos afetivos quando se acordam, é que a porca costuma torcer o rabo. Aí aparecem: as manias, as virtudes e as deficiências começam a se manifestar. Aí começam as primeiras brigas, que tendem a intensificar-se devido o aumento da intensidade na intimidade. A nossa mulher (companheiro-a) precisa perdoar as nossas infantilidades, porque se não houver isso, não há relação que dure. Perdoar vem de perdoare. Per é o superlativo, por isso, perdoar é ir ao extremo da nossa capacidade; é se doar ao extremo.
Na oração do Pai Nosso, Jesus insere a força dos três P´s (ppp) que são eles: pai, pão e perdão. O perdão é a graxa dessa engrenagem que é a graça divina, pois ela nos ajuda a não ficarmos presos à conseqüência dos nossos atos. Não há futuro para o mundo se não houver perdão e reconciliação. Só o perdão pode impedir a escalada da violência. A grande filósofa Hannah Arendt escreveu que perdoar é livrar-se da irreversibilidade do passado. Perdoar é não aprisionar o outro nas conseqüências de seus atos. Só o perdão é capaz de driblar a mentira num país onde os governantes defendem a mentira desbravadamente, para criar um país diariamente.
O perdão consiste na justiça reparadora ao invés de condenadora. Justiça é saber que os nossos atos têm conseqüências (lei do carma). O teólogo ortodoxo e psicólogo Jean Yves Leloup, admite que o percurso ideal para perdoarmos, é irmos pelo caminho da direita em direção à esquerda, pois o lado direito simboliza a justiça, a conscientização, no entanto, o lado esquerdo é o do coração, da misericórdia.
É natural que quando um colega, amigo (a), etc, pisa na bola conosco, fiquemos furiosos, desacreditados, se sentindo traído, e às vezes desejamos o mau e sua confraria maléfica, no entanto, a raiva é importante no caminho do perdão, pois quando não há perdão nos deparamos com o inferno que é o fechamento do ciclo do amor. Quando o nosso ser, se fecha à circulação da vento amoroso, ficamos rancorosos, no entanto, o ato de perdoar se constitui na ruptura que gera a abertura para livre circulação da seiva do amor. O perdão desata o nó que impede fluxo dessa seiva afetiva.
É muito difícil a gente perdoar alguém que assassinou um parente nosso, alguém que nos traiu, entretanto, é mais sinistro perdoar uma pessoa que abusou sexualmente de uma criança, de um ser “indefeso”. Muitas mães vêem os abusos sexuais, mas ficam caladas e fingem não acreditar no que está na cara, devido à tamanha animalidade, por isso, a criança se sente culpada, mas a criança grita, ela dá sinais. Nietzsche dizia: os sinais estão por toda a parte, restam olhos para vê-los (e coragem também). Não há perdão sem o grito.
Jesus ao se deparar com aquela mulher adúltera, ele não usou a lei para analisar o caso dela, mas ele foi mais fundo, ele compreendeu as carências femininas, pois ele supôs que ela quisesse trocar um amor capenga que ela tinha em casa por outro melhor, quem sabe um amante, etc, etc. Esse episódio bíblico nos remete à música do cantor e compositor Frejat: “procuro um amor que seja bom prá mim, vou procurar, eu vou até o fim”. Qual de nós não faria o mesmo se estivéssemos mal resolvidos afetivamente dentro de nossa casa? A gente tenderia a fazer o mesmo: pularia a cerca pra preencher nossas carências. Quando a carência bate à porta, é muito difícil segurar por que o desejo e o perigo se manifestam com enorme intensidade, e agimos à sangue frio mesmo quando sabendo que há um Leão lá fora. Jesus sabia de tudo isso e disse: mulher bonita! Segue a vida e bola prá frente, mas não peques mais, ou seja, tenha juízo viu gata?
Somos aprisionados por nosso ego, e ele é muito forte, por isso, precisamos compreender que o ego não pode perdoar o que é imperdoável. É preciso invocar o SELF que é o todo que nós somos, e com ele vem o anima e o animus (nossa parte masculina e feminina), vem a persona, a sombra, os deuses e demônios que habitam dentro de nós, pois essa plenitude humana é capaz de liberar o perdão que gera a salvação. É o SELF que perdoa: Pai! Perdoa porque eles não sabem o que fazem disse Jesus gemendo de dor na cruz. Aquele que é maior do que eu é que perdoa. Deus é a força estranha que mobiliza o perdão, pois Ele é maior que o nosso coração, é maior que a nossa cabeça, é maior que a nossa imagem, é maior que nossa voracidade, maior que o nosso pecado, maior que o nosso buraco negro.

abraços e muuuuuuito perdão..libera geral o perdão.
Joeblackvan

Idéias extraídas da mensagem do reverendo Edson Fernando (26/10/09)na IPVI.

3 Comments:

  1. pariforma said...
    Querido Irmão. Que belo artigo. Você, como Foucault mergulha e vem a superfície como um peixe costurando o pensamento! Que o perdão não seja nem regra nem exceção, que ele seja Praxis.

    Abração!
    André
    FERNANDA CANAUD said...
    Gostei muito. Voce escreve muito bem hem meu amigo...Só não gostei muito do: " tenha juizo viu gata" ....acho que fica estranho imaginar um Jesus que se dirigisse à mulher como gata.

    Bj
    Fernanda
    Anônimo said...
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