Cravistas são paquitas. O curioso caso de Marcelo Fagersom.

“Mudei para poder continuar o mesmo” (Jean Paul Sartre).
"É preciso que as coisas mudem de lugar para que permaneçam onde estão" (filme O Leopardo de Luchino Visconti).

Quarta-feira , dia 08 de julho de 2009, por volta de 14h20, eu estava finalizando a disciplina tratados de teclado do século XVIII na UFRJ referente ao curso de mestrado. Começamos a discussão, e cada um teve a oportunidade de expor oralmente seu trabalho. O meu foi TRATARICANTO: UMA VISÃO HOLÍSTICA SOBRE OS TRATADOS DOS SÉCULOS XVII E XVIII E SUAS APLICAÇÕES NO PIANO POPULAR DE NOSSOS DIAS. Defendi a idéia de que os compositores Carl Philipp Emannuel Bach, Ramon, Frescobaldi, Couperin e Santa Maria, escreveram esses manuais, para servirem de suporte técnico sonoro, mostrando ao aluno que o objetivo de tudo isso, é fazer o instrumento cantar, aliás, construímos instrumentos musicais intencionando imitar a voz humana. No meio da discussão, o Professor Marcelo Fagerlande, interrompeu-nos e surpreendentemente por força do acaso, eu acho, contou-nos um episódio muito engraçado de uma aluna de cravo que resolveu virar paquita...rs... a turma morreu de rir...O CURIOSO CASO DA PAQUITAMIM CRAVOTTOM na classe de Marcelo Fagersom. Eu imagino que ela olhou para o professor e recitou na cara de pau uma frase do Foucault: “Não me pergunte quem sou e não me diga para permanecer o mesmo”. Nós seres humanos mudamos de A para Z com facilidade, mas o importante é sermos felizes nas nossas escolhas, migrações e surpresas. Os compositores modernos adoram resoluções deceptivas. Só quem não está acostumado, irá achar estranho, mas depois que acostumam-se, até mico se passa por gente.
Muitos irão defender com unhas e dentes que essa jovem sonora/gostosa, cometeu um pecado gravíssimo ao deixar a música para virar xuxinha, no entanto, eu acredito que ela tenha lido o mito de Fausto de Paul Valèry, onde ocorre o diálogo invertido entre o Fausto e Mephisto (diabo). O Fausto debocha do Mephisto outrora poderoso, ao dizer: “Você se sente perdido, e como que despossuído diante de todas essas pessoas que pecam sem o saber, sem atribuir importância a isso, que arriscam a vida delas dez vezes ao dia para desfrutar das inovações, que tua magia nunca sonhou em realizar. Você não assomba mais o espírito dos homens; você não mete mais medo em ninguém” (Paul Valèry). Observe que há uma inversão, pois nas outras versões, Mephisto que é o espírito luciferiano aparece para tentar o Fausto, entretanto, agora é o Fausto que está tentando Lúcifer. Isso mostra-nos que esse diabo não tem mais nenhum espaço, nenhum poder, ele está totalmente dissolvido na nossa vida cotidiana. Deixar o cravo ou violino em prol de uma nova aventura que envolve mais projeção visual e financeira, implica em liberdade de escolha; implica em domínio das técnicas ensinadas pela serpente do mito do paraíso bíblico, chamado de Jardim do Éden. Consiste em consciência resolvida para decidir entre o bom ou ruim que é de cunho subjetivo.
O sujeito moderno (e cravista-paquita moderno) é como o Fausto moderno que tem absoluto controle sobre o corpo, é consciente do seu ser e dos seus impulsos naturais. Ele é uma pança que pensa (ou não..rs), sendo que o pensamento só existe em função de um não saber; o pensamento só existe via negação de si mesmo. Processo de auto reflexão é processo de auto-negação. Talvez a jovenzinha, queria apenas descobrir outros universos. Quem sabe, ela fosse uma exploradora de ambientes. Essa paquita é conchava do Fausto moderno que é aquele que quer saber tudo; é aquele que não se contenta com nenhum tipo de limite.
Ao ouvir esse episódio sobre a mutação musical, pensei no fator auto descobrir-se, e recorri a fenomenologia de Sartre. Aonde nós vamos nos descobrir? Nós vamos nos descobrir na rua, na cidade, no meio da multidão, coisa entre coisas, homens entre homens, entre outras paquitas, cravistas, pianistas, violinistas. Tudo isso gera uma teia de relações que geram ações, mutações, resultantes dos agentes dessas ações (Max Weber).
O que é o sujeito? O que é a realidade humana? É aquilo que cada um projeta ser. O projeto é aquilo que ainda não é. Nós somos aquilo que ainda não somos. Somos aquilo que projetamos ser. Quem projeta? O que deseja ser? De onde vem esse puro projetar? A consciência é um puro movimento que Sartre chama de liberdade; esse constante projetar-se, transcender-se é a liberdade. A liberdade não é um atributo do sujeito, não é uma questão de saber se o sujeito tem ou não um atributo livre. Se definirmos a consciência como esse ato, esse vento, isso é a liberdade e não pode deixar de ser. Na filosofia sartriana existe um paradoxo proposital, pois ele defende que somos livres para tudo, menos para deixarmos de ser livres. Podemos fazer qualquer opção, mas não podemos deixar de optar. Como Sartre gostava de frases bombásticas ele recitava: “O homem está condenado a ser livre” (a paquita também).
Esse constante transcender-se, esse constante inventar-se, nós não podemos nos livrar disso. O que é a realidade humana? Sartre define como sendo aquele ser que tem o seu ser fora dele. É aquilo que ele não é, e sempre será aquilo que ele ainda não é (ponto de vista existencial). Posteriormente, Sartre passa do projeto existencial para o projeto histórico. Mudei para poder continuar o mesmo dizia Sartre. Aliás, Sartre polemizava com os marxistas quando eles diziam que o sujeito é um reflexo das condições objetivas, no entanto, Sartre dizia que não era verdade, mas que o sujeito é liberdade. Se o sujeito é aquilo que fazem dele não é bem assim, pois somos aquilo que fazemos com aquilo que fazem de nós. A nossa liberdade não é uma liberdade, mas é uma libertação. Somos livres para nos libertamos, ou para tentar nos libertamos, entretanto, é compreensível que a liberdade tenha dificuldades para exercer historicamente.
O indivíduo é determinado pela história, mas ele é responsável pela história, porque ele é uma singularidade que filtra as determinações da história. O rigor ético de Sartre é: “Apesar de todas as determinações históricas, não há como abdicar da liberdade, pois abdicar dela é abdicar do nosso ser, de uma responsabilidade ética que consiste no reconhecimento daquilo que nós somos como ser. Dizer sim a abdicação é cometer uma traição a si próprio.
A consciência é a liberdade na raiz. Somos isso; somos liberdade. Abdicar de nossa liberdade é dupla traição: 1. Traição à finalidade do nosso projeto, nossa existência, nosso germe histórico. 2. Traição a nossa origem, isto é, aquilo que somos, a nossa consciência. Salve as cravistas, as paquitas, as violinistas, e sobretudo, as gatinhas, porque elas também são humanas demasiadas humanas, portanto, são nietzschianas e alvo joiano.

Abraços
Joeblackvan

1 Comment:

  1. Anônimo said...
    HUAHUAHUAHUAUH, morri de rir, muito bom. Só que contar o milagre e esmiuçá-lo tão bem do ponto de vista filosófico, mas não dizer o santo é um pecado... Como vou poder receber meus proprios milagres?
    Somos livres sim, talvez, mas há quem diga que nossas escolhas são desígnios de deus... Ela foi chamada para cumprir um propósito, de venerar a deusa xuxa.

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