Branca que mula. Um les convite à linguagem.

Branca que mula.
Um les convite à linguagem.

Um sujeito envia uma mensagem cujo, o enunciado é: “Trate o mulato com carinho! adoro branca suave”. A mensagem é interceptada e o anti míssel pergunta: “Que papo F (...) é esse? Remetente responde: são duas frases + contraste pela linguagem. Mas, bateria anti-aérea não engole e fala: “precisamos ter uma conversa séria ao vivo”. O outro responde positivamente com uma condição: pode ser no posto 9 de Ipanema (point churros)? Então houve bonança.
Polivalente e polifuncional, a linguagem humana exprime, constata, transmite, argumenta, dissimula, proclama, prescreve. A lingüística concebeu a linguagem como um sistema objetivo e autônomo do qual isolou regras e estruturas (Saussure e Jacobson) e, depois, explorou as condições de atividade. Quando Wittgenstein quis situar o problema essencial do conhecimento, deslocou a questão do knowing para a do meaning. Na sequência, a filosofia analítica acreditou, ancorando-se na lingüística, abandonar as areias movediças do filosofismo para adquirir o rigor científico e integrou o problema do pensamento no da linguagem.
A sociedade faz a linguagem que a faz, e o homem faz a linguagem que o faz e fala a linguagem que o exprime. Como diz Charles Becker: “Não sei se eu falo, se sou expressão da linguagem ou se se fala através de mim. Cada enunciado corresponde às especificidades próprias à coerência lingüística de cada língua, especificidades subjetivas, culturais, sociológicas e históricas. Russell (1969), indicou que, “as palavras, as frases, exprimem alguma coisa diferente delas próprias”. Saussure observou justamente que, embora sendo “um todo em si”, a linguagem “tomada no seu todo”, é multiforme e heteróclita, e é relacionada aos vários domínios. A neurolingüística, a neuropsicologia (Hecaen), a sociolingüística, mostra nos a profundidade, a radicalidade, a complexidade do vínculo entre a linguagem, o aparelho neurocerebral, o psiquismo humano, a cultura e a sociedade. A linguagem depende da interação entre os indivíduos, as quais dependem da linguagem.
Precisamos conceber a linguagem como sendo uma máquina auto-sócio-organizadora dentro da máquina sociocultural, ela própria auto-organizadora. Em um primeiro nível, a linguagem é uma máquina de dupla articulação, na qual conjuntos de fonemas sem sentido constituem enunciados com sentido. Essa máquina obedece, em cada língua, a regras gramaticais, sintaxe, vocabulário, e as próprias regras obedecem a determinações e “estruturas” profundas, ainda misteriosas e controvertidas. Em um segundo nível, a linguagem é uma máquina que funciona em associação com as maquinarias lógica e analógica, dependentes das regras fundamentais da computação/cogitação próprias à maquinaria cerebral humana. Em um terceiro nível, a linguagem é uma máquina que coloca (e por eles é colocada) em atividade os paradigmas, categorias, esquemas, modelos de pensar, característicos de cada cultura, integrando, portanto, a máquina cultural.
Para falar em termos marxistas, a linguagem é parte organizadora da superestrutura social. No primeiro caso, co-organiza o próprio ser da sociedade que integra. No segundo, co-organiza os mitos e idéias. É a maquinaria universal da antropo-sócio-noosfera. Pode-se, pensar que todo sistema complexo de comunicação necessita do princípio hierárquico e lógico da dupla articulação, o qual permite um número enorme de combinações e enunciados; foi o que ocorreu com a comunicação física/química entre moléculas desde que se constituiu um organismo vivo. A decifração do código DNA revelou-nos uma linguagem tão velha quanto a vida, que é a mais viva de todas as linguagens (Beadle, 1966). A linguagem humana é não apenas viva, mas também o que há de mais radicalmente vivo nas interações antropossociais e na organização da noosfera.
Enquanto a lingüística estrutural permite estabelecer uma ponte teórica entre a linguagem humana e a “linguagem” genética, a lingüística generativa estabelece uma segunda ligação com o mundo biológico através do cérebro humano. Com efeito, Chomsky chegou a idéia de que a aprendizagem da língua por toda criança só é possível graças à existência de competências inatas, inscritas nas potencialidades cerebrais do Homo sapiens.
Ferdinand de Saussure concebera, de fato, a língua simultaneamente como sistema e como organismo, este termo conotando profundamente a idéia de organização viva. A linguagem está em movimentação permanente porque se regenera em permanência. A língua vive como uma grande árvore, cujas raízes encontram-se nas profundezas das vidas social e cerebral e cujos galhos se espalham pela noosfera. Há os ramos práticos, os ramos poéticos, os ramos de gírias e familiares. O filósofo Heidegger tem a impressão de que é a linguagem, não o homem, que fala, porque o poeta tem o sentimento de que “as palavras sabem a nosso respeito aquilo que ignoramos sobre elas” (Char).
O sentido é uma emergência que, saída das atividades da linguagem, não somente retroage de maneira initerrupta sobre essas atividades, mas constitui o seu nível sintético global. Segundo a expressão de Thom, a palavra “germina e estala”, isto é, faz jorrar o sentido contido até então de maneira virtual. O sentido estabelece a relação sintética entre significante/significado/referente e a relação cognitiva entre os objetos lingüísticos e extralingüísticos que designa. O sentido é o que se fecha em círculo; podemos senti-lo, vê-lo, em uma versão latina ou a partir da identificação de palavras conhecidas que fazem emergir insularmente potencialidades polissêmicas. O sentido emerge de todo um processo psíquico/cerebral, o qual se realiza a partir de um fundo cultural (armazenado em nossa memória ou em um dicionário) e da nossa experiência marcada pelo passado vivo.
Wittgenstein instalara justamente o problema do knowing no do meaning, isto é, do sentido. Mas o knowing não se dilui no meaning, a lógica do pensamento não se dissolve na da semiótica. Tudo se encontra incluído no sentido, mas este é uma emergência desse todo. As palavras usuais são polissêmicas, isto é, comportam, na maioria, uma pluralidade de sentidos diferentes que se sobrepõem produzindo como que franjas de interferência. Segundo o contexto, onde um dos seus sentidos exclui os outros e impõe-se ao enunciado; uma vez mais, o todo contribui para dar sentido à parte, a qual contribui para dar sentido à parte, a qual contribui para dar sentido ao todo.
Todas as linguagens são com dupla articulação; todas, inclusive as das sociedades mais arcaicas, são linguagens plenamente desenvolvidas, não menos complexas em seu gênero que o inglês ou o francês. A linguagem natural, por oposição às linguagens formalizadas, é que oferece suporte à invenção, à imaginação, à criação. A linguagem comum permite evitar a rigidez, mesmo mantendo o rigor de um discurso, e, além disso, permite, o que a linguagem formalizada proíbe a analogia, a metáfora, ingredientes necessários não somente à poesia, mas ao próprio pensamento. A linguagem comum é aquela que oferece ao espírito humano o seu campo mais aberto. As linguagens artificiais que se opõem à linguagem natural permitem sofisticações abstratas, formais ou técnicas, mas estão privadas das complexidades da vida.
A linguagem, como vimos, é um cruzamento bioantropológico e antropo-sócio-noológico. Somos, na e através da linguagem, abertos pelas palavras, fechados nas palavras, abertos para o outro (comunicação), fechados para o outro (mentira, erro), abertos para as idéias, fechados nas idéias, abertos para o mundo, fechados ao mundo. Reencontramos o paradoxo cognitivo maior: somos prisioneiros daquilo que nos liberta e libertos por aquilo que nos cerca.

0 Comments:

Post a Comment




 

Copyright 2007 | Blogger Templates por GeckoandFly modified and converted to Blogger Beta by André Monteiro.
No part of the content or the blog may be reproduced without prior written permission.