Maysa! A espiritualidade em forma de whisky e music

baseado na minissérie da GLOBO
Por Joevan Caitano (Joeblack)


Não tenho costume de assistir novelas, minisséries, etc, mas admiro o talento daqueles que escrevem as novelas brasileiras. Adoro as coisas que o Manoel Carlos escreve pois acho ele um gênio nesse contexto. Aliás, no ano passado, rolou discussões no CCBB aqui no Rio com alguns especialistas em novelas. Queria ter ido, mas não deu.
Na minha infância, meu pai dizia que novelas, mini-séries, filmes de ação, etc, eram coisas do Diabo; dizia-me que era sinônimo de depravação moral, coisas de mentirinha, causa do fracasso dos lares. Lembro-me que assiti ao RAMBO III escondido porque se ele me visse vendo aquele filme, me daria um esporro, desligaria a TV e pediria para eu dormir. Hoje, acho isso pura babaquice, e considero as coisas da TV como sendo arte também pois tudo me ajuda a crescer. Ver filmes, novelas, documentários, ler livros, ler a biblia, ler apóstolo Paulo, ler Paulo Coelho, participar de bate papos, viagens, tudo isso funciona como um mingau, uma sopa cultural. Deus e o Diabo se tornaram meus amigos intimos. Não culpo meus pais por pensarem daquele jeito naquela época, mas foi o jeito que eles aprenderam, e eles faziam as coisas pensando em me ajudar, achando que estavam fazendo certo em nome de uma segurança familiar. Mas filhos não são fabricados para ficar grudado nos pais a vida inteira. Os animais nos dão exemplo, pois os pais cuidam deles até certo ponto, depois que eles crescem, precisam se virar, correr atrás e caminhar com as próprias pernas. Alguns conselhos dos pais vão funcionar para o resto da vida, outros não funcionarão e precisarão ser descartados porque a cabeça do filho é diferente da cabeça dos pais. Honrar pai e mãe implica ter a coragem de analisar a multiplicidade de conselhos (pontos de vista dos pais objetivando o bem dos filhos) e saber aplicá-los ou descartá-los no decorrer diversas situações da vida. A diferença de gerações é um fator a ser observado e respeitado; como diz o poeta bíblico: há tempo prá tudo e cada tempo possui suas peculiaridades. Honrar pai e mãe implica ter a coragem de analisar a multiplicidade de conselhos (pontos de vista dos pais) e saber aplicá-los ou descartá-los no decorrer diversas situações da vida.
A primeira vez que li sobre Maysa foi em 2004. Comprei o LIVRO DE OURO DA MPB (a história de nossa música popular de sua origem até hoje) escrito por Ricardo Cravo Albin, editora EDIOURO. Estava viajando 05 de dezembro de 2004 de Friburgo para o Rio (fui no casamento do Diogo Rebel- o cara que me introduziu na MPB em 2000) e li esse livro que tem um trecho que fala sobre a cantora Maysa. Quando vi a propaganda que iria rolar essa minissérie, me programei para assisti e assim o fiz.
Destaco alguns momentos que instigaram minha reflexão.
1. Quando a Maysa era criancinha, e o André Matarazzo um jovem de uns 25 anos deu uma boneca presente a ela e fez um pedido em tom de brincadeira mas com um timbre mui pueril, perguntando se ela toparia casar-se com ele quando ela crescesse; ela com extrema pureza infantil disse que sim, sim, sim. Imaginei Jesus se alegrando com aquele momento de pureza da maysinha porque nas criancinhas está o reino de Deus. Anos mais tarde, o "inesperado" aconteceu, eles acabaram se casando. Isso prova a força das palavras, a força dos sons que verbalizamos pois eles geram efeitos. Na adolescência, Maysa ao passar com umas amigas em frente a mansão dos Matarazzos, verbalizou: eu ainda vou morar lá, e as amigas disseram que ela era louca (kkkk) pois era muita carga (glamour) para o caminhãozinho dela, mas ela dizia: eu vou morar sim, falava com muita determinação e segurança. O Paulo Coelho disse que quando a gente deseja algo e corre atrás, parece que todo o universo conspira ao nosso favor. O apóstolo Paulo escreveu que tudo posso naquela Força cósmica que nos fortalece.
2. A cena do André Matarazzo dizendo que aceitava que a Maysa fosse cantora desde que se apresentasse apenas dentro do lar e nas festas internas para os amigos também me chamou atenção pois naquela época, ser cantora profissional era sinônimo de vagabundagem, de baixaria (putaria) para uma familia de tradição e que obteve a riqueza às custas de muito trabalho e honestidade. O "impedimento" do André, foi com o objetivo de preservar a esposa, foi uma decisão pura, lógico que foi devido a fato de ele ter sido domesticado no contexto conservador, mas ele agiu pensando no melhor para a esposa, para o filho, etc. Buda escreve uma frase interessante: "o fato de uma pessoa não nos amar do jeito que gostamos, não significa que ela não nos ama, mas ela ama-nos do jeito dela, às vezes, conforme o tipo de criação que ela obteve".
3. A cena que a Maysa resolve peitar a família, os "valores", a estabilidade, etc, para buscar a realização de seus projetos, sonhos, é bem bacana. Estabilidade é bom quando há a felicidade, a realização. Não adianta a gente estar num local que a gente não estar se sentindo bem. Eu já senti isso na pele, principalmente em alguns locais de trabalho ministerial que atuei. Existe um tempo pra entrar, para atuar-fazer e depois para sair. Quando eu sinto que tá acabando meu tempo naquele lugar X, eu vazo, porque é humilhante chegar o ponto de um sujeito ser solicitado a SE RETIRAR porque o tempo se esgotou e o sujeito não captou o VOZ DO TIME. A estabilidade é importantíssima, mas se o sujeito possui um sonho e os deuses "estabilidade" estão amarrando, é melhor o sujeito sair fora do quadrado e confiar em Deus e em si mesmo, pois viver de fé é viver fora do quadrado, é dançar na beira do abismo como dizia o Nietzsche. Viver de fé é molhar o biscoito sem deformá-lo, sem dissolvê-lo. A instabilidade lapida e aperfeiçoa nosso timbre, fazendo nos cantar do lado de um precipício cuja a ponte é uma corda.
4. Em pleno sucesso, pós-separação do casamento, após a morte do ex esposo, ela se transfere para a Espanha e coloca o filho (Jaiminho) num colégio internato na lá mesmo. Ela fez isso pensando em fornecer uma excelente educação para o filhinho num país com melhores condições que o Brasil e com possibilidades de ampliação cultural para aquela criança. A pluralidade de shows, festas, escandalos, "cegaram" aquela mãe pop star pois ela simplesmente abandonou aquele filho que era chamado pelos coleguinhas de órfão de pai e de mãe. Um dia X, o filho adoece e solicita a Maysa que a visite, e ela foi, mas ao chegar lá ele estava sozinho, com febre, dor de garganta, mas o médico alegou estar tudo sob controle. Foi uma conversa rápida e ele pediu: mãe! me leve, quero ir com você, todos os coleguinhas tem mães que visitam, menos eu, mas ela disse: mamãe não pode, tem muitos shows, e terei uma festa em homenagem a mim daqui a 20 minutos. Ela ela se despediu dizendo: Filhinho! já vou, não vou te beijar porque estou com medo de ficar infectada e tenho shows essa semana e fez um sinal de beijo com os dedos. Aquela falta de beijo, magoou aquela criança. Naquele momento, refleti sobre uma música que compus em parceria com meu parceiro ministerial o Reverendo Luiz Longuini chamada BEIJOS DE DEUS NOS LÁBIOS DO MUNDO. Imaginei o que seria de nós se Deus se recusasse a nos beijar por receio de ficar infectado devido o excesso de santidade que Ele possui. Mas Deus nos beija diariamente independente do bafo de nossa boca, do formato de nossos lábios, do tipo de pasta de dente que usamos, de nossas cáries, se somos desdentados ou se temos sorriso colgate. O beijo de Deus cura nossos resfriados, nossa febre pecaminosa, apazigua a dor das nossas aftas. Há dois mil anos atrás, Deus se fez beijoqueiro em nome de uma restauração da fragancia original. Beijos de Deus, sinto o gesto que fez do mundo iluminação. Sinto o abraço que me aquece, Deus nos fala com singela emoção do Natal do brilho desse amor, do natal sublime que essa paz nos traz, do natal abrigo do teu coração, sinto a mão que afaga as nossas paixões; só Deus prá nos amar.
5. Ao retornar ao Brasil, já bem jovenzinho, Jaiminho discutiu furiosamente com a mãe Maysa, alegando que ela se esquecera dele e que sentia que ele não existia mais para ela, e que consequentemente, ela também não existia mais para ele. A mãe só dizia que ela tentou fazer o melhor, que ele precisaria compreendê-la, mas a raiva e decepção por parte dele, fez o abandonar por alguns anos. Ela era porra louca, mas era mãe, tinha o instinto de mãe e pirou totalmente, tomando doses e mais doses de remédios (pílulas) com muuuuuuuuito wisky pensando nisso tudo. Houve um remelexo naquela mente Maysiânica. Numa conversa aberta com os avós maternos, eles relataram que ela estava embriagada com o sucesso e infeliz na afetividade, desde a separação com o André Matarazzo, cujo ela relatou ter sido o único amor verdadeiro que ela havia experimentado, e que os outros foram para preencher o tempo, para afastar a angústia, para preencher aquele buraco que tanto maltratava-a. Ela estava à procura de um amor que fosse bom prá ela mas não havia encontrado, havia um vazio a ser preenchido. O amor para Marcel Proust é sentimento da falta. Para ele, o amor é superior à amizade. Proust é contra a amizade porque amizade é trocar figurinhas, não faz sofrer. Por trás do amor está o ciúme e por trás do ciúme está a mentira. O ciúme é a verdade do amor. Nós amamos para sentir ciúmes (TESE DE PROUST). Quem ama prende (sentido de quer ter a pessoa amada sempre por perto) diz Proust no livro A PRISIONEIRA. Todos nós temos um vazio do tamanho de Deus e uns tem buracos menores, outros médios, outros são enormes igual uma cratera, mas esses vácuos fazem parte da nossa existência, do universo, cujo seus elementos são formados em sua maioria por vácuos de átomos, de partículas do mundo subatômico, quarks, etc. Heisenberg ao falar sobre átomos na mecânica quântica, se referiu à eles como condições de possibilidade pois nos vácuos há condições de possibilidade, há dinâmica permanente, há energia. Sempre há possibilidade de mudarmos, de afetarmos o mundo à nossa volta. Afetamos e somos afetados segundo a visão de Espinosa. Os encontros são inevitáveis, porém há bons encontros e maus encontros e Maysa experimentou esse bom encontro anos depois.
6. Uns três anos após aquela ruptura afetiva entre Jaiminho e Maysa, Jaiminho vai até a mãe e entrega o convite do casamento. Ele tinha apenas 20 aninhos e a mãe disse que era muito cedo, mas ele disse que estava decido a ser casar. No dia da viagem da lua de mel, aquela mãe foi até o aeroporto para se despedir do filho e ela apenas disse: Boa viagem! sejam felizes! sem abraços, sem beijos, nenhum contato fisico, mas houve um contato visual fortíssimo e enquanto ela subia a escada volante indo embora, eles se olhavam com extrema intensidade. Ali não havia um olhar de superfície, um olhar dos sintomas, mas havia um olhar de profundidade como dizia Foucault em ARQUEOLOGIA DO OLHAR. Jaiminho era um Jovenzinho rico, porém, magoado, mas sabia da força da reconciliação, da força do perdão, da possibilidade do recomeço, e num gesto de humildade-iniciativa-oportunismo sobe aquela escada e abraça e beija aquela mãe. Ambos choram, e religam os laços quebrados. Ela falou com muita pureza e singela: me perdoe, eu fiz tudo para o seu bem, mas eu pisei na bola, eu errei, eu fiz muita merda na vida, muitos casos amorosos, escandalos, frustações, tentativas de suicídio, muita pressão, tristeza, sofrimento,etc...Olha filho! o sucesso é bom, mas cansa, cega-nos a visão, faz a gente ficar igualzinho os personagens do filme ENSAIO SOBRE CEGUEIRA baseado em Saramago. Aquele filho disse: Mãe! tá relax, quem não faz merda na vida? quem não erra na vida? bola prá frente daqui pra frente, recomece, enxergue outras possibilidades, atice o olhar multidirecional, ainda há esperança prá você. E ela disse, vá! sua esposa te espera. Beijaram e se despediram. Imaginei ela ouvindo uma voz divina mansa e suave dizendo: Maysinha, hoje mesmo estarás comigo no paraíso. Houve um alívio porque o perdão liberta, cura a dor interna. Aquilo foi um bom encontro para mãe e filho pois aumentou a potência de ambos.
7. Após essa reconciliação, ela começou a dizer que iria melhorar, iria ser feliz, que iria enxergar um sentido para a vida, que daria a volta por cima. Andava dizendo que havia um Deus por detrás de tudo, uma força maior, que faz o universo remexer, girar, cambalear, que havia um sentido no meio da falta de sentido que ela experimentava em sua própria vida. Quando ela estava pronta para saborear a vida, "a morte veio pontualmente na hora incerta" (Mário Quintana) e pegou-a de surpresa num momento que ela tinha tudo para obter aquela felicidade que tanto almejava. Contrariando e provocando aqueles sujeitos moralistas, eu finalizo dizendo que particularmente, não conseguiria ver uma Maysa "certinha" porque desde pequena ela foi muito original e intensa. Deus olha para o coração, para a pureza que vem de dentro. Ele valoriza a beleza da autenticidade de cada um. O olhar Divino se caracteriza pela profundidade e pela simplicidade como ele olha para as pessoas. Gandhi disse que "quanto mais puro um coração, mais perto ele estará de Deus".
8. Maysa dizia: sou de momento, gosto de mudar, de lugares, era a musa das mudanças, era uma mulher intensa, que vivia a cada momento com intensidade, amava o momento presente como se não houvesse o amanhã e cantava o que sentia, havia uma sinceridade naquele canto, nas letras, etc. Havia uma coerência existencial naquilo que expressava sonoramente, e um exemplo disso está na famosa canção SE MEU MUNDO CAIR, EU QUE APRENDA A LEVANTAR que fez enorme sucesso na carreira dela. Ela estava corretísima pois a gente vê o mundo de dentro de nós para fora, tudo acontece de dentro, o mundo é a nossa perceção da realidade, percepção interessada como dizia Bergson, nós somos um mundo, nós construímos e vemos o mundo do nosso jeito. O homem/mundo tende a cair, e isso é compatível com a lei da gravidade. Nietzsche brincou ao dizer que somente os homens gostam de contrariar a lei gravidade pois estão sempre querendo cair para cima. Não tem problema nenhum a gente cair, pois o poder de Deus se aperfeiçoa nas fraquezas, e nos pontencializamos em meio aos tombos da vida. Aquilo que não nos destrói nos fortalece dizia Nietzsche.
Maysa, Vinícius de Moraes, Cazuza e outros, só podiam ser fãs do filósofo Espinosa, pois ele alega que quando morremos perdemos a quantidade e qualidades mas levamos a intensidade que permanece eternamente. Tudo passa, mas a energia permanece para sempre.

3 Comments:

  1. Jmelo27 said...
    A Rede Globo de televisão, de quando em vez, oferece-nos uns biscoitos finos. A minissérie 'Maysa" foi um deles. A figura de Maysa, não a minissérie suscita em nós, sobretudo nós mulheres, numerosos questionamentos. E os mais gritantes são que fama e dinheiro podem, sim, ser bons, no entanto não asseguram a tão satisfação pessoal que os tempos comtemporâneos tão apregoam. A grande "lição" que Maysa (me) deixou é a de não ter se curvado à servidão do dinheiro, d fama, da comodidade. Maysa ousou ser. Apesar de.
    Andressa ♥ said...
    hmmmmmn, interessante e culturalmente rica reflexão... Nunca havia lido algo tão reflexivamente amplo. Gostei desse blog.
    Deus abençoe.
    Fik c Deus
    Felipe Fanuel said...
    Joe, meu amigo,

    Sexta-feira fui dormir com o seguinte texto sagrado: Se meu mundo cair, eu que aprenda a levantar.

    Obrigado por mais este brilhante texto. Parabéns. Apóio o seu trabalho com orgulho. A coragem de expressar hoje em dia virou raridade no mundo da religião evangélica brasileira. Quando isso acontece, é só para defender um conservadorismo que, para mim, não acrescenta em nada.

    Um abraço.

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