Tornar-se cão não é fazer au! au! Uma visão deleuziana da arte/literatura

Tornar-se cão não é fazer au! au!
Uma visão deleuziana da arte/literatura

Deleuze procura na teoria da linguagem criar uma linguagem literária singular. Escrever para ele é pensar as originalidades criando sensações. Perceptos e afectos são importantes para Deleuze, pois se caracterizam pela consistência, durabilidade e eternidade. Literatura é captura de forças, de intensidade.
Deleuze prioriza o de fora porque o de fora está vinculado à problemática do devir. Devir é sinônimo de língua de fuga, de desrritorialização. Devir não é imitar, não é reproduzir, não é se identificar, não é buscar semelhanças. Devir não diz respeito à forma, não consiste em adquirir a forma dessa coisa. Deleuze é um pensador da força, da força que é mais fundamental do que a forma. Em Bacon, há uma deformação das formas para gerar forças. Bacon pinta forças (tese de Deleuze sobre a pintura de Bacon).
O devir é real, não é metafórico, não é um sonho. Devir é se tornar realmente alguma coisa, não no sentido da forma, do processo terminado. O que é real é o próprio devir. Nos escritos de Kafka há a presença do devir animal. Em METAMORFOSE os personagens de Kafka possuem essa característica devirniana. O devir é animal sem que haja um termo que o animal teria se tornado.
Deleuze faz distinção entre o molar e o molecular. O animal em sua forma está atrelado à dimensão molar. A forma é molar, mas a intensidade da força é molecular. Tornar-se no processo do devir é relacionar elementos heterogêneos. Em Deleuze valoriza a importância da desrritorialização conjugada. A frase tornar-se cão não é fazer au au nos diz muita coisa, pois para ser um cão é preciso intensidade caninas.
A vida é um processo em demolição. Para captar essa essência de demolição existencial eu recomendo a leitura, visualização e apreciação do livro e filme A SOMBRA DE UM VULCÃO. A peça PENTESILÉIA do alemão Kleist também é muito boa. Tudo isso nos remete à idéia de trágico. É importante lembrarmos que, o trágico é tornar-se dionisíaco sem ser aniquilado por ele. O dionisíaco é brutal. O trágico é a síntese entre o dionisíaco e o apolíneo.
Deleuze quer criticar a idéia de modelo que serve como modelo de identificação. Ele fala do devir minoritário e o homem está no âmbito da entidade molar. Devir é se desrritorializar em relação ao homem. O que é ser maioria qualitativa hoje? Maioria implica em uma constante, como sendo um modelo, uma medida. É ser homem e não mulher. Fazer o homem como mestre e pensador da natureza (visão cartesiana do homem). “Minha filosofia diz respeito ao homem” (Kant). Kant desloca do ponto de vista de Deus para o homem. Maioria qualitativa e padrão critério estão associados aos seguintes aspectos: homem branco, ocidental, masculino e não feminino, adulto, racional, heterossexual.
Deleuze é contra a idéia de semelhança, de identidade. Ele é um filósofo da diferença por isso, ele assinala que escrever é tornar-se diferente do que é. Escrever é um processo de minoração. Precisamos de uma língua menor para destituir esses poderes, potências modelares. Deleuze é um filósofo do impessoal, do indefinido e para ele, os conceitos servem para pensar a singularidade. Maior e menor são dois usos, tratamentos, funções da língua. Uma vai em busca de STANDARTS, e a outra, vai em busca de a-gramatical, de a-sintaxe.
A maneira como você trabalha, isto é, o processo, faz a língua se tornar maior ou menor. Kafka faz o alemão escapar do sistema dominante, colocando a língua em estado de variação contínua. Ele desequilibra a língua. A problemática do devir minoritário se articula com a saúde e a doença. Se um artista é grande demais, ele é mais médico do que doente. Deleuze se apropria de Nietzsche “o filósofo é o médico da sociedade” para falar sobre isso. Pensar é pensar para a vida. Ele parte do diagnóstico nietzschiano de que a vida está doente. Por isso, Deleuze defende que o literato é alguém que explicita, diagnostica os sintomas do homem doente. O literato é um clínico da civilização. Se a vida está doente, então vamos criar novas formas, potencialidades de vida.
O que está fora da linguagem? É a vida. A vida é a condição para se pensar a vida literariamente. Deleuze diz que a loucura é uma prisão. Deleuze se apropria de Foucault e poetiza ao dizer que enlouquecer a linguagem é atravessar como um vencedor as fronteiras da desrazão.
O bom artista/literato dá boa interpretação aos sentidos e valoriza as potências. Kafka faz um diagnóstico de todas as potências. O artista/literato é aquele que enxerga além, que visualiza a força da vidência. O vidente é aquele que tem uma visão além do empírico. Para a arte, a visão é uma forma de pensar. A intensidade é captura de forças através de sensações.
Deleuze fala sobre a questão do devir revolucionário. Para ele, encontrar uma saída é devir. O artista tem essa função, de encontrar uma fuga em meio às grades da modelo, da semelhança, do “normal”, do “trivial”. O artista é aquele que ouviu algo grande demais, forte demais, algo intolerável demais. A criação artística é tornar visível o invisível; é tornar audível o inaudível; é saber escutar forças com Kafka; é pensar o inpensável.

1 Comment:

  1. Cláudia Luz said...
    Joe querido,
    quero te repassar algo que Fernando Pessoa nos deixou de presente; chama-se:

    LIBERDADE

    Ai que prazer,
    não ter um dever,
    ter um livro pra ler
    e não o fazer...

    Ler é maçada
    Estudar é nada!
    O sol doira sem literatura
    e o rio corre bem ou mal
    sem edição original.
    E a briza, essa de como tem tempo não tem pressa.

    Livros são papéis pintados com tinta
    Estudar é uma coisa que está indistinta
    A distinção entre o Nada e o Coisa Nenhuma.

    Bom é melhor quando há bruma
    Esperar por Dom Sebastião quer ele venha ou não.

    Grande é a poesia, a bondade, as danças.
    Mas o melhor do mundo são as crianças.
    Flores, música, o luar
    E o sol que peca
    quando ao invés de criar seca.

    O mais que isto é Jesus Cristo
    Que não sabia nada de finanças
    Nem consta que tivesse biblioteca.

    Fernando Pessoa.

    beijinhos,
    Cláudia Luz

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