Você prá mim é problema seu.

Nietzsche, Marx, Freud e outros pregaram que a religião funciona como espécie de alienação de si mesmo. Para muitos funcionam como válvula de escape. Nas horas de crise, nos apegamos a Deus ou (deuses), as pessoas, aos nossos animais de estimação, etc. Falamos muito sobre liberdade, mas ser livre é ser dependente um dos outros. O problema é que muitas pessoas se utilizam das fraquezas alheias para sacaneá-las.
Quando um sujeito está fragilizado, ele fica vulnerável, fica entregue as baratas. Se fosse entregue as baratas tudo bem e menos mal, mas elas acabam sendo entregues à homens que muitas das vezes se utilizam do nome de Deus para fazê-las de gato e sapato. Esses homens costumam ensinar e excitar a fé como expressão e alienação de si mesmo. O crente não pertence a si mesmo, pode apenas ser meio, deve ser consumido, ter necessidade de alguém que o consuma.
Para evitar esse tipo de degradação humana, é necessário dispor da liberdade de ter uma consciência para a questão do verdadeiro e do falso. É preciso autonomia para ser honesto consigo mesmo. Muitas pessoas não gostam de encarar esse desafio. A humanidade gosta mais de ver gestos do que ouvir razões. Outro fator que devemos levar em consideração é que as convicções são inimigas mais poderosas da verdade do que a mentira.
Vontade de Deus, revelação de Deus, noção de Deus funcionam como artifício de manipulação, de dominação, de adestramento espiritual por parte dos líderes. O homem não pode saber o que é bem e mal, por isso, “Deus ensinou a sua vontade” e os sacerdotes são os porta-vozes de Deus.
Em nome de Deus, muitas fórmulas de aprisionamento foram fabricadas. O conceito de pecado foi um deles. Pecado nada mais é do que envenenamento, calúnia, negação da vida, desprezo do corpo, degradação e a auto profanação do homem. A noção de pecado foi inventada pelos sacerdotes bem antes de Cristo para manipular a massa. Pecado é invenção sacerdotal, portanto, é criação da elite (mais forte) para ferrar e controlar os mais fracos. Assumir que é pecador é assumir que ser doente é bom. Pecado é uma apologia à doença e fraqueza universal. Os sacerdotes costumam citar e resignificar aquela frase mágica: O MEU PODER SE APERFEIÇOA NAS FRAQUEZAS. Poder de quem? De Deus é que não é, então só pode ser da elite.
Ser pagão é dizer sim à vida e dizer sim à vida consiste num triunfante sentimento de bem estar em si e na vida. Ser pagão é viver uma vida mais linda e mais cheia de graça. Ser pagão é assumir que possuímos uma dimensão racional e uma dimensão mítica (espiritual). Ser pagão é ter sede de investigar os fatos, de ter um olhar crítico e transformador da realidade embora saibamos que não há fatos, mas interpretações desses fatos.
Muitos teólogos são incapazes de serem filólogos. Porque? Explico então. Filologia é arte de ler bem discriminando os fatos sem falsificá-los mediante as interpretações. Em nome de Deus, interpretam, fazem reinterpretações, enganam, manipulam, coitado das ovelhinhas não têm estrutura para discernir entre a “vontade de Deus” e a “não-vontade de Deus” (vontade do capiroto). É interessante refletirmos naquele ditado: OVELHA É BURRA POIS NÃO PENSA. No show da fé, não pode haver espaço para a reflexão, para a análise crítica, para o diálogo. O que há é puro monólogo. Nesses contextos, a fé significa não querer saber o que é verdadeiro. A fé ensina a incompreensão do corpo. A fé estimula o excesso de confiança, e ao invés de remover as montanhas como dizia Jesus, acaba colocando onde não existiam.
Outra tática eficiente que inventaram foi a tal da VIDA DE SANTIDADE. O homem precisa ser santo porque Deus é santo. Se ele já é santo, que deixe-o ser santo, e vamos curtir ser humano. Santidade ao invés de ser um aspecto de apreciação nossa em relação ao mistério, se tornou um alvo e alvo inatingível porque santidade é sinônimo de perfeição. Zélia Ducan dá uma aula de teologia humana ao cantar:
Carne e Osso
Zélia Duncan
Composição: Moska e Zélia Duncan
Alegria do pecado às vezes toma conta de mim
E é tão bom não ser divina
Me cobrir de humanidade me fascina
E me aproxima do céu

E eu gosto de estar na terra cada vez mais
Minha boca se abre e espera
O direito ainda que profano
Do mundo ser sempre mais humano

Perfeição demais me agita os instintos
Quem se diz muito perfeito
Na certa encontrou um jeito insosso
Pra não ser de carne e osso, pra não ser carne e osso

Santidade que ensinam por ai consiste numa série de sintomas do corpo, empobrecido, enervado, incuravelmente corrompido. O objetivo da santidade é tornar e manter alguém doente. É preciso estar suficientemente enfermo. Na saúde combate-se uma espécie de inimigo, de demônio, de tentação. Para temperar a vida de santidade, os sacerdotes costumam usar o “DEDO DE DEUS” para cutucar as pessoas quando elas estão “frias espiritualmente”. Só o dedo de Deus sacerdotal pode estabelecer um equilíbrio térmico. Dizem eles: você pra mim, é problema meu, porque só (D-eu-s) = eu posso resolver, só eu tenho a SENHA DE DEUS.
Nessas horas que a SERPENTE DO PARAÍSO faz a diferença, pois ela ensina-nos a força da autonomia de decidir por conta própria o que é bom e ruim para nós. Ao induzir Adão e Eva a provarem o sabor da CAIXA PRETA, ela disse: vocês pra mim, são problema seu, então, se virem nos 30, nos 300, nos 3000...Apenas aprendam a caminhar com as próprias pernas. Se a Serpente tivesse conhecido o apóstolo São Paulo, ela ainda pediria ao casal que recitasse: QUANDO EU ERA ADALZINHO E EVINHA caminhava como criança, dependia de “deus”, mas já que somos ADÃO E EVA precisamos agir como adultos e correr atrás das coisas, tomando decisões sábias. Ainda bem que o Paulo nasceu séculos depois porque provavelmente não iria dar certo, aquela serpente com o Paulo no mesmo baú.

3 Comments:

  1. Marcelo Carahyba said...
    KCT, Joe! Texto shooooooooooww! :D
    Jmelo27 said...
    Lúcido. Texto de quem assumiu que foi expulso do Paraíso. Como diria Nietzsche: sem Eva e tampouco adão. Só, e Humano: Humano demasiadamente Humano. Jacinta;
    Roger said...
    Cara!
    Vou te dizer uma coisa: Vc é demais.
    Concordo com vc em numero, genero e grau. Este seu pequeno texo em formato, mas de uma sabedoria grande deveria ser editado e distribuido, para ver se acaba esta pouca vergonha que existem por aí. Um forte abraço de um admirador.

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