Pedagogia do arco-íris. A relatividade sem sacanagem.

Saca e age, mas opera a mixagem da sexualidade das cores, da diversidade das formas, dos gostos, dos pensamentos, dos deuses, dos seres, das correntes educacionais, da coletividade e subjetividade, dos designers sagrados e profanos, do Alfa e do Ômega, de Nietzsche e Billy Graham, de Batistas e Budistas (Joeblack).
Aquele que vier à mim, de maneira alguma lançarei fora (Jesus).
Ensinar é ir além das práticas estandartizadas, convocando à estruturação do novo (Jacques Lacan).

A pedagogia pós-racionalista ou pós-iluminista (chamada por alguns de pedagogia pós-moderna) obteve um desenvolvimento notável nos últimos dez anos do século XX, graças às contribuições de muitos autores provenientes do neo-marxismo e do feminismo radical. Embora de proveniências teóricas e ideológicas diferentes, une-os a idéia de que os valores são incertos e subjetivos, a objetividade é uma ilusão, a ciência é uma construção social fortemente determinada pelos contextos históricos e culturais e a procura da verdade é uma missão impossível e desnecessária. A ideologia pós iluminista pode expressar-se em duas grandes versões: na versão estruturalista, diz-se que os valores, as crenças e os resultados da investigação científica são fortemente dependentes dos traços culturais e das contingências históricas; na versão neomarxista e neonietzschiana, os valores e as crenças são considerados ilusões que encobrem os fenômenos de dominação social, étnica, cultural ou sexual.
A perspectiva narrativista enquadra-se perfeitamente na ideologia pós-iluminista, pelas seguintes razões: ênfase nas narrativas pessoais por oposição às grandes narrativas universais; recusa das grandes teorias e do racionalismo; oposição à utilização de critérios de racionalidade, universalidade e comensurabilidade (Lourenço, 1998). Tanto a ideologia pós-iluminista como a perspectiva narrativista, sustentam: “1) que não existe qualquer critério objetivo para hierarquizar pontos de vista e interesses em confronto; 2) que a racionalidade é um critério demasiado abstrato porque despido de emoção e de sensibilidade moral; 3) que a universalidade é um critério etnocêntrico que sobrevaloriza o individualismo da sociedade ocidental em desfavor de outras narrativas mais locais; 4) que ao aceitar os mesmos padrões para fazer comparações entre teorias diferentes, a comensurabilidade subestima o que é peculiar e único a cada história pessoal ou narrativa local” (Lourenço, 1998).
A pedagogia pós-iluminista cruzou várias correntes e perspectiva objetivando a recusa da validade do conceito de natureza humana comum. Por exemplo, as correntes neomarxistas e libertárias têm como característica comum à recusa da educação como instrumento de adaptação ao atual modo de produção capitalista. As correntes feministas radicais, eco-feministas e os grupos centrados na identificação e orientação sexual recusam a escola como instrumento de transmissão de uma herança cultural, que acusam de ser alienante, machista e homofóbica. As correntes relativistas e narrativistas, por fim, rejeitam a existência de critérios objetivos, lógicos, racionais e universais, opondo-lhes as perspectivas pessoais, as histórias de vida e os contextos culturais locais. De comum a todas correntes, a recusa da objetividade do conhecimento e dos valores (Valadier, 1998, e Boudon, 1998).
Santos (1995) assinala o que une os ideólogos pós-iluministas: une-os, o fato de assumirem uma interpretação paradigmática da nova realidade, a qual se reveste de uma característica transformadora da realidade, na procura da superação da atual ordem capitalista mundial. Une-os, a ruptura assumida face à tradição universalista e racionalista do cânone ocidental.
Magalhães (1998) identifica os traços da união: reconhecimento da erosão da modernidade, fruto da desarticulação do complexo moderno triúnico Homem/Razão/Estado – dos centros de legitimação 1) da História, que se dilacerou em múltiplas e legítimas etno-histórias, e se despojou de qualquer telos universalizante; 2) do homem branco, europeu-caucasóide, detentor de determinada posição de classe, do sexo masculino, heterossexual e possuidor de pensamento lógico – e dilacerou numa miríade de homens, mulheres, impossíveis de unificar e universalizar nas suas diferenças de etnia, gênero e subjetivas; 3) do Ocidente enquanto Nós e ponto de encontro dos eixos da História e do Homem e 4) da Verdade, como fim e motor do viver e do saber, diluída no cadinho da sua própria produção e na sua redundância lógica, ontológica e civilizacional.
O que caracteriza a tradição filosófica racionalista tão duramente criticada pela ideologia pós-iluminista? Em primeiro lugar, o papel central concedido ao método científico da verificação no processo de descoberta da verdade. Em segundo lugar, a separação entre fatos e opiniões e a idéia de que é possível uma aproximação à verdade, sujeita embora a refutações e revisões. Em terceiro lugar, a idéia de que nem todas as perspectivas são corretas ou dignas de serem tomadas em conta. Em quarto lugar, a idéia de que as conclusões, as opiniões e as proposições devem ser continuamente sujeitas à livre crítica e ao livre exame. Em quinto lugar, a idéia de que a procura da objetividade é uma finalidade que vale a pena prosseguir. Em sexto lugar, a idéia de que o cientista deve separar, o mais possível, o processo de descoberta da verdade de considerações ideológicas, políticas ou religiosas ou de fatores relacionados com a sua posição social, gênero ou identidade étnica. Em sétimo lugar, a idéia de que as hipóteses devem ser sujeitas à verificação empírica. Embora a objetividade total seja uma finalidade inalcançável, a procura da objetividade deve guiar todos os passos do cientista. A pedagogia pós-iluminista tem vindo a colocar reservas a todos esses pressupostos citados acima.
É possível identificar um conjunto de oposições e críticas à tradição racionalista e moderna. Orlando Lourenço (1998) identificou essas oposições, de uma forma brilhante. Ocorre a oposição da pedagogia pós-iluminista à relevância e prescritividade dos valores. A ênfase que as abordagens pós-modernas colocam no particular e no contextual, levam-nas a assumir a neutralidade e relatividade dos valores. Cria-se também, a oposição ao pressuposto de legitimidade. “Argumentando que é culturalmente enviesado qualquer esforço de encontrar critérios morais e gerais para hierarquizar as narrativas pessoais, os pós-modernistas opõem-se a qualquer tentativa de legitimar tais narrativas pelo apelo a critérios extrínsecos ao self relacional e contextual” (Lourenço, 1998). Os pós-modernistas preferem o efêmero, o caótico, o descontínuo e o frgamentado. O filósofo norte-americano Richard Rorty (1992), um dos autores mais proeminentes do relativismo pós-moderno, afirma: “As distinções entre absoluto e relativo, entre racionalidade e irracionalidade e entre moralidade e experiência são instrumentos obsoletos e pouco hábeis e remanescentes de um vocabulário que deveríamos tentar substituir”. Somos conduzidos a adotar a tese pragmática segundo a qual a referência a uma verdade não tem conteúdo, pois existe exterioridade em relação à qual possamos medir nossas representações. As nossas crenças podem, quanto muito, encontrar justificações, primeiro aos nossos próprios olhos e, em seguida, para o público limitado que pode entrar em tais justificações. Consideramos verdadeiro o que podemos justificar explicitando numa narração as nossas “razões”, mas o processo de justificação está estreitamente ligado ao meio no seio do qual manifestamos a justificação para as nossas crenças, porque esse meio partilha mais ou menos o nosso sistema de crenças. Não pode de forma alguma fazer apelo a uma razão transcendente ou a um acordo universal dos espíritos (Valadier, 1998). Então, para Rorty (1992), o que é a verdade? É apenas aquilo que um grupo tem como justificável. Em outras palavras, a cada um a sua verdade. O pós-modernismo pretende que os valores são ilusões.
Para as perspectivas relativistas pós-modernas, as verdades são inteiramente dependentes das linguagens particulares, ligadas ao grupo que as fabrica, em nome das quais é impossível julgar a veracidade dos outros, dependentes de uma outra linguagem, de outros valores e de um outro grupo (Valadier, 1998). Só podem ser justificados os valores e as crenças do seu próprio grupo, do “nós” que sustenta a nossa maneira de viver e de pensar.
Existe a oposição ao pressuposto do universalismo. Se não há normas absolutas, verdades objetivas, ou valores universais para ser seguidos, então todo o conhecimento e valores são igualmente válidos e relativos. Richard Rorty (1992) diz que na epistemologia pós-moderna são as imagens, mais do que as proposições, as metáforas, mais do que as asserções, que determinam as convicções filosóficas dos relativistas pós-modernos. Entendendo a moral como uma questão de preferência pessoal ou de construção social, a ideologia pós-moderna faz apelo à construção pessoal dos valores. Há a recusa do pressuposto da racionalidade. A rejeição da primazia da razão no pós-modernismo é uma conseqüência direta do seu apelo ao contextualismo, à descontrução e às narrativas locais.
Para além do idealismo racionalista, central no pensamento moderno, há que tomar em conta a filosofia utilitarista e empirista inglesa dos séculos XVII e XVIII e o reconhecimento dos papéis centrais da razão, da experiência e da observação no processo de descoberta da verdade. A filosofia de John Stuart Mill, nomeadamente a sua obra Sobre a Liberdade e John Locke, em particular As Cartas sobre a Tolerância são contribuições singulares para a construção da tradição racionalista ocidental.
Embora a natureza humana não seja objeto de verificação empírica, esteve presente, como categoria metafísica, na forma, como os autores racionalistas encaram aquilo que separa e une a espécie humana. Karl Marx (1974-1975) rejeitou a existência da natureza humana, substituindo-a pelos conceitos de luta de classes e relações de poder. Nietzsche (1998) considerou que a única característica comum a todos os humanos, verdadeiramente humanos, é a vontade de poder. A ideologia pós-moderna juntou a noção marxista de luta de classes e as noções de identidade étnica ou sexual, à noção nietzschiana da vontade de poder. De ora em diante, estava criado o caminho para o avanço de uma ideologia que condiciona a procura da verdade à luta pelo poder. A verdade passa a ser vista como aquilo que convém à conquista ou à conservação do poder. Como o poder não está equitativamente distribuído, nem nunca poderá estar, uma vez que haverá sempre pessoas que não têm vontade de poder, passa a haver tantas verdades quantos grupos à procura do poder. O papel da razão, da objetividade, da verificação empírica, do livre exame passam a ser desvalorizados face à importância magna da questão do poder. O racionalismo iluminista é substituído pelo império da subjetividade contextual, das emoções, dos sentimentos e das paixões, de ora em diante, consideradas como tendo valor no processo de construção da ciência.
A pedagogia do arco-íris defende uma escola que acolha e respeite as diferenças, tanto as de caráter social, como as culturais, étnicas e de gênero. A pedagogia do arco-íris pretende tornar visíveis, no currículo, as expressões culturais e sexuais. O currículo deve não só acolher as culturas minoritárias, mas também a sua livre expressão. Trata-se, sobretudo, de tomar uma atitude ativa de luta contra as situações de desigualdade e os preconceitos contra as minorias. Esse ativismo curricular leva alguns autores pós-modernos a considerarem que a educação deve perseguir quatro finalidades: combater o racismo, lutar contra a moral sexual predominante, ajudar a ultrapassar as desigualdades sociais e promover a emancipação das mulheres e das minorias étnicas. O ativismo curricular deve conduzir à substituição do chamado currículo hegemônico por um currículo do tipo arco-íris que esteja a serviço da emancipação das mulheres, das minorias sexuais e das minorias étnicas.
É preciso lealdade étnica ao abordarmos sobre a questão das diferenças. A diferença cultural significa muito mais do que tomar conhecimento dos outros e analisar estereótipos, mas fundamentalmente significa compreender, comprometer-se e transformar as diversas instituições que produzem racismo e outras formas de discriminação. É necessário sacar a relevância da lealdade na interação com a multiplicidade advinda do SAGRADO. Saca e age, mas opera a mixagem da sexualidade das cores, da diversidade das formas, dos gostos, dos pensamentos, dos deuses, dos seres, das correntes educacionais, da coletividade e subjetividade, dos designers sagrados e profanos, do Alfa e do Ômega, de Nietzsche e Billy Graham, de Batistas e Budistas. Aquele que vier à mim, de maneira alguma lançarei fora (Jesus). O verdadeiro pedagogo conduz as pessoas com amabilidade em meio as instabilidades.

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