A interpretação deleuziana de Proust (parte I e II)

A interpretação deleuziana de Proust (parte I)


Deleuze é um historiador da filosofia para pensar filosoficamente a partir de alguns autores e seus conceitos. Por exemplo: Nietzsche e os conceitos de eterno retorno e vontade de potência; Bergson e os conceitos de gênese, multiplicidade, virtual, atual; Espinosa e os conceitos de imanência, intensidade, univocidade.
Deleuze trabalha com a exterioridade da filosofia. Por exemplo, a partir do cinema e da pintura ele cria conceitos.
A relação entre saberes foi muito intensa em Deleuze.
O pensamento de Deleuze é interessado. Privilegia o que serve à sua interpretação.
A questão central da filosofia de Deleuze é: O que é pensar? O que é o exercício do pensamento?
A obra mais importante de Marcel Proust é EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO que contém sete volumes. Para Deleuze esta obra é uma obra do pensamento sobre o pensamento. Proust transmite a idéia de como pensar literariamente.
A filosofia de Deleuze leva em consideração conceitos criados. Ele trabalha sistema de conceitos criados a partir de outros autores.
O projeto dele é a constituição de uma filosofia da diferença embora não haja uma diferença entre os estudos filosóficos e tecnicamente não filosóficos.
Como ele produz uma ressonância entre o filosófico e o não filosófico?
A idéia mais geral do livro PROUST E OS SIGNOS de Deleuze é mais voltada para o futuro do que o passado. Deleuze vai ligar à verdade, à busca da verdade, à busca inconsciente e involuntária da verdade. Com isso ele estava fazendo uma crítica da vontade livre e uma crítica da consciência.
Proust é considerado um filósofo da memória.
Deleuze analisa esse livro como sendo um sistema de pensamento.
O cinema clássico é um sistema de pensamento. O cinema moderno também é um sistema de pensamento.
A pintura de Bacon é um sistema pictórico de linhas e cores, consistindo também num sistema de pensamento. A teoria do acaso em Bacon também é um sistema de pensamento.
O sistema de pensamento que se opõe à identidade e a representação faz de Proust um pensador da diferença.
No sistema de signos há dois pontos centrais: signo e sentido. Deleuze diz que os signos constituem tanto a unidade quanto a pluralidade da obra EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO. Tudo são signos, os personagens vivem sob os signos. Um amor remete à signos; uma reunião social remete à signos; uma música é um signo que está atuando sobre nós. É um livro de arte que pensa a própria arte.
Há uma pluralidade nos signos. Os signos são heterogêneos, não são do mesmo tipo. São emitidos de maneira diferente.
É importante observar três elementos chaves: signos, sentido e tempo.
Deleuze classifica quatro tipos de signos: signos mundanos, signos amorosos, signos sensíveis, signos artísticos.
1- Signos mundanos – são aqueles que aparecem nas relações sociais dos personagens (festas, recepções, ambientes sociais, contexto aristocrático e burguês, etc); Os signos mundanos são vazios. Os signos mundanos chamam a atenção para sua heterogeneidade. Cada meio social tem seu sistema de signos específicos. Ler o livro 1 NO CAMINHO DE SWAN e livro II UM AMOR DE SWAN. Proust se apropriou do impressionismo para criticar o realismo.
2- Signos amorosos – projetam os signos sobre as coisas. Quem ama prende. Ler O CAMINHO DE SWAN E O CAMINHO DE GERMAINE que são dois caminhos distintos. Para Deleuze, apaixonar-se é individualizar alguém por escrito pelos signos. Nos apaixonamos pelos signos não pelas pessoas. A multiplicidade do mundo é inacessível. O mundo do amado é inacessível, misterioso por isso Swan persegue Odete. Segundo Schopenhauer o mundo oscila como um pêndulo entre a ansiedade e o tédio. Ele enfatiza a idéia do desejo como falta.
3- Signos sensíveis – são também chamados de qualidades sensíveis, impressões sensíveis ou signos da natureza. Eles estão ligados à memória involuntária. O que é a memória involuntária? Está atrelado à idéia de se lembrar sem querer se lembrar. Caracterizam-se pela sua brevidade. São signos heterogêneos. O que é comum nesses signos é a grande alegria e a plenitude.
4- Signos artísticos ou signos da arte – EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO leva em consideração três artes: música, pintura e literatura. Proust também abordava o teatro e a arquitetura. Na música ele valoriza Wagner e Beethoven; na pintura ele ressalta os expressionistas com Vernant; na literatura ele valoriza Balzac, Zola, Baudelaire. Ele vai considerar Baudelaire o maior poeta do século XIX. Há um pensamento de Proust sobre estas três artes à partir de comentários sobre artistas, músicos e literatos realizados por seus personagens.
Há em Schopenhauer uma teoria da superioridade da música. Nietzsche e Wagner roubaram essa idéia de Schopenhauer. O que unia Nietzsche a Wagner era Schopenhauer. Eles acreditavam que a música é capaz de dar conta da coisa em si. Schelling fala que a arte é capaz de dar acesso ao Absoluto.
O objetivo de Proust é fazer uma literatura que esteja no mesmo nível da música para Schopenhauer.
Você pode ser um grande imbecil na vida e ser um grande criador (foi a grande tese de Proust).
A arte é superior aos demais signos. O signo sensível dá a sensação de eternidade do prazer, mas logo passa, mas para Deleuze, a arte dá consistência, perpetua, faz essa sensação permanecer.
Os signos nos fazem pensar. Só se pensa forçado (Deleuze). Para Proust, o ciumento pensa melhor.

A interpretação deleuziana de Proust (parte II)


Deleuze valoriza em Marcel Proust três conceitos fundamentais: de signo, de sentido e de tempo.
EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO tem como fundamento o conceito de signo que dá unidade e pluralidade à RECHERCHE. Porque essa importância dada aos signos principalmente aos signos da arte? Porque os signos fazem pensar, forçam alguém à pensar. A gente só pensa forçado, diz Deleuze em DIFERENÇA E REPETIÇÃO.
Os signos levam os personagens à pensarem. Há correlação de signo e sentido. O pensamento se dá pela relação.
Os signos são diferentes e fazem-nos pensar de maneira diferente.
O ciúme é a verdade do amor. Nós amamos para sentir ciúmes (TESE DE PROUST).
Há relação fundamental entre signo e sentido. E EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO há um aprendizado de signos. O objetivo do livro é a interpretação dos signos ou, melhor ainda, atingir uma boa interpretação dos signos.
Falar de aprendizado é falar de progressão. O final é fundamental para Proust.
Só ao descobrir a sua vocação literária é que o narrador vai poder dar boas interpretações literárias.
O efeito do chá não está no chá, mas está na gente. O próprio objeto revela a impressão do signo.
SWAN é o rei do subjetivismo na interpretação. A boa interpretação consiste na união dos signos e sentido. O verdadeiro sentido é a essência. No platonismo a essência é universal. Para Platão é a filosofia que dá a essência universal e a arte fica no nível do singular. Para Proust a arte é que dá a essência. Assista ao filme de Rossellini denominado SÓCRATES e que fala sobre Sócrates.
O sentido da mundaneidade é a vaidade. Deleuze diz: “na mundaneidade não se pensa, não se age, mas se emite signos sem sentidos”.
Precisamos saber interpretar os signos. Cada signo diz algo a respeito de uma determinada realidade. Caetano Veloso canta: LEIA NA MINHA CAMISA! BABY. Interpretar signos é saber ler as camisas.
Os signos mundanos são vazios, mas o artista é capaz de interpretá-los e dizer porque que eles são vazios. Os signos mundanos são mais discriminados porque eles são mais materiais e mais gerais.
Há as leis gerais do grupo e é preciso saber interpretá-las. As leis gerais do grupo são as leis do vazio.
Qual o sentido do signo do amor? Os signos amorosos são enganadores e mentirosos por que eles não podem se revelar. Faz o amante-intérprete sofrer. Esconde o que o amado deseja conhecer. Nada faz pensar tanto quanto um marido ciumento que descobre uma mentira na mulher amada.
O amor para Proust é sentimento da falta. Para ele, o amor é superior à amizade. Proust é contra a amizade porque amizade é trocar figurinhas, não faz sofrer. Nietzsche pensa diferente de Proust nesse aspecto. Nietzsche defende que a amizade é superior ao amor.
Para Proust, em SODOMA E GOMORRA está o segredo da sexualidade ou da homossexualidade. Proust escreve sobre a teoria da sexualidade ou homossexualidade no início do livro SODOMA E GOMORRA. Ele fala sobre a CÓPULA CONTRA A NATUREZA onde cita o Zangão e a orquídea. Para Deleuze, a teoria de Proust é sobre a transsexualidade. Todos nós, somos uma coisa e outra. Temos uma parte masculina e feminina. Quando nos relacionamos com o outro, a nossa parte masculina pode se relacionar com a parte feminina do outro, ou a parte feminina pode se relacionar com a masculina do outro, ou a nossa parte masculina pode se relacionar com a parte masculina do outro, ou a nossa parte feminina pode se relacionar com a parte feminina do outro. Podemos ter várias possibilidades de relação.
Por trás do amor está o ciúme e por trás do ciúme está a mentira. Quem ama prende diz Proust no livro A PRISIONEIRA.
Quando for falar sobre signos artísticos ou signos da arte em Proust é preciso ter em mente que ele foi influenciado por Schopenhauer. Proust tem uma visão schopenhaueriana do amor, pois fala do amor como sofrimento. A vida oscila como um pêndulo entre a ansiedade e o tédio escreveu Schopenhauer.
Proust tinha a visão da arte como sendo superior à ciência. Proust aprendeu com Schelling e Schopenhauer que foram os pilares da estética do século XIX.
Só os artistas são bons intérpretes. Só a arte equivale ao sentido e essência. Só a arte é capaz de dar conta dessa essência (Proust). Só pela arte podemos sair de nós mesmos e ver o universo como os outros vêem. Só a arte produz uma adequação entre o signo e sentido.
Deleuze gosta de idéias que revelem a diferença, o novo.

2 Comments:

  1. M. said...
    Este comentário foi removido pelo autor.
    M. said...
    Realmente a arte da sentido aos signos do mundo.

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