A interpretação deleuziana de Kant (parte I)

A interpretação deleuziana de Kant (parte I)

Kant é um filósofo que ocupa uma posição singular no pensamento de Deleuze.
Deleuze faz uma crítica a Kant ao falar da explicitação das razões porque Kant se situa no espaço da representação, privilegiou a identidade em detrimento da diferença.
Kant significou a descoberta da filosofia transcendental. Confira no subtítulo A DOUTRINA DAS FACULDADES no livro de Deleuze A FILOSOFIA CRÍTICA DE KANT. Ele aborda a relação entre o tempo e o pensamento.
Deleuze privilegia a relação entre as doutrinas das faculdades.
Deleuze estabelece os termos principais dos pensadores e como eles se relacionam.
Em A CRÍTICA DA RAZÃO PURA, ele fala das relações das faculdades do ponto de vista do conhecimento (interesse especulativo). Idéia de conhecimento é síntese de representações (idéia fundamental de Kant).
Juízo é sintético à priori.
Kant criou um monstro conceitual (Deleuze).
Representação são de dois tipos diferentes. Uma representação depende de duas faculdades de representar. Representação contém intuição e conceito. É proveniente da sensibilidade, é singular, tem relação imediata com o objeto da experiência.
A teoria da experiência enfatiza que nós só conhecemos objetos da experiência.
Kant deslocou a filosofia de Deus para uma filosofia do homem.
Kant inaugurou um conhecimento da finitude (Heidegger).
O conceito também é uma representação, mas uma representação imediata. Não tem uma relação direta com o objeto.
O entendimento (pensamento) é uma faculdade de conceito.
Num romance policial, procure a mulher que é a culpada. Em Deleuze, procure a diferença.
Deleuze marca terminologicamente uma idéia que ele quer explicar. Ele dá nome aos bois para tornar as coisas mais claras.
Conhecimento é a síntese da representação da apresentação (Forstellung und Darstellung).
Kant faz uma filosofia do sujeito. É o homem que interessa, não Deus.
Só há intuição sensível (diversidade empírica-sensível, diversidade a priori). Para Platão e Descartes a intuição intelectual é a verdadeira.
Representação é uma retomada ativa da apresentação (re-presentação).
A sensibilidade é receptiva (Kant). A sensibilidade é passiva. O entendimento é ativo, pois relaciona entendimento com representação.
Deleuze é um filósofo da pluralidade. Recebemos a diversidade do real e aplicamos as categorias do conhecimento a eles.
Há uma valorização dessa apresentação sensível e da representação intelectual.
O entendimento unifica (Kant).
Kant é o filósofo do puro. Ele faz uma teoria formal do conhecimento, da ética, das artes. Puro é caracterizado pela sensibilidade e o entendimento.
Sujeito compreende duas formas irredutíveis e heterogêneas. No entendimento, o sujeito é determinante, ele afeta.
Matéria é sensação. O sujeito tem sensibilidade, mas não tem sensação. Sensação é a impressão de um objeto sobre a sensibilidade.
A forma pura do entendimento é um ato de determinação. Para conhecer é preciso ter entendimento, sensação e forma. O entendimento é imediato e não tem relação com a matéria (Ex: dragão, esfinge). O entendimento legisla sobre o fenômeno sob o ponto de vista da forma.
Conhecer é: sensibilidade recebe uma matéria e essa matéria é unificada pelas categorias (pelas relações).
Sem o entendimento, nenhum objeto seria pensado. Sem a sensibilidade, nenhum objeto seria dado.
Pensar não é intuir e intuir não é pensar.
Vontade de potência é sensação, sentimento de vontade de potência.
Paradoxos dos objetos:
Enantiomorfos – é um objeto simétrico que não pode ser superposto. Ex: uma mão e seu modelo no espelho. Simétrico no nível do pensamento. Distingue-se por sua posição no espaço.
Há uma diferença interna no sentido intrínseca, porque ela manifesta a relação externa no espaço. Espaço e tempo são formas de nossa intuição.
Paradoxo do tempo (Kant). Kant introduziu a forma do tempo no pensamento (elogio de Deleuze). Godard introduziu o tempo no cinema. O cinema moderno é kantiano (Deleuze). Deleuze parte dessa fórmula para dar duas conceituações de tempo: tempo aristotélico e tempo kantiano. O cinema clássico é baseado numa concepção antiga de tempo e o cinema moderno é sedimentado sobre uma concepção kantiana do tempo.
Na concepção clássica há a subordinação do tempo ao movimento (imagem e movimento). Deleuze critica a circularidade do tempo. O tempo é a medida do movimento segundo o anterior e o posterior (FÍSICA DE ARISTÓTELES).
Planeta em grego é errante (trajetória dos planetas). O movimento circular é superior a todos (até Ptolomeu). Tudo está em movimento (física moderna).
Kant na ESTÉTICA TRANSCENDENTAL vai mostrar a diferença entre tempo e movimento.
O tempo deixa de ser cardinal (número) para ser ordinal (tempo puro, duração, bergsoniano). O tempo não se definirá mais por sucessão. Bergson contrapõe sucessão e simultaneidade do tempo.
Kant criticou a teoria do espaço e tempo de Newton. A forma pura do tempo é imutável. O próprio tempo não muda. É a forma imutável de que se movimenta. O movimento é empírico. O tempo é transcendental. Transcendental em Kant é condição subjetiva, isto é, condição de possibilidade para que as coisas mutantes apareçam. É condição genética para Deleuze.
A sucessão diz respeito às coisas que estão no tempo, mas o tempo não se sucede, não muda.
Je moi em francês. Je = eu transcendental e moi = eu empírico, objetivo. O eu não é único.
Deleuze fala da ESQUIZOFRENIA DO PENSAMENTO. É uma esquizofrenia positiva. O sujeito que está submetido à uma divisão.
Há diferença entre o COGITO CARTESIANO E COGITO KANTIANO. No cogito cartesiano eu penso logo sou, pois para pensar é preciso ser. Sou uma coisa permanente
Deleuze relaciona reminiscência em Platão, inatismo em Descartes e a priori em Kant.
No cogito cartesiano está a certeza cartesiana (pensamento cogito). O eu penso é um ato de determinação (Deleuze). É a forma universal da determinação. É a determinação em estado vazio, puro.
Eu sou é algo a ser determinado como algo permanente. Eu sou é algo a ser determinado.
A crítica kantiana consiste em negar uma continuidade, um encadeamento suficiente entre EU PENSO e EU SOU. Para passar de um termo ao outro é necessário um termo intermediário. Kant propõe um terceiro valor lógico que é o que faz dar lógica à uma instância transcendental. Entre o eu penso e o eu sou tem o tempo. A forma sob o qual a forma do indeterminado determina o indeterminado. O eu penso é uma determinação. EU SOU é indeterminado. Só é determinada sob a forma do tempo. É determinado pelo eu fenomenal, eu mutante, eu receptivo.
Só se pode conhecer no tempo. O EU não é EU, mas o EU é OUTRO. Você não conhece pelo transcendental, mas você só pode conhecer sob a forma do tempo, como o EU EMPÍRICO. O que está no tempo é empírico.
Je é objeto pensado. Moi é eu como objeto pensado. Eu só conheço no tempo. É necessária a intuição. Não me conheço como sou, mas só como eu apareço. O único conhecimento que podemos ter é o fenomenológico. Só se pode conhecer pelo empírico.
O tempo no interior do sujeito distingue o ato do JE e MOI o qual esse JE se atribui e faz o MOI ser o que ele não é. O tempo é o paradoxo do tempo. O tempo introduz uma fissura, uma rachadura entre o empírico e o transcendental.
Para Deleuze, interpretar é privilegiar, é roubar alguns conceitos em detrimento de outros. Ele introduziu o tempo no pensamento. O cinema moderno introduziu o pensamento no tempo.

1 Comment:

  1. Anônimo said...
    Salve salve... esbarrei por um acaso com seu blog, mas adorei o texto sobre Deleuze e Kant, e gostaria d'uma ajuda. Essas duas citaçoes que seguem me seriam mto uteis pra minha tese de mestrado:
    "Kant criou um monstro conceitual" (Deleuze). "O cinema moderno é kantiano" (Deleuze)
    se não for pedir mto, e se vc puder, me indicar o livro e as paginas onde elas se econtram?

    desde já muitíssimo grato!

    Zé Eduardo
    email: eduardo_rio86@hotmail.com

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