Escrever é abrir um buraco nas palavras

Escrever é abrir um buraco nas palavras
Baseado em Deleuze e a literatura

O escritor é aquele que cria uma nova linguagem. O filósofo é alguém que cria conceitos (leitura de Deleuze sobre Bergson). Deleuze usa os conceitos de a-gramatical e a-sintaxe. Ele combate a língua padrão. O objetivo dele é: como tornar menor uma língua maior.
O escritor cria procedimentos próprios capazes de criar uma língua própria. Proust escreveu: “um livro é como uma língua estrangeira”.
Deleuze não restringe sua reflexão sobre a literatura no trabalho da linguagem ao contrário de Foucault que dizia que a literatura é uma questão de linguagem.
Todo grande pensador tem uma idéia dizia Heidegger. Para Deleuze, pensar é passear com um saco e colocar dentro tudo o que serve. Mas o que serve? A diferença. Deleuze vai sempre atrás da diferença. Acordo disjuntivo, sintaxe disjuntiva, diferenciador da diferença são termos importantes usados por Deleuze.
O que é a gênese? É a criação da diferença. Deleuze formula esta questão à partir de Bergson.
Foucault trabalha com a intransitividade da linguagem literária. A língua fala por si mesmo (pensamento de Foucault da década de 60, porque depois, Foucault muda). Ele privilegia a literatura como fenômeno de linguagem. Deleuze não aceita essa idéia.
Para Deleuze, a literatura tem sempre um relacionamento com o de fora. Ele não reduz a literatura ao fenômeno de linguagem. A linguagem é utilizada para expressar o de fora e jamais para se auto-expressar como dizia Foucault da década de 60.
A literatura quer dizer alguma coisa. Os procedimentos possibilitam alguma coisa que expressa o de fora. Esses procedimentos são vitais. A literatura é a relação dos procedimentos de linguagem e procedimentos vitais. O procedimento devasta as designações, as significações.
A linguagem precisa elaborar um saber exotérico para dar conta da vida. Os procedimentos literários levam a linguagem a um limite. Limite nesse caso, não tem significação de fronteira, de limitação. Limite nesse contexto, significa grau de potência (Nietzsche e Espinosa). Significa levar a linguagem ao seu máximo de potência de intensidade. Significa atingir a enésima potência da linguagem para dar a linguagem um caráter trágico e racional. Isso implica em fazer a linguagem atingir o limiar da intensidade. A linguagem intensiva é a linguagem menor.
O limite a-gramatical devasta as significações fazendo com que a linguagem seja representação. Representação é a subordinação da diferença para a identidade. O que Deleuze quer é afirmar a identidade da diferença.
Quando se consegue criar esse tipo de linguagem (linguagem original), quando a diferença sofre uma reviravolta, sofre um limite, a linguagem afirma as peculiaridades de uma vida desconhecida. Essa linguagem é capaz de revelar um saber exotérico, capaz de revelar a intensidade da vida. A sintaxe da língua intensiva é o conjunto de desvios necessários para colocar a linguagem em variação contínua, em perpétua variação, para revelar a vida nas coisas.
As visões e condições são de fora da linguagem e quando a linguagem atinge o máximo de que pode, o escritor vê, revela alguma coisa. A sintaxe é a condição para que a linguagem se revele.
Deleuze sempre tenta escapar da forma, da conformidade. O escritor é aquele que vê e ouve nos desvios, nos interstícios, no meio, da linguagem. O escritor é alguém que resiste a prisão da vida. O projeto nietzschiano consiste em libertar a vida do que fizeram com ela. O filósofo é um médico da civilização (Nietzsche). Deleuze vai pensar o escritor como um médico da civilização.
Deleuze pensa a arte como linguagem das sensações, blocos de sensações, como monumento arquitetônico, com consistência própria, capaz de se manter. Ele pensa a arte como monumento sensível que permite ao escritor fazer uma torção da linguagem. O escritor faz vibrar a linguagem. Deleuze faz elogio à gagueira da língua porque ela faz vibrar. A intensidade faz vibrar. A intensidade faz variar os afetos.
Torcer uma língua é escavar a língua, é abrir um buraco nas palavras. A linguagem criativa original gera percepções originais. Essa nova linguagem é capaz de capturar as forças da vida.

1 Comment:

  1. Osvaldo Luiz Ribeiro said...
    Olá, Joe.
    Penso que você tem tudo para explodir como uma "diferença". A sua cabeça nao tem muros nem paredes. Limites? Fronteiras? O que é isso?

    Você é músico! Seu cérebro é uma máquina adequada para o pensamento complexo.

    Há, aqui, uma inveja batendo entre cada batida de meu coração, que se transforma em desejo de que você caminhe para a diferença, até o ponto de ultrapassar seu próprio limite.

    Paz e bem, amigo.

    Osvaldo.

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