A interpretação deleuzina de Proust (parte I)

A interpretação deleuziana de Proust (parte I)
Análise da obra Proust e os signos de Deleuze.
Aulas do seminario de filosofia contemporânea no IFCS-UFRJ com o professor e doutor Roberto Machado.

Deleuze é um historiador da filosofia para pensar filosoficamente a partir de alguns autores e seus conceitos. Por exemplo: Nietzsche e os conceitos de eterno retorno e vontade de potência; Bergson e os conceitos de gênese, multiplicidade, virtual, atual; Espinosa e os conceitos de imanência, intensidade, univocidade.
Deleuze trabalha com a exterioridade da filosofia. Por exemplo, a partir do cinema e da pintura ele cria conceitos.
A relação entre saberes foi muito intensa em Deleuze.
O pensamento de Deleuze é interessado. Privilegia o que serve à sua interpretação.
A questão central da filosofia de Deleuze é: O que é pensar? O que é o exercício do pensamento?
A obra mais importante de Marcel Proust é EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO que contém sete volumes. Para Deleuze esta obra é uma obra do pensamento sobre o pensamento. Proust transmite a idéia de como pensar literariamente.
A filosofia de Deleuze leva em consideração conceitos criados. Ele trabalha sistema de conceitos criados a partir de outros autores.
O projeto dele é a constituição de uma filosofia da diferença embora não haja uma diferença entre os estudos filosóficos e tecnicamente não filosóficos.
Como ele produz uma ressonância entre o filosófico e o não filosófico?
A idéia mais geral do livro PROUST E OS SIGNOS de Deleuze é mais voltada para o futuro do que o passado. Deleuze vai ligar à verdade, à busca da verdade, à busca inconsciente e involuntária da verdade. Com isso ele estava fazendo uma crítica da vontade livre e uma crítica da consciência.
Proust é considerado um filósofo da memória.
Deleuze analisa esse livro como sendo um sistema de pensamento.
O cinema clássico é um sistema de pensamento. O cinema moderno também é um sistema de pensamento.
A pintura de Bacon é um sistema pictórico de linhas e cores, consistindo também num sistema de pensamento. A teoria do acaso em Bacon também é um sistema de pensamento.
O sistema de pensamento que se opõe à identidade e a representação faz de Proust um pensador da diferença.
No sistema de signos há dois pontos centrais: signo e sentido. Deleuze diz que os signos constituem tanto a unidade quanto a pluralidade da obra EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO. Tudo são signos, os personagens vivem sob os signos. Um amor remete à signos; uma reunião social remete à signos; uma música é um signo que está atuando sobre nós. É um livro de arte que pensa a própria arte.
Há uma pluralidade nos signos. Os signos são heterogêneos, não são do mesmo tipo. São emitidos de maneira diferente.
É importante observar três elementos chaves: signos, sentido e tempo.
Deleuze classifica quatro tipos de signos: signos mundanos, signos amorosos, signos sensíveis, signos artísticos.
1- Signos mundanos – são aqueles que aparecem nas relações sociais dos personagens (festas, recepções, ambientes sociais, contexto aristocrático e burguês, etc); Os signos mundanos são vazios. Os signos mundanos chamam a atenção para sua heterogeneidade. Cada meio social tem seu sistema de signos específicos. Ler o livro 1 NO CAMINHO DE SWAN e livro II UM AMOR DE SWAN. Proust se apropriou do impressionismo para criticar o realismo.
2- Signos amorosos – projetam os signos sobre as coisas. Quem ama prende. Ler O CAMINHO DE SWAN E O CAMINHO DE GERMAINE que são dois caminhos distintos. Para Deleuze, apaixonar-se é individualizar alguém por escrito pelos signos. Nos apaixonamos pelos signos não pelas pessoas. A multiplicidade do mundo é inacessível. O mundo do amado é inacessível, misterioso por isso Swan persegue Odete. Segundo Schopenhauer o mundo oscila como um pêndulo entre a ansiedade e o tédio. Ele enfatiza a idéia do desejo como falta.
3- Signos sensíveis – são também chamados de qualidades sensíveis, impressões sensíveis ou signos da natureza. Eles estão ligados à memória involuntária. O que é a memória involuntária? Está atrelado à idéia de se lembrar sem querer se lembrar. Caracterizam-se pela sua brevidade. São signos heterogêneos. O que é comum nesses signos é a grande alegria e a plenitude.
4- Signos artísticos ou signos da arte – EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO leva em consideração três artes: música, pintura e literatura. Proust também abordava o teatro e a arquitetura. Na música ele valoriza Wagner e Beethoven; na pintura ele ressalta os expressionistas com Vernant; na literatura ele valoriza Balzac, Zola, Baudelaire. Ele vai considerar Baudelaire o maior poeta do século XIX. Há um pensamento de Proust sobre estas três artes à partir de comentários sobre artistas, músicos e literatos realizados por seus personagens.
Há em Schopenhauer uma teoria da superioridade da música. Nietzsche e Wagner roubaram essa idéia de Schopenhauer. O que unia Nietzsche a Wagner era Schopenhauer. Eles acreditavam que a música é capaz de dar conta da coisa em si. Schelling fala que a arte é capaz de dar acesso ao Absoluto.
O objetivo de Proust é fazer uma literatura que esteja no mesmo nível da música para Schopenhauer.
Você pode ser um grande imbecil na vida e ser um grande criador (foi a grande tese de Proust).
A arte é superior aos demais signos. O signo sensível dá a sensação de eternidade do prazer, mas logo passa, mas para Deleuze, a arte dá consistência, perpetua, faz essa sensação permanecer.
Os signos nos fazem pensar. Só se pensa forçado (Deleuze). Para Proust, o ciumento pensa melhor.

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