Entendendo a "teologia" da alucinação e ilusão

Não existem fatos (fenômenos), apenas interpretações dos fatos (Nietzsche).

Sofremos simultaneamente de subinformação e superinformação, escassez e excesso (Edgar Morin).

A percepção comporta um componente alucinatório. O componente alucinatório da percepção é determinado não por um fator “irracional” (afetivo, mágico), mas por um princípio de racionalidade. Não é somente a intrusão de um componente afetivo ou mágico que nos pode enganar nas nossas percepções, é também o funcionamento de um componente aparentemente lógico e racional. Devemos desconfiar, na nossa percepção, não somente daquilo que nos parece absurdo, mas também do que parece evidente, porque lógico e racional.

O componente alucinatório pode, em compensação, resistir à correção e até, em certos casos, determinar uma alucinação pura e simples. A alucinação pura e simples é um fenômeno bem conhecido, mas que durante muito tempo foi considerado como próprio da “loucura”. Ora, todos podem, em caso extremo, estar sujeitos a alucinações, seja em condições de grande cansaço, seja em condições de angústia, exaltação ou êxtase coletivo.

Toda percepção comporta um componente alucinatório que pode ser provocado ou orientado por nossa afetividade, mas também pode resultar simultânea ou principalmente das estratégias ou das estruturas de racionalização que utilizamos em toda percepção. O risco da ilusão não provém somente das perturbações afetivas ou/e das estruturas mágicas/arcaicas do espírito humano; provém também da racionalidade própria de toda operação de conhecimento. Isso significa que devemos desconfiar do testemunho dos “nossos olhos”, pois não são os nossos olhos que vêem, é o nosso espírito, por intermédio dos nossos olhos.

Até mesmo as nossas lembranças se desgastam e com o tempo, um princípio de entropia corrói-a, que se torna esfarrapada, lacunar, apagada; e, in extremis, quando queremos nos lembrar, depois de tantos anos, só restam dela farrapos incertos. Contudo, a lembrança pode ser renovada por recordações freqüentes, para si ou para outrem.

Podemos lutar contra o engano pela recordação, apelando para as recordações de outrem, certamente, mas também tratando de nos auto-analisar, auto corrigir e autocriticar constantemente. Para isso, é indispensável uma estratégia de conhecimento.

A estratégia de conhecimento desenvolve-se estabelecendo concordâncias e coerências, mas a concordância não tem sempre valor comprobatório e a coerência pode ser destruída pelo aparecimento de um dado que a contradiga (não há coerência em si, há coerência a partir de dados).

A estratégia de pesquisa do verdadeiro deve, então, esforçar-se para determinar o verídico a partir do verossímil (o qual depende, por sua vez, de critérios variáveis segundo os espíritos). É preciso fazer a crítica dos testemunhos, no entanto, temos tendência para ser hipercríticos em relação aos testemunhos que nos desagradam porque contradizem nossa própria visão da realidade e temos tendência para ser subcríticos com tudo aquilo com que concordamos.

Chegamos a uma conclusão paradoxal: devemos desconfiar de nossos olhos, embora somente neles possamos confiar. Como ter ao mesmo tempo confiança e desconfiança? O problema torna-se claro quando pensamos que nossos olhos são apenas nossos olhos, que a visão vem do encontro entre estímulos exteriores, a atividade impressora/transmissora de nosso aparelho ocular, a atividade representativa de nosso cérebro e que tudo isso dá uma percepção. Tanto a teoria da Gestalt como a psicanálise, demonstraram cada uma a sua maneira que os processos cerebrais e psíquicos inconscientes são mobilizados em toda percepção, por isso, precisamos de processos cerebrais/psíquicos conscientes para examinar, refletir, autocriticar a nossa visão. Isso que dizer que seremos incapazes de ver bem se não formos capazes de olhar para nós mesmos. Precisamos mobilizar o espírito para controlar nossos olhos, precisamos mobilizar nossos olhos para controlar nosso espírito.

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