Detonando "Deus": A heresia apocalítica

Detonando Deus: A heresia apocalítica

A redução, a unidimensionalização, a simplificação levam ao reino da idéia única, maior, simbolizada e expressa pela palavra mestra. A palavra mestra torna-se o conceito primeiro e final, do qual parte a explicação e no qual ela termina. Assim a filosofia espiritualista, a filosofia materialista, a filosofia energetista, a nova filosofia informacionista têm, cada uma, sua palavra mestra que as tranqüiliza, as garante, as satisfaz: Espírito, Matéria, Energia, Informação. O monoteísmo é a expressão religiosa tradicional da necessidade da palavra mestra, as ideologias de Verdade suprema são as versões religiosas modernas da grande Simplificação.

A idéia de um princípio único perseguiu e fecundou a pesquisa científica. Essa obsessão corresponde a uma necessidade em que a racionalização se confunde com a energia. A palavra mestra relaciona-se com o vocabulário e com as práticas dos bruxos e feiticeiros. É por essa palavra que eles dominam, controlam, dirigem as forças cósmicas, os espíritos rebeldes. A palavra mestra pode estar carregada de uma tal energia que o mortal deve evitar pronunciá-la. Até o padre deve respeitar a sua indizibilidade, como na religião mosaica em que o nome último e decisivo do Eterno, JHWH, é impronunciável.

A vontade unidimensionalizante de caracterizar, com uma palavra decisiva, o homem, a sociedade, o tempo em que vivemos, leva, a uma fórmula mestra: homo sapiens, sociedade industrial. A isso, a religião ideológica acrescenta a mística e o mito da palavra mestra: no lugar do Salvador supremo instaura-se a Verdade suprema (“científica”). Esta convém muito bem ao partido mestre, do qual tende naturalmente a surgir o mestre dos mestres, sob a forma do chefe onisciente, perfeito, onipotente, o “Deus, César, tribuno” expulso pela ideologia inicial.

A palavra mestra é tanto mais pobre quanto mais se acredita rica. O conceito que tudo explica perde, valor explicativo. Como é o primeiro, sua fonte esclarecedora não é mais iluminada por trás; como é terminal, é incapaz de abrir-se para o além. A palavra mestra Deus é cega para Alfa e cega para Ômega; só será esclarecedora se essa cegueira for aceita, só será explicativa se se reconhecer que é inexplicável. A palavra mestra Espírito dá para uma escuridão total: de onde vem esse Espírito? O que pode explicar esse Espírito que explica tudo? Na realidade, como não conhecemos o Espírito puro, fora das atividades físicas, biológicas, psíquicas, precisamos entender que o termo Espírito é inseparável de interações organizadoras de caráter ao mesmo tempo físico, biológico, psíquico. A palavra mestra Energia, por sua vez, remete ao conjunto de fenômenos e atividades físicas: ninguém nunca viu energia; ninguém pode dizer que a Energia precede qualquer outra forma de ser-no-mundo; tudo nos diz, ao contrário, que ela é um aspecto daquilo-que-está-no-mundo.

Precisamos, portanto, compreender que todo conceito deve remeter a outros conceitos e só pode tornar-se esclarecido / esclarecedor numa intercomunicação de conceitos. Precisamos, portanto, conceber um conjunto polinuclear de conceitos principais em interdependência, para conceber uma determinada ordem de fenômeno.

A noção de informação é inseparável de uma atividade de computação da informação, a qual depende de um aparelho que controle / comande operações físicas, biológicas, psíquicas.

0 Comments:

Post a Comment




 

Copyright 2007 | Blogger Templates por GeckoandFly modified and converted to Blogger Beta by André Monteiro.
No part of the content or the blog may be reproduced without prior written permission.