Conhecimento e tipos de vida em Nietzsche (ciência e moral)

Conhecimento e tipos de vida em Nietzsche (ciência e moral)

Por Roberto Machado (especialista em Nietzsche e prof da UFRJ)

A reflexão nietzschiana sobre a ciência, quando confrontada com a problemática da arte em seus primeiros escritos, tem como tema central uma crítica da verdade. O mesmo acontece quando a relação é estabelecida com a moral. Em Nietzsche, a crítica nunca é uma teoria do conhecimento que tenha por objetivo denunciar os pseudoconhecimentos, suas ilusões, seus erros e estabelecer as condições de possibilidade da verdade, o ideal do conhecimento verdadeiro. A novidade e a importância do projeto nietzschiano em todas as fases de sua realização é a crítica, não dos maus usos do conhecimento, mas do próprio ideal de verdade; é a questão, não da verdade ou falsidade de um conhecimento, mas do valor que se atribui à verdade, ou da verdade como valor superior; é a negação da prevalência da verdade sobre a falsidade.

Uma crítica interna da faculdade de conhecer é algo sem sentido. Chega a ser cômico, segundo Nietzsche, querer reduzir a filosofia a uma teoria do conhecimento. A redução da filosofia à vontade de uma teoria do conhecimento é cômica.

Malgrado os diferentes níveis em que situou sua análise, independentemente das transformações conceituais por que passou sua obra, a posição de Nietzsche sobre esse ponto permaneceu sempre a mesma: o problema da ciência é indiscernível no terreno da ciência, a questão do conhecimento não pode ser elucidada isoladamente. A apreciação do conhecimento exige que se leve em consideração outros valores. O conhecimento é um valor que deve ser situado entre uma pluralidade de valores e que não deve, entre eles, gozar de nenhum privilégio particular.

O que caracteriza o projeto nietzschiano é a relação, mas uma relação imanente, intrínseca, do conhecimento com outra ordem de fenômenos que lhe serve de motivação, que lhe revela pressupostos: a relação entre verdade e bem ou, em termos metodológicos, a extensão da análise genealógica da ordem moral até a ordem epistemológica. Só articulando o conhecimento com a moral é possível considerá-lo de um ponto de vista crítico porque os dois fenômenos existem intrinsecamente ligados.

Não existe, por exemplo, filosofia independente da moral. Mesmo quando os filósofos parecem preocupados com a certeza e a verdade é sob o encantamento da moral que se encontram. Quando a melhor época da Grécia acabou, vieram os filósofos da moral: a partir de Sócrates, com efeito, todos os filósofos gregos são, antes de tudo, e no mais profundo de si mesmos, filósofos da moral. A filosofia instauradora da racionalidade, criadora da oposição verdade – aparência, é uma filosofia moral. Platão, por exemplo, se desviou de todos os instintos fundamentais dos gregos arcaicos, está impregnado de moral, é cristão antes do cristianismo, já postula a idéia de bem como conceito supremo. A posição de Nietzsche é clara: o móvel da filosofia é um determinado projeto moral; uma filosofia não só é a confissão de seu autor, mas uma confissão que tem como germe intenções morais.

Qual é o objetivo de Nietzsche ao rejeitar uma crítica interna do conhecimento e articular a questão da verdade com uma genealogia da moral? Consiste em remeter, ou melhor, em subordinar, por intermédio da moral, a questão da verdade a uma teoria das formas de vida, dos estilos de vida, que funciona como critério de avaliação do conhecimento. Em outras palavras, se a questão do conhecimento remete à da moralidade, se a norma do conhecimento não é epistemológica mas moral, é porque a vida é o critério último de julgamento tanto do conhecimento quanto da moral. No & 121 da Gaia ciência intitulado “a vida não é um argumento”, esse aforismo diz que, se os homens não podem viver sem o mundo que construíram, isso não demonstra que este mundo esteja certo como está na medida em que “entre as condições da vida poderia figurar o erro”. Para Nietzsche, “o primeiro problema é o da hierarquia dos tipos de vida” (Frag. Post, final de 1886 – primavera de 1887).

Em Além do bem e do mal, por exemplo, Nietzsche enuncia claramente essa relação entre conhecimento e vida. & 2: “Seja qual for o valor que se venha atribuir à verdade, à veracidade ou ao desinteresse, pode ser que se deva dar à aparência, à vontade de enganar, ao egoísmo e aos apetites um valor mais alto e mais fundamental para qualquer vida.” & 4: “Não vemos na falsidade de um juízo uma objeção contra esse juízo (...) A questão é de saber em que medida um juízo está apto para promover a vida (...) renunciar aos falsos juízos seria renunciar à própria vida.” & 11 “(...) já é tempo de substituir a questão kantiana: como os juízos sintéticos a priori são possíveis? Por esta outra questão: por que é necessário acreditar em tais juízos? Isto é, já é tempo de compreender que a conservação de seres de nossa espécie exige algo que acreditemos neles. O que não impede, bem entendido, que esses juízos possam ser falsos (...) Devemos, no entanto, acreditar na verdade deles com uma fé que contenta com a fachada e a aparência, uma crença que pertence à ótica da vida e à sua perspectiva. “ & 34: “É por puro preconceito moral que atribuímos mais valor a verdade do que à falsidade; esta é mesmo a hipótese mais mal fundada que existe. Reconheçamos: nenhuma vida pode subsistir a não ser por estimações e aparências inerentes à sua perspectiva.”

O caminho da argumentação de Nietzsche em direção ao mais fundamental se faz, portanto, em duas etapas: do conhecimento à moral e da moral à vida. Em primeiro lugar, o projeto de fundar a verdade ou a certeza é desclassificado e reduzido a uma questão subsidiária, a um problema de segunda ordem, na medida em que a confiança na razão é um fenômeno moral e é a partir dele que é possível revelar os interesses mais secretos do conhecimento. A questão dos valores, e no seu âmago a dos valores morais, é mais fundamental do que a questão da certeza.

Uma das motivações principais da filosofia de Nietzsche é considerar irrelevante saber se os juízos de valor sobre a vida são verdadeiros ou falsos. A razão é que, sendo a vida o princípio, o fundamento da criação de valores – sendo a vida que avalia quando instituímos valores – ela não pode ser julgada, seu valor não pode ser taxado. Um juízo de valor depende das condições de vida e varia com elas; seja ele positivo ou negativo, uma exaltação ou uma condenação da vida, deve ser unicamente considerado como sintoma; sintoma de uma espécie determinada de vida.

Quando a genealogia avalia o conhecimento, o importante não será perguntar se ele é verdadeiro ou falso. Inúmeras vezes Nietzsche assinala que o falso tem uma positividade quando considerado na perspectiva da vida, ressaltando mesmo o caráter negativo da verdade pelo fato de ser a supressão de um erro, que é uma exigência básica da vida. O que é significativo nessa tentativa de inversão dos valores estabelecido, como toda vez que Nietzsche elogia a aparência, é que o importante não é a verdade mas a força do conhecimento. E como a força não se encontra no grau de verdade, a análise do conhecimento em termos de forças que realiza a genealogia deve determinar se ele é a expressão de um excesso ou de uma indigência vital, de uma afirmação ou de uma negação da vida.

Em suma, a questão nietzschiana do conhecimento pode ser enunciada nos seguintes termos: se existe um tipo de vida ativa e um tipo de vida reativa, a serviço de que tipo de vida se coloca o conhecimento?

1 Comment:

  1. Davi said...
    Futuro Doutor Joevan, você é um cara de explosão, posso disser "um incendiador",sei que um de seus objetivo é este, mexer e impactar as pessoas, suas palavras podem maltratar, amansar, cutucar e reverberar. Gosto de seus textos( mesmo sem concordar com tupo) e se pudesse te patrocinaria, ou no caso investiria em seu futuro... opaaaa falei futuro, realmente você é um cara de futuro. Grande abraço meu amigo.

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