Ceia filosófica x Concílio dialógico

Ceia filosófica x Concílio dialógico

Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma do pão e beba do cálice” (1 Coríntios 11:28).

Desde pequeno, eu ouvia nos cultos que eu precisava examinar a mim mesmo, pra ver eu tinha algum (s) pecado (s), para então eu decidir se eu devia ou não participar do ato sagrado, de comunhão que é a santa ceia. Putz! Eu sempre entrava em crise porque qualquer merda que eu fazia, ressoava em meus ouvidos aquela maldita musiquinha infantil CUIDADO OLHINHO O QUE VÊ! CUIDADO MÃOZINHA ONDE PEGA! CUIDADO PEZINHO ONDE PISA PORQUE O SALVADOR DO CÉU ESTÁ OLHANDO PRÁ VOCÊ...CUIDADO OLHO, BOCA, MÃOS E PÉS. Guris! Gurias! caso sintam “vontade” tomem VAGINZIL, PIRUZIL, ANALZIL e CASTRAZIL (vacinas divina) e sempre se lembre da tal música de terror, catequese e adestramento infantil em nome de Deus. Participar da ceia era para mim algo tão complicado e amedrontador, mas a verdade é que as pessoas adultas complicavam as coisas ao invés de facilitar. Eles não se interessavam em compreender sobre a complexidade-simplicidade-diversidade e singularidade que é o ser humano.

Dermeval Saviani assinala que toda educação (seja em nome de Deus ou não) implica em relações humanas, e pressupõe-se um conhecimento do ser humano. Complexidade não significa complicação, mas podemos abordar o complexo aspirando comunicá-lo com simplicidade com fazia Jesus dizendo: Comam de meu corpo! Bebam do meu sangue! Tá ai o pão e o vinho sobre a mesa, sejam proativos, porque nosso objetivo aqui é a comunhão e a interação (jogar conversa fora tb), e o amor lança fora todo o medo. Jesus atuava como um pedagogo do cotidiano, pois conduzia as pessoas com amabilidade em meio às instabilidades. Sabia que todo discurso e todo texto é polissêmico dando margem à múltiplas interpretações e que Deus se manifestava na diversidade de interpretações, pois cada ser humano é um computador diferente cada um com sua própria configuração interligado aos demais processadores no âmbito universal, no entanto, todos são alimentados energeticamente de uma fonte central no qual denominamos de Deus (Mistério) na qual temos sempre a tendência de dar a nossa (DEUS = EU) opinião sobre ele. Se o computador do fulaninho possui uma configuração bem diferente da nossa, dizemos que ele está cheio de vírus, por isso é das trevas, diabólico, etc, mas se tem alguma simetria configuratória, dizemos que eles pertencem ao REINO DE DEUS...(somos idólatras de nossas configurações).

Diante da multiplicidade que é a vida, precisamos nos esforçar para conhecermos a nós mesmos e os outros. Leonardo Boff escreveu: Cada um revela a faceta de Deus que o outro não pode revelar. O Mistério é complexo e nunca teremos acesso ao todo, mas é simples porque podemos dialogar com as partes, e podemos ampliar nossa rede de contatos. É preciso uma revolução interativa, revolução na afetividade, no pensamento, pois crê é também pensar assinalou John Stott.

Há uma revolução copernicana, inerente à reforma das estruturas de pensamento, e que todos podem efetuar: consiste em incluir, em toda observação, a auto observação, em todo exame, o auto exame, e em introduzir em todo conhecimento a vontade de autoconhecimento do sujeito conhecedor. O modo de pensar próprio da ciência clássica excluía o sujeito conhecedor e não dispunha de nenhum princípio de reflexibilidade.

Diante dessa problemática da pobreza (ou ausência) reflexiva, decorrente do pensamento mutilador, castrador, soberano e que adora esconder o jogo, faz se necessário observamos a importância do pensamento complexo. O conhecimento complexo exige de nós que:

- situemo-nos na situação;

- compreendamo-nos na compreensão;

- conheçamo-nos ao conhecermos.

É preciso ver-se a si próprio para melhor ver fora de si. O conhece-te a ti mesmo é uma idéia tão velha quanto a filosofia.“Conhece-te a ti mesmo conhecendo o mundo.” Apesar disto, todo pensamento introspectivo, de Montaigne a Proust, conduz naturalmente à relativização do auto-examinador e produz a perspicácia no exame do outro. Contrariamente à idéia corrente, o auto-exame supera o narcisismo de que originalmente inseparável porque se torna autocrítico. A autocrítica, evidentemente, não poderia eliminar seu componente masoquista / narcisista (como dizia Nietzsche, “quem se despreza, se gratifica ao menos como crítico”), mas serve-se dele justamente como motor.

O auto-exame foi desprezado sob o nome de “introspecção” pelo conhecimento objetivista (incapaz de conceber as virtudes produtoras da reflexibilidade) e foi rejeitado em proveito da idéia de conhecimento objetivo, como se fosse a sua antinomia, quando, na verdade, é o seu complemento e fermento.

Dispomos de instrumentos modernos que nos permitem melhor nos situar individual, psicológica (psicanálise), cultural, sociológica, historicamente. A psicanálise é um pacto em que o auto-exame é, na realidade, guiado pelo guru analista. Sem dúvida, temos necessidade de gurus que nos ajudem a nos conhecer a nós mesmos, como precisamos de uma tática que nos ajude, a dispensar o guru, a sermos nossos próprios gurus (capacidade para melhor nos conhecermos e melhor nos guiarmos, e até podermos bancar o guru para os outros, se for o caso). Todo auto-exame, toda auto-análise, toda auto-crítica, tudo o que é auto-alguma coisa precisa sempre do outro, mas precisa do outro precisamente para desenvolver suas próprias virtudes e forças reflexivas autônomas.

O auto-exame convida-nos não a que nos fechemos narcisisticamente, e que nos deleitemos com nossas próprias pessoas, mas a que mantenhamos diálogo conosco mesmos. Diálogo porque todo auto-exame reconhece a dualidade na unidade do “eu”. Em cada “eu” há outro, há dois, muitos outros. Não só todo homem é duplo, isto é, traz em si duas personalidades muitas vezes antitéticas, mas todo homem comporta várias personalidades potenciais, algumas predominando de maneira duradoura, outras só chegando a se atualizar de modo fugidio, embrionariamente. Não é só nossa “personalidade” dominante que deve se esforçar para dialogar com as superpersonalidades inibidas ou recalcadas, com o abismo que se abre sobre as trevas do nosso inconsciente, com a parte obscura de nós mesmos em que a nossa pessoa desaparece numa impersonalidade profunda; precisamos dialogar com essa personalidade dominante, esse personagem avantajado, pretencioso, pomposo, que finge para si mesmo, às vezes, mais do que para os outros.

Precisamos, aliás, reconhecer as palavras e as idéias que nos dão prazer e tentar compreender por que e em que elas nos dão prazer. É preciso ser capaz de aceitar a alteridade, trabalhar com ela; dialogar é isso, e o diálogo começa por si mesmo. Para discutir com os outros é preciso discutir consigo mesmo. Para discutir consigo mesmo é preciso ser capaz de discutir com os outros.

Aquele que se auto-examina sabe que a honestidade consiste primeiro na prudência, isto é, no temor de se colocar como outorgante de honestidade / desonestidade: consiste na prudência em relação à palavra “honestidade”, assim como à palavra “desonestidade”, que designam coisas raras em estado de pureza.

A lógica do auto-exame impede que o auto-exame se feche sobre si mesmo: com efeito, ela requer o exame do auto exame, isto é, o recurso ao diálogo e à discussão com examinadores externos. Um pensamento que tenta se compreender precisa descentrar-se e distanciar-se em relação a si mesmo e precisa, portanto, do olhar do outro e do pensamento do outro. O auto-exame é, portanto, um auto-ecoexame. Isso significa que a lógica do pensamento complexo necessita de um “ambiente” de confrontação, oposição e até discórdia: ela não poderia nunca conceber um pensamento auto-suficiente. O pensamento fechado do dogmatismo recusa simultaneamente o exame feito por outro e o auto-exame. O pensamento complexo precisa de ambos.

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