Metafísica de artista e metafísica racional em Nietzsche

Metafísica de artista e metafísica racional em Nietzsche

Por Roberto Machado (IFCS-UFRJ)

“Metafísica de artista” é a concepção de que a arte é a atividade propriamente metafísica do homem, a concepção de que apenas a arte possibilita uma experiência da vida como sendo no fundo das coisas indestrutivelmente poderosa e alegre, malgrado a mudança dos fenômenos. Mas que significado tem a apologia dessa experiência estética da verdade dionisíaca do mundo – experiência metafísica possibilitada pela arte trágica grega – na estrutura mais geral da reflexão filosófica de Nietzsche nessa época? Significa a criação de uma “contra-doutrina”, de uma contra-noção, na luta contra a metafísica e a ciência. Por um lado, é a formulação de uma denúncia: depois de uma vida breve, a arte trágica desapareceu um dia bruscamente, tragicamente, do campo do saber grego através de uma morte violenta e rápida cujos marcos são Eurípedes e Sócrates. Eurípedes e Sócrates contra a tragédia dionisíaca: eis o antagonismo fundamental que assinala Nietzsche quando analisa pela primeira vez as relações entre arte e ciência. O que em termos conceituais quer dizer a oposição entre razão científica e instinto estético ou entre duas formas de saber: o saber racional e o saber artístico. Por outro lado, a valorização da arte – e não do conhecimento – como atividade que dá acesso às questões fundamentais da existência é a busca de uma alternativa contra a metafísica clássica criadora da racionalidade. Idéia que sempre permaneceu fundamental no pensamento de Nietzsche: a arte tem mais valor do que a ciência por ser a força capaz de proporcionar uma experiência dionisíaca.

O ponto de partida da análise é a crítica do “socratismo estético”. Se Eurípedes é o marco que assinala a morte da arte trágica é porque com ele, pela primeira vez, o poeta se subordina ao pensamento racional, ao pensador consciente. O que caracteriza a “estética racionalista”, a “estética consciente”, é introduzir na arte o pensamento e o conceito a tal ponto que a produção artística deriva da capacidade crítica. Momento em que a consciência, a razão, a lógica despontam como novos critérios de produção e avaliação da obra de arte.

Quando a racionalidade faz uma crítica explícita à produção artística na perspectiva da consciência, quando toma como critério o grau de clareza do saber, a tragédia será desclassificada como irracional ou como desproporcional. Por não ter consciência do que faz e não apresentar claramente o seu saber, o poeta trágico será desvalorizado, desclassificado pelo saber racional.

A perspectiva socrática de Eurípedes, o poeta sóbrio que condenou os poetas embriagados, assinala uma ruptura na maneira de considerar a arte. Assim, enquanto Eurípedes critica Ésquilo por considerar que ele fazia mal o que fazia por não saber o que fazia, Sófocles, por exemplo, ainda considerava correto que Ésquilo fazia, mesmo que ele o fizesse inconscientemente. “Se Sófocles disse de Ésquilo que ele fazia bem, mas sem sabê-lo, Eurípedes sem dúvida pensou que ele fazia mal por não saber. E Nietzsche enuncia o que constitui o fundamental da distinção entre esses dois momentos: “Nenhum poeta antigo anterior a Eurípedes estava em condições de defender, por motivos estéticos, o que ele tinha de melhor. Pois a particularidade maravilhosa de toda essa evolução da arte grega é que o conceito, a consciência ainda não estavam expressos e tudo o que o discípulo podia aprender com o mestre tinha relação com a técnica”. O que faz a diferença é a subordinação da beleza à razão, é o estabelecimento do postulado socrático segundo o qual só pode ser belo aquilo que é consciente, racional.

Erigindo como fundamento de sua estética o princípio “para poder ser entendido tudo deve ser da ordem do entendimento”, Eurípedes se torna o poeta do racionalismo socrático: sua crítica da arte é o prolongamento da crítica socrática aos homens de sua época que por não terem consciência de seu ofício o exercem apenas por instinto. É neste “apenas por instinto” que se encontra, segundo Nietzsche, a essência do socratismo. “O socratismo despreza o instinto e portanto a arte. Nega a sabedoria justamente onde se encontra seu verdadeiro reino”. Desprezando o instinto em nome da criação artística consciente que tem como critério a razão, o discernimento, a clareza do saber, o socratismo condena a arte e o saber trágicos. Se algo só é bom se for consciente, se há relação necessária entre saber – virtude – felicidade, o saber trágico, que é um saber inconsciente, se encontra necessariamente desclassificado. Em suma, pelo fato de ser impossível expressar conceitualmente – expor e comprovar racionalmente, logicamente – o trágico, Sócrates e Eurípedes negaram um saber como o de Ésquilo, que deve o que tem de melhor a uma “criação inconsciente”.

Assim, o estudo da relação entre metafísica de artista e metafísica conceitual, que tem como ponto de partida a crítica do socratismo estético, vai muito mais longe do que uma simples questão de estética, remetendo em última instância, como sempre em Nietzsche, ao problema da verdade. É, fundamentalmente, um modo de pôr em questão o “espírito científico”, caracterizado na época por Nietzsche como a crença, que nasceu com Sócrates, na penetrabilidade da natureza. O que é a metafísica racional criadora do espírito científico? É justamente “a crença inabalável que de o pensamento, seguindo o fio da causalidade, pode atingir os abismos mais longínquos do ser e que ele não apenas é capaz de conhecer o ser, mas ainda de corrigi-lo”. Para Nietzsche, em toda sua investigação e mesmo nesse momento em que defende uma “metafísica” de artista, o saber trágico não foi vencido propriamente pela verdade, mas por uma crença na verdade, por uma “ilusão metafísica” que está intimamente ligada à ciência. Afirmar que o problema da ciência não pode ser elucidado no nível da própria ciência, a partir dos critérios postulados pela ciência, significa situar o combate no terreno da ilusão. A luta contra a ilusão é uma forma de ilusão. Essa idéia é o ponto central da argumentação de Nietzsche mesmo quando considerou a estrutura conceitual, racional, da metafísica como imprópria ou como a mais imprópria para exprimir a essência do mundo; a “ilusão metafísica” – a crença de que o conhecimento é capaz de penetrar conscientemente na essência, na natureza, no fundo das coisas separando a verdade da aparência e considerando o erro como um mal – que destruiu a arte trágica. O poder criador do artista trágico foi negado pela metafísica por não ser uma penetração consciente na essência das coisas.

O antagonismo entre o espírito científico e a experiência trágica é em Nietzsche uma crítica da prevalência da verdade ou da verdade como valor superior pela afirmação tanto do caráter fundamental da aparência quanto da exigência de superação da oposição essência – aparência, verdade – ilusão. Separar o dionisíaco e o apolíneo é matar os dois. O herói foi morto não pelo trágico, mas pelo lógico. A “metafísica de artista” que Nietzsche defende no primeiro momento de sua reflexão filosófica é a denúncia da verdade como a única deusa da ciência – sua ilusão constitutiva – em nome da afirmação de que o ser verdadeiro tem necessidade da bela aparência, de que a arte é uma unificação desses dois elementos.

Se a arte tem mais valor do que a ciência, e é sempre utilizada por Nietzsche como paradigma em sua crítica da verdade, é que enquanto a ciência cria uma dicotomia de valores que situa a verdade como valor supremo e desclassifica inteiramente a aparência, na arte a experiência da verdade se faz indissoluvelmente ligada à beleza, que é uma ilusão, uma mentira, uma aparência.


3 Comments:

  1. Felipe Fanuel said...
    Joe,

    Acabei de inserir o seu blog nos meus links em meu blog.

    Abração.
    Anônimo said...
    Vc nao tem esse arquivo compleeto e em pdf? se puder mandar pra esse email valentimchaves@yahoo.com.br ficarei muito agradecido..

    Desde já,

    Muito Obrigado.!
    Sabrina Oliveira said...
    Qual é o seu blog?

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