A arte trágica e a apologia da aparência em Nietzsche

A arte trágica e a apologia da aparência em Nietzsche

Por Roberto Machado (IFCS-UFRJ)

O que é a arte? Que importância ela tem para a vida? Que relação mantém com a força e a fraqueza? As respostas a essas questões fundamentais de sua filosofia, Nietzsche as sugere, desde o primeiro momento, a partir de uma reflexão sobre a Grécia arcaica que sempre lhe serviu de modelo privilegiado na crítica aos valores da decadência.

Se é possível estabelecer um ponto de partida de sua reflexão sobre a arte na Grécia, este se encontra na correlação entre uma sensibilidade exacerbada para o sofrimento e uma extraordinária sensibilidade artística que caracteriza os gregos e que se explica pela força de seus instintos. “Por causa da força de todos os seus instintos a vida dos helenos era mais rica em sofrimentos. Qual era o antídoto?

Extremamente sensível, capaz de grande sofrimento, bastante vulnerável à dor, o grego tem nessa condição um perigo para a vida: a dolorosa violência pode levá-lo ao pessimismo, à negação da própria existência. A materialidade desse pessimismo radical constitui o que Nietzsche denomina “sabedoria popular”, “filosofia do povo” da Grécia e ilustra pela sabedoria de Sileno, personagem lendário, companheiro de Dioniso. Diz a lenda que Midas, rei da Prígia perguntou a Sileno: o que existe de mais desejável para o homem, isto é, qual é o bem supremo? Sileno respondeu: “O bem supremo te é absolutamente inacessível: é não ter nascido, não ser, nada ser. Em compensação, o segundo dos bens tu podes ter: é logo morrer”.

A arte grega tem origem nesta problemática. Arte e religião estão, para os gregos, intimamente ligadas, ou melhor, são idênticas: o mesmo instinto que produz a arte produz a religião. Por que os gregos criaram os deuses olímpicos ou a arte apolínea? Para tornar a vida possível ou desejável, dando ao mundo uma superabundância de vida. A criação da arte apolínea, que tem na epopéia homérica sua mais importante realização, é a expressão de uma necessidade. “A vida só é possível pelas miragens artísticas”, esta idéia acompanha Nietzsche em toda sua reflexão. Mas neste momento ela possui um sentido preciso: para o grego, povo mais do que qualquer outro exposto ao sofrimento, pudesse viver foi necessário mascarar os terrores e atrocidades da existência com os deuses olímpicos, deuses da alegria e da beleza, resplandecentes filhos do sonho.

A epopéia, poesia da civilização apolínea, é um modo de reagir a um saber pessimista do aniquilamento da vida. Os deuses olímpicos não foram criados como uma maneira de escapar do mundo em nome de um além-mundo, nem ditam um comportamento religioso baseado na ascese, na espiritualidade, no dever; são a expressão de uma religião da vida, inteiramente imanente, religião da beleza, como floração – e não da falta – que, diviniza o que existe.

Divinizar, neste contexto, significa fundamentalmente tornar belo, embelezar. A arte apolínea é a arte da beleza: se os deuses olímpicos não são necessariamente bons ou verdadeiros – como o deus das religiões morais – eles são belos. Para o grego beleza é medida, harmonia, ordem, proporção, delimitação mas também significa calma e liberdade com relação às emoções, isto é, serenidade. Contra a dor, o sofrimento, a morte o grego diviniza o mundo criando a beleza. “Não existe belo natural.” O mundo grego da beleza é o mundo da “bela aparência”; a beleza é uma aparência.

A questão da aparência é central em toda a filosofia de Nietzsche. Em “O nascimento da tragédia e nos escritos e fragmentos póstumos desta época seu pensamento se estrutura, inspirado em Kant e Schopenhauer, utilizando as dicotomias essência e aparência, coisa-em-si e fenômeno, vontade e representação. “O homem filósofo tem mesmo o pressentimento que sob a realidade em que vivemos e onde estamos se oculta uma segunda, totalmente diferente, de tal modo que a realidade também é uma aparência.” Se a beleza é uma aparência é porque há uma verdade que é a essência. Mas ainda: a beleza é uma aparência, um fenômeno, uma representação que tem por objetivo mascarar, encobrir, velar a verdade essencial do mundo. Para o grego, produzir a beleza significa se enganar na aparência e ocultar a verdadeira realidade. “O que é belo? – uma sensação de prazer que nos oculta em seu fenômeno as verdadeiras intenções da vontade. Objetivamente: o belo é um sorriso da natureza, uma superabundância de força e de sentimento de prazer da existência. Não é pelo Belo que as coisas belas são belas. Quando se diz que algo é belo apenas se diz que tem uma bela aparência, sem nada se enunciar sobre sua essência. Mascarando a essência, a vontade, a verdadeira realidade, a beleza é uma intensificação das forças da vida que aumenta o prazer de existir.

Trata-se porém de uma aparência necessária. Uma das teses principais de O nascimento da tragédia, sua “hipótese metafísica”, é que o ser verdadeiro, o “uno originário” tem necessidade da bela aparência para sua libertação; uma libertação da dor pela aparência. A “vontade”, termo que é utilizado por Nietzsche no sentido que tem em Schopenhauer de núcleo do mundo, essência das coisas, mundo visto de dentro, ou “força que eternamente quer, deseja e aspira”, tem necessidade do apolíneo como consciência de si. “Conhece-te a ti mesmo” é o lema apolíneo. O mundo apolíneo da beleza é o mundo da individuação (do indivíduo, do Estado, do patriotismo), da consciência de si. A individualidade, a consciência, é uma aparência, uma representação do uno originário; através do principium individuationis se produz a transfiguração da realidade que caracteriza a arte: é isso que constitui o processo artístico originário. Por um jogo de espelho da beleza, em que os gregos viam os deuses como seus belos reflexos, a vontade helênica combatia a aptidão, correlata ao dom artístico, para o sofrimento e para a sabedoria do sofrimento. O mundo dos deuses olímpicos é um espelho que transfigura a “vontade” que desejava se contemplar nesta transfiguração.

Assim, o primeiro importante resultado da análise nietzschiana, ao mostrar como os gregos ultrapassaram, encobriram ou afastaram um saber que ameaçava destruí-los, graças a uma concepção apolínea da vida, é o elogio da aparência. A apologia da arte já significa, como sempre significará para Nietzsche, uma apologia da aparência como necessária não apenas à manutenção, mas à intensificação da vida.

Pretendendo substituir o mundo da verdade, ou a verdade do mundo, pelas formas, a arte apolínea deixa de lado algo essencial; virando as costas para a realidade, dissimulando a verdade, ela desconsidera o outro instinto estético da natureza que não pode ser esquecido – o dionisíaco.

Para que se possa compreender a concepção nietzschiana do dionisíaco, é preciso salientar que o dionisíaco, considerado como aniquilador da vida, a que a arte apolínea se contrapõe, não é propriamente grego. Para o grego apolíneo ele é pré-apolíneo, isto é, titânico, ou extra-apolíneo, isto é, bárbaro. Dioniso é o deus de uma religião que vem do estrangeiro. Mas o culto, vencendo a resistência apolínea, foi, pouco a pouco, penetrando na Grécia e se afirmando, como se pode ver em As bacantes de Eurípedes.

Foi um momento de grande perigo e grande medo para o mundo grego. “As musas das artes da aparência empalideciam diante de uma arte que, em sua embriaguez, proclamava a verdade”. O indivíduo – seus limites e sua medida – caía no esquecimento de si característico dos estados dionisíacos e perdia completamente a memória dos preceitos apolíneos. A desmesura se desvelava como a verdade; a contradição e a volúpia nascida da dor se expressavam do mais profundo da natureza. O novo culto da religião dionisíaca punha em questão os valores mais fundamentais da Grécia. A oposição entre os dois instintos, as duas pulsões, as duas potências, as duas forças artísticas da natureza – o apolíneo e o dionisíaco – era total. A experiência dionisíaca, em vez de individuação, assinala justamente uma ruptura com o principium individuationis e uma total reconciliação do homem com a natureza e os outros homens, uma harmonia universal e um sentimento místico de unidade; em vez de autoconsciência significa uma desintegração do eu, que é superficial, e uma emoção que abole a subjetividade até o total esquecimento de si; em vez de medida é a eclosão da hybris, da desmesura da natureza considerada como verdade e “exultando na alegria, no sofrimento e no conhecimento”; em vez de delimitação, calma, tranqüilidade, serenidade, é um comportamento marcado por um êxtase, por um enfeitiçamento, por uma extravagância de frenesi sexual que destrói a família, por uma bestialidade natural constituída de volúpia e crueldade, de força grotesca e brutal; em vez de sonho, visão onírica, é embriaguez, experiência orgiástica.

Dessa forma, o êxtase dionisíaco produz, enquanto dura, um efeito letárgico que dissipa tudo o que foi vivido no passado: é uma negação do indivíduo, da consciência, do Estado, da civilização, da história. Os “loucos de Dioniso” desintegram o eu, a consciência, a individualidade e se sentem na verdadeira natureza.

A experiência dionisíaca tendo significado um acesso a verdade da natureza, faz o homem compreender a ilusão em que vivia ao criar um mundo de beleza justamente para mascarar a verdade. “Quando a consciência foi penetrada por essa verdade, o homem só vê em tudo o horror e o absurdo do ser (...) Reconhece então a sabedoria de Sileno, o deus silvestre. E é tomado pelo desgosto.” Neste sentido, a experiência dionisíaca é uma “embriaguez do sofrimento” que destrói o “belo sonho”.

A própria vida salva o grego utilizando a arte como instrumento. “A arte o salva, mas pela arte é a vida que o salva em seu proveito”, diz Nietzsche. Novo tipo de arte, que representa o apogeu da civilização grega, que não pretende mais estabelecer uma trincheira, um anteparo, uma muralha que impossibilite a entrada e a expansão do dionisíaco, como procurou fazer a arte apolínea, a poesia épica. A característica da nova estratégia artística é integrar, e não mais reprimir, o elemento dionisíaco transformando o próprio sentimento de desgosto causado pelo horror e pelo absurdo da existência em representação capaz de tornar a vida possível. Mérito ainda de Apolo, deus do sonho e da beleza. Se desta vez Apolo salva o mundo helênico atraindo a verdade dionisíaca para o mundo da bela aparência é porque transforma um fenômeno natural em fenômeno estético. E se essa transformação do dionisíaco puro, bárbaro, oriental em arte salva a civilização grega é porque integra a experiência dionisíaca ao mundo helênico aliviando-a de sua força destruidora, de seu “elemento irracional”, espiritualizando-a. A ilusão apolínea, característica da arte, liberta da opressão e do peso excessivo do dionisíaco, permitindo à emoção se descarregar em um domínio apolíneo. (“Foi o povo apolíneo que impôs os liames da beleza ao instinto todo-poderoso; subjugou os elementos mais perigosos da natureza, suas bestas mais selvagens).”

É esta arte apolíneo-dionisíaca, reconciliação entre Apolo e Dioniso, que constitui para Nietzsche o momento mais importante da arte grega. Ele afirma que ela possui um verdadeiro efeito terapêutico, é um eficaz ato de cura: a arte dionisíaca transforma um veneno – a poção mágica, o filtro das feiticeiras – em remédio, retirando de Dioniso suas “armas destruidoras”. A arte é capaz de fazer participar da experiência dionisíaca sem que se seja destruído por ela, é porque possibilita como que uma experiência de embriaguez sem perda de lucidez. No Crepúsculo dos ídolos, depois de afirmar que “o essencial da embriaguez é o sentimento de plenitude e de intensificação das forças” (“incursões de um intempestivo”, & 8), caracteriza tanto o apolíneo quanto o dionisíaco como estados de embriaguez e distingue-os de fato de que enquanto um intensifica o olhar, o outro intensifica o sistema inteiro dos afetos.

A arte dionisíaca, a arte trágica é um jogo com a embriaguez, uma representação da embriaguez que tem justamente por objetivo aliviar a embriaguez. “Mas se a embriaguez é o jogo da natureza com o homem, a criação do artista dionisíaco é o jogo com a natureza. Não é na alternância entre lucidez e embriaguez, mas em sua simultaneidade, que se encontra o estado estético dionisíaco.” Essa noção de jogo é fundamental para compreender a diferença entre o dionisíaco orgiástico e o dionisíaco artístico e como o grego, através da beleza, reprimiu no dionisíaco bárbaro seus elementos destruidores, ensinando-lhe a medida e transformando-o em arte. “A tragédia é bela na medida em que o movimento instintivo que cria o horrível na vida nela se manifesta como instinto artístico, com seu sorriso, como criança que joga. O que há de emocionante e de impressionante na tragédia em si é que vemos o instinto terrível tornar-se, diante de nós, instinto de arte e de jogo.” Às vezes Nietzsche distingue o belo do sublime. Um fragmento desta época diz, por exemplo: “Se o belo tem como base um sonho do ser, o sublime tem por base uma embriaguez do ser”. (Frag. Post., final de 1870 – abril de 1871).

A arte trágica possibilita, portanto, a união entre a aparência e a essência. Sendo capaz de articular os dois instintos, a tragédia não se limita, como a poesia épica, ao nível da aparência, mas possibilita uma experiência trágica da essência do mundo. Só que essa união, ela a estabelece em forma de um conflito. A tragédia representa o conflito entre o apolíneo e o dionisíaco. “A forma mais universal do destino trágico é a derrota vitoriosa ou a vitória alcançada na derrota. A cada vez a individualidade é vencida: e entretanto sentimos seu aniquilamento como uma vitória. Para o herói trágico é necessário perecer, por onde ele deve vencer. Na tragédia o destino do herói é sofrer – como sofreu Dioniso quando foi despedaçado – para fazer o espectador aceitar o sofrimento como integrante da vida.

Segundo Nietzsche a finalidade da tragédia é produzir alegria. A tragédia, mostrando o destino do herói trágico como sendo sofrer, não produz sofrimento mas alegria: uma alegria que não é mascaramento da dor, nem resignação, mas a expressão de uma resistência ao próprio sofrimento. Idéia esboçada nesta época nos termos de uma “metafísica de artista” que pretende conjugar na arte trágica aparência e essência: “A alegria metafísica que nasce do trágico é a tradução, na linguagem da imagem, da instintiva e inconsciente sabedoria dionisíaca: o herói, manifestação suprema da vontade, é negado para nosso prazer porque é apenas manifestação e porque o seu aniquilamento em nada afeta a vida eterna da vontade”. A alegria que proporciona a tragédia é o sentimento de que o limite da individualidade será abolido e a unidade originária restaurada.

Situando os valores apolíneos como causa do sofrimento humano, a tragédia nega os valores da aparência em nome da unidade de tudo que existe, o que é a condição de um prazer mais fundamental. A arte dionisíaca nos quer persuadir do prazer eterno da existência, coisa em que Nietzsche sempre acreditou. A diferença é que nesta época, pensando a partir das categorias de essência e aparência, ele afirma que este prazer só é possível à condição de o procurarmos não nos fenômenos, mas atrás deles. Enquanto a arte apolínea nega – pela aparência, pela mentira, pela ilusão – o sofrimento da vida e afirma a eternidade do fenômeno, a tragédia nega o indivíduo justamente por ser fenômeno, manifestação, representação, afirmando a eternidade da vontade.

Eis a estranha “consolação” que proporciona a tragédia: a certeza de que existe um prazer superior a que se acede pela ruína e pelo aniquilamento do herói, da individualidade, da consciência; pela destruição dos valores apolíneos. O que poderia dar a impressão de uma negação da aparência em nome da essência. Isso porém seria um equívoco, na medida em que a negação dos valores apolíneos só pode ser realizada em forma de representação, de imagem, de ilusão, isto é, apolineamente. Se o dionisíaco puro é aniquilador da vida, se só a arte torna possível uma experiência dionisíaca, não pode haver dionisíaco sem apolíneo. A visão trágica do mundo, tal como Nietzsche a interpreta nesse momento, é um equilíbrio entre a ilusão e a verdade, entre a aparência e a essência: o único modo de superar a radical oposição metafísica de valores.

3 Comments:

  1. Anônimo said...
    Poxa, pro meu trabalho ficar completo só falto a cunclusão. kkkk
    rayani said...
    Este comentário foi removido pelo autor.
    Maria Emilia said...
    Otimo texto! Ajudou muito no meu estudo, obrigada.

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