Arte e “instinto de conhecimento” em Nietzsche

Arte e “instinto de conhecimento” em Nietzsche

Por Roberto Machado (especialista em Nietzsche-UFRJ)

Em O nascimento da tragédia Nietzsche efetua a crítica da racionalidade científico-filosófica. O livro do filósofo, retoma a problemática da relação entre arte e conhecimento. Mas se a crítica à metafísica persiste nesses escritos, como em toda a obra de Nietzsche, ela não mais se faz em nome de uma metafísica de artista, isto é, de uma dimensão metafísica da arte ou de uma experiência artística da essência do mundo – o elemento da arte é a ilusão. A crítica à instituição da dicotomia metafísica verdade – aparência agora é realizada a partir do conceito de “instinto de conhecimento” ou instinto de verdade.

O que é o “instinto de conhecimento”? O que Nietzsche pretende então é ressaltar que o conhecimento não faz parte da natureza humana, ou melhor, não está no mesmo nível que os instintos e que não é possível dizer, por exemplo, como Aristóteles no início da Metafísica, que todos os homens desejam naturalmente conhecer. O conhecimento não é um instinto do homem, quer dizer, não é da mesma natureza que os instintos. O conhecimento foi produzido, o conhecimento foi inventado, como enuncia a bela fábula criada por Nietzsche. “Em algum ponto do universo inundado por cintilações de inúmeros sistemas solares houve um dia um planeta em que os animais inteligentes inventaram o conhecimento. Foi o minuto mais orgulhoso e mais mentiroso da história universal, mas foi apenas um minuto. Depois de alguns suspiros da natureza o planeta se congelou e os animais inteligentes tiveram que morrer”. Quando afirma não haver instinto de conhecimento, ele quer salientar que não se deve definir o homem pelo conhecimento ou o conhecimento como o valor principal do homem porque os instintos são mais fundamentais do que o conhecimento.

Por outro lado, quando ele se expressa em termos de instinto de conhecimento ou de verdade, a expressão deve sempre ser entendida como se referindo a um instinto da crença no conhecimento ou na verdade. Propriamente o instinto de que fala Nietzsche é de crença e não de conhecimento. É o que significa, por exemplo, a afirmação, à primeira vista enigmática, de que “não existe instinto de conhecimento e de verdade, mas apenas um instinto de crença na verdade; o conhecimento puro é privado de instinto”. E se “instinto de conhecimento” tem o sentido, não de uma tendência natural para a verdade, mas de uma crença – produzida – na verdade é porque não há posse da verdade, mas apenas convicção, suposição de possuir a verdade. “Análise da crença na verdade pois toda posse da verdade é, no fundo, apenas uma convicção de possuir a verdade. O pathos, o sentimento do dever, vem desta fé e não da pretensa verdade.” A verdade não tem como critérios a evidência e a certeza; tem como condição um esquecimento e uma suposição.

Ora, dizer que o instinto de conhecimento – denominação que em Nietzsche é geralmente utilizada criticamente, com a conotação de signo de baixeza, de decadência, de declínio; signo de que a vida envelheceu e de que os instintos fundamentais se tornaram fracos – é produzido significa dizer que sua análise remete às condições de seu nascimento, de seu aparecimento. É então que aparece uma idéia que cada vez mais se imporá a seu pensamento: as condições de possibilidade do conhecimento são sociais, políticas ou, mais precisamente, morais. Relação entre verdade e moral que é assinalada inúmeras vezes em O livro do filósofo. Eis alguns exemplos: & 91: “A crença na verdade é necessária ao homem. A verdade aparece como uma necessidade social; por uma metástase ela é, em seguida, aplicada a tudo, mesmo onde não é necessária. Todas as virtudes nascem de necessidades. Com a sociedade começa a necessidade de veracidade, senão o homem viveria em eternos véus. A fundação dos Estados suscita a veracidade. O instinto de conhecimento tem uma fonte moral.” & 130: “Por natureza o homem não existe para o conhecimento – a veracidade (e a metáfora) produziu a inclinação para a verdade. Assim, um fenômeno moral, esteticamente generalizado, produz o instinto intelectual.” & 133: “A necessidade produz, às vezes, a veracidade como meio de existência de uma sociedade. O instinto se reforça por um exercício freqüente e é agora injustamente transposto por metástase. Torna-se a tendência em si. Do exercício para casos determinados se faz uma qualidade. Temos agora o instinto de conhecimento.” & 134: “O homem bom também quer ser verdadeiro e acredita na verdade de todas as coisas. Não apenas da sociedade, mas também do mundo.”

Partindo da distinção entre estado de natureza e estado de sociedade, Nietzsche negará a existência de um desejo natural de verdade através de uma concepção do intelecto como tendo um efeito específico de dissimulação. O intelecto, que é um meio de conservação dos indivíduos mais fracos, tem originalmente por função produzir disfarce, máscara, ilusão, mentira com o objetivo de compensar uma falta de força.

Para instaurar a paz ou fazer desaparecer o aspecto mais brutal da guerra de todos contra todos, são fixadas leis da verdade a partir das leis da linguagem: são essas leis que instituem pela primeira vez a oposição entre verdade e mentira. A verdade não é uma adequação do intelecto à realidade; é o resultado de uma convenção que é imposta com o objetivo de tornar possível a vida social; é uma ficção necessária ao homem em suas relações com os outros homens.

Conclusão: O homem não ama necessariamente a verdade: deseja suas conseqüências favoráveis. O homem não odeia a mentira; não suporta os prejuízos por ela causados. O que se proscreve, o que não se aceita e não se deseja é o que é considerado nocivo: são as conseqüências nefastas tanto da mentira quanto da verdade. A obrigação, o dever de dizer a verdade nasce para antecipar as conseqüências nefastas da mentira. Quando a mentira tem valor agradável ela é muito bem permitida.

Desde o início, a investigação nietzschiana sobre o conhecimento não se limita ao interior da questão do conhecimento, mas o articula com um nível propriamente político ou social que neste momento pretende sobretudo elucidar como a exigência de verdade surge da exigência da coexistência pacífica entre os homens, da exigência da vida gregária. Paz, segurança e lógica estão intrinsecamente ligadas.

A relação entre o conhecimento e moral não é, entretanto, estabelecida por uma teoria moral. A perspectiva que denuncia a oposição verdade – mentira como fundada na moral é, como Nietzsche a denominou, “extramoral” – ou fisiológica. É essa perspectiva extramoral que, criticando o instinto de conhecimento e de verdade, afirma a necessidade da ilusão, isto é, “de não-verdades tidas como verdades”, salientando que o conhecimento verdadeiro tem o mesmo valor que a mentira, a falsidade, a ilusão, a aparência. Desde o início de sua reflexão Nietzsche luta contra a oposição metafísica de valores, afirmando a positividade do aspecto que foi subestimado: a ilusão é a essência que o homem se criou.

Daí a perspectiva extramoral implicar uma apologia da arte. Na arte há o domínio da aparência. A afirmação da vida, da realidade, que caracteriza a arte trágica é afirmação da aparência porque a própria vida é aparência. Se a arte, diferentemente da ciência, está do lado da vida, é porque a vida quer a aparência, não despreza seus véus e ilusões.

A perspectiva extramoral critica o desejo de verdade como sendo um esquecimento de que o homem é um artista, um criador de aparência, situando o antagonismo entre arte e ciência no próprio campo da ilusão. No fundo, dois tipos de ilusão: a ilusão socrática, ilusão metafísica, que considera a verdade superior à aparência; e a ilusão artística, consciente do valor da ilusão, que sabe que tudo é ilusão, “figuração”, “transfiguração”, criação. Segundo Nietzsche, enquanto a “mentira” da ciência seria querer encontrar a verdade do mundo como outra coisa que não a aparência, a aparência como aparência. Ou, ou em outros termos, enquanto “a humanidade tem no conhecimento um belo meio de perecer”, a superioridade da arte sobre a ciência é não opor verdade a ilusão, é afirmar integralmente a vida.

O essencial da reflexão nietzschiana sobre a relação entre arte e ciência está sedimentada na perspectiva da força. O antagonismo entre arte e ciência é um antagonismo de forças. A força da arte é a afirmação da vida. “A arte é mais potente do que o conhecimento, pois ela quer a vida, enquanto o objetivo final que o conhecimento atinge nada mais é do que – o aniquilamento.” Mais forte do que o conhecimento, a arte foi, no entanto, desclassificada por ele em seu desejo de verdade. O que significa justamente o início de um período de decadência que, sob diferentes formas, se tem perpetuado na história. A alternativa proposta por Nietzsche é inverter essa correlação de forças, negando a negação da vida através da arte trágica considerada como afirmação. Se a força científica reprimiu a força artística dionisíaca, isto é, se a arte, e com ela a vida, foi desvalorizada pela metafísica socrática, é preciso revalorizar a arte – que cria uma superabundância de forças, que é o grande estimulante da vida, uma embriaguez de vida – para obrigar o saber a um retorno à vida.

No conflito entre o instinto estético e o instinto de conhecimento, Nietzsche toma claramente posição ao lado da arte. Sua idéia é que cabe à arte, e à filosofia, estabelecer o valor da ciência ou, que vem a ser o mesmo, dominar o instinto de conhecimento. Alguns textos de O livro do filósofo enunciam claramente esta idéia. & 28: “Não se trata de um aniquilamento da ciência, mas de seu domínio. & 31: “Os mais antigos filósofos gregos devem ser entendidos como os que dominam o instinto de conhecimento. Como foi possível que a partir de Sócrates ele tenha caído de suas mãos?” & 46: “O conteúdo da arte e da filosofia antiga coincidem, mas nós encontramos elementos isolados da arte utilizados como filosofia para dominar o instinto de conhecimento.” & 38 “(O último filósofo) demonstra a necessidade da ilusão, da arte e da arte dominando a vida. Não nos é possível produzir novamente uma linhagem de filósofos como fez a Grécia no tempo da tragédia. A partir de então, apenas a arte realiza a tarefa deles” E o & 39 completa a idéia: “A partir de então o domínio da ciência só se produz pela arte.”

Eis uma opção importante da filosofia nietzschiana – a filosofia trágica, dionisíaca – em luta contra a filosofia racional. A filosofia de Nietzsche é cérebre não só por estabelecer uma ruptura entre os filósofos pré e pós-socráticos, como também por afirmar a superioridade dos primeiros. O critério que permite esta divisão e possibilita esta valorização é fornecido pela antinomia arte – ciência: Sócrates é o divisor de águas entre dois tipos de filosofia que têm como modelos a arte trágica e a racionalidade científica. A importância dos filósofos pré-socráticos, dos filósofos da Grécia arcaica, e sua superioridade com relação aos socráticos ou platônicos, é que eles filosofaram no “mundo esplêndido da arte”, “quando a vida atingiu sua realização”, sem desprezar os véus e as ilusões, características fundamentais da arte e da vida.

Mas a relação entre a arte e a filosofia se esclarece mais completamente através da compreensão da tarefa que Nietzsche lhes assinala de dominar a ciência. Dominar a ciência significa discipliná-la, controlar seus excessos. O que caracteriza a posição socrática, e é criticado por Nietzsche, não é exatamente o conhecimento; é o “instinto de conhecimento sem medida e sem discernimento”, o “instinto ilimitado de conhecimento”, o “instinto desencadeado do saber”, o “conhecimento incessante”, “a verdade a qualquer preço”. Dominar a ciência é determinar seu valor no sentido de controlar a exorbitância de suas pretensões, no sentido de estabelecer até onde ela pode se desenvolver. É formular a questão dos limites. Idéia que já se encontra em O nascimento da tragédia quando, assinalando a luta entre uma concepção teórica e uma concepção trágica do mundo, afirma que só haverá um renascimento da tragédia quando o espírito científico tiver atingido seus limites, e sua pretensão a uma validade universal tiver sido aniquilada. Idéia que reaparece em O livro do filósofo ao afirmar que “o instinto de conhecimento, tendo atingido seus limites, se volta contra si mesmo para chegar à crítica do saber”. Não é por si mesmo, não é por exaustão, que o conhecimento atingirá seus limites. O que Nietzsche assinala e analisa é uma luta, uma correlação de forças; um combate entre o trágico e o racional, entre uma civilização socrática e uma civilização artística, dionisíaca.

Enquanto a ciência e as filosofias que nela continuam ainda a agir têm pretensão o “conhecimento absoluto”, enquanto a “filosofia do conhecimento desesperado” é dominada por uma ciência cega, isto é, pelo saber a qualquer preço, a filosofia trágica deve ajudar a viver, acentuando a “relatividade de todo conhecimento” e sua força de ilusão. O conhecimento a serviço da melhor vida. Deve-se querer até a ilusão – isso que é o trágico.

Daí a importância que Nietzsche reconhece, e não cansa de assinalar, à filosofia pré-socrática e à arte trágica como modelos de um tipo de filosofia e de arte capaz de superar a decadência. A superioridade do grego arcaico, esse modelo de povo forte, esse povo que filosofou em uma civilização trágica, está no fato de ter dominado o instinto ilimitado de conhecimento em nome de uma afirmação da vida: “os gregos dominaram seu instinto de conhecimento, em si mesmo insaciável, graças ao respeito que tinham pela vida, graças à exemplar necessidade que tinham pela vida – pois o que aprendiam logo queriam viver”. Enquanto Sócrates é aquele em quem o instinto de conhecimento se desenvolveu exacerbadamente, subordinando todos os outros, hipertrofia do lógico que corresponde a uma atrofia dos instintos fundamentais, a lição da arte trágica aponta em uma direção inteiramente diferente. Prometeu é um exemplo de como uma exigência excessiva de conhecimento é prejudicial, Édipo também mostra como o desejo de saber excessivo e ilimitado é um crime contra a natureza.

A arte aparece sempre na filosofia de Nietzsche como a alternativa para a ciência, ou, para o “instinto ilimitado de conhecimento”. Isto não quer dizer, no entanto, que a perspectiva nietzschiana pretendia uma negação do conhecimento ou uma redução da totalidade do campo do saber à arte. Significa que na luta contra o desejo de verdade a todo custo, na crítica à tese metafísica de que a verdade é um valor superior, a arte não só é reabilitada por força afirmativa da vida, como também é escolhida como modelo capaz de impregnar o próprio conhecimento com a dimensão do trágico. A grande ambição filosófica de Nietzsche é dar ao conhecimento as características da arte.

Contra a oposição metafísica de valores, a arte oferece uma valorização da aparência, da ilusão que dá conta de um valor essencial da vida menosprezado pela racionalidade. Controlar a ciência, limitando o instinto de conhecimento, é impor ao conhecimento o valor da ilusão ou a ilusão como um valor tão importante quanto a verdade; é portanto, pensar o valor do conhecimento neutralizando a questão da verdade ou falsidade e privilegiando a dimensão da força, que é a marca dos valores artísticos.

No pensamento de Nietzsche valorizar a aparência é afirmar a força; é porque a arte é uma afirmação da vida como aparência que ela cria uma superabundância de forças. Pois esse reconhecimento de que a vida tem necessidade da ilusão quando aplicado ao domínio do conhecimento vai significar que o valor de um conhecimento é dado não pelo “grau de certeza”, mas pelo “grau de necessidade absoluta para os homens”. Nietzsche vai afirmar ainda que o valor de um conhecimento, seja ele verdadeiro ou falso, é estabelecido não por provas lógicas, mas por seus efeitos, isto é, pela prova da força. Nietzsche assinala que a vida tem necessidade de ilusões, isto é, de não-verdades tidas como verdades. Ela tem necessidade da crença na verdade, mas então a ilusão basta, isto é, as verdades se demonstram por seus efeitos, pela prova da força, e não por provas lógicas”. Ou como diz um texto de Nietzsche: “Os efeitos levam a admitir verdades não demonstradas”.

Privilegiando a aparência e, através dela, a força na avaliação do conhecimento como um modo de neutralizar o instinto de verdade, o que pretende Nietzsche é opor o trágico ao lógico ou utilizar critérios estéticos, valores artísticos, para definir o conhecimento.

Em sua, no momento em que analisa de modo mais persistente a relação entre arte e ciência com o objetivo de criticar o “espírito científico” nascido com a metafísica, a filosofia de Nietzsche apresenta uma de suas características essenciais: uma negação do privilégio da verdade e uma afirmação do valor da aparência.

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