Vida e morte: Tym ou Chak?

Vida e morte: Tym ou Chak?

"A morte é quando então poderei deitar-me de sapatos" (Mário Quintana).

Por Joeblack ou Joevan Caitano (joevex@hotmail.com)

Tym e Chak...Observe o ritmo! Tym-chack..tym-chak...compasso binário...regularidade, firmeza. Não se assuste!!! Isso é música. Os nomes são musicais. Seu nome também é musical. É só prestar atenção e brincar.
Estamos diante de dois pequenos fragmentos de uma palavra, mas que diz muito sobre um grande brasileiro chamado servo Tymchak. Tym trabalhou durante toda a sua vida como voluntário se doando em favor do próximo. Ontem (20/04/07) ele faleceu. Nem tive coragem de ir ao velório, de ir ao enterro, apesar de morar a poucos metros do local. Fiquei vendo o montão gente de terno e gravata, um alvoroço de gente de várias partes do Brasil, amigos do Tym, alguns amigos meus, curiosos, etc. Ouvia o povo cantando ao som do piano e do órgão a música Tu és Fiel Senhor, Cidade Santa, Ide pregai e outras que ele gostava, ouvia tudo. O caixão saiu e o povo continuou cantando à capella na capela. Eu fiquei tocando jazz, lendo Edgar Morin e pensando na vida do Tym. Pensando no que ele representava para mim, para os meus colegas, para o Brasil, para o mundo, para o presente, para o futuro. Essa foi minha atitude naquele momento durante o velório. Dias de mortes, e quando é o dia do meu aniversário eu não curto sair, me tranco, fico a sós, motivo puramente pessoal. Não esquentem, é coisa de gente meio perturbada. Não sei o que dizer diante da morte, fico sem jeito, prefiro ficar em silêncio, e em silêncio suportando a dor do outro, dos outros, enfim, a minha dor. Como diz o Edgar Morin: “Pode-se partilhar e viver por empatia a alegria e a dor do outro, mas a alegria e o sofrimento, ainda que partilháveis, são intransferíveis”.
Dias sim, dias não, o Tym sobreviveu sem nenhum arranhão (parafraseando a frase do Cazuza). Podemos vasculhar tim tim por tim tim toda a vida desse homem, no entanto, não encontraremos nenhuma mancha, nenhuma sujeira, nenhum arranhão. Como diz o texto bíblico na carta de primeira Pedro: “Pois até o ouro que perece, precisa ser provado pelo fogo. Assim, a fé de vocês que vale mais que o ouro precisa ser provada”. Tym foi provado no calor do fogo da vida, como também provou que podemos ser vitoriosos pela simplicidade, seriedade e fidelidade. “É preciso unir a fé num engajamento visando à mudança social” diz o teólogo e escritor Frei Betto. Tym fez isso com muita competência.
Tym conheceu o mundo porque conheceu-se a si mesmo. Como dizia o Nietzsche: “O homem conhece o mundo na medida em que conhece a si mesmo”. Ele existiu para si e para os outros. Existir para si e para os outros é existir para Deus, pois o rosto de Deus se manifesta nas relações comunitárias. Conhecer a si mesmo e ao outro é conhecer a Deus, pois somos feitos à imagem e semelhança Dele. Tym viveu uma vida de santidade, não uma vida apática, mas uma vida simpática (parafraseando o livro “Do viver apático ao viver simpático” do Reverendo Edson Fernando). Tym foi simples e humilde. Acho que ele observava rigorosamente a famosa frase de Nietzsche: “Quanto mais nos elevamos, maiores parecemos àqueles que não sabem voar”. Tym aprendeu a voar pela simplicidade. Deus ama e exalta os humildes e simples, porém, não tá nem aí para os soberbos. Tym sabia disso, pois meditava na palavra de Deus. A humildade tem o pêlo mais duro, por isso é difícil ser humilde, entretanto, Tym era uma mistura de humildade e grandiosidade em pessoa. Era manso, era servo. Servia ao próximo em amor. Lutava para o mundo ser mais rico espiritualmente via evangelização, respeitando as diferenças. Como dizo teólogo e escritor Leonardo Boff: “Cada um revela a faceta de Deus que o outro não pode revelar”.
Quem ama dorme tranqüilo, com consciência leve. Lembrei-me dos versos do poeta e compositor Vinícius de Moraes: “Dorme a estrela no céu. Dorme a rosa em seu jardim. Dorme a lua no mar”. O Tymchak dorme enfim. (parafrasei o final).
Falando em morte, lembrei-me do teólogo alemão Rudolph Bultmamm. Ele acreditava no Jesus histórico, entretanto, ele não aceitava a idéia que Jesus tenha ressuscitado entre os mortos em carne e osso. Ressurreição de um cadáver? Nem pensar para ele. Opinião dele, cada um tem sua. Cremos pela fé na ressurreição do corpo e das idéias de Jesus, porque “a fé desata as algemas da razão” dizia o teólogo alemão Ludwig Feuerbach, mesmo sabendo que toda a história comporta riscos porque mexer com história é mexer com hipóteses.
Que o corpo de Tym vai ressuscitar do túmulo, é matematicamente muito improvável, mas uma coisa é certa: O estilo de vida que ele viveu, as idéias arrojadas, influenciou, influencia e influenciará muitas outras gerações. Isso é matematicamente e obviamente muuuuuuuuuuuuiiiiiiiitttttttto provável. As idéias são dotadas de vida própria porque dispõem, como vírus, em um meio (cultural/cerebral) favorável, da capacidade de auto-nutrição e de auto-reprodução. Platão dizia que a Idéia é realidade mestra das coisas deste mundo. Hegel dizia que a Idéia é Sujeito que se auto-determina e se auto-realiza na História. Jung dizia que os arquétipos são imagens primordiais, virtuais em todo o espírito humano, e estes comandam nossa vida, enfim, eles reinam no inconsciente coletivo. O arquétipo de Tym vai ser visualizado por muitos e em muitos que darão continuidade a missão de levar o amor sem fronteiras. Como dizia Nietzsche: “A missão do futuro é unir um grande número de homens para a geração de homens melhores”. Como dizia Pascal: “É necessário trabalhar para pensar bem”. É preciso nos arriscarmos mais. “A nossa vida precisa ser mais perigosa (Nietzsche)”. Sem riscos não há graça na vida. A morte está próxima o suficiente para não termos de temer a vida.
Tym se arriscou nos quatro cantos do planeta na Junta de Missões Mundiais. Ajuntou muitos valentes e recuperou muitos desesperados. Tym lutava pro dia nascer feliz para muitos desacreditados. Agora é a nossa vez de lutar. Chega de moleza, e de sermos alunos passivos. É preciso ir à luta. Lembrete: “É preciso tirar os andaimes depois que a casa já está construída”.
Sentimos e sentiremos saudades da bravura e da ternura do Tym. Que dirá a esposa dele e viúva no momento? Saudade para ela é arrumar as malas do Tym que já morreu (parafraseando a frase do Chico Buarque).
Dê honra a quem tem honra dizia o texto bíblico. Salve o Tym. Salve o Chak. Salve o Tym-chak. Salve a música. Salve o compasso binário. Salve a regularidade. Salve a firmeza de caráter do saudoso Waldomiro Tymchak.

Abraços de Joe. Um poeta de luto na luta por um mundo melhor.
Rio de Janeiro 21 de abril de 2007. Texto fabricado durante o campeonato internacional de acrobacias aéreas (Red Bull) na enseada de Botafogo. Os aviões voavam e minhas idéias voavam com eles. Salve o sincronismo.

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