Vida: cama ou camaleão?

Vida: cama ou camaleão?


A vida é um risco e quem não se arrisca não vence dizia Nietzsche. Mas como vencer em meio às instabilidades da vida? O risco e a luta desenvolvem a astúcia e a inteligência estratégica. A capacidade de viver um universo organizado comportando risco e incerteza permite o desenvolvimento das estratégias cognitivas e das estratégias de comportamento. O ecossistema funciona como uma “máquina de ensinar”. Cada um por si, todos contra todos, cada um por todos, cada um por tudo, para cada um, tudo contra cada um, enfim, são tantos momentos, manifestações, traços da mesma realidade.
A radiação solar traz energia para a vida. A rotação da Terra impõe, com a alternância dia/noite e a alternância das estações, variações cíclicas de luz, temperatura, hidrologia. Os ciclos cosmofísicos estão dentro de cada indivíduo e a eco-organização caracteriza-se por constituir um poli-relógio que concilia o grande relógio astrogeofísico e os inúmeros micro-relógios vivos. Essa periodicidade multiforme desencadeia, controla, dá ritmo a todas as atividades fundamentais dos seres vivos: alimentar-se repousar, reproduzir-se. Os aumentos sazonais de temperatura desencadeiam germinação e crescimento em certos vegetais e influem em sua fotossíntese e respiração. Tudo acontece como se o grande relógio cósmico determinasse e controlasse direta (luz) ou indiretamente (temperatura) todas as operações vitais em cada vegetal, em sincronia com os relógios biológicos internos. O próprio universo animal está sob o comando do relógio geocósmico e este está interligado aos demais relógios vegetais, individuais, etc.
Segundo a moderna cosmologia, o universo está em expansão e em evolução, isso implica afirmar que o universo passa de formas simples para formas mais complexas, de situações de caos, isto é, de desordem para situações de ordem (cosmos). Ordem e desordem, interação e nova ordem é a característica universal. O dia ensolarado caminha lentamente para a noite escura. Todos os seres vivos nascem, crescem, amadurecem, envelhecem e morrem. Edgar Morin dizia que toda a proliferação de vida é um holocausto à morte. A morte não nega a vida. Ela é uma invenção inteligente da própria vida para possibilitar a si mesma uma religação maior com a totalidade do universo. A natureza mortal procura, segundo os seus meios, perpetuar-se e imortalizar-se; O único meio de que dispõe para o seu fim é a geração que, perpetuamente, substitui o ser antigo por um novo...Tal é o estratagema através do qual o mortal participa da imortalidade (O Banquete de Platão). Vivenciamos a experiência dolorosa da queda e da expulsão do paraíso. Essa experiência de queda e de perda atravessa toda a nossa vida. A vida pessoal e coletiva é feita de altos e baixos, de ascensões e quedas.
A eco-organização é um formidável motor/máquina agitador de vida que turbilhona não apenas o ar, a água, os elétrons, elementos químicos combinando-se e separando-se. Os seres vivos emergiram para a vida, mas são arrastados para a morte. Cada ser vivo é como um elo da cadeia que devora o precedente, sendo devorado pelo seguinte. O ciclo da vida é um anel que gera devorando-se. O excesso de morte tempera o excesso de vida que tempera o excesso de morte gerando regulação e equilíbrio organizacional. Se não conhecermos o escuro da terra, se não aceitarmos morrer, não viveremos nem daremos frutos dizia o grande teólogo Leonardo Boff. Quem quer conservar a sua vida, perde-la á. Quem ousar perdê-la, ganhá-la-á dizia o Grande Jesus. É morrendo que se vive mais, é entregando a vida terrena que se obtém a vida celestial.
Amamos a estabilidade, equilíbrio e normalidade, entretanto, necessitamos desenvolver a aptidão para reorganizar-nos de várias maneiras, sob o efeito de novas desorganizações, desequilíbrios, instabilidades e anormalidades. A homogeneidade e a diversidade são antagonismos presentes, no entanto, ambas possuem seus prós e contras. A diversidade genética dos indivíduos, no seio de uma população ou de uma espécie, aumenta a resistência da população ou da espécie às perturbações. Onde há homogeneidade, todos são atingidos quando um só é atingido; a homogeneidade carrega a morte, porém, a diversidade aumenta as chances de vida. Falando de vida, graças aos avanços da medicina de prognóstico, avanços cognitivos da genética, da embriologia e da biologia molecular, foi possível o mapeamento dos riscos e fraquezas do ser humano, com isso, a morte foi recuada e aumentou-se a proteção da saúde.
A história avança, não de frente como um rio majestoso, mas por desvios que suscitam acontecimentos externos ou internos. Qualquer evolução é o fruto de um desvio bem sucedido. Moisés, Jesus, Paulo, Maomé, Einstein, Galileu e outros foram desviantes em relação a sua época. Em condições favoráveis, quase sempre de crise, o desvio prolifera, torna-se tendência, e o desenvolvimento dessa tendência leva-a tornar-se norma. O cristianismo durante muito tempo perseguido, ficou encubado, por dois séculos, no império romano, antes de espalhar-se endemicamente e de impor-se como ortodoxia, tornando-se então, perseguidor e reprimindo, do seu jeito, qualquer heresia. Os cristãos repudiaram os deuses pagãos, gregos e romanos porque seu gosto se transformou, porque os deuses pagãos não ofereciam a eles o que desejavam. Por que então só o Deus deles é para eles Deus? Porque é a essência da essência deles, porque é semelhante, correspondente às suas necessidades, desejos e idéias dizia o teólogo alemão Feuerbach. O socialismo ficou várias décadas incubado antes de emergir no fim do século XIX, sob a forma do partido social-democrata alemão. O alerta ecológico dado em 1968, foi ignorado, contestado. Somente em 1992 no Rio de Janeiro e em 1997 em Kyoto que foram concretizadas conferências para discutir o tema. No século XX, selou-se a aliança entre ciência e técnica no âmbito da tecnociência. Todas as invenções e inovações são rapidamente utilizadas pelos poderes estatais e econômicos. É este quadrimotor, ciência-técnica-indústria-lucro, que impulsiona a marcha da história. O desenvolvimento técnico foi impulsionado pela necessidade e utilidade, mas também por vontade de poder como dizia o Nietzsche. Tornando-se instrumento da vontade de poder, a técnica aumenta essa vontade de poder, aumentando o próprio poder.
A vida é um risco e quem não se arrisca não vence. A vida é um risco e quem não muda não vence. A vida é um risco e quem não inova não vence. A vida é um risco e quem não cria não vence. A vida é um risco e quem não muda fica mudo à linguagem da vida. Quem não muda fica surdo à música da vida. Quem não cria fica excluído da dinâmica da vida.
A vida é poder e quem não pode é podado da vida. Podemos trabalhar, mas podemos relaxar. Lembre-se: aquele que não descansar não viverá. Aquele que não se acalmar esse se estressará.
Salve a estabilidade x instabilidade.
Salve a cama. Salve o camaleão.

0 Comments:

Post a Comment




 

Copyright 2007 | Blogger Templates por GeckoandFly modified and converted to Blogger Beta by André Monteiro.
No part of the content or the blog may be reproduced without prior written permission.