Tenho medo dos meus medos

Tenho medo dos meus medos
Por Joevan

“Todos os homens têm medo. Quem não tem medo não é normal; isso nada tem haver com a coragem” (Sartre).
“O medo explica tudo, inclusive o pecado original” (Nietzsche).
“O verdadeiro amor lança fora todo o medo” (1 João 2.18).
“O amor é a força mais sutil do mundo” (Gandhi).

No dia primeiro de maio, feriadão, dia do trabalho, eu fiz como milhares de brasileiros e estrangeiros, fui curtir a vida. Como amo a praia de Copacabana, tive sorte, pois a Daniela Mercury fez um showzaço grátis naquelas areias pra ninguém botar defeito. Aliás, eu tiro o chapéu para os artistas da Bahia, eles têm muito swing e muita presença de palco, daí ninguém consegue ficar parado. Eu como sô um bicho elétrico, achei o máximo. Enquanto a multidão esperava o show, rolou uma música, que me deixou intrigado e reflexivo, e a letra dizia assim: Não me deixe só, eu tenho medo do escuro; eu tenho medo do inseguro, dos fantasmas da minha voz. Não me deixe só, pois tenho desejos maiores... (Vanessa da Mata). O Tom Jobim sabia disso e escreveu: “Triste é viver na solidão”.
O poeta bíblico no livro de salmo 23 disse: “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum porque Tu estás comigo”. Na hora do perigo, o bicho pega, nessas horas é preciso confiar em alguém. Drummond de Andrade dizia que “a confiança é um ato de fé e esta dispensa raciocínio”. Nessas horas de aflição cantamos com a nossa voz debilitada e às vezes desafinada, aquela velha canção: “Mais perto quero estar meu Deus de Ti”. Queremos colo, segurança, aconchego, aquele cheirinho no cangote. Os animais e os humanos curtem um carinho.
Às vezes, temos medo dos obstáculos. Drummond de Andrade dizia que “as dificuldades são o aço estrutural que entra na construção do caráter”. Lembre-se: “Um atleta não pode chegar à competição muito motivado, se nunca foi posto à prova” (Sêneca). A vida é uma muvuca assustadora. Sartre dizia que “a vida é um pânico num teatro sem chamas”.
Às vezes temos medo de abrir o jogo, de arriscar de tomar uma decisão. Cazuza escreveu uma linda canção que fala sobre isso. Observe a letra: “Quando a gente conversa contando casos besteiras; tanta coisa em comum deixando escapar segredos; e eu não sei que horas dizer me dá um medo, que medo. Eu preciso dizer te ganhar ou perder sem engano. Eu preciso dizer que te amo tanto”. Temos medo de tomarmos um não, de sermos ridicularizados em público. Muitos têm medo de serem autênticos, pois para isso é preciso assumir a responsabilidade por serem o que são.
Há aqueles que são homossexuais, mas tem medo de assumirem-se, porque tem medo de serem discriminados na sociedade, na igreja, etc. Infelizmente muitas igrejas se auto denominam “COMUNIDADES DE AMOR”, mas os discursos e o comportamento refletem a inscrição “COMUNIDADES DE TERROR”, porque discriminam o outro, e pregam um tal de “Reino de Deus” que é muito mais “Reino de exclusão” do que de inclusão. Nesse Reino do “Deus mal”, os conceitos, os dogmas, as opiniões, as tradições, a fórmula sagrada de controle chamada PECADO são mais importantes do que as pessoas. Hitler defendia a exclusividade da raça ariana porque a diversidade atormentava-o. Detonamos Hitler, mas agimos como ele. Não suportamos a diversidade e queremos adestrar o outro a pensar e a agir do nosso jeito. Deus é amor, mas nesse Reino, do qual muitos fazem propaganda não tem nada de amor por detrás. Tô fora desse reino que falam por aí.
Nunca vi Jesus excluindo ninguém, no entanto, vejo-o incluindo geral. Que tal aderirmos ao ministério da inclusão e ao Ministério da escuta? Isto é, ouvir o outro e se colocar no lugar do outro porque cada pessoa é fruto de uma estrutura social diferente. Drummond de Andrade dizia:
“Ninguém é igual a ninguém. Todo ser humano é um estranho ímpar”. Que tal aderirmos o ministério da leitura dos livros das vidas? Mário Quintana dizia que “os verdadeiros analfabetos são aqueles que aprendem a ler e não lêem”. Deus é singularidade e diversidade; complexidade e simplicidade. Enfim, em sua essência Deus é a pura amorosidade. “É preciso amar as pessoas como se não houvesse o amanhã” (Renato Russo).
Não sabemos lidar com determinadas áreas ou fazemos descaso, daí inventamos fórmulas de excluir o outro via discriminação, via medo de um Deus exclusivista. Aliás, parecemos um bando de alienados em determinados assuntos. Estamos no século 21, mas a nossa mentalidade com relação ao universo homossexual ainda é medieval. Não sabemos lidar nem com heterossexuais, que dirá com homossexuais. Está na hora de assumirmos a responsabilidade pelos nossos atos e discursos ao invés de apelarmos para Deus. “O animal para esconder dos outros cava um buraco no chão. O homem para se esconder de si mesmo, cava um buraco no céu”. É necessário aprofundarmos mais no assunto e pararmos de ficar recitando somente aquelas velhas poesias do “Deus mal”. O mundo é dinâmico; as coisas são dinâmicas. É preciso sempre repensar nossas concepções. Vida: cama ou camaleão? Quem não evolui não cresce.
Temos medo de encarar e aceitar o buraco negro que é a morte, daí apostamos na idéia da imortalidade da alma, vida eterna, etc. O pior é que se deparamos com alguém pensa diferente dos nossos conceitos “sagrados”, nós presenteamos com a morte eterna, ou melhor, usando um lubrificante para não machucar, falamos da tal da “separação eterna”.
Temos medo das incertezas da vida, pois um amor, uma carreira, uma revolução, outras tantas coisas que se começam sem saber como acabarão. Às vezes temos medo de amar. Tom Jobim escreveu: “Eu quis amar, mas tive medo”.
Temos medo da violência, ela atormenta as nossas almas. O que salva o Brasil não é a fé, mas a fé na desconfiança. O grupo O RAPPA fez um musica que está fazendo muito sucesso na voz da Maria Rita. Observe um trechinho da letra de (A MINHA ALMA): “... As grades do condomínio são para trazer proteção, mas também trazem a dúvida se não é você que está nessa prisão...”. Nas grandes capitais principalmente aqui no Rio de Janeiro é preciso mais do que nunca acreditar e confiar naquele texto bíblico com uma roupagem carioca: “Elevo os meus olhos para o Corcovado. De onde me virá o socorro? O meu socorro vem do Mistério representado pela estátua do Cristo Redentor. Ele guardará a tua entrada e a tua saída desde agora e para sempre” (Salmo carioca 121).
A coisa tá preta! O povo clama por mudanças. Já está na hora de trocarmos a maldade pela bondade. O Freud disse que “a ciência moderna ainda não produziu um medicamento tranqüilizador tão eficaz como são umas poucas palavras bondosas”. Então, se liga, estamos a poucos passos dessa reviravolta, de uma revolução na afetividade, fazendo uso da bondade.
Falando em passos, o Gabriel Pensador canta: “Estou a dois passos do paraíso”. Muitos estão assim, quase chegando lá como dizia aquela velha canção protestante: “Tão perto do Reino, mas sem salvação”. Falta só um pouquinho de coragem. Falta aquele empurrãozinho. A vida é um risco. Para se salvar é preciso se arriscar se jogando nos braços do Pai. Arrisque até a morte e você receberá a coroa da vida. Arrisque até a morte e você poderá dar de cara no paraíso.

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