Santidade: castidade ou liberdade?

A dialética da Santidade
Afinal, Santidade é castidade ou liberdade?
“A falta de liberdade não consiste jamais em estar segregado, e sim em estar em promiscuidade” ( Dostoievski).
“És livre, escolhe, ou seja: inventa” (Jean Paul Sartre).
“Ser livre não é fazermos aquilo que queremos, mas querer aquilo que se pode”. “Não fazemos aquilo que queremos e, no entanto, somos responsáveis por aquilo que somos” (Sartre).
Por: Joeblack

uma poesia no texto Bíblico: “Sede santos porque eu sou santo”. Achei bem legal essa frase, aliás, tava com muita sede de beber nessa fonte denominada santidade. Imaginei Deus falando assim: Joe! Sede você mesmo! Porque Eu o criei assim do jeitinho que você é. Não estranhe sua configuração antropo-biológica porque é assim mesmo que você vai funcionar até a sua desintegração no final de sua própria existência. Lembrei-me daí de algumas obras do grande Jung que fala de um montão de coisas relacionadas a nós mesmos. Tinha até uma tal de “sombra”, e me lembrei dos tempos em que eu era criança e falava-se de “assombrações”. rsrs Depois dessa retrospectiva fantasmagórica, confesso que fiquei com muito ânimo para escrever sobre santidade, pois esta, instigou em mim os instintos mais primitivos da animosidade.
Jung fala de alguns arquétipos que são os conteúdos do inconsciente coletivo:
1º: Jung fala do termo “persona” que se referia à máscara usada pelos atores para indicar seu papel num drama. Todos nós possuímos essa tendência psicológica que é a preocupação em ocultar aquilo que de fato somos, em favor daquilo que a sociedade julga que devemos ser. A persona é um tipo de individualidade estética. Nietzsche disse que para que a vida seja um espetáculo agradável é preciso que seja bem representado; mas para isso são necessários bons atores.
2º: Jung também fala do arquétipo da “Sombra” que designa o lado que não queremos ou não preferimos revelar. Consiste ela, em partes tidas por nós mesmos ou pela sociedade como abominações à dignidade humana. Tidas como sombrias, lutam elas contra nossa própria consciência de aceitação fazendo com que em resultados práticos, tenhamos uma personalidade artificial, neurótica e unilateral.
3º: Jung aborda também os arquétipos da Anima e do Animus, sendo:
· Animus: é a personificação do aspecto masculino na mulher.
· Anima: é a personificação do aspecto feminino no homem.
Segundo a terminologia de Jung, no homem, a Anima é encontrada em primeiro lugar na figura da mãe. Na mulher, a Animus é encontrada primeiramente na figura do pai. A acentuação de um desses Animus e Anima se tornam indispensáveis para a escolha de um parceiro, e portanto, para a sobrevivência da espécie.
4º: Jung também fala do arquétipo “Self”. Segundo ele, deveria este ser, a meta da vida de cada ser humano. Self, segundo Jung é a combinação daquilo que chamamos de nossa individualidade integral.
Viver uma vida de santidade é ter consciência da nossa qualidade psíquica, inconsciente, irredutível e inescapável, experienciada por cada um de nós. Não temos como fugir! A vida se constitui em antagonismos! Sempre! Aquele que tem a utopia de exorcisar de si um destes sequer, deve exorcisar tudo, ou seja, dar cabo de sua própria vida. Com o que é, não se luta, se aceita. Vida de santidade é vida diversificada. Ser santo é ser persona, ser sombra, ser Animus e Anima e ser Self. Ser santo é conviver com a configuração enigmática e pluralizada da máquina humana.
Pelo fato de não compreendermos essa complexidade da máquina humana, temos a tendência de utilizar a ferramenta “vida de santidade” para um discurso de forte enquadramento, incentivando os outros a se encaixar numa vida utópica, como uma vida de receita de bolo. Faça isso porque essa é a “vontade de Deus”. Daí o ouvinte tenta e queima o bolo, é punido, entrando assim em crise neurótica. “Os seres humanos foram criados para serem punidos” dizia Nietzsche. Comete-se um pecado, faz-se um sacrifício ou uma penitência pra purificação, mas a certeza de novamente errarmos no futuro não pode ser tirada, sobra-se então, sempre a dialética da culpa/punição. Entendemos que no século V a.C. é construído pela cúpula sacerdotal do Templo de Jerusalém a idéia mitológica de pecado original para manipular a massa camponesa daquela época. Somos vítimas ainda dessa ferramenta de controle de massa chamada “pecado”. Alegaram que somos seres maus, a carne é má e tudo aqui em baixo é ruim e só lá em cima que é tudo muito bom. Convencionou-se dessa forma então: Só Deus é forte e bom, sendo o homem fraco, sujo e pecaminoso.
Nietzsche dizia que ”o santo na qual Deus sente prazer é um castrado ideal”. A castração advém do medo que é um sentimento hereditário, aliás, o medo explica tudo, inclusive o dogma “pecado original”. Michel Foucault disse que a escola utiliza a disciplina para vigiar e punir o aluno. O aluno permanece um objeto dos destinos prisão e punição. Ideologicamente aprisionamos os outros com discursos divinos exossomático que na maioria das vezes, nada tem a haver com a realidade. Na língua grega Ek = sair; de dentro para fora. Soma = totalidade do corpo. Exossomático porque usamos o nome de Deus como uma extensão daquilo que o nosso corpo não pode fazer para adestrar o outro. Nossos juízos de valor e as nossas teorias do bem e do mal são meios de funcionalidade de poder.
Estamos carentes de uma revolução na respeitabilidade em relação à singularidade do outro. Vale relembrar que somos separados uns dos outros porque somos únicos, mas somos interligados uns aos outros porque somos coletivos também. Somos um misto de eu/tu/nós. Somos separados para usufruirmos da nossa individualidade, somos ajuntados pra usufruirmos nossa coletividade. Vida de santidade é vida na individualidade. Vida de santidade é vida na afetividade.
Assim, tendo a vida de santidade em comunidade, devemos entender que vida em comunidade é vida de obstáculos. Suportai-vos uns aos outros em amor dizia São Paulo. Ainda que o rio do meu amor se chocasse com qualquer obstáculo intransponível, qual rio não acabaria por encontrar o caminho do mar?
Viver uma vida de santidade é viver uma vida perigosa, como dizia o Carlos Drummond de Andrade: A vida e morte caminham de mãos dadas. Mário Quintana disse que a morte chega pontualmente na hora incerta. Somos separados para viver e separados para morrer. Somos programados para sorrir e para chorar. Somos programados para criar mecanismos de ataque e de defesa. Somos divorciados uns dos outros pela lei da autonomia genética, mas somos interligados pela lei da tríade bio-psico-social.
Vida de santidade é vida de prudência, pois as conseqüências de nossos atos nos pegam pelos cabelos, sem se preocupar em saber se nós nos corrigimos nesse ínterim.
Vida de santidade é vida de mutabilidade. Somos programados para mudar de canal com facilidade. Migramos do nada de um estado de ternura para um estado de loucura; de um estado de amabilidade para um estado de crueldade.
Vida de santidade é vida de 8 ou 80 pois comporta antagonismos. “Nos aproximamos do prazer e fugimos da dor”. “A dor passa e perece! Mas a alegria quer a eternidade, quer a profunda eternidade” (Nietzsche).
Vida de santidade é uma vida de busca pela maturidade. Citando ainda Nietszche, concordo: “Ó Zaratustra, os teus frutos estão maduros, mas tu ainda não estás maduro para os teus frutos”. Vida de santidade é vida de espera. Esperar é chocar ovo.
Vida de santidade é vida de controle de si mesmo, de domínio próprio. É preciso conter o coração; porque se lhe soltássemos as rédeas, depressa nos faria perder a cabeça.
Vida de santidade é uma vida de proatividade. Antes de fazermos tudo o que queremos, devemos primeiro, sermos capazes de querer.
Vida de santidade é vida de versatilidade. “Aquele que não quiser morrer de sede no meio dos homens, tem de aprender a beber em todos os vasos; e o que quiser permanecer puro no meio dos homens, deve aprender a lavar-se até com água suja”. Novamente Nietzsche.
Vida de santidade é uma vida dura, derivadamente vida louca. Para que uma árvore cresça, é necessário que com as suas duras raízes abrace a dura rocha. Como diz Roberto Carlos: “Quem espera que a vida seja feita de ilusão, pode até ficar maluco, ou morrer na solidão, é preciso ter cuidado pra mais tarde não sofrer, é preciso saber viver”.
Vida de santidade é vida de liberdade, de autonomia para decidir o que é bom e ruim para si mesmo. Como dizia a mesma canção do rei: “Toda pedra no caminho você deve retirar, numa flor que tem espinhos, você pode se arranhar; se o bem ou mal existe, você pode escolher, é preciso saber viver”. Saber viver é saber escolher. E logicamente, saber escolher é saber viver.
Para muitos, vida de santidade é uma vida de burro de carga passivo as regras de quem consideramos maior do que nós. Tal disciplina se dá pela funcionalidade de uma disciplina moralista, da qual, é cultural, mas transportada para uma alocução divina. Esquecemos do mandamento de Cristo sobre a intermediação ao Sagrado: No rasgar do véu, não há mais quem se entremeie no nosso acesso a Deus, senão nós mesmos. Somos responsáveis pelos nossos atos e procedimentos perante Deus, nós mesmos, e nossa sociedade. Vida em Santidade é vida em responsabilidade. Não podemos mais, como tem acontecido dizer “amém, aleluia, oh glória” pra essa espiritualidade moralista. Tal legalismo como sinônimo de santidade coloca sobre nossos ombros uma carga pesada da qual nós não conseguimos carregar! Para o mais forte, santidade é engaiolamento do mais fraco, do menos influente. Virtude, para eles, é o que modera e domestica; assim fazem do lobo um cão, e do homem o melhor animal doméstico, nesse caso, do próprio homem.
A vida é uma fonte de alegria; mas onde quer que o santo-canalha moralista vai beber, todas as fontes estão envenenadas. Estes opressores do além chamam as nossas alegrias de sonhos imundos. Há também aqueles que vivem uma vida de mímica, de macaquice. Os seus joelhos estão sempre dobrados, as suas mãos postas em louvor, mas o coração está alheio a tudo isso.
Muitos vivem uma vida de santidade estagnada e apodrecem no seu pântano. Para esses bobos, a virtude consiste em estagnar tranquilamente no pântano. Para outros ainda, vida de santidade é viver uma vida mesquinha. O pensamento mesquinho é semelhante a um bolor; diminui-se, agacha-se e esconde-se, até que um corpo inteiro seja corroído e murcho por pequenos cogumelos.
Desde que o homem é homem, tem conhecido muito pouco a alegria; pra mim, esse é o único pecado original. Se aprendermos a apreciar melhor a alegria, melhor nos esqueceremos de fazer mal uns aos outros e de inventar dores. Viver uma vida de santidade é viver, como diz Jobim, uma vida mais linda e mais cheia de graça. Vida de santidade é vida com liberdade e a liberdade exige a conectividade de uns para com os outros, gerando a respeitabilidade e a amabilidade que apazigua a crueldade. Ser santo é ser livre e ser livre é ser dependente uns dos outros. Viver uma vida de santidade é você deixar de ser apático e passar a ser simpático.
Celebremos a vida! Celebremos nossa liberdade!
A paz de Cristo a todos.
Joeblack (joevex@hotmail.com)

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