Família: fadada ou sagrada?

Família: fadada ou sagrada?
Por Joevan (Joeblack)

“Ao iniciar um casamento, o homem deve se colocar a seguinte pergunta: você acredita que gostará de conversar com esta mulher até na velhice? Tudo no casamento é transitório, mas a maior parte é dedicada à conversa” (Nietzsche).
“Procuro um amor que seja bom pra mim, vou procurar eu vou até o fim” (Frejat).
“Triste é viver na solidão...é impossível ser feliz sozinho” (Tom Jobim).


A família surge, nas sociedades históricas, para tornar-se a unidade básica para a qual se canaliza a reprodução e concentram-se os cuidados das crianças. As instituições de parentesco, da exogamia e a proibição do incesto canalizam socialmente os processos de reprodução e contribuem para diversificar as determinações genéticas dos indivíduos. Lembre-se que “a sociedade se auto-produz pela reprodução biológica, que se auto-reproduz de acordo com a norma sociológica”.
Houve vários modelos de família na Antigüidade, no entanto, ela sempre estava atrelada como uma unidade ligada, sendo o lar um refúgio protetor. Cito por exemplo a família agrícola que era uma unidade socioeconômica de produção de recursos e de transmissão de bens. A família durante muito tempo, foi também fruto de uma aliança entre duas famílias diferentes. Foi também uma unidade cultural que garantia a educação dos filhos, até que o advento da escola pública tirou esse papel. A família sempre foi uma unidade psicológica fundamental, pois o nome família funda a identidade pessoal. O pai encarna a autoridade, e a mãe, o amor, as duas potências que marcarão os destinos individuais das crianças.
A marca da família na criança, depois no adulto, é fonte de complexidade mental. O Freud e as correntes oriundas do freudismo destacaram a ambivalência e a dialética do amor/ódio, do desejo e do recalcamento inerentes à família. As famílias podem ser cantinhos seguros ou prisões; daí no primeiro caso, as dificuldades da separação e, no segundo caso, as evasões, as auto-afirmações e revoltas individuais. Enfim, a família é o lugar primitivo do sexo na sua ferocidade biológica e mitológica, camuflada sob todos os aspectos atrativos, amáveis, úteis e funcionais. O Freud ficou tão curioso com essa onda de sexo em família que ele se arriscou arrancando a braguilha do pai e a roupa de baixo da mãe porque ele queria ver os elementos sagrados, geradores da vida, o pênis e a vagina. Quando eu era pequeno tive essa curiosidade também. Vocês que serão futuros pais e mães, não se assustem, seus filhos vão querer ver seus objetos sagrados. Deixem eles verem, sem medo de ser feliz. Todos têm o direito a ter acesso ao sagrado, isso é “LEI” só não me pergunte o número dela, pois o número também é sagrado.
A família, como unidade autônoma fechada, pode ser fonte de patologias e de sofrimentos nas crianças, herdeiras de neuroses familiares, submetidas à autoridade incompreensível ou brutal do pai; às vezes, estupradas, frustradas pela indiferença de uma mãe ou sufocados pela sua possessividade. A família evoluiu muito no mundo ocidentalizado contemporâneo. O casamento por amor fez a sua entrada e ocupou enorme espaço, em detrimento do casamento de conveniência. A casa com três gerações cedeu lugar, com freqüência, ao apartamento do casal com filhos. O lar tem cada vez menos crianças. A importância do filho aumenta com a diminuição do número e o filho único concentra cuidados e amor e os pais chegam a cantar para ele a canção “TODA A SORTE DE BENÇÃOS DEUS PREPAROU PARA TI”. E o filho sorri a toa, sorria tanto que fica viciado em ser “mimado”.
A pequena família quase não tem função produtiva. O lar é invadido pela economia exterior e pela cultura da mídia. A função patrimonial diminui. O papel educativo dos pais enfraquece-se. O Estado encarrega-se das creches, escolas maternais, maternidades e asilos. Os adolescentes emancipam-se muito cedo da tutela da família. Com isso, cada vez mais, no Ocidente, a família deixa de ser o lugar onde se nasce, aprende-se, trabalha-se e morre-se. Mesmo restrita em dimensões e em funções devido às diversas mutações, a família ainda permanece um concentrado biológico, psicológico, cultural e social muito forte.
A procriação por esperma anônimo, as gestações em barrigas de aluguel ou de proveta e a clonagem humana, enfim, questionam as noções fundamentais de paternidade, maternidade, filiação. Mesmo assim, creio que as noções de pai, mãe, filho e filha continuarão vivas mesmo depois de desaparecerem geneticamente, pois enraizadas na cultura, elas se manterão afetivamente através dos nossos pais adotivos, educadores ou clonadores. Depois dos Organismos geneticamente modificados (OGM), surgiram os organismos humanos geneticamente modificados (OHGM), que são ordenados e padronizados. Os atributos e características humanos já se tornaram objetos e mercadorias. Os pais do novo tipo podem escolher as qualidades dos filhos num catálogo.
Desde o século XVIII, os homens começaram a suprimir as conseqüências reprodutivas do coito pela sua interrupção, e as mulheres pela lavagem pós-coito com água fria. Foi a partir do século XX que a sociedade entregou ao homem e a mulher o controle da reprodução por meio de preservativos, pílulas e abortos legais. Resta ainda o tabu do incesto. Através dessas práticas conscientes que se tornaram cada vez menos constrangedoras, o homem e a mulher, conseguiram multiplicar os prazeres eliminando as conseqüências genitoras do ato de amor. A partir daí, o gozo opõe-se à semente, e a recopulação opõe à repopulação.
Em meio a essas metamorfoses sociais é importante frisar que através das crises que enfraquece, fortalece e transforma, mesmo assim, a família permanece um núcleo insubstituível de vida comunitária, o que pode ser comprovado, nos países ricos do Ocidente, pelo surgimento e pela legitimação de famílias homossexuais. Essa legitimação em breve chegará ao Brasil, pois a tendência dos países em desenvolvimento é aderir às inovações dos países ricos. Vida cama ou camaleão? Quem não muda não “cresce” essa é a regra do jogo da vida.
É importante ficarmos ligados porque o querendo ou não, o casal que é o núcleo da família, se encontra em crise. As atividades profissionais do homem e da mulher ocupam uma parte de vida independente, fora do lar; a multiplicidade dos encontros, o relaxamento dos costumes, a necessidade de assistência afetiva, de beleza, de poesia, tudo isso favorecem os adultérios. Os divórcios tornam-se normais, não mais exceções. Há crise do casamento por amor, vítima de um novo amor. Aliás, existe aquela famosa frase:
”todo amor é sagrado”. “Que o amor seja eterno enquanto dure” foi a afirmação profética do poetinha Vinicíus de Moraes. De poetinha ele não tem nada. Ele é um poetasso. Os poetas enxergam sempre na frente dos outros.
Nunca o casal foi tão frágil e, contudo, nunca a necessidade do casamento foi tão forte; é que diante de um mundo anônimo, de uma sociedade atomizada, em que o cáculo e o interesse predominam, o casamento significa intimidade, proteção, cumplicidade, solidariedade. Assim, o novo amor, que desestrutura um casamento, estabelece outro. O casal, refúgio privilegiado contra a solidão, contra o desespero e contra a insignificância, renasce incessantemente. A família está em crise, o casal está em crise, mas o casal e a família são respostas a essa crise.

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