Culto: raquítico ou racional?

Culto: raquítico ou racional?
Por Joevan Caitano
joevex@hotmail.com

O ser humano é em parte uma fábrica química, em parte uma máquina calculadora, em parte uma alma pensante. Estas representações completam-se, mas nenhuma esgota o sujeito (L.Brillouin).
O coração possui razões que a própria razão desconhece. O homem tem ilusões como o pássaro que tem asas. Isso é que o sustenta (Blaise Pascal).
“As pessoas mudarão o seu proceder e agirão diferentemente se puderem entender que elas serão responsáveis pela beleza e relevância do culto (Westh Ney).

“A vida é a arte do encontro embora haja tanto desencontro pela vida” dizia Vinícius de Moraes. A vida é o culto dos encontros em meio aos desencontros. Salve os antagonismos! Jaci Maraschin escreveu que “a liturgia é a reunião do divino com o humano na plenitude da beleza”. A beleza faz parte da vida da gente e se revela no encontro entre as pessoas, na apreciação das coisas boas que a vida oferece, na gratidão, na fé, na esperança e na força maior de todas que é o amor. Infelizmente em nossos dias, parece que a apreciação do outro está em baixa, pois as pessoas são cada vez mais individualistas e adeptas dos múltiplos encontros virtuais e superficiais. O culto do eu, do lucro, da disputa, da violência se opõem ao culto da coletividade, do amor, do respeito e da flexibilidade. O texto bíblico afirma que Deus é amor, mas o que vemos é o homem sendo um terror. Nietzsche escreveu no século IXX: Deus está morto. No século XXI eu escrevo: Deus fugiu! Eu acho. Martin Heidegger dizia que “o mundo contemporâneo adormece obscurecido pela fuga dos deuses”. Nesse contexto adormecido, podemos nos fechar “a alegria que é forma mais simples de gratidão” (Karl Barth). O evangelho (boas novas) veio para despertar o mundo desse sono.
São Paulo escreveu aos amigos de Roma que eles apresentassem seus corpos como um sacrifício vivo, santo, e agradável a Deus e que isto seria o culto racional. Isto significava que eles precisariam colocar o corpo inteiro (soma no grego), na sua totalidade, a serviço do amor ao próximo. Um indivíduo que sai do conforto de sua casa em direção a outros ambientes desconhecidos, implica em sacrificar a sua comodidade, o seu egoísmo, o seu orgulho, a sua preguiça, enfim, a pessoa precisa assassinar um montão de regalias em nome da ajuda ao semelhante. Esse é o único tipo de assassinato que Deus gosta. Assassinar o eu em nome da coletividade se constitui uma oferta aceitável e agradável a Deus. O sacrifício do eu em nome do bem estar do outro exige algo em forma de serviço que seja de dentro para fora (lógikos no grego). “A sociedade precisa e espera a presença firme, amorosa e atuante de pessoas, trabalhando para o bem comum, trazendo um sabor especial, iluminando e embelezando com atos de justiça, que correm como um rio calmo pelo seu meio, trazendo alento e esperança” (Westh Ney).
Precisamos desfrutar dessa boa nova transcendental, pois quando não aprendemos à alegria da transcendência somos como os que olham sem ver, os que ouvem sem ouvir, os que tocam sem sentir, os que comem e bebem sem o prazer do gosto, e os que respiram sem cheirar. Crer nesse mistério que traz esperança exige um ato de confiança. Feuerbach dizia que “a fé desata as algemas da razão e arrebenta os cadeados da boca”. Vinícius de Moraes dizia que “a fé desentope as artérias. A descrença é que dá câncer”. Nossas comunidades anunciam um Deus sonoro que se revela num ser humano também sonoro. São os sons da vida em meio à acústica da morte, dos espaços de dominação do ser humano onde a voz cristalina do amor é abafada.
O ambiente de adoração possui uma configuração redonda, pois tudo gira em torno de um centro. A idéia de circularidade sempre esteve ligada à idéia de perfeição. Empédocles e Parmênides chamaram Deus de “esfera infinita”. Leibniz dizia que Deus era o “centro psíquico da circunferência infinita do universo”. Carl Jung dizia que tudo vai na direção de um centro. A terra é redonda, o ventre da mãe é redondo. Nessa circunferência sagrada, o culto coletivo é o espaço do sonho, da utopia, da esperança. Entramos nesse espaço com o nosso corpo, e enquanto corpos, glorificamos e apossamos do mistério central e infinito. Bachelard em sua obra “poética do espaço” entende que “o benefício mais precioso da casa é que ela abriga o devaneio, protege o sonhador e nos permite viver em paz”. Aliás, Jesus exaltou a fenomenologia da casa ao afirmar: “Na casa de meu Pai há muitas moradas”. Tanto faz você estar no Rio de Janeiro, ou em Juazeiro, Berlin, Madri, Jacareí ou Pequim, lá vocês vão encontrar pessoas com coração de mãe que vão te acolher. A casa de Deus é o lugar dos abraços, dos beijos, da intimidade, da mistura dos gostos, do partilhar do pão e do vinho e da beleza que não é só minha (Tom Jobim).
A igreja é descrita na Bíblia como o corpo do amor. O corpo, no mundo grego, era modelo da unidade. Um corpo não curte ficar isolado, ele quer ter contato com outros corpos, ele almeja a diversidade. O espaço litúrgico promove essa condição física para magia dos encontros, as celebrações, contemplações, confissões, pedidos, da beleza, da música etc. Entramos nesse espaço via portas ou janelas, e se entramos, é porque algo lá dentro nos atrai. Alguém já entrou primeiro. Pierre Bourdieu descreve: “No verão, a porta da casa deve permanecer aberta o dia inteiro para que a luz fecundante do sol possa penetrar na casa e com ela a prosperidade”. Precisamos estar sempre abertos aos raios divinos para que estes reflitam nas janelinhas dos outros também. Cada um de nós reflete um raio de Deus que o outro não pode refletir.
Quando participamos de um culto, é como entrar num jardim. Num jardim o vento sopra sobre as flores e elas exalam perfume. A gente se encontra no meio da beleza, mas não sabemos de onde ela vem. Ela é semelhante ao Espírito Santo que, apodera-se das coisas e das pessoas. Detalhe: ele vem quando quer e ninguém sabe de onde ele vem e nem para onde ele vai. Daí, ficamos ansiosos e queremos tocar no mistério, mas tocamos é nos nossos irmãos. Tocar é invadir, mas essa invasão não é violenta, mas terna, porque no amor não há violência. Paul Tillich dizia que “o amor é a reunião dos separados”. As pessoas foram feitas para se tocarem. É ruim sentir prazer sem o milagre do toque. Por isso cantamos: quero te ver, quero te tocar, quero te abraçar, quero te ver, quando sinto o teu toque tudo em mim estremece, tudo em mim amanhece (...). O toque une o separado. Enfim, o culto recupera o toque. Adira ao ministério do toque. O toque dá prazer, e “todo o prazer quer a eternidade” (Nietzsche). “O homem nasceu para o prazer: ele sente-o e não precisa de mais provas. Ele segue assim a razão, entregando-se ao prazer” (Pascal).
No momento da comunhão nos deparamos com o encontro de muitas águas. Cada indivíduo é um mar cheio de ondas que se agitam ou se acalmam de acordo com as circunstâncias do dia a dia. Um vento poderoso paira por sobre nossas águas. Ele observa a tudo, mesmo naquelas horas em que o mar enfurece, ele está lá sobre nós. Esse vento misterioso sopra aonde quer e quando menos se espera ele diz: Está tudo organizado. Vinde às águas e bebei! Mergulhem nas águas tranqüilas. Quando mergulhamos, somos batizados na fraternidade, na afetividade, na comunidade, na curabilidade, porque essas águas são niveladoras, e apagam as diferenças, porque a adoração na beleza da santidade não faz acepção de pessoas. Podemos até cantar a canção do Ivan Lins: “Somos todos iguais nessa noite”.
O texto bíblico diz que Deus derramaria o Espírito dele sobre toda a carne (Batismo universal). Todas as pessoas já foram batizadas no Espírito Santo. Resta às pessoas se permitirem a serem afogadas por esse mar sagrado, ou elas irão ficar blasfemando, isto é, lutando contra a força dessas águas purificadoras, mas elas não irão agüentar por muito tempo e irão ceder. Após o batismo nas águas comunitárias, o ministério da escuta é restaurado. Infelizmente na sociedade do século XXI somente os surdos dialogam. Na dia a dia, as pessoas não têm paciência para ouvir, têm medo do toque, do olhar do outro, do amor do outro. É preciso ouvir, tocar, olhar e amar os outros como se não houvesse o amanhã. “Se estamos atentos, Deus fala em nossa própria língua, qualquer que seja” (Gandhi).
Rubem Alves diz que “o mundo deixa de ser dádiva divina e passa a ser construção humana quando inserimos o conceito de pecado” (sujeira e interdição do mais fraco). Já estamos de saco cheio com esse discurso moralista, mitológico e de manipulação em massa da raquítica teologia do pecado original, da queda, do castigo, do homem (só ele) a imagem e semelhança de Deus, coroa da criação (só ele), da exclusividade do “Deus verdadeiro”, malvado e ciumento. O sistema criou Deus a sua imagem e semelhança e disse: não terás outros deuses diante de mim. Nietzsche dizia que “o medo é o pai da moralidade”. Edgar Morin diz que “os deuses são ciumentos”. Cada um puxa a sardinha para o seu lado e ignora o outro. O Leonardo Boff fala que “cada ser humano revela uma faceta de Deus que o outro não pode revelar”.
Cada liturgia religiosa possui a sua originalidade e revela a singularidade que a outra não pode revelar. Culto é sinônimo de diversidade interligiosa. Tá na hora de resgatar o sentido racional da liberdade original, da presença de Deus na totalidade da criação, da exaltação da beleza do homem ao invés da feiúra. E viu Deus que tudo era muito bom (Gênesis). É preciso viver poeticamente. Na poesia, razão e emoção dançam livremente como dois irmãos contentes. “Se é a razão que faz o homem, é o sentimento que o conduz” (Jean Jacques Rousseau).
Todo o culto ao deus raquítico da impureza original, é um pecado contra o espírito santo da beleza e da liberdade original.
Joeblack (Um teólogo do cotidiano).

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