Comunhão: compreensão ou destruição?

Comunhão: compreensão ou destruição?
Por Joevan (joevex@hotmail.com)


“A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás, mas só pode ser vivida olhando-se para a frente” (Kierkgaard);
“Para conhecer os homens, torna-se indispensável vê-los agir” (Jean Paul Sartre);
“Se queres poder suportar a vida, é preciso estar disposto a aceitar a morte” (Freud).
“A amizade nasce no momento em que uma pessoa diz para a outra: o quê? Você também? Pensei que eu fosse o único!” (C.W.Lewis);
“Como as plantas, a amizade não deve ser muito nem pouco regada” (Drummond de Andrade);
“Ninguém é igual a ninguém. Todo ser humano é um estranho impar” (Drummond de Andrade).


Com-preender é tomar em conjunto, envolver, enlaçar. Quando estamos no cinema, a situação semi-hipnótica que nos alimenta relativamente ao nos projetar psiquicamente nos personagens do filme, é simultaneamente uma situação que nos desperta para a compreensão do outro. É essa compreensão, tão viva na vida imaginária, que nos falta na vida desperta, na qual continuamos sonâmbulos egocêntricos.
A compreensão do ser humano baseia-se numa antropologia complexa, pois nosso cérebro é triúnico, comportando o paleocéfalo (herança dos répteis), fonte de agressividade, do cio, das pulsões primárias; o mesocéfalo (herança dos antigos mamíferos) onde se desenvolvem a afetividade e a memória a longo termo; o córtex, que cresce nos mamíferos até envolver as outras estruturas e formar dois hemisférios cerebrais. Não há hierarquias, mas permutações rotativas entre as três instâncias cerebrais, ou seja, razão/afetividade/pulsão. Conforme os indivíduos e os momentos há dominação de uma instância sobre as outras. Edgar Morin diz que “todo indivíduo tem em potencial uma multipersonalidade”.
A compreensão humana comporta não somente a compreensão da complexidade do ser humano, mas também a compreensão das condições em que são forjadas as mentalidades e praticadas as ações. Acontecimentos e acidentes podem atualizar certas personalidades potenciais em nós. As idéias manipulam-nos mais do que as manipulamos. A possessão por uma idéia faz com que nos tornemos incompreensivos com os que estão possuídos por outras idéias e os que não se deixam possuir por nossas idéias.
Sartre dizia que “ser homem, é tender a ser Deus, ou, se preferirmos, o homem é fundamentalmente o desejo de ser Deus”. Shakespeare dizia que “sofremos demasiado pelo pouco que nos falta e alegramos pouco pelo muito que temos”. É isso mesmo, somos insatisfeitos com o que somos. Outro problema do ser humano é que ele tenta justificar a sua existência em nome dos outros. O ser humano não precisa justificar nada, apenas assumir o que é (rico, pobre, feio, bonito, religioso, ateu, heterossexual, homossexual, bisexual, leigo, letrado, estudante, médico, advogado, professor, músico, lixeiro, etc). Seja você mesmo. O importante, é sermos feliz e realizado com o que somos. Vida de santidade é vida de autenticidade. “Em nossas loucas tentativas, renunciamos ao que somos pelo que esperamos ser” (William Shakespeare). Com aquilo que é não se luta, mas aceita-se. Tanto o rico como o pobre, o heterossexual e o homossexual, o patrão e o empregado, e outras categorias, são categorias constituídas por seres humanos e por serem de seres humanos, são frutos da história humana. A história da vida é camaleônica, é diversidade. Deus é diversidade. O amor tem várias cores. Que tal apreciarmos o arco íris? “Cada um revela a faceta de Deus que o outro não pode revelar” (Leonardo Boff).
O texto bíblico de Efésios 4.2 diz assim: “convivam com toda a humildade, mansidão e paciência, suportando uns aos outros em amor.
Para humildade nesse texto aparece a palavra grega composta “tapeinophrosune”. Observe vem que o adjetivo grego “tapeinos” que significa modéstia, singelo, humilde;
A palavra seguinte “phrosune” deriva-se de “phren” que significa mente. Resumindo então, a palavra “humildade” nesse texto dá a idéia de qualidade mental que diz não ao orgulho, alguém que é dotado de mente humilde, despretencioso. “Que se cale aquele que fez um benefício. Que o divulgue aquele que o recebeu. Quem dá de boa vontade dá duas vezes. Amas como se fosse morrer hoje” (Sêneca). “As boas ações elevam o espírito e predispõem-no a praticar outras” (Sartre)
Mansidão vem do grego “prantes” que denota gentileza, cortesia, consideração pelo outro;
Longanimidade no grego “makrothumia” que significa tolerância, paciência, constância.
Suportando uns aos outros em amor. O verbo grego “anexom” dá a idéia de carregar com as mãos, por exemplo uma mãe que carrega o filho para que ele não caia no chão.
Existe outro texto que gosto muito, o de Gálatas 6.2 que está escrito: “Levai as cargas uns dos outros e desta forma cumprireis a lei de Cristo”.
“Carga” no grego é “baros” que é peso, algo difícil de ser transportado.
“Lei” em grego é “nomon” que denota norma. A norma que rege Cristo Jesus é o amor, porque Deus é amor. A lei do amor se cumpre a partir do momento que nos tornamos pro-ativos em favor da prática e defesa do amor.
Lutero ao traduzir do grego para o alemão esse mesmo versículo, ele utilizou o verbo erfüllen para a idéia de cumprir (Einer trage des anderns Last, so werdet ihr das Gesetz Christi erfüllen). Erfüllen dá a idéia de satisfazer, de encher. Quando carregamos uns aos outros em amor, obtemos uma auto satisfação e satisfazemos o outro carente e enchemos Deus de alegria. Deus se satisfaz vendo-nos curtindo o gostinho da satisfação.
Suportar em amor significa estarmos dispostos a ouvir o desabafo do outro sem darmos receitas de bolo tipo “Faça isso”! “Faça aquilo”! Mas ouça! Adira ao ministério da escuta. Deixe que o desabafo retorne como respostas para a pessoa. Suportar em amor é ceder o colo e suportar o silêncio do deprimido que não tem forças para dizer uma palavra sequer. Lembre-se: se você disser algo, pode estragar o clima. O homem arruína mais as coisas com as palavras do que com o silêncio (Gandhi).
Suportar em amor é viver em comunhão repartindo o pão e comendo juntos com singeleza de coração como está em Atos 2.42. Se não repartirmos as coisas, a vida não tem graça. “Possuir um bem, sem o partilhar, não tem qualquer atrativo” (Sêneca). Há o suficiente no mundo para todas as necessidades humanas, mas não há o suficiente para a cobiça (Gandhi).
Em 1 Coríntios 13.7 diz que “o amor tudo sofre, tudo crê, tudo espera e tudo suporta”.
1. Sofrer deriva de um termo grego que dá a idéia de telhado. O telhado cobre, sofre com as tempestades e chuvas em nome da proteção;
2. O amor acredita no potencial incluso na totalidade do outro (soma no grego); A confiança é um ato de fé e esta dispensa raciocínio (Drummond de Andrade).
3. O amor espera o que há de melhor no outro;
4. O amor suporta, tolera, do verbo grego epomenein. O amor forte tolera os vacilos e fracassos do outro.
“O segredo da existência não consiste somente em viver, mas em saber para que se vive” (Dostoievski). Todos nós somos responsáveis de tudo, perante todos. O Roberto Carlos escreveu que “quem espera que a vida seja feita de ilusão, pode até ficar maluco ou morrer na solidão, é preciso ter cuidado para mais tarde não sofrer, é preciso saber viver”. Saber viver é saber cultivar boas amizades. “Nunca desprezes os teus amigos, porque se um dia eles te esquecerem, só teus inimigos se lembrarão de ti” (Mário Quintana).
Amigo é coisa para se guardar debaixo de 7 chaves canta o Milton Nascimento. Sugiro 70, 700, 7.000, 7.000.000....sei lá, quantas chaves você tiver e puder para guardar seus amigos. Lembre-se daquela música: “Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia, tudo passa tudo sempre passará; a vida vem de ondas de um mar”. O tempo passa e nós voamos dizia o poeta bíblico. Ensina-nos a contar os nossos dias de tal maneira que sejamos sábios para manter nossas amizades”. Lembra-te dos teus amigos nos dias de tua mocidade para depois não ficares só.
Durante a caminhada da vida é preciso que sejamos sensíveis, flexíveis, perseverantes e dispostos a compreendermos a nós mesmos e aos outros. Devemos ser sensíveis até no valorizar de um sorriso. O Dostoievski disse que “conhecemos um homem pelo seu sorriso”. Drummond de Andrade dizia: “Perder tempo em aprender coisas que não interessam priva-nos de descobrir coisas interessantes”. O homem gosta de contabilizar os problemas, mas não conta as alegrias. A vida é um paraíso, mas os homens não o sabem e não se preocupam em sabê-lo (Gandhi). As coisas prazerosas estão do nosso lado. Nietzsche dizia que “os sinais estão por todas as partes, faltam olhos para vê-los”. O Kierkgaard dizia que “a maioria dos homens persegue o prazer com tanta impetuosidade que passam por ele sem vê-lo”. O Arnaldo Jabor, disse que no século XXI devido essa correria louca que transformou o ser humano em máquina, a vida se tornou uma ejaculação precoce. Temos orgasmos, mas não sentimos prazer no viver. A vida é um paraíso, mas os homens não o sabem e não se preocupam em sabê-lo (Gandhi). Gabriel Pensador canta: “Estou há dois passos do paraíso”. Que tal a gente arriscar e entrar logo? A gente pode se deparar com outras pessoas lá. Olha aí a oportunidade de conhecer, de compreender pessoas de outros mundos.
É interessante observarmos a estrutura da palavra grega ekklesia = igreja. Ek= sair de dentro para fora e klesia = reunião de pessoas, comunidade. Somos chamados a sair da nossa comodidade para levar o amor aos diferentes. Lembre-se da frase do Nietzsche: “O nosso próximo não é apenas o vizinho, mas o amigo do vizinho”.
Para finalizar esse texto, algumas dicas para compreender a si mesmo e o outro: “Comece fazendo o que é necessário, depois o que é possível, e de repente você estará fazendo o impossível” (São Francisco de Assis). William Shakespeare dizia que “as nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o bem que às vezes poderíamos ganhar pelo medo de tentar”. O C. W. Lewis diz que “mera mudança não é crescimento. Crescimento é a síntese de mudança e continuidade, e onde não há continuidade não há crescimento”. Nietzsche dizia que “a nossa vida precisa ser mais perigosa”. Lembre-se: quem não se arrisca, não compreende, não cresce, não vence.
Use a fórmula (Paciência, confiança, disposição, risco)= crescimento/compreensão. Adira ao ministério “CHOCAR OVOS”. Cuidado para não quebrar os ovos. Diga não a destruição.

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