Perdão! Confiança na desconfiança

“Que o homem fique livre da vingança” dizia o grande Nietzsche. A vingança acarreta a vingança num círculo vicioso permanente. As inimizades nunca são resolvidas pela inimizade, mas pelo tempo, pela reconciliação, pela clemência, pela mansidão, pelo perdão. “Pai, perdoa-os porque eles não sabem o que fazem” disse o grande Jesus. Essa frase remete a uma idéia dos filósofos gregos para os quais o mau é um ignorante, um imbecil. Essa idéia é recuperada na afirmação e na constatação antropossociológica de Karl Marx onde ele cita: “Os homens não sabem o que são nem o que fazem”.

Perdoar é um ato limite, muito difícil, que não implica somente a renúncia à punição, mas comporta uma dissimetria essencial: em lugar do mal pelo mal, devolve o bem pelo mal. É um ato de caridade, no sentido original do termo caritas, ato de bondade e de generosidade. Perdão pressupõe, ao mesmo tempo, a compreensão e a recusa da vingança. Victor Hugo diz: “Esforço-me em compreender para perdoar”. O perdão baseia-se na compreensão. Compreender um ser humano significa não reduzir a sua pessoa à falta ou ao crime cometido e saber que ela tem possibilidade de recuperação. Falando em crime, na obra intitulada “Crime e Castigo” de Dostoievski ocorre um episódio onde Raskolnikov um jovem estudante que cometeu um assassinato e se vê perseguido por sua incapacidade de continuar a sua vida após ter cometido o delito. A personagem Sônia acompanha-o e dá suporte até ele alcançar a recuperação e a eliminação da culpa. Ela deu suporte em amor e deu resultado. Suportando uns aos outros em amor dizia o Apóstolo São Paulo.

Perdão é uma aposta, um desafio ético dizia o gênio Edgar Morin; é uma aposta na regeneração daquele que fraquejou ou falhou; é uma aposta na possibilidade de transformação e de conversão para o bem daquele que cometeu o mal. Lembre-se: O ser humano pode evoluir para o melhor ou para o pior. O ser humano pode transformar-se pelo arrependimento, recuperando-se pelo próprio arrependimento. Pode transformar-se pelo que lhe acontecera e pelo remorso, desenvolvendo o melhor do seu potencial. Condicionar o perdão ao arrependimento é perder o sentido profundo do perdão como aposta no ser humano. O ser humano, ao cometer um vacilo, ele pode perder a auto-estima resultando em culpa e ódio para si mesmo. Freud disse que o homem carrega dentro de si o medo da castração, da perda do prestígio, de ser ridicularizado em público. O perdão liberta o indivíduo das gaiolas da culpa e do medo e transforma-o num pássaro com asas livre para voar. O perdão faz surgir a eternidade numa hora (parafrasendo o grande Rubem Alves na obra Religião e Repressão).

O perdão é um ato de confiança. As relações humanas só são possíveis numa dialógica de confiança e de desconfiança que comporta a desconfiança da desconfiança. Nesse jogo, a confiança pode vencer a desconfiança. Embora incerta, a confiança é necessária. Nelson Mandela disse: “Perdoemos, mas não esqueçamos”. “Anistia não é amnésia” dizia um militante polonês. Não tem jeito, a nossa mente não deleta o passado, mas fica armazenado no nosso HD humano. Os sobreviventes e vítimas da repressão da Antiga União soviética criaram a associação Memorial na União Soviética. Ali eles defenderam a memória, não o castigo. Devemos abolir a ética do castigo e aderir à ética do memorial.

Não se pode isolar o perdão. Ele pressupõe compreensão do outro e compreensão de si, o que leva a imaginar a possibilidade de regeneração. Favorecer a possibilidade de regeneração é mais do que nunca necessário neste mundo impiedoso. Há, na ética do perdão, uma ética da redenção. Se cada um de nós soubesse que carrega um terrível potencial de morte, deixaria de ver aquele que já matou como um estranho ou um monstro; dar-lhe ia uma chance de mudar. O grande teólogo e filosófo alemão Feuerbach, disse sarcasticamente que o que faz os homens serem cruéis é a falta de fé, porque se os homens acreditassem firmemente no que dizem “Deus” e a Igreja a respeito dos “castigos infernais, eternos e terríveis”, não poderiam fazer o que fazem. O que une a compreensão à magnanimidade e ao perdão é a resistência à nossa crueldade e barbárie interiores.

É impossível amarmos ao Deus mistério, invisível, desconhecido, e incompreensível se a gente não ama nossos irmãos visíveis de carne e osso que convivem conosco nesse planeta, disse o grande João no texto bíblico. Deus se manifesta nas relações humanitárias e se sente feliz com isso. Lutero disse: "Deus é feliz, mas ele não quer ser feliz só para si". Tom Jobim cantava: “Triste é viver na solidão... é impossível ser feliz sozinho”. Quem perdoa é feliz e experimenta o prazer da afetividade. Quem não perdoa não vive, vegeta, vive só, amargurado, vive iludido. Dizia o mesmo Tom Jobim: “Triste é saber que ninguém pode viver de ilusão”. Perdoar é viver, e florescer na afetividade. Afetividade com Deus é afetividade com seu semelhante. Amar é perdoar. Perdoar é amar. Perdoar é apostar. Amar é arriscar. A vida é um risco é quem não se arrisca não vence (Nietzsche). Perdoar é arriscar, mas quem não perdoa não ama, não cresce, não vence.

Perdoe até a morte e você receberá a coroa da vida.

Joevan Caitano (Joeblack)
joeblack.blog@gmail.com

1 Comment:

  1. Cadu said...
    ufa! texto denso e lírico....nos perdoemos a todos mutuamente...vamos...e não pequemos mais...

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