O Diabo é bom demais

O diabolus é quem separa. Sem diabolus, não há mundo, pois não há como existir sem as separações do tempo e do espaço, as separações entre as coisas, entre os seres. As forças cósmicas de religação desenvolveram-se a partir da separação, por encontros, afinidades, associações, integração dos átomos às estrelas.

Se o mal é a separação, e o bem é a religação, o mal permite o bem. O nosso universo é “imperfeito”, mas a imperfeição é a condição da sua existência: A perfeição teria feito do universo uma máquina absolutamente determinista, na qual nenhum acontecimento, nenhuma existência singular, nenhuma inovação, nenhuma criação seriam possíveis. O cosmos é, ao mesmo tempo, ordem e fúria devastadora; a ordem estabelece-se no seio da desordem. No segundo princípio da lei da termodinâmica diz que desorganização surge e propaga-se a partir de tudo o que é organizado, desintegração em tudo o que está integrado, a morte em tudo o que vive. Todo o ser vivo mata e come outros seres vivos. A crueldade é o preço a pagar pela grande solidariedade da biosfera. A natureza é simultaneamente, mãe e assassina. Vida e morte são ciclos de rejuvenescimento, eis a verdadeira vida eterna e morte eterna. No livro O BANQUETE Platão afirma que o ser humano busca a imortalidade através da pessoa amada, pela procriação. Edgar Morin diz que a morte é o buraco negro da humanidade, no entanto, o ser humano não aceita a morte como uma tragédia desintegratória biológica, por isso, aposta na idéia de vida eterna após a morte. Não aceitamos o ciclo natural vida-morte, somos egoístas, só pensamos em viver. Heráclito dizia que “vivemos de morte e morremos de vida”. O mal da morte é utilizado para o bem da vida sem deixar de ser o mal da morte.

Há um mal propriamente humano que é o mal praticado voluntariamente por um ser humano contra outro ser humano. Há no ser humano uma formidável proliferação de maldade, de vontade de fazer o mal, prazer em fazer o mal. O apóstolo São Paulo dizia: “o bem que eu quero fazer, esse não rola, mas o mal que eu não quero fazer, sempre acabo fazendo". Que coisa hein!!! Carregamos um fervilhar de monstros que se libertam em todas as ocasiões favoráveis. Somos monges e monstros dependendo da situação. Mudamos de A para Z em poucos segundos.

Diabolus é espírito que separa, mas, se a separação produz o mal, é o produto do surgimento desse mundo que só pode existir na separação. No livro O Evangelho segundo Jesus Cristo, de Saramago, ilustra a idéia de Deus e de Satã como figuras antagônicas e que interconectam-se. Deus e Satã não estão fora de nós, nem tampouco, abaixo ou acima de nós: estão em nós. O pior da crueldade e o melhor da bondade do mundo estão em nós. Aliás no texto hebraico do Antigo Testamento não aparece a idéia de Diabo como um ser do além, mas sempre aparece com o sentido de adversário no âmbito humano. Por exemplo: Para Bush, Bin Laden era o Satã (o adversário). Antigamente, o povo de Israel atribuía o bem ao Deus bom e o mal ao Deus ruim. Acreditava-se que numa eterna luta de boxe entre os dois deuses e que um nocauteava o outro e depois o nocauteado se recuperava. Bonança e catástrofe eram resultado da luta entre o Deus e bom e o Deus mal. A idéia de Diabo como elemento do além é um construto teológico recente. Quando abrimos o Novo Testamento existe uma enxorrada de Demônios, Diabo, etc. Nietzsche que era filósofo e filho de Pastor Luterano escreveu de maneira sarcástica que “o Diabo é o descanso de Deus a cada seis dias”. De qualquer forma, a idéia antagônica está presente. Deus x Diabo / Bem x mal / dor x prazer/ vida x morte/ luz x trevas/ macho x fêmea / heterossexual x homossexual / bissexual (2 em 1), preto x branco, etc. Sem opostos a vida não existiria, se existisse, seria muito chata ou seria um caos. Falando nisso, com os opostos do além, muitas receitas de controle em massa são fabricadas. Em nome de Deus e do Diabo muitas pessoas são adestradas e controladas via medo, via benção e maldição. A “guerra espiritual” é mais importante do que a “guerra humana”. Enquanto lutamos com elementos do além, às vezes ficamos aquém das pessoas estão sofrendo e morrendo do nosso lado. É preciso, lutarmos por uma vida mais humana. Deus se manifesta nas relações comunitárias. Deus se manifesta nas lutas pela solidariedade, eis aí a verdadeira espiritualidade.

Podemos resistir à crueldade do mundo e à crueldade humana pela solidariedade, pelo amor. O problema é que no século XXI, separamos mais do que religamos. O divórcio é divino quando há religação na separação, mas ele se torna diabólico quando há separação na religação. É preciso equilíbrio dos opostos. No pensamento chinês o Yin Yang ilustra o que estou dizendo, pois representam a união e a complementaridade entre os opostos. Lembre-se: somente o separado pode ser religado.

“Vós estais neste mundo, mas não sois apenas deste mundo” disse o grande Jesus. Estamos nesse mundo, mas, não somos só desse mundo porque a terra é uma bolinha de gude no meio do universo monstruoso em estado de expansão e composto por bilhões de galáxias. Estamos separados da complexidade do Universo devido a nossa limitação humana, mas estamos interligados ao universo via interconexões interplanetárias, intergalácticas de complexidade universal. Estamos ligados e separados. Ligamos, separamos e religamos. Somos divinos e diabólicos. Salve o divórcio e o casamento. Salve os antagonismos.

Joevan Caitano (Joeblack)
joeblack.blog@gmail.com

1 Comment:

  1. gppires2000@yahoo.com.br said...
    Entendo a diversidade como algo positivo também.

    Mas você bem sabe disso, que ela não é obra do diabo.

    Um abraço!

    Gustavo Pinto Pires

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