Guerras: Espirituais ou Existenciais?

"A humanidade enfrenta um monstro pluricéfalo engendrado por ela mesma. Combater cada cabeça é ineficaz. Combater todas é hercúleo"
(Christian de Duve).

O destino histórico não era inerente à humanidade. Esta viveu dezenas de milênios sem história; esta faz irrupção e entra em erupção há menos de 10 mil anos. A história surge como um degelo de tudo que estava congelado. Esse degelo histórico libera as potencialidades criadoras e destrutivas do ser humano. A história é sem dúvida alguma, o crescimento, a multiplicação e a luta de morte entre os Estados, isso porque a autonomia da sociedade histórica depende de recursos, e sob a pressão dessas necessidades e dessas ambições, ataca os vizinhos, que têm as mesmas necessidades e ambições.

A guerra, o poder, a ascensão e a queda dos Estados determinam-se uns aos outros. Aliás, Oppenheimer atrelou à origem do Estado a guerra. Surge, então duas faces contrárias: civilização e barbárie, construções e devastações, gêneses e aniquilamento. Nesse jogo, a morte é a grande vencedora da história, pois a grandes civilizações, que pretendiam ser eternas, eram todas, mortais. A história nasce da guerra e alimenta a guerra. Num mundo em que tudo se decide pela guerra, as necessidades de defesa e de sobrevivência levam à guerra. A guerra é uma loucura homicida, mas eu acho que um Estado sábio aceita-a para escapar ao aniquilamento.

A guerra permite o desenvolvimento de uma grande arte, que também revela o gênio humano: a estratégia, que é a inteligência operando em condições aleatórias, capaz de antecipar, de modificar-se segundo as informações adquiridas, e de usar o acaso em seu benefício. Na verdade, a guerra foi o fenômeno humano que mais progrediu. Existem vários tipos de guerras, por motivos diversos, e em vários contextos. Existem também as guerras em nomes de deuses. Victor Hugo dizia que estamos entregues a esses deuses, esses monstros, esses gigantes, nossos pensamentos; com freqüência, esses guerreiros terríveis pisoteiam nossas almas. Somos marionetes manobradas por mãos desconhecidas. Somos espadas com as quais os espíritos se enfrentam.

As idéias que nos possuem são motores, mitologias de poder sobre-humano e providencial. O apóstolo Paulo disse sabiamente que a nossa luta não é contra carne ou sangue, mas contra as idéias, os principados e potestades, melhor, lutamos contra ou a favor de princípios ideológicos, posses ideológicas, antagonismos ideológicos, na chamada guerra no mundo noológico (mundo das idéias). As idéias servem-se dos seres humanos, acorrentam-nos, enlouquecem e arrastam-nos. Não são apenas os seres humanos que se combatem por meio de deuses, mas deuses que se combatem por meio de seres humanos. As religiões de amor souberam, melhor do que qualquer outra, suscitar e alimentar o ódio, especialmente nas guerras de religião; o amor pela humanidade deixou-se embalar pela desumanidade.

De qualquer forma, as guerras espalham, bem longe de suas fontes, genes culturais que se combinam com os genes dos povos conquistados e produz mil circulações gastronômicas, ideológicas, teológicas, filosóficas, lingüísticas, etc. Os fragmentos dos derrotados se misturam e inserem-se nos ambientes dos vencedores. Salve a evolução via influências. Mas se liguem! Porque os progressos técnicos e econômicos não são uma garantia de progresso intelectual e ético. Infelizmente, os desenvolvimentos técnicos e econômicos de nossa civilização estão ligados a um subdesenvolvimento psíquico e moral. Que pena!!!

Pascal dizia que o homem continuará atormentado pelos dois infinitos: os nossos limites, e a busca daquilo que nos escapa ao nosso controle. Kant dizia que enfrentaremos as antinomias do espírito e os limites do mundo dos fenômenos; Hegel dizia que vivemos lutando em contradições contínuas, em busca da totalidade que nos escapa.

O apóstolo São Paulo disse que o espírito luta contra a carne e a carne luta contra o espírito. Um é do mal, o outro, é do bem. Nosso apetite luta por carnes vermelha e branca. Há exceções daqueles que são vegetarianos, adeptos do partido verde, da torcida do palmeiras. E o espírito ou os “espíritos”? Eles são problemas sérios, são abstratos, quem sabe possuem multicores. Imaginem Flamengo e Vasco numa disputa acirrada no estádio do maracanã. A vitória e a derrota são elementos cíclicos, porém, antagônicos como o bem e mal que ambos dependem um do outro. Preto-vermelho-branco-verde é diversidade e onde há diversidade há conflitos, um ataca e o outro defende. Um evolui criando mecanismos de ataque, outro também evolui gerando mecanismos de defesa. Nietzsche dizia que o ser humano vive em função do poder. Freud disse que o ser humano vive em busca do prazer. Enfim, o homem é movido pelo prazer de poder. Prazer de eliminar o concorrente. Elimina-se o prazer do outro, neutraliza-se o indivíduo.

O espírito na língua grega é a palavra pneuma que significa vento. A moderna cosmologia comprovou que o universo é povoado por turbilhões de ventos em fúrias atuando em várias direções e com forças diversificadas se contra-atacando na chamada guerra cosmológica. É assim que funciona o jogo da vida, o mais espertinho sopra e tira a bola dos pés do adversário. A sua jogada da vez pode ser bloqueada por um simples suspiro inesperado vindo de quem menos esperamos. Quem é mais esperto, mais rápido, mais estratégico, mais sábio, mais malandro, mais poderoso, mais político esse é quem tem mais chance de voar, enfim, de cabecear e fazer o gol. Nessa existência, o espírito de poder luta contra o corpo do semelhante. Corpo no grego é soma. A palavra soma, engloba o individuo em sua totalidade (matéria carnal, elementos cognitivos, posses materiais, interligações afetivas, universo espiritual, desejos e prazeres, etc). O espírito do egoísmo, de dominação, de castração, luta para neutralizar o outro por completo. A vida é um jogo. Todo jogo comporta imprevisibilidade. Cuidado! Atenção ao alerta do grande Victor Hugo: “No oprimido de ontem, está o opressor de amanhã”. Cuidado!!! Se liguem, pois “a carne é fraca, mas os espíritos são fortes” e até d+++.

Joevan Caitano (Joeblack)
joeblack.blog@gmail.com

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