Divórcio: Divino ou Diabólico?

O ser humano percebe o outro como um eu simultaneamente diferente e igual a ele. Quando aparece como semelhante, carrega um potencial de fraternidade. Quando aparece como diferente, carrega um potencial de hostilidade. Daí os ritos de encontro com o outro, apertos de mão, saudações, fórmulas de cortesia, praticados para atrair a sua benevolência ou desarmar a sua hostilidade.

Quando o espírito está cego pela ira, pelo ódio ou pelo desprezo, a diferença cresce e o outro é excluído da identidade humana. Transforma-se em cão, porco ou, pior ainda, em dejeto e excremento. Em contrapartida, a simpatia, a amizade, a afeição e o amor intensificam o sentimento de identidade comum. Carregamos dentro de nós um duplo programa, um egocêntrico, e outro altruísta: a rejeição do outro fora da identidade comum produz o fechamento egocêntrico; a inclusão do outro produz a abertura altruísta e tonifica a compreensão do outro.

O diabo (diabolus) é o separador. O diabo está necessariamente em cada um de nós, pois somos todos indivíduos separados uns dos outros, no entanto, somos passíveis de religação. A disjunção ou separação sem religação, permite o mal; o bem é a religação na separação. Nossa civilização separa mais do que liga. Estamos em déficit de religação e esta se tornou uma necessidade vital. A ofensa, o desprezo e o ódio excluem. Há uma necessidade e cortesia e civilidade porque ambas são signos de reconhecimento do outro como pessoa, e tecem a malha da cordialidade. O mundo já experimentou várias revoluções, mas precisa experimentar uma revolução na afetividade. Mas lembre-se do equilíbrio afetivo pois, a falta de amor impede o reconhecimento das qualidades do outro; o excesso de amor impede, pelo ciúme, o reconhecimento da autonomia do outro.

O caráter sagrado da verdadeira amizade dá-lhe prioridade sobre os interesses, as relações e a ideologia. A qualidade da pessoa importa mais do que a qualidade das suas idéias ou opiniões. Não julgue os outros pelas suas opiniões, mas sobre o que as suas opiniões fazem delas, mas tome cuidado com o tal do “camarada”. O camarada pode se tornar um falso irmão, entretanto, o amigo é um irmão por escolha. A amizade comporta riscos e conflitos devido a diversidade dos indivíduos, porém, a escolha que divide pode reclamar o sacrifício da amizade, jamais a traição do amigo. O verdadeiro amor considera o ser amado como igual e livre, com isso, exclui a tirania e a hierarquia. Nosso mundo sofre de insuficiência de amor, mas sofre também de mau amor (amor possessivo), de cegueiras de amor, de perversões e amor, de aviltamentos de amor que desemboca em ódio. O amor atual sempre corre o risco de ser desconfigurado devido um novo amor.

Que bom seria se vivessêmos em eterno clima de natal, contendo a imagem do bom velhinho, figura de fraternidade, de doação, com sua barba branca instigando-nos à pureza de nossas ações. Como dizia o poeta Mário Quintana: "Ter sucesso na vida, é você lutar pelo bem estar do outro sem almejar as passarelas". Mesmo sabendo que somos sujeitos ao divórcio afetivo e que este pode nos destruir e arruinar com o outro, é interessante lutarmos, pela construção mesmo sabendo que a existência comporta a desconstrução. Como dizia o bom Nietzsche: aquilo que não nos destrói, nos fortalece. Que tal fortalecer nossos vínculos afetivos? Com isso poderemos fazer muito mais do que aquilo que sonhamos ou pensamos. Como dizia o Apóstolo São Paulo: “Tudo posso naquele Amor cósmico que me fortalece”. Podemos fazer muitas coisas estando vinculados, religados a outras forças de ligação e de doação que se unem em prol da divinização de todo amor que é sagrado.

Abraços!

Joevan Caitano (Joeblack)
joeblack.blog@gmail.com

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