Deus: Mistura e Mistério

"Se eu quiser falar com Deus, tenho que me aventurar"
(Gilberto Gil).

O mistério da vida está ligado ao mistério do cosmo, pois carregamos em nós a vida e o cosmo. O próprio indivíduo é uno e múltiplo; a sua unidade não se concebe apenas numa base genética, fisiológica, cerebral, mas também a partir da noção de sujeito, comportando um duplo princípio de exclusão e de inclusão, que permite compreender, ao mesmo tempo, o egocentrismo, a intersubjetividade e o altruísmo. O ser humano é bipolarizado em antagonismos: sapiens / demens; faber / ludens / imaginarius; econômico / consumidor / estético; prosaico / poético). Gostamos de diversão, desperdício, consumo, despesa,etc. Enfim essas multiplicidades constituem eflorescências da complexidade individual e da complexidade social. Revelam a diferença entre a máquina dinâmica humana e a máquina trivial e artificial. Qualquer aplicação de modelos deterministas, econômicos e racionalizadores para conhecer o universo humano, despreza o essencial.

O espírito humano responsável por invenções e criações, está sempre ameaçado de regressão, de ilusão, de delírios, mas o legal é que existem delírios que favorecem a genialidade. A criatividade é o mistério supremo da vida porque compreender o ato criativo significa reconhecer que ele é inexplicável e sem fundamentos. Acho que o Chico Buarque se entregou ao delírio ao investigar a árvore genealógica da sua família. Você pira ao ouvir? O meu pai era paulista, meu avô pernambucano, o meu bisavô mineiro, meu tataravô baiano... tô ficando sem cabelos, com a mistura brasileira.

Além das diversas categorias como: heterossexuais, homossexuais, bissexuais, metrossexuais, retrossexuais, transsexuais agora surgiu os chamados “übersexuais”. Über na língua alemã significa em cima, top. Eles são quase perfeitos, príncipes encantados, se acham tudo de bom. O ser humano adora ficar por cima, pois é adepto de carteirinha da Síndrome da ÜBER (union of the best elements in Rede). Deus quis fazer o homem à imagem e semelhança dele (homem nesse texto = estátua de Deus na língua hebraica). Pois é, olha no que deu! Apareceu a síndrome uberiana. Difícil agora é descobrir uma vacina anti-uberiana. Enigma ou mistério? Uberina? Quem sabe. Só não rola aspirina.

Deus está solto dizia Drummond de Andrade. O texto bíblico diz que Deus é onipresente e que no princípio era o logos, e logos estava com Deus e o logos era Deus. Logos é a palavra no grego que denota fundamento. João 1.1 é uma frase lógica que denota que Deus não está preso na gaiola de nossos pensamentos (Rubem Alves), e nem é monopólio de sistemas. Vejamos: O mistério do cosmo não pára de crescer. Estudiosos no âmbito da moderna cosmologia afirmaram que a parte observável do nosso universo ainda é minúscula isto porque as estrelas constituem 0,5% disso, o hidrogênio livre e o hélio 4%, os elementos pesados 0,03%, os neutrinos 0,3%; 30% seriam formados por uma matéria escura e 65% por uma energia escura. Estamos diante da complexidade universal e no jogo da complexidade a inteligência fica cara a cara com o ininteligível. O homem não suporta a complexidade e tende a querer domesticar e sistematizar tudo aquilo que foge ao controle. Hegel dizia que o homem vive atormentado em contradições contínuas em busca da totalidade que lhe escapa. A teologia sistemática é um exemplo claro disso, pois ela tenta sistematizar Deus através de conceitos humanos. Deus é poderoso, majestoso, fiel, justo, bondoso, que são conceitos inerentes à monarquia. Antigamente os reis eram deuses aclamado e adorado pela massa. Deus é Pai, conceito referente a sociedade machista da época. Leonardo Boff escreve a obra: O ROSTO MATERNO DE DEUS. Deus, é pai e mãe. Deus é filho via encarnação de Jesus. Deus é a família em sua completude.

A cúpula sacerdotal ao assumir o poder, controlou Deus no Templo de Jerusalém, e se a massa quisesse acessar Deus, teria que se deslocar até o Templo e obedecer às configurações divinas impostas pela elite. O sumo sacerdote dizia possuir a senha de Deus. A massa ficava do lado de fora esperando ele chegar com os e-mails que ele mesmo escrevia, selecionava e lia dizendo que era Deus que havia escrito e enviado. Detalhe! Essa elite odiava orkut.

"A morte também é um buraco negro" (Edgar Morin). Todas as religiões criam mecanismos doutrinários para escapar dela. Uns crêem em encarnação e reencarnação, outros crêem em purgatório, outros crêem na salvação e condenação, enfim o ser humano não aceita a morte e tenta fugir dela de qualquer jeito. O animal para se esconder do medo, cava um buraco na terra. O homem para se esconder de si, cava um buraco no céu. Platão no livro O Banquete, ele fala da imortalidade do ser humano pela procriação, uma idéia que remete a Gênesis quando Heloim (Deus da criação) fala: Crescei e multiplicai. A idéia de morte e vida funcionam como ciclos de rejuvenescimento, até porque querendo ou não, o universo foi programado para funcionar via ciclos. Aliás, os judeus não acreditavam em vida após a morte, nem em céu, nem em vida eterna, nem inferno, diabos e demônios. Esses elementos foram criados e inseridos no cenário social durante o período interbíblico. Lembre-se: toda a construção aqui nesse planeta é de caráter humano e Deus pode ser utilizado como ferramenta de legitimação das inovações.

Até o século VI antes de Cristo, a nação de Israel era polilátrica, isto é, havia vários deuses e cada família escolhia o seu (a arqueologia comprova isso mostrando que durante as escavações era encontrada uma imagem diferente em cada casa). Mas os sacerdotes ao assumirem o poder no templo nesse período, constataram que se o povo continuasse tendo livre acesso aos deuses em sua própria casa, impediria o poder e o lucro da elite. Por isso a elite fabricou comandos de controle como: “Não farás para ti imagens de escultura”. “Não terás outros deuses diante de mim”. “Trazei todos os dízimos a casa do tesouro”. Só poderia haver um Deus, o da elite no Templo. Quem quisesse acessá-lo, teria que ir ao templo, levando consigo as ofertas porque esse Deus era exigente e abençoaria quem desse e amaldiçoaria quem se omitisse a entregar a grana. A idéia de pecado também surgiu nesse período quando os sacerdotes construíram o texto mitológico do paraíso citado em Gênesis 3 para favorecer a cúpula e neutralizar a massa. Objetivo da cúpula era alertar a massa que se alguém tentasse decidir por conta própria o que fosse bom e ruim, aconteceria o que aconteceu com Adão e Eva, seriam expulsos. Só a elite pode decidir, a massa tem que dizer aleluia e amém. Nietzsche sabia de história e escreveu: O medo explica tudo, inclusive o “pecado original”. Essa fórmula “O HOMEM É PECADOR, É SUJO, A CARNE É FRACA” funcionou e funciona muito bem até hoje. A construção sacerdotal do tal do PECADO, foi o maior pecado contra o espírito santo da vida. A chamada fórmula teológica “Deus no controle” serve de discurso de controle. Spinoza, Einstein e outros se opunham a essa visão, pois diziam, que o universo está tão bem montado, constituído por leis de auto-regulagem, que se torna inviável um Deus tirano controlando tudo. Acho que Spinoza via Deus sentadinho numa cadeira se divertindo com tudo que acontecia no universo. O artista se diverte com a sua própria obra, eu sinto isso na pele. O homem possui o livre arbítrio para decidir o que é bom e o que é ruim para si mesmo, sendo ilógico um Deus ficar determinando as suas leis morais sobre nós dizia Einstein.

A grande verdade é que existem vários deuses, ou melhor, várias configurações sobre Deus. O Nietzsche que era filho de Pastor percebeu isso e escreveu: Deus é uma construção humana. O Leonardo Boff disse que cada um revela a face de Deus que o outro não pode revelar. O Nietzsche escreveu que Deus morreu. Lógico! Com tanta disputa de poder em nome de Deus, tantos estupros ideológicos, tantos conflitos pela posse da verdade absoluta, é óbvio que Deus morre. Deus morre quando matamos o semelhante, se ofende quando ofendemos o semelhante, porque somos feitos à imagem e semelhança dele. Jesus se encarnou para que o rosto de Deus fosse visível de maneira simples, via amor. Jesus (o amor) é o caminho a verdade e a vida, ninguém tem acesso ao mistério se não for através da simplicidade, reciprocidade e da veracidade do amor inter-religioso, internacional, o amor que rompe fronteiras e tabus porque todo o amor é sagrado. Quem sabe, futuramente poderemos falar sobre amor interplanetário, intergaláctico, se porventura houver vida em outros cenários desse cosmo em expansão. Matematicamente é muito improvável que estejamos sós nesse planeta. Com os avanços da tecnociência, tudo pode acontecer. Vamos ficar ligados!!!

No episódio pós-dilúvio relatado no livro de Genesis, aparece Deus doando o arco-íris a Noé. Ele disse: essa multiplicidade de cores é o meu símbolo. É o meu pacto com vocês. Eu fico tão maravilhado vendo essa diversidade de cores que eu não tenho coragem de destruir a diversidade. Ivan Lins disse em uma entrevista que cada obra de um compositor é como um filho que foi gerado com muito prazer e muita energia. Destruir uma obra é destruir um filho. Que tal aderirmos à idéia do Michel Foucault quando ele escreveu sobre “O CUIDADO DE SI”? Que tal lermos a obra de “SABER CUIDAR” de Leonardo Boff? Ele escreve sobre a ética do humano, sobre o cuidado com o nosso planeta, cuidado com o semelhante, com o nicho ecológico, etc.

Quem conhece a cidade de São Paulo sabe que existem duas grandes avenidas que se cruzam: A Ipiranga e a Avenida São João. Durante o dia na hora da muvuca, não dá para saber quem é quem, entretanto, a anoitecer, o ambiente muda de cor, mas permanece dinâmico como um ciclo, pois se torna ambiente de prostituição, de drogas, etc. Caetano Veloso fez sucesso cantando a famosa frase musical: “Alguma coisa acontece no meu coração, é quando eu cruzo a Ipiranga com a Avenida São João”. Muitas coisas acontecem diante da diversidade misteriosa que é a vida, diante de Deus. Às vezes ficamos confusos, meio perdidos. João Alexandre escreveu que no meio dessa loucura múltipla, nos abismos das gerações, Deus tem que ser para nós, ponto de encontro uma mesma voz, que nos converte um ao outro e nos traz a paz. Marcos Witt escreveu: “Sei que a Tua fidelidade, leva a minha vida mais além, do que eu posso imaginar. Sei que através da simplicidade, e da consciência que os Teus olhos estão sobre mim e que não posso fugir disso, isso me enche da Tua paz". A complexidade, multiplicidade e a simplicidade de Deus estão dentro de nós. Fé é estar possuído por aquilo que nos toca (Paul Tillic). Que tal cantar agora? Alguma coisa acontece no meu coração...

Joevan Caitano (Joeblack) "Um poeta delirando com o Mistério".
joeblack.blog@gmail.com

1 Comment:

  1. Renan said...
    nice post guy!

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